segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

DIÁRIO DE FÉRIAS - Rumo ao Interior - 5º dia

Quando o ônibus da Açailândia, Belém-Canaã, com quarenta minutos de atraso, finalmente entrou em movimento deixando a rodoviária, sem querer me peguei fazendo uma retrospectiva da minha vida deste último ano desde quando Júlia foi morar comigo até àquele momento quando eu a estava deixando com a mãe em Belém. Muitas imagens vieram à cabeça e, embora eu fingisse ler o "Caçador de Pipas", não conseguia assimilar uma linha sequer daquelas páginas, eu chorei. Chorei muito, chorei até ficar cansado e adormeci para os únicos trinta minutos de sono daquela angustiante viagem de treze horas que me separavam de Parauapebas, não o meu destino final, mas a cidade onde eu desceria. Me sentia como aquele cara da música de Djavan: "...sabe lé, o que é morrer de sede em frente ao mar?..." Quando acordei fui buscar forças no fundo da minha alma para me confortar com as sábias palavras de Richard Bach: "Não fique triste nas despedidas. Uma despedida é necessária antes de vocês poderem se encontrar outra vez. E se encontrar de novo, depois de momentos ou de vidas, é certo para os que são amigos." Difícil no entanto, é por em prática tal sabedoria. Contudo, imaginei que aquele forte abraço de Júlia, momentos antes quando a deixei na escola e me despedi dela, não foi o último, mas apenas o primeiro dos muitos que ainda iremos trocar. Me reconfortei um pouco, mas uma tristeza aguda foi minha companheira naquela longa viagem .

O abraço da despedida. "Eu te amo Júlia, nunca esqueça disso. Em nenhum momento sequer, papai vai deixar de pensar em você. Em breve nos veremos novamente".

As horas se arrastavam naquele ônibus sacolejante e fiquei me amaldiçoando por ter economizado uns míseros reais e transformado uma viagem de cinquenta minutos em treze horas. Viva Santos Dumond que inventou o avião e vaia para mim que comprei passagem de ônibus.

Durante a viagem não me restou outra alternativa senão forçar a vista e me afundar na leitura para não ver o tempo passar. A belíssima história de "O Caçador de Pipas", no entanto muito triste, aliada ao meu estado fragilizado, por várias vezes fazia com que insistentes lágrimas salgassem a minha tez. Foi uma viagem iterminável. Quando a noite caiu, a luz de leitura com defeito, fez com que eu largasse o livro de lado e as horas demorassem mais ainda de passar. Quando de repente acontece o milagre. A meia-noite em ponto o maldito "buzu" pára na rodoviária de Parauapebas. E, é óbvio, meu compadre Zé Filho não estava lá me aguardando. Previsível demais. Conhecendo meu amigo, compadre e irmão José Filho desde fevereiro de 1976, não podia esperar nenhuma pontualidade por parte dele. Nem tudo estava perdido. Em frente à estação, um barzinho que me pareceu interessante. Atravessei a rua e sentei no bar. Não acreditei quando na mesa ao lado avistei minha amiga Rose. Foi uma festa danada. Em outra mesa estava Verena, com o seu namorido Vicente que até então eu não conhecia, apenas de fotos e nome. Logo em seguida Zé Filho chegou e com eles tomei o primeiro dos muitos copos de cerveja que ainda tomaria no interior do Pará.

Vicente, Verena, eu e Rose no Bar Sportv em frente a Rodoviária de Parauapebas no exato momento da minha chegada.

FOTOS DE VIAGEM - I

Júlia na despedida de Salvador - Ao fundo o Elevador Lacerda


Ainda na despedida com o Olodum no Pelourinho


Já em Belém-Pa no Parque da Residência


Com Cynthia no Parque da Residência


Com a estátua do Poeta Ruy Barata no Parque da Residência


Plantas no Parque da Residência


Com Júlia no interior da Estação das Docas


Pôr do sol visto da Estação das Docas


Baía de Guajará - Vista da Estação das Docas


Com Júlia na área externa da Estação das Docas


Área externa da Estação das Docas


Palco móvel no interior da Estação das Docas


A casa das Onze Janelas


Com Júlia no Forte do Castelo - Ao fundo o Ver o Peso


Forte do Castelo


Uma visitante imponente, a Garsa.


Ainda no Forte do Castelo


Mercado do Ver o Peso visto do Forte do Castelo


Júlia no Mangal das Garças



Cynthia e Júlia no Mangal das Garças - Ao fundo o Restaurante Manjar das Garças


No peer do Mangal das Garças


Torre do Mirante - Mangal das garças

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

DIÁRIO DE FÉRIAS - Belém - 4º dia

Melhor seria dentro do carro

Esse dia para mim começou com muita emoção. Às 5hs já estava de pé e arrumado. Com uma ansiedade louca. Parecia que era meu o primeiro dia de aula. Na verdade era a "ficha caindo". O ato de deixar Júlia no colégio seria a confirmação final que ela ficaria morando em Belém. Peguei ela em casa e, junto com sua mãe, fomos levá-la ao seu primeiro dia de atividades escolares. Com mais de uma semana de atraso. Nunca vou esquecer esta imagem. Ela estava linda com seu novo uniforme e com uma carinha muito boa. Parecia estar gostando de tudo. Fiquei feliz por ela, mas aquele fio de tristeza, insistia em tecer sua teia no meu coração.

Depois que Júlia atrvessou o portão, Cynthia me levou para conhecer um pouco mais de Belém. Tenho que confessar: gostei muito do que vi. Como toda grande cidade, ela tem seus problemas. Poderia estar um pouco mais limpa e melhor cuidada. Seu trânsito e meio louco embora quase não tenha visto engarrafamentos por lá. O problema está na forma que o belenense dirige. Direção ofensiva, onde se aplica a todo instatnte a famosa "lei de Gerson". Isto inclusive me fez lembrar de Salvador, até já escrevi aqui sobre como o baiano se comporta na direção.

Fomos visitar alguns pontos turísticos. O primeiro foi o "Parque da Residência". A antiga residência oficional dos governadores do estado, foi restaurada e transformada num parque belíssimo com uma enorme área verde, vastamente arborizado e um orquidário encantador. Lá dentro, em função da abundância de verde, o forte calor da cidade se amezida. Na casa, hoje funciona um pequeno museu e um teatro. Fiquei encantado com o Cadilac autêntico que outrora era utilizado pelos governadores apenas duas vezes no ano, 05 e 07 de setembro ou então, em dias de desfiles oficiais com visitantes ilustres, o que era muito raro. Quando foram reformar as ruínas da casa, encontraram a raridade coberrta na garagem, com a lataria podre e o interior comido por traças e cupins. Mandaram então reformar numa empresa especializada que utilizou materiais originais e o resultado ficou perfeito. Lindo! Pena que não pude entrar nele para fazer uma foto, mas valeu o registro ao seu lado.
Outra coisa que me encantou em Belém, é a grande quantidade de praças, sempre muito arborizadas, bem cuidadas e muito bonitas. A árvore predominante na cidade me parece ser a mangueira.

Já a tarde, agora na companhia de Júlia, fomos visitar o "Forte do Castelo". De lá tem-se uma vista magnífica do mercado do "Ver o Peso" e da "Baía de Guajará". Fiquei encantado quando uma garsa passou serenamente bem ao meu lado e depois alçou vôo ignorando o meu deslumbramento. Lá no forte tem um museu fantástico. Não se pode deixar de visitá-lo. Uma aula de história sobre a fundação da cidade, seu povo e sua cultura. Das civilações indigênas que lá viviam antes da colonização. Não tem como descrever este lugar. A beleza dos objetos encontrados nas escavações feitas ali, dos quadros que passo a passo vão contando a história do local. Só posso dizer uma coisa: vá lá, não deixe de ir.

Depois, pra descontrair um pouco, fomos tomar um chopinho na "Casa das Onze Janelas" ( que eu insisti o tempo todo de chamar de Casa das Sete Mulheres) localizada bem em frente ao forte. A paisagem que se oferece é de tirar o fôlego.

Para encerrar o dia, demos uma longa caminhada com destino ao "Mangal das Garças". Sem dúvida o lugar mais bonito que conheci em Belém. Um belo parque encravado no meio de um imenso manguezal com uma vegetação belíssima. Lá também as garças dão o seu show à parte bem como a vista para a baía da Guajará mais uma vez se mostra deslumbrante. Existe ali um restaurante muito bonito chamado "Manjar das Garças". Àquela hora só estava funcionando como bar. Em sua varanda, saboreando mais um chopinho gelado, escrevi o acróstico Belém.

No Mangal, tem uma torre muito alta que, segundo dizem tem a vista mais bonita da cidade. Foi aí que fiquei puto com Cynthia. Ela queria subir mas disse que não tinha elevador. Quando olhei a quantidade de escadas não tive coragem de subir. Minhas pernas já estavam latejando de tanto andar naqueles últimos dias e, ainda por cima, meu pulmão de fumante não ficou nada animado com a idéia de subir tantos degraus. Resolvi deixar a torre para uma próxima visita. Depois, conversando com D. Maria Helena, avó de Júlia, descobri que existe elevador sim. Guia turística de meia tijela essa Cynthia.

Depois desses dias andando demais pelas ruas e parques daquela bela cidade descobri um fato de fundamental importância: nunca vá a Belém sem levar um guarda-chuva.

A raridade. Que lindo!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

DIÁRIO DE FÉRIAS - Belém - 3º dia

No primeiro dia de aula
A segunda-feira foi destinada a encontrar uma escola para Júlia. Três coisas são fundamentais na hora de escolher um colégio para seu filho: qualidade, preço e localização. Encontramos tudo isso na primeira cogitada. A escola onde estudam os três filhos de Paulo. Extremamente conceituada na cidade, com um preço, para nós, acessível e distante a uma quadra da casa que Júlia vai morar. São três minutos a pé.

Como nem tudo pode ser perfeito, tinha um problema sério. Vaga. As aulas em Belém já haviam ccomeçado a uma semana, não tínhamos reserva de matrícula, e, com estes requisitos, seria improvável encontrar uma vaga na escola àquela altura do campeonato. Fomos ao colégio rezando e pedindo à Deus pra arranjar uma vaguinha. É lógico que não havia vaga disponível. Foi aí que Paulo fez toda a diferença. Pai de três alunos de lá, amigo da secretária, intercedeu por nós implorando uma cadeira na sala. Primeiro falamos com a diretora que foi taxativa: - Não tem vaga nem para a manhã nem para o turno da tarde. Só mesmo a secretária pode ver se houve alguma desistência mas ela não está aqui agora. Paulo cochichou com a gente: - Deixa que com Ruth(a secretária), eu me acerto. Depois a gente volta pra falar com ela. Eu estava de coração partido. Tinha adorado a estrutura do lugar, suas dependências, além das ótimas referências sobre a qualidade do ensino.


A "ficha caiu"

Mas, se a sorte estiver ao seu lado, tudo conspirará a seu favor. Foi assim que quando íamos saindo para procurar outras escolas, cruzamos com Ruth no portão da saída. Paulo conversou com ela, explicou nossa situação e ela foi extremamente prestativa. Viu uma reserva que ainda não havia sido efetivada, pesquisou a confirmação e, como esta não chegou, encaixou Júlia na vaga. Ainda por cima, com a choradeira de Paulo, nos concedeu um desconto de 15%. Não poderia ter sido melhor. Saímos de lá ao meio-dia com a menina devidamente matriculada, já podendo começar a frequentar as aulas no dia seguinte.

O resto do dia foi destinado a esvaziar os bolsos e engrossar as pernas, ou seja, percorrer o comércio de Belém à procura de melhores preços de material, livros e fardamentos, todas as coisas necessárias pra que ela estivesse pronta no dia seguinte para o seu primeiro dia de aula em sua nova cidade: Belém do Pará.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

JÚLIA

Que falta me farão as malcriações
Os intermináveis questionamentos
Nas minhas leituras, as interrupções
E muitos outros aborrecimentos.


Faltará ar para os meus pulmões
Sem seu carinho e sua candura
Sem no meu sono os seus empurrões
Me levarem a dormir em cama dura

O ralo da pia entupido de cabelo,
Preparar o seu café e o seu almoço,
E a tarefa que trazia da escola?

Como viver longe disso tudo?
Onde esconder o profundo desgosto,
Que trago no meu peito agora?

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

BELÉM

Beleza rara, natureza iluminada
Emana aromas do norte do Brasil
Lindas paisagens, praças arborizadas
É canto, olhares de todos os lugares
Mangal das Garças, beleza à beira rio

Doces lembranças comigo levarei
Outras paisagens gravei no coração

Pelas imagens é fácil conhecer
A alma nobre que este povo tem
Raras raízes que hão de florescer
Ávidas plantas do solo de Belém

DIÁRIO DE FÉRIAS - Belém - 2º Dia


Domingo foi dia de descanso. Fiquei em casa, no condomínio Alto dos Pinheiros onde estou hospedado, desfrutando da companhia dos amáveis anfitriões, Paulo e Elis. Além deles, seus filhos, primos de Júlia(8), Paulo Hugo(9), João Vitor(7) e Ana Paula(6), além do Campeão, pai de Elis, uma figura muito legal.

Paulo e Campeão foram à feira buscar, a meu pedido, uns caranguejos para o almoço do domingo: caranguejada. Já saí de Salvador, sonhando com este cardápio. Enquanto Elisângela tomava algumas providências em casa, fui ao bar da piscina comunitária do condomínio, levando a criançada. Além de Júlia e os primos, o belo Erik(3), filho temporão do Campeão. A piscina, rasa, limpa, com cascatinha artificial e uma ótima estrutura, é perfeita para crianças e para refrescar o abafado calor belenense. Enquanto os observava pedi uma cerveja, estupidamente gelada por sinal, umas folhas de papel e uma caneta. Em meio à goles de cevada, fotos da gurizada e atenta observação aos pequenos na piscina, escrevi dois poemas, a crônica O Fumante da Sacada e uma letra para um samba que, assim que pude, mandei via net para o amigo Márcio Valverde, sambista dos mais gabaritados. Tomara que ele goste e ponha a letra impressa no estojo do violão. Isso é sinal que a melodia sairá. Pode até demorar, mais vai sair com certeza.

Aí chegou Elis, encontrou alguns amigos e ficamos conversando. Aproveitei também para banhar-me junto com a meninada e refrescar o intenso calor, enquanto Paulo e Campeão, davam show lá na cozinha, guerreando com os caranguejos. Venceram todas as batalhas. O almoço foi simplesmente fantástico! No Brasil, não se come um caranguejo como no Pará. Preparado com tal carinho então, o sabor fica divino.

A tarde foi dedicada à descanso e à leitura(estou amando O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini). Na noite, saí com Paulo e Elis, pegamos Cynthia(a mãe de Júlia), demos umas voltas na muito bonita Belém. Fomos então comer uma pizza no bairro da Doca. Para acompanhar, um excelente Cabernet Suavignon chileno que dispensa comentários. Assim, estava preparado para a marotana que me esperava na semana que despontava chamada "nova escola de Júlia!."

SONETO NA CONTRA MÃO


As notas soavam tristes no violão
Palavras sem sabor compunham a letra
Da canção que o compositor tocava

Os versos que ritmavam sua canção
Como se russa, desenhassem uma roleta
Que o peito do cantor despedaçava

Era saudade, uma música cinzenta
Acordes dissonantes, desencontrados
A água límpida do rio ficou barrenta
E o instrumento do músico desafinado

A melodia que brotou neste momento
Desfocou a partitura do maestro
Que regeu sua orquestra neste soneto
De trás pra frente e mão esquerda, quando era destro.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O FUMANTE DA SACADA

Esse vício miserável que o persegue, ou que ele não consegue abandonar, o deixou em maus lençóis naquele dia. Visitando novas terras, hospedado em casa de seu ex-cunhado e amigo, foi-lhe dado pra dormir com sua filha, um belo quarto, numa bela casa, num belo condomínio fechado, desses de seguranças implacáveis.

No meio da madrugada, como era de costume, acordou com vontade de ir ao banheiro, como se diz em linguagem popular, de tirar a água do joelho. Mas o vício, este vilão iconoclasta, fez com que, antes das necessidades, fosse à sacada do quarto pitar um cigarrinho. A casa era de dois andares, com uma sacada privada, uma espécie de varanda, em cada quarto.
Separando a sacada do quarto, uma porta de correr envidraçada. Ele levanta, tira um cigarro da carteira, pega o isqueiro e vai fumar na varanda. Preocupado com a filha, pai zeloso que é, evitando que a fumaça entrasse quarto adentro, desliza a porta da sacada até fechá-la.

Acende o "crivo". Que tragada maravilhosa! Pitando seu cigarro, admira a noite, a beleza do lugar e o frescor da madrugada. Pensa na vida e nas perdas daquele momento e, mesmo com tudo isso, sente-se muito feliz. De bicicleta, dois amigáveis seguranças, passam em ronda noturna e acenam para o rapaz. A retribuição foi calorosa e sincera.

Depois de consumado o cigarro, lembra desesperadamente que precisa ir ao banheiro e, sonolentamente, que deve voltar a dormir. Foi aí que tudo começou. O seu suplício, o seu vexame.
A tal porta de correr envidraçada, a desgraçada porta, estava travada e não abria por fora. O que fazer? Começou por bater levemente no vidro e baixinho chamar pela filha. Porém, o sono pesado da menina não deixou a pequena se mexer. Passou então a forçar a porta, quando os mesmos amigáveis seguranças, agora não tão amigáveis assim, apontaram-lhe um facho de lanterna e, sabe Deus, o que mais. As indefectíveis bicicletas, agora transportavam educados seguranças, cheios de receios e desconfianças.
Tentou explicar a situação. Quanto mais falava, menos os convencia, mais se enrolava. Naquele momento, já revia a sua vida e pedia perdão por seus pecados esperando o tiro de misericórdia. Foi então que chegou a viatura com mais dois seguranças e acordou a primeira vizinha. O segurança falou: - O que está acontecendo senhor? A vizinha respondeu: - Manda bala neste filho da puta. Ele está forçando a porta! Nas casas vizinhas, luzes começaram a acender e intermináveis janelas se abriam com curiosos de plantão. Apenas com short de dormir, sem camisa, àquela hora da madrugada, o suposto ladrão, verdadeiro visitante, catatônico, envergonhado, quase molha as calças. Estava difícil segurar a bexiga.
A segurança, via rádio, solicitou à guarita que ligasse para residência, no intuito de acordar alguém para tirar o babaca da sacada, daquela situação humilhante e vexatória. Tudo em vão. Casa de dois andares, telefones só em baixo, quartos só em cima, ninguém acordou para salvar o imbecil. Outro grito ecoou da vizinhança: - Prende este marginal, está roubando nosso sossego! Foi então que uma alma iluminada apareceu em outra casa vizinha: - Aí no andar de baixo, ao lado da garagem, dorme um senhor. Será mais fácil acordá-lo. Pede pra ele subir e soltar o rapaz! Foi a única viv'alma que acreditou ser ele um visitante e não um ladrão. Um beócio, mas não um ladrão.
Exatamente neste momente, sem entender nada do que se passava, sua filha, num gesto sonolento, rápido, simples e salvador, levantou e abriu a porta, voltando à dormir como se nada estivesse acontecendo. Ele agradeceu aos educados e pacientes seguranças e, só então lembrou que estava morrendo de vontade de urinar. Saiu se contorcendo até o próximo banheiro. Foi a mijada mais gostosa da sua vida. Quando voltou a dormir, excitado pelo acontecido à pouco, sonhou com o dono da casa sendo inquirido e cobrado pelo incidente da noite anterior. Pela manhã, ao acordar, envergonhado, alvo de gozações e piadas mais do que justas, o rapaz pensou: - Toda essa merda por causa do cigarro. O jeito é deixar de fumar! Tomara que ele consiga.

Seria até engraçado se não fosse uma história
real!

FÉRIAS

Se eu pudesse definir as minhas férias
Tristeza, desgosto, quimera, desilusão.
Arrumar as malas pra encontrar com ela
Atravessar o corredor, para a própria execução.

DOR

A dor que sinto no momento
É maior que este avião
Maior que o mar de nuvens
Que miro da minha janela

Ultrapassa os limites dos campos
Que observo sem fronteiras
Como formigas, casas que parecem
Nunca acabarem na imensidão

Uma dor que me faz
Menor do que eu mesmo
Ainda menor do que pareço ser

A dor de quem entrega a vida
Nas mãos desse carrasco impiedoso
Que se chama destino, fazendo-me morrer

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O COMEÇO DAS FÉRIAS - Belém-Pa

Mercado do Ver o Peso
Acabo de chegar à Belém. Mais precisamente, pousei ao meio dia e fui recebido no aeroporto por Júlia e sua mãe(que chegaram às 8hs da manhã) um tio seu, o Paulo, e sua esposa Elisângela. Muito bem recebido por sinal. A tristeza continua profunda mas vou empurrando essa "sujeira" pra debaixo do tapete. Por isso, já perambulei um bocado pela cidade. Depois do almoço, fui conhecer o Ver o Peso, o mercado municipal, um antigo sonho. Fiquei encantado embora que, numa tarde de sábado não é o melhor dia para isto. O movimento já está muito diminuto, muitos box já encontravam-se fechados inclusive o mercado do peixe que era uma das minhas maiores curiosidades. Voltarei lá com certeza antes de ir embora.




Área externa da Estação das Docas


Outro lugar que me encantou foi a estação das docas. Perto do Ver o Peso, as antigas docas foram reformadas e transformadas num ambiente maravilhoso. Um centro cultural, gastronômico e um mini shopping de primeiro mundo. Uma coisa me chamou muito à atenção. Um palco pendurado em uns trilhos suspensos bem ao alto, quase no teto, fica se movimentando de um lado para o outro com um grupo tocando uma música ambiente que preenche toda a ala onde ele fica. Não sei se todos os dias é aquele estilo de música. Hoje dei uma sorte danada. Violão, bandolin, pandeiro e uma voz feminina enebriante me forçaram a parar, pedir um wiskhy com bastante gelo e ficar adimirando aquela música, o vai e vem do palco e a bela paisagem à beira do Rio. Vou aproveitar muito o final de semana para passeios pois a partir de segunda é hora de encontrar uma boa escola, de preferência perto da casa dela, para matricular Júlia. Por falar nela, pena que com o cansaço da viagem, dormiu depois do almoço e não me acompanhou neste primeiro passeio.

Área interna da Estação das Docas

Foi só pra mandar um alô para todos e agradecer as palavras de apoio e os comentários dos últimos dias. Me aguardem, não demoro.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

RESIGNAÇÃO

Poema de Nélio Rosa recitado por Edmundo Carôso

Tenho a clara impressão
de que nunca escaparei das pessoas:
as que odeio,
as que amo,
as outras.

Restam em mim
(como uma crosta):
sinais,
cicatrizes
idiossincrasias.

Mesmo que me ignorem,
mesmo que a cabeça teime
com a sua razão inconsútil,
mesmo que me esqueçam,
eu não esqueço ninguém.

Caminho sempre
entre muitas diferentes sombras
e a paisagem não tem cura.


12-Resignação.mp3

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

A CARTA DO BLOG - Férias e Retrospectiva!


Prezados amigos,

No próximo dia 09 de fevereiro entrarei de férias e farei uma longa viagem para o Norte do país. Férias merecidas, sem dúvida, já que tenho aproximadamente cinco anos sem descansar mais que cinco dias, o equivalente a um feriadão tipo os que tivemos agora nos últimos natal, reveillon e neste carnaval que, até agora pra mim, só serviu mesmo pra descanso. Fiquei em casa, cozinhei, fui à praia e, é claro, tomei algumas. Com isso, há dias estou envolto no meio de muito trabalho já que o meu setor na empresa não estava bem preparado para vinte e cinco dias de ausência minha. Então é aquela coisa de deixar tudo redondinho e as pessoas orientadas o que me fez trabalhar dobrado, e, mesmo assim, algo me diz que ainda vou encontrar muita coisa a ser feita na volta, além dos meus afazeres normais e diários. Sendo assim, nesses últimos dias já fiquei um pouco ausente, principalmente da leitura de meus blogs favoritos, o meu ainda vinha tentando manter um pouco atualizado, e meus blogueiros preferidos devem ter estranhado um pouco a diminuição do meu número de comentários e contatos.

Enquanto estiver ausente, será difícil pra mim manter em dia a produção aqui, mas não irei me ausentar totalmente. Estarei com frequência visitando a minha caixa de e-mails, publicando os comentários e sempre que puder, lendo as "viagens" de meus colegas blogueiros. Então, tive a idéia de imitar Claudia Lis, do Lis'Upgrade. Farei uma retrospectiva do Meu Blog, no intuito de trazer para os posts mais antigos, pessoas que atualmente visitam com frequência estas páginas, interagem comigo através dos comentários e que demonstram até gostar do que lêem. Tem louco pra tudo nessa vida! Espero que Claudia não se aborreça, não lhe pedi permissão, mas já avisei que tinha esta intenção.

Antes porém, quero falar um pouco sobre as minhas férias e o principal motivo de tê-las tirado agora e escolhido o Norte, mais precisamente o Pará, para passa-las. Estou me preparando para esta viagem, como o criminoso se prepara no corredor da morte para o dia da sua execução. Muito já chorei por causa dela e, com a proximidade desta data, cada vez mais a ficha vai caindo e me de deixando ciente que, vou passar a viver muito longe da pessoa que mais amo nessa vida, minha filha Júlia. Morando comigo a a um ano, eu já estava me acostumando a tê-la sempre por perto, com seus questionamentos intermináveis, sua alegria e o seu carinho. Uma parceira, uma grande amiga. Me ajuda nas tarefas de casa, enche de luz os meus dias, mas infelizmente vai morar com a mãe em Belém. Separado a cinco anos da sua mãe, nunca deixei de estar sempre muito perto dela, mesmo antes de ela vir morar aqui. Então vocês devem imaginar o quanto difícil pra mim, será essa separação. Conto com o poder dessa rede, com o MSN e outros recursos, para amenizarem os dois mil kilômetros que vão nos separar a partir de fevereiro.

Chegando em Belém, será a hora de ajeitar sua vida por lá. Junto com sua mãe Cynthia, natural daquela cidade, vamos tomar as devidas providências para deixá-la bem acomodada. Escolher sua escola, efetuar a matrícula, comprar o material e fardamento, contratar o transporte escolar. Quero também ver de perto onde ela vai morar, ter mais alguns dias ao seu lado, na tentativa de deixar claro pra ela que isto é uma fase e que, com certeza Deus irá nos mostrar na frente o caminho, onde novamente estaremos juntos para trilhá-lo. No entanto, embora o sofrimento seja incalculável, voltarei de lá tranquilo, na certeza que estará cercada por pessoas que a amam e que só querem o seu bem. Não posso deixar de citar aqui, a mãe maravilhosa que é a minha amiga Cynthia, que, com certeza, fará de tudo, na medida do possível, pra me fazer participar, mesmo de longe, da vida e evolução da nossa querida filha.

Como nem tudo é tristeza, também vou aproveitar pra fazer um pouco de turismo em Belém. Conhecer melhor a cidade já que, a única vez que fui lá, foi muito corrido e não deu pra muita coisa. O que mais estou ansioso, é pelo dia que passarei no Ver o Peso e pesquisarei ainda mais sobre os sabores e segredos da culinária local, que sempre dão uma ótima referência da cultura de um povo. Depois, vou descer para o sul do estado, a doze horas da capital, para Canaã dos Carajás. Lá, passarei alguns dias com o meu grande amigo, irmão e compadre Zé Filho. Funcionário da Companhia Vale do Rio Doce, há muito Zé foi transferido pra lá. Desde então, nos vimos muito poucas vezes. Apenas em algumas das suas poucas visitas à Bahia, quando deu pra conciliar nosso encontro. Minha afilhada Jade, sua primogênita, que saudade, já está virando uma mulher e, não fosse pelas fotos que eles me mandam, teria eu ainda na cabeça, a imagem daquela menina de uns cinco anos que vi partir. Conhecer seus outros irmãos, os gêmeos Igor e Hugo, que só vi no berço com poucos dias de nascidos. Pelas notícias que tenho, são duas espoletas. Como se diz na Bahia, dois meninos retados. Com certeza vou matar as saudades da minha comadre Jane, das nossas conversas da madrugada na mesa da cozinha, onde quase sempre, enquanto Zé trabalhava madugrada a dentro na mina de ouro em Teofilândia-Ba, "picávamos o pau" nele e nas suas loucuras. Bons tempos aqueles. E os churrascos que fazíamos? Espero que dê pra matar um pouco de tanta saudade.

Lá perto, em Parauapebas, tenho também os queridos amigos, Cícero, Aninha e Verena, a quem também vou fazer uma visitinha. Estes, vi a menos tempo já que Cícero e Ana vieram no Natal e Verena no São João passado. Enfim, no meio de tanta tristeza, só mesmo os amigos para nos trazerem alento, alegria e conforto.

Voltando a falar sobre o blog, nestes dias de ausência, gostaria de saber que meus resignados leitores, continuam passeando por aqui. É por isso que farei esta retrospectiva, deixando links pra post anteriores, como uma forma de fazer que o meu blog, não se sinta abandonado, deixado de lado. Tais links, como os leitores já devem ter percebidos em todos os links aqui, estarão sempre grifados e na cor vermelha. Quando comecei a escrevê-lo não podia imaginar onde ele ía dar. Queria falar sobre tudo, minha vida, minha vontade de ser poeta, experiências de vida, minhas opiniões, crônicas e qualquer outra coisa que viesse à cabeça. Assim, contei muita coisa que vivi. Como as viagens loucas que fiz a Olinda, capítulos I e II e São Paulo, I, II, III, IV, V e Correção. O inicío de minhas experiências profissionais e de uma amizade de vida com meu compadre, amigo e irmão, Ray Vianna, contadas na série Ilha do Pirata, I, II, III, IV, V, VI e VII. Eu, que nunca havia escrito um poema antes, pelo menos não sem ter como muleta a base de uma melodia e, depois de mais de quinze anos sem escrever, publiquei aqui o primeiro deles: Saudade. Daí em diante me arrisquei mais e fiz um bocado de bobagens que agrupei no marcador Poemas. Tem alguns que eu até gosto.

Fiz também outras viagens. Gosto muito das crônicas, Reservado Para Idosos, Gestantes e Deficientes, As Voltas Que o Mundo Dá e Quando o Destino quer..., gosto também dos cordéis. Emiti opiniões sobre assuntos diversos, cidades, política, acidentes, literatura, turismo, dentre outros assuntos. Contei as histórias de como comecei a cozinhar, quando saí da casa de meus pais pra morar em Salvador e outras aventuras. Lavei roupa suja de família com meu irmão Edmundo, I, II, III e IV, lavagem essa interrompida porque ele parou com o blog para dedicar-se a escrita de um livro, enfim, de tudo um pouco coloquei aqui. Ou melhor, ainda pra ser mais exato. Coloquei aqui um pouco da minha vida e é ela que divido com vocês a cada post. Nada daqui existiria se não fosse pelos meus grandes amigos, pelos meus ídolos, aqui incluído todos os blogueiros que leio quase que diariamente e que, em sua maioria encontram-se aqui linkados, outros com certeza virão, pelos corajosos e pacientes leitores e se não fosse pelas minhas viagens em cima das outras viagens que leio, ouço e assisto.

Na esperança de voltar logo e de até poder dar uma publicadazinha nas férias, deixo um grande beijo para todos!

Adriano Carôso

sábado, 2 de fevereiro de 2008

O FUNCIONÁRIO

Poema de Nélio Rosa musicado por Márcio Valverde

Por trás das luminárias da seção,
O dia faz-se escuro e carregado;
Mesmo que o sol derrame esta manhã,
Faz chuva na alma vã do funcionário.

Além da cantilena maquinal,
Um silêncio voraz e caudaloso:
É que de tanto ouvi-la, o funcionário
Já traz o tino ausente na alma mouca.

Mas nem tudo foi sempre cinza e chumbo:
Bem antes desses dias houve algum
Em que tivera ofício bem mais caro.

Nem pra sempre a escureza do silêncio:
Num tempo, além talvez do vero tempo,
Escreverá poesia o funcionário.

FICHA TÉCNICA

Márcio Valverde:
Voz e violão
Júnior Figueiredo: Violão de Aço


07-O Funcionário.m...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

VINHO

Ledo engano cometeu
Aquela hora que desmoronou
Épilogo pareceu pra você
Rápido o semblante desabou.
Comigo era o contrário,
Início, tudo de bom,
Aquilo que a incomodou.

Somos uma grande promessa,
O horizonte que desponta.
Uma via quase expressa
Zona desconhecida nos afronta
Ainda que desconexa

De certo entenderia
Aquele poema outra vez

Se tivesse ido ao centro
Imaginado as leituras
Lidas por mim no momento
Vivido à sua procura
Aí saberia o que sinto.

PÉTALAS


Não tenho selos para dar e nada para oferecer além do meu sincero botão. Valorizo muito o que recebo de coração e, gosto muito de dar, quando dou alguma coisa, dessa maneira: de coração. Assim como esse presente que darei agora. Não o comprei, não o tenho e nem meu é, roubei dos outros. Darei para três pessoas que nem conheço, mas nutro por elas a mais profunda admiração. Pela sensibilidade, pelo talento e pelos momentos de prazer que me proporcionam quando leio suas palavras. Agora vou explicar o porque deste presente.

Hoje, em pleno carnaval de Salvador, pus pra tocar no cd do carro um dos discos de MP3 que gosto de fazer. São a maior mistura. Músicas de todos os estilos, de diversos compositores e intérpretes, com um único ponto em comum. São músicas que eu gosto muito. Pra mim, parece uma FM que só toca música boa. Como um MP3 cabe uma média de quase 200 músicas, nunca decoro o que tem ali e sempre é uma surpresa a próxima canção. Ainda assim, ponho pra tocar no modo aleatório. Hoje quando tocou essa canção, que por sinal não ouvia há muito tempo, lembrei de Nanda Nascimento, Carol Barcelos, Jacinta Dantas e aí pensei: se eu tivesse tal talento pra escrever uma coisa dessas, dedicaria este poema àquelas meninas. À Dália Rosada, à Rosa de Cristal e à Florescer. Três blogs floridos como esta canção. Por isso, "...só serei flor quando tu flores o verão."

Pétalas
(Herbert Azul/Alceu Valença)

As borboletas voam sobre o meu jardim
São cores vivas, pousam sobre as "onze horas"
Nas rosas claras, violetas e jasmins
Um beija-flor traindo a rosa amarela
Beijou a bela margarida infiel
Papoula e dália estão cravadas de ciúmes
E o beija-flor beijando flores a granel

Pétalas, asas amareladas
Pétalas, espinho seco
Folha, flor, lagarta,
Pétalas

As flores voam e voltam n'outra estação
Só serei flor quando tu flores o verão

JÁ É CARNAVAL CIDADE!


"Já é carnaval cidade, acorda pra ver..." Estes belos versos do compositor baiano Gerônimo, embora andem meio esquecidos por aqui, me alertaram para o fato que o carnaval de Salvador já começou efetivamente. Pra mim isto acaba sendo um pouco indiferente já que, na maioria absoluta das vezes, sempre vou pro lado oposto da cidade onde a folia acontece. Muitas vezes cheguei ao cúmulo de ir passar o carnaval no Rio Grande do Sul e por isso já fui diversas vezes tachado de maluco. Este ano não deu, se não, uma hora dessas, estava voando a caminho de Porto Alegre. Não tenho nada contra o carnaval daqui, pelo contrário. Acho uma festa linda, sem dúvida o melhor carnaval do mundo, uma manifestação popular, hoje nem tão popular assim haja à vista o preço dos abadás e camarotes, de primeira grandeza. Eu mesmo é que não sou muito afeito à multidões e não gosto muito da maioria das músicas que hoje são tocadas a pretexto de música de carnaval. Sinto uma saudade danada da época do frevo, de Moraes Moreira, Armandinho Dodô e Osmar e cia ltda. Enfim, estou ficando velho. Como esquecer de "Chame Gente": "Ah, imagina só, que loucura essa mistura, alegria alegria é um estado que chamamos Bahia....". Esta música, que se não estou enganado é de autoria de Armandinho e Moraes Moreira, embora na pesquisa que fiz aqui na net ela apareça como sendo somente de Moraes. Tem até um maluco que credita a música como do Asa de Águia. É impressionante a falta de respeito que o brasileiro tem com a autoria. Bem, voltemos ao carnaval...Como ía dizendo, esta canção é pra mim e maior definição do carnaval de Salvador. Confira a letra abaixo.

Hoje(ontem) me dei conta do início da festa ao sair do trabalho pra casa e ver a imensa quantidade de pessoas vestidas com seus abadás a caminho da Barra, onde o pau quebra até a quarta-feira de cinzas. Não sinto a menor inveja mas admiro a disposição dessa turma. Vejo também a cidade abarrotada de turistas que enlouquecem nos dias da festa e quase sempre voltam nos anos seguintes. Tudo isso é muito bom. A cidade fica com uma cara ótima, alegre, bonita e convidativa. Talvez até eu me arrisque um dia. Um amigo me prometeu dois camarotes boca livre pra segunda-feira. Se rolar quem sabe eu vá. Senão, não faltarão amigos se esbofeteando por eles.

Quero mesmo é aproveitar pra pegar uma praia se São Pedro deixar. Começou a chover torrencialmente e pelo visto o tempo não vai abrir tão cedo. Aproveito também pra lembrar: não esqueçam da camisinha.

Chame Gente

Ah!, imagina só
Que loucura essa mistura
Alegria, alegria é o estado
Que chamamos Bahia
De Todos os Santos, encantos e Axé,
Sagrado e profano o baiano é carnaval
Do corredor da história,
Vitória, Lapinha, Caminho de Areia
Pelas vias, pelas veias, escorre o sangue e o vinho,
Pelo mangue e o Pelourinho
A pé ou de caminhão não pode faltar a fé,
O carnaval vai passar
Da Sé ao Campo-Grande
Somos os Filhos de Gandhi, de Dodô e Osmar
Por isso chame, chame, chame, chame gente
Que a gente se completa enchendo de alegria
A praça e o poeta
É um verdadeiro enxame, chame chame gente
Que a gente se completa enchendo de alegria
A praça e o poeta !

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

POLIDOLENTES

Poema de José Ribeiro de Almeida recitado por Aristóteles Emanuel.

Polidolentes.mp3


Dos humanos no calvário
De refletir não desisto
Festejando o aniversário
Do Senhor, meu Jesus Cristo.
Refletir ou meditar,
Havemos nós de convir
Não vale a pena chorar,
Só vale a pena sorrir.
Longe da paz, o barulho.
Construindo a desigualdade
Com o preconceito e o orgulho,
Eliminando a humildade.
Minoritário, sensível
Nunca atinge o inatingível.
Dos humanos no plenário
Frente à quantidade imensa
Dos que são da indiferença
Que é o bloco majoritário.
Infortúnio produzindo
Para quanta criatura,
Sem pão, saúde e sem teto.
Gente aos poucos sucumbindo
À carência de ternura,
De proteção e de afeto.
Perseguidas e humilhadas,
Sem conceito, sem valor,
Estão desmoralizadas as palavras
Paz e amor.
Cantadas pelos mortais
Das duas à revelia
Superficialmente tais como:
Boa noite e bom dia.
Feliz é guri vivendo
Mesmo que o mundo desabe
Sem nada disso sabendo
E sem saber que não sabe.
Na esperança da esperança
Do planeta no tumulto
Que beleza ser criança,
Que tristeza ser adulto.

COLUMBINA

Já tá ficando sem graça isso. Qualquer dia vão me processar. Vejo um vídeo com poema da Samantha no Anjo Baldio e roubo para postar aqui. Será que alguém pode ser preso por adorar as palavras de uma poeta como ela? Ainda bem que no Brasil não existe pena de morte...




Poema: Columbina
Autora: Samantha Abreu
Intérprete: Samantha Abreu

Não deixe de ver:
Mulheres Sob Descontrole
Alta Intimidade
Versos de Falópio
São universos onde Samantha bota pra fuder!

P.S. Por falar em Anjo Baldio, é outro lugar onde não se deve deixar de ir. Nelson é daqueles baianos que orgulham a nossa terra.

POEMA DE MENINA

Dois dias atrás, eu estava super concentrado no computador, escrevendo para o blog, quando entra minha filha Júlia de oito anos com um papel na mão, com sua matraca indesligável e uma total falta de discernimento para saber a hora de não interromper, me falando: - Pai, dê uma paradinha aí que eu queria ler uma coisa para você. Me tirou totalmente a concentração e o meu primeiro impulso foi de mandá-la sair e voltar depois, mas sempre procuro ficar atento ao que ela tem a dizer. Então, parei, salvei o que estava escrevendo e disse: - Fala filha! - Pai, não sei se isso é poesia. Se não for, o que será então? Aí ela leu pra mim exatamente o que vou transcrever aqui, sem mudar uma palavra sequer, apenas consertando uns pequenos erros de português. Até o título, foi ela quem deu.

A Emoção da Vida
Poema de Júlia Lopes

Emoção não se engole
Emoção é o que se tem
E a vida passa tão rápido
Que a gente não percebe
Pois assim é a vida
Que te quer e que te tem
Mas assim é a vida
E os covardes não vencem
Essa luta tão incrível
Que é a vida
Pois assim acaba
Nossa história de viver

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

MÁRCIO VALVERDE - Todosamba


Posso até parecer chato e tendencioso falando aqui mais uma vez do meu grande amigo e parceiro Márcio Valverde. Na verdade, é que acho uma injustiça artistas como ele continuarem no mais absoluto anonimato junto ao grande público. É bem verdade que Márcio já escreveu seu nome na história da música de Santo Amaro, e, portanto, da música brasileira já que as duas se confundem. Teve até música gravada por Maria Bethânia, no CD Diamante Verdadeiro - Ao Vivo, 1999. A canção foi "Recôncavo", parceria dele com outro amigo e grande poeta Chico Porto. Eu particularmente não gostei muito dessa gravação, mas sem dúvida foi um justo reconhecimento ao talento desse compositor, santamarense como ela.

Ele também já ganhou um importante prêmio da Fundação Cultural do Estado da Bahia, no final da década de 90, o que lhe valeu o direito de gravar seu primeiro CD, "Bússola". Participou também de festivais da Educadora FM de Salvador, realizados em moldes muito interessantes. As inúmeras músicas inscritas são submetidas à um júri especializado que selecionam 50. Estas são incluídas na programação da rádio e a partir daí o júri é o ouvinte que dá o seu voto pelo telefone ou pela internet. Na edição 2004, sua música, "Dos Erês", parceria com Nélio Rosa, não ganhou, mas ficou entre as 15 que foram incluídas no CD das melhores classificadas. O mesmo aconteceu em 2005 com a canção "Da Saudade", também parceria com Nélio Rosa.

Este final de semana, fiquei hospedado em sua casa durante a famosa festa da Lavagem da Purificação em Santo Amaro, e, além de comer, beber e dormir de graça, recebi de presente seu segundo disco, Todosamba. Gostei muito do que ouvi. Já conhecia algumas canções mas ainda não tinha ouvido o cd inteiro. Fiquei muito feliz com o presente. Os sambas de Márcio são de muito sentimento, melodias primorosas enriquecidas com belas letras já que ele está sempre rodeado de grandes poetas, sendo inclusive, um deles.

"Deixa pra lá, começou o samba agora, vamos sambar, bate palma, puxa o samba, eu vou cantar..." Deixa Pra Lá(Márcio Valverde/Nelson Elias) um samba pra cima com a cara de Santo Amaro. Já em "Revel"(Márcio Valverde/Chico Porto) a poesia é marcante em versos como "...volta, estou aqui, ainda são de aço as cordas do meu coração, volta, estou aqui, ainda trago as manhãs nas mãos..." Em "Nossa Canção"(Márcio Valverde/Luciano Carôso/Nélio Rosa), ele nos brinda, além da bela melodia, com versos tais como "...eu só vou saber quando me doer quanto foi amor, e na noite fria, essa melodia como cobertor."

São treze sambas de primeira linha, poesias em forma de música que mais parecem carícias para os ouvidos. Vou compartilhar quatro delas com vocês e, se alguém tiver interesse em adquirir o cd, pode mandar um e-mail. Tenho certeza que não vai se arrepender.

Deixa Assentar a Poeira
(Márcio Valverde/Chico Porto)

...A vida é vento que passa
E o tempo é o pai da razão
Eu vivo a verdade do meu coração.

Mas deixa...

Deixa assentar a poeira
Pra falar de nós dois
Ainda está me doendo
Vamos deixar pra depois,
Vamos deixar pra depois

Viva da sua maneira
Que eu vivo como posso viver
Só quero guardar
Bons momentos de você,
Bons momentos de você

Não adianta fingir
Que nada aconteceu
O nosso amor se quebrou
Pra não dizer que morreu

Agora nem você nem eu
Devo insistir por favor
Quem navegou nesse mar, navegou.

Quando a saudade apertar
E a vida entristecer
Peça as águas do mar
Para cuidar de você.
A vida é vento que passa
E o tempo é o pai da razão
Eu vivo a verdade do meu coração.

FICHA TÉCNICA

Voz: Márcio Valverde
Violão: Júnior Figueiredo
Cavaquinho: Márcio Parede
Tan-Tan: Clédson de Almeida
Bateria: Walmir Paim
Baixo: Jonivon Freitas
Pandeiro: Agnaldo
Coro: Agnaldo, Antonio Reis, Bitencourt, Clédson e Reginaldo Santos
Arranjo: Júnior Figueiredo


12-Deixa Assentar ...

Nossa Canção
(Márcio Valverde/Luciano Carôso/Nélio Rosa)

Será que ela escuta
Essas frases curtas
Da nossa canção
Que eu fingindo acaso
Canto num compasso
Bem fora do tom.
Frases tão banais,
Digo nunca mais
Canção popular
Roupa que apertou,
Vaso que quebrou
Verso por lembrar
Eu só vou saber
Quando me doer
Quanto foi amor
E na noite fria,
Essa melodia como cobertor.

Quanto se perdeu
Do que era seu
Na voz do cantor
Quanto já se foi,
Tanto de nós dois
Ninguém escutou
Na voz da saudade
Parece verdade
Que eu era feliz
Verso temporão
Som contravenção
Doura a tarde gris
Eu só vou saber
Quando me doer
Quanto foi amor
E na noite fria,
Essa melodia como cobertor.

FICHA TÉCNICA

Voz e violão: Márcio Valverde
Piano: Airton Moura
Sax Tenor: Kiko Souza
Surdo: Clédson de Almeida
Arranjo: Márcio Valverde


07-Nossa Canção.mp...

Como Diria Noel
(Márcio Valverde/Nélio Rosa/José Raimundo Cândido)

Moet Chandon, Channel
Elle est três jolie
Como diria Noel
Ela não sabe o que diz

Já trocou o carnaval
Pelas luzes de Paris
E diz que é a tal
E diz que é atriz.

Causa aborrecimento
Relembrar o seu passado
Quando vivia ao meu lado
No morro do Sacramento
Ah, esse seu sotaque...
Não há quem resista
Ele é o charme do disfarce
Da falsa turista
E hoje quem diz
Que essa dama de fino trato
Já armou muito barraco
Na lavagem da matriz

FICHA TÉCNICA

Voz e violão: Márcio Valverde
Cavaquinho: Júnior Figueiredo
Baixo: Jonivon Freitas
Bateria: Walmir Paim
Rebolo: Clédson de Almeida
Sax Soprano: Val Alencar
Arranjo: Márcio Valverde e Júnior Figueiredo

09-Como Diria Noel...

Anoitecendo
(Márcio Valverde/Mabel Veloso)

A rua estreita vai fazendo curvas
Os corredores com os batentes altos
Abrem as janelas pra olhar em frente
Pelos passeios se espalham cadeiras
E as conversas pela noite adentro
Alguns vizinhos pelas persianas
Olham escondido o namoro alheio.

Dentro da casa a TV ligada
Fala do mundo de cruéis notícias
E pelos becos correm mexericos
De casamentos que caminham mal.

A noite espicha e a cidade dorme
Nos corredores as cadeiras calam
E pelos quartos confissões são feitas
Antes do sono quando o amor se deita

FICHA TÉCNICA

Voz e violão: Márcio Valverde
Piano: Airton Moura
Flauta: Kiko Souza
Participação especial(voz): Lívia Milena
Arranjo: Márcio Valverde e Júnior Figueiredo


13-Anoitecendo.mp3

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

CASA

Eu estou encantado com a poesia de Nélio Rosa. Quero então compartilhar com vocês algumas delas.

CASA

Ergo paredes com pedras e desvario,
já não me sinto só no meio do mundo
nem mais me assusta onde o sertão profundo
estrada é vale, montanha, mar e rio.

Para minhalma cama, mesa e calor,
a minha casa rasa pro meu amor.

Maré vazante, barco à deriva, frio,
tudo escorrendo entre os dedos da mão,
não tenho sede e não navego em vão:
sei que há o mar no fim de todo rio.

Para minhalma cama, mesa e calor,
a minha casa vaza pro meu amor.

Uma cidade erguida por um fio,
Terra estranha é alma de pessoa,
que não se pisa, mas se sobrevoa:
(Lançar semente à beira de algum rio).

Para minhalma cama, mesa e calor,
a minha casa asa pro meu amor.

Este poema faz parte do livro O Terno do Meu Avô e Outros Pertences do poeta Nélio Rosa. Ele foi lançado num estojo acompanhado de um cd com alguns dos poemas do livro cantados ou recitados por diversos artistas baianos, sobretudo, santamarenses. Márcio Valverde, que fez a produção artística do disco e musicou a maioria dos poemas do cd inclusive este aqui, presenteou-me com esta relíquia que tanto me toca e sensibiliza. Aguardem que outros virão por aí.

FICHA TÉCNICA

Márcio Valverde:
Violão
Roberto Mendes: Voz


02-Casa.mp3