domingo, 29 de março de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO

II

Minuano-Rs, 02 de maio de 1969


Maria começou a sentir fortes dores e aos poucos começaram as contrações. Ela estava lavando suas pobres roupas e do marido Marcolino. Deixou-se cair sobre a imensa bacia e começou a gritar. Logo chegaram as vizinhas e alguns curiosos que passavam pela rua no momento.
-Corre Jesuína, vai chamar o Marcolino tchê! A Maria vai parir. - Gritou Gerusa.
- Onde ele está Géu?
- Sabe Deus criatura. Vai gritando por aí que ele aparece. O desgraçado não faz nada mesmo. Deve estar no Bigodão e provavelmente está gambá(1), aquele vagabundo!
- Bah! Não fala assim do meu Marquinho! - Era maria defendendo o seu homem mesmo gemendo de tanta dor.
Na verdade Gerusa não estava mentindo. Marcolino nunca foi dado ao trabalho. Vivia bebendo com os amigos na rua, jogando bilhar no bar de seu Juca, “O Bigodão” como era chamado por causa do farto bigode do seu dono. Um ambiente quase familiar. Lá ele encontrava outras mulheres com quem gastava a maior parte do dinheiro que Maria com muito sacrifício ganhava fazendo doces e guloseimas para a granfinada da cidade. Fazia também faxinas nas casas das madames, lavava e passava para trazer o sustento da casa e Marcolino gastava quase tudo na boemia. Cachaça, mulheres e jogo. Eram suas prediletas ocupações. Foi justamente lá, no Bigodão, que Jesuína encontrou Marcolino. Estava bêbado debruçado sobre a mesa do bilhar perdendo a décima primeira partida.
-Corre tchê! A Maria está sentindo as dor. Vamos homem de Deus!
-Para de amolar criatura. Manda ela tomá um anador Jesú.
- Vem filho da puta. As dor dela são de ter menino.
- Eu disse pr'aquela vagabunda que não queria criança em casa. Só serve pra cagar e mijar tudo além de ficar berrando nos ouvido da gente. Pois diga a desgraçada da Maria pra ter o filho sozinha.
-Eu não acredito. Tu não vai acudir a mulher que te ama? Que vai parir um filho teu?
De nada adiantaram os apelos de Jesuína. Marcolino totalmente insensível saiu trocando as pernas e gritando palavrões que não se podem repetir.

Enquanto isso, Maria cada vez mais se contorcia com o chegado da hora. Os vizinhos mandaram chamar D. Ferdinanda, parteira da mais alta competência, famosa em toda periferia da cidade. Gerusa com a ajuda dos amigos, levou Maria para a sua casa e deitou-a na cama. Enquanto a parteira não chegava, já foram sendo providenciados todos os apetrechos para um bom parto: bacia, panos limpos e água no fogo.
Não foi um parto difícil. Poucas horas depois Maria dava a luz a uma linda menina. Olhos azuis como o céu. Nasceu berrando sem parar e com saúde. Gerusa e Ferdinanda cortaram o cordão umbilical, enrolaram a menina num manto branco e colocaram-na sobre o peito de Maria.
- É uma linda guria Maria.
- Carolina. Vai se chamar Carolina. - Foram as últimas palavras de Maria. Em seguida, fechou os olhos e morreu serenamente com um sorriso nos lábios.

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N.A. 1. Gambá: Bêbado.

sábado, 28 de março de 2009

O TREM DE MINAS

Uma luz que vem de Minas
Como o trem de Sabará
A beleza explicada
As ondas belas do mar

O mar de minas
A emoção deste sal
Nos caminhos do Belo Horizonte
As cores do cartão postal

O sabor do pão de queijo
O som do clube da esquina
A beleza que não vejo
Da bela moça de Minas

quinta-feira, 26 de março de 2009

VIVA SALVADOR - 460 ANOS

Vista aérea de Salvador Foto: Sandra Bigollo

Domingo, 29 de março de 2009, a cidade de Salvador da Bahia completa 460 anos. Marcada pela riqueza cultural, diversidade de etnias, belezas naturais, arquitetura colonial e tantos outros atributos, Salvador com suas igrejas, ladeiras, casarios, festas, praias e guetos é uma cidade apaixonante que encanta baianos, brasileiros e gente de todos os lugares do mundo. Nasci aqui embora tenha passado minha infância inteira mudando de cidade em cidade no interior do estado. Só em 1983, quando vim definitivamente para a capital estudar, é que pude conhecer de verdade a minha cidade natal. Foi amor a primeira vista. Parafraseando Chico Buarque, "ver Amaralina, foi que nem beijar menina, que cenário de platina, que poema à beira mar".

Salvador tem uma importância histórica fundamental para o Brasil tendo sido a sua primeira capital. **"A história da cidade de Salvador inicia-se 48 anos antes de sua fundação oficial com a descoberta da Baía de Todos os Santos, em 1501. A Baía reunia qualidades portuárias e de localização, o que a tornou referência para os navegadores, passando a ser um dos pontos mais conhecidos e visitados do Novo Mundo. Isso fomentou a idéia de construção da cidade. O rei D. João III, então, nomeou o militar e político Thomé de Sousa para ser o Governador-geral do Brasil e fundar, às margens da Baía, a primeira metrópole portuguesa na América.

Em 29 de março de 1549, a armada portuguesa aportava na Vila Velha (hoje Porto da Barra), comandada pelo português Diogo Alvares, o Caramuru. Era fundada oficialmente a cidade de Cidade do São Salvador da Baía de Todos os Santos, que desempenhou um papel estratégico na defesa e expansão do domínio lusitano entre os séculos XVI e XVIII, sendo a capital do Brasil de 1549 a 1763.

O trecho que vai da atual Praça Castro Alves até a Praça Municipal, o plano mais alto do sítio, foi escolhido para a construção da cidade fortaleza. Thomé de Souza chegou com uma tripulação de cerca de mil homens – entre voluntários, marinheiros soldados e sacerdotes, que ajudaram na fundação e povoação de Salvador.

Em 1550, os primeiros escravos africanos vieram
da Nigéria, Angola, Senegal, Congo, Benin, Etiópia e Moçambique. Com o trabalho deles, a cidade prosperou, principalmente devido a atividade portuária, cultura da cana de açúcar e comercialização o algodão o fumo e gado do Recôncavo.



A riqueza da Capital atraiu a atenção de estrangeiros, que promoveram expedições para conquistá-la. Durante 11 meses, de maio de 1624 ao mês de abril de 1625, Salvador ficou sob ocupação holandesa. Em 1638, mais uma tentativa de invasão da Holanda, desta vez com o Conde Maurício de Nassau que não obteve êxito.

A cidade foi escolhida como refúgio pela família real portuguesa ao fugir das investidas de Napoleão na Europa, em 1808. Nessa ocasião, o príncipe regente D. João abriu os portos às nações amigas e fundou a escola médico-cirúrgica, primeira faculdade de medicina do País.



Em 1823, mesmo um ano depois da proclamação da Independência do Brasil, a Bahia continuou ocupada pelas tropas portuguesas do Brigadeiro Madeira de Mello. No dia 2 de julho do mesmo ano, Salvador foi palco de um dos mais importantes acontecimentos históricos para o estado e que consolidou a total independência do Brasil. A data passou a ser referência cívica dos baianos, comemorada anualmente com intensa participação popular.

Dos planos iniciais de D. João III, expressos na ordem de aqui ser construída "A fortaleza e povoação grande e forte", o compromisso foi cumprido por Thomé de Souza e continuado pelos que os sucedem. São filhos de Catarina e Caramuru, que se misturaram com os negros da mãe África e legaram à Salvador a força de suas raças criando um povo “gigante pela própria natureza”." **



Esta semana, em comemoração aos festejos do aniversário da cidade, uma televisão local está realizando uma enquete para decidir qual a música que melhor representa a cidade. Tarefa difícil haja a vista a riqueza de músicas que falam com maestria sobre Salvador. Foram dez canções previamente escolhidas para que o internauta pudesse dar o seu voto. Veja abaixo a relação e as letras de cada uma delas. Eu mesmo sinto muito a falta de Chame Gente(Armandinho/Moraes Moreira), para mim não poderia ficar fora de tal relação. Contudo, como bom baiano que sou e apaixonado pela cidade, darei o meu voto. Seja qual for a escolhida, o que importa é que todas elas homenageiam com beleza a bela São Salvador.




São Salvador

(Dorival Caymmi)

São Salvador, Bahia de São Salvador
A terra de Nosso Senhor
Pedaço de terra que é meu
São Salvador, Bahia de São Salvador
A terra do branco mulato
A terra do preto doutor
São Salvador, Bahia de São Salvador
A terra do Nosso Senhor
Do Nosso Senhor do Bonfim
Oh Bahia, Bahia cidade de São Salvador
Bahia oh, Bahia, Bahia cidade de São Salvador

Baianidade Nagô
(Evany)

Já pintou verão
Calor no coração
A festa vai começar
Salvador se agita
Numa só alegria
Eternos dodô e osmar
Na avenida sete
Da paz eu sou tiete
Na barra o farol a brilhar
Carnaval na bahia
Oitava maravilha
Nunca irei te deixar meu amor

Eu vou
Atrás do trio elétrico vou
Dançar ao negro toque do agogô
Curtindo a minha baianidade nagô
Eu queria
Que essa fantasia fosse eterna quem sabe um dia a paz
Vence a guerra
E viver será só festejar

Êô êô laiá êô êô laiá

We Are The World of Carnaval
(Nizan Guanaes)

Ah, que bom você chegou
Bem-vindo a Salvador
Coração do Brasil
Vem, você vai conhecer
A cidade de luz e prazer
Correndo atrás do trio
Vai compreender que a baiano é
Um povo a mais de mil
Ele tem Deus no seu coração
E o Diabo no quadril
We are Carnaval
We are, we are folia
We are, we are the world of Carnaval
We are Bahia

Bahia com H
(Denis Brian)

Dá licença, dá licença meu senhor
Dá licença, dá licença pra Ioiô
Eu sou amante da gostosa Bahia porém
Pra saber seus segredos serei baiano também
Dá licença de gostar um pouquinho só
A Bahia eu não vou roubar, tem dó
Já disse o poeta que terra mais linda não há
Isso é velho, do tempo em que já se escrevia Bahia com H
Deixa eu ver, com meus olhos de amante saudoso
a Bahia do meu coração
Deixa ver Baixa do Sapateiro,
Chaio, Barroquinha, Calçada, Taboão
Sou amigo que volta feliz pra teus braços abertos Bahia
Sou poeta e não quero ficar assim longe da tua magia
Deixa ver teus sobrados, igrejas, teus santos
Ladeiras e montes tal qual um postal
Dá licença de rezar pro Senhor do Bonfim
Salve a Santa Bahia imortal, Bahia dos sonhos mil
Eu fico contente da vida em saber que a Bahia é Brasil

A Bahia Te Espera
(Chianca de Garcia/Herivelto Martins)

A Bahia da magia, dos feitiços e da fé.
Bahia que tem tanta igreja, que tem tanto candomblé.

Para te buscar nossos saveiros já partiram para o mar.
Yayá Eufrásia, ladeira do Sobradão
Tá preparando seu candomblé
Velha Damásia da ladeira do mamão
Tá preparando o acarajé

Para te buscar nossos saveiros já partiram para o mar
Nossas morenas roupas novas vão botar
Se tu vieres, virás provar o meu vatapá
Se tu vieres viverás nos meus braços a festa de Yemanjá

Vem, vem, vem
Vem em busca da Bahia
Cidade da tentação
Onde o meu feitiço impera
Vem
Se me trazes o teu coração
Vem
Que a Bahia te espera

Bahia, Bahia, Bahia, Bahiaaaa

Rebentão
(Carlos Pita)

Moro numa cidade cheia de ritmos
Que sobe e que desce ao som da maré
Ela canta, ela dança
Ela toca, ela vibra
Ele bate com a mão
Ela dança com o pé
Ele faz samba na porta do ônibus
Liberdade é o negro do ilê
Ela dança com a lata na cabeça
Sua trança bonita, ela é badauê

Iô, iô, iô, rebentão
Iô, iô, iô, de maré
Ele bate na palma da mão
Ela dança com a ponta do pé

Moro numa cidade cheia de ritmos
Que sobe e que desce ao som da maré
Ela canta, ela dança
Ela toca, ela vibra
Ele bate com a mão
Ela dança com o pé
Eles passam cantando com a tribo em festa
É muzenza na cor, é muzenza na fé
Basta ouvir os tambores tocando
Que a cidade já sabe Olodum como é

O Canto da Cidade
(Tote Gira/Daniela Mercury)

A cor dessa cidade
Sou eu!
O canto dessa cidade
É meu!..

O gueto, a rua, a fé
Eu vou andando a pé
Pela cidade bonita
O toque do afoxé
E a força, de onde vem?
Ninguém explica
Ela é bonita...

Uô Ô!
Verdadeiro amor
Uô Ô!
Você vai onde eu vou...

Não diga que não me quer
Não diga que não quer mais
Eu sou o silêncio da noite
O sol da manhã...

Mil voltas o mundo tem
Mas tem um ponto final
Eu sou o primeiro que canta
Eu sou o carnaval...

É D'Oxum
(Gerônimo/Vevé Calazans)

Nessa Cidade Todo Mundo É d'oxum
Homem, Menino, Menina, Mulher
Toda Essa Gente Irradia Magia
Presente Na Água Doce
Presente n'água Salgada
E Toda Cidade Brilha
Seja Tenente Ou Filho De Pescador
Ou Importante Desembargador
Se Der Presente É Tudo Uma Coisa Só
A Força Que Mora n'água
Não Faz Distinção De Cor
E Toda A Cidade É d'oxum
É d'oxum, É d'oxum, É d'oxum,
Eu Vou Navegar, Eu Vou Navegar
Nas Ondas Do Mar, Eu Vou Navegar
É d'oxum, É d'oxum

Na Baixa dos Sapateiros
(Ary Barroso)

Na Baixa do Sapateiro eu encontrei um dia
A morena mais frajola da Bahia.
Pedi-lhe um beijo, não deu,
Um abraço, sorriu,
Pedi-lhe a mão, não quis dar, fugiu...

Bahia, terra da felicidade,
Morena, eu ando louco de saudade.
Meu Senhor do Bonfim
Arranje outra morena igualzinha pra mim.

Oh! amor, ai,
Amor bobagem que a gente não explica, ai, ai,
Prova um bocadinho, ô
Fica envenenado, ô
E pro resto da vida é um tal de sofrer
Ôlará, ôleré.

Ô Bahia,
Bahia que não me sai do pensamento.
Ouve o meu lamento, ô
Na desesperança, ô
De encontrar nesse mundo
Um amor que eu perdi na Bahia, vou contar.

Ô Bahia,
Bahia que não me sai do pensamento...

Salvador é Um Porto Seguro
(Moraes Moreira)

Salvador é um porto seguro
Seguro que é tanta agonia
Há tanta beleza
Tanta tristeza e alegria

É um porto, é um porto sete portas
Sempre abertas pra magia
De todos os santos
Que vem baixar na Bahia

É um porto parto e chego
Fica o nêgo e português
Olho aberto de índio
Enxergando até chinês

É um porto, é um porto
Portugal
É um porto, é um porto é um
Carnaval


Vista áerea da orla com destaque para o farol da Barra
**Trecho retirado do site oficial de turismo de Salvador

quarta-feira, 25 de março de 2009

A ÁRVORE


Uma árvore frondosa
Cheia de frutos e folhas
Nasceu em meu coração
Sob o nome de amor

Em seus galhos os pássaros
Macacos e bichos preguiças
Encontram abrigos
E tecem seus ninhos

Encontram a fresca sombra
Aqueles que param sob a fronde
Na sesta revigorante
Sob as folhas da paixão

Um coração selvagem
No meio da floresta
Derrama a sua seiva
Pensando nela

Lindo
Arbusto
Imáginário

segunda-feira, 23 de março de 2009

GRAVURA

Com teus traços
Externas sentimentos
Retratas o belo, o feliz
A imagem profunda
O exato momento
Do sorriso, a mais perfeita matiz

A busca do talento inesgotável
A sombra dá volume à bela face
Gravura de valor inestimável
O orbe que assim representaste

Um coração que aqui emocionado
No momento uma lágrima derrama
Por ver em belas linhas retratado
O rosto da pessoa que mais ama

Para César Sousa, autor da gravura da minha filha Júlia acima.

domingo, 22 de março de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Apresentação

Era um triste sábado de 1993, dia do meu aniversário, 02 de maio. Como quase sempre acontece nessas datas me sentia deprimido e triste. Nunca consegui entender o motivo deste sentimento justamente no dia onde todos comemoram e ficam felizes. Já fazia anos que eu não escrevia uma linha sequer. Nem um verso, uma letra de música, um poema, nada.
Naquela época eu trabalhava como gerente financeiro de uma produtora musical que movimentava mensalmente altas somas de dinheiro em pleno estouro da música baiana no cenário nacional, a chamada axé music. Como era de costume no início de cada mês, eu estava sozinho no escritório, envolto em planilhas e números, montando a prestação de contas do mês anterior. Por causa de um erro minúsculo de formulação que havia cometido em uma das planilhas as contas não batiam de forma nenhuma. Os resultados a que chegava não coincidiam com os saldos bancários e o dinheiro em caixa. A tarde já ía findando e minha cabeça explodindo de dor. De repente fechei todas as planilhas do excel, guardei na gaveta os extratos e papéis que amontoavam-se na minha mesa e acendi um cigarro. Fumei recostado a cadeira procurando expulsar dos escaninhos da mente qualquer coisa que pudesse ter relação com dinheiro ou números. Neste momento abri o word e fiquei olhando para a tela em branco no computador. Comecei a escrever compulsivamente algo que, inicialmente, não tinha compromisso com nada nem objetivo nenhum. Parei exausto às 4h da manhã de segunda e fui para casa me recompor um pouco, pois havia um erro a ser encontrado e um prazo a cumprir.

Mais tarde, a primeira coisa que fiz quando cheguei ao escritório, foi reabrir as planilhas e por sobre a mesa os papéis responsáveis por mais um aniversário em branco. Eu acabara de completar 24 anos de idade. Talvez por presente divino, encontrei imediatamente o famigerado erro e consegui cumprir o prazo dos relatórios de mês. Durante duas semanas, nas horas de folga e em casa, trabalhei no texto que comecei a desenvolver naquele dia. Foram mais de sessenta páginas que começaram a tomar forma de um romance. Mais uma vez, por insegurança, medo e talvez preguiça, larguei o texto de lado e nunca mais voltei nele. O arquivo ponto doc se perdeu numa das formatações da minha máquina e, não fosse por uma única cópia impressa que encontrei recentemente durante uma faxina no meu quarto, amarelada e se apagando, tais folhas tivessem desaparecido para sempre da minha vida. Li e reli muitas vezes o que escrevi naqueles dias e tomei uma decisão. Vou por a prova a qualidade daquele texto. Ver até que ponto a história tem poder de prender o leitor e, principalmente, de dar prazer a quem o lê. Por isso resolvi publicá-la em capítulos para que vocês que acompanham meu blog possam através dos comentários emitir opiniões. Quem sabe não encontro forças para levá-la adiante? Ou, talvez, resolva jogar no lixo as amareladas folhas que por anos ficaram esquecidas no fundo de uma mala?

A partir de hoje, a cada domingo, vou publicar um capítulo aqui e esperar para ver o que vai dar. No entanto, devo confessar que não resisti e já estou trabalhando na sua continuidade.

O CAMINHO DE VOLTA

Nota do Autor: Embora esta história seja inspirada num escândalo verídico que povoou por um bom tempo a mídia nacional na década de 80, seus personagens, desenvolvimento e desfecho são totalmente fictícios. As cidades, excetuando as capitais, também são imaginárias.


INTRODUÇÃO

I

Salvador-Ba, 02 de maio de 1993

Não sei por que resolvi seguir aquela mulher. Algo nela chamou minha atenção de uma forma inusitada. Não a beleza, suas roupas, nada que eu possa explicar. Apenas me senti atraído. Algo que até hoje não consigo definir. Estava esperando o ônibus de retorno a casa quando ela veio em minha direção:
-O Sr. tem horas?
-São 19h30. -Respondi.
-Muito Obrigado. Boa noite.
Nada demais, apenas uma mulher perguntando as horas. Ela saiu na direção oposta a que chegou. Não deu um sorriso, nada disse além daquelas poucas palavras, mas percebi algo estranho nela e fiquei encabulado. Neste instante, movido por um súbito ímpeto, saí desesperadamente atrás dela antes que a perdesse de vista. Eu nem imaginava os acontecimentos consequentes daquele meu estranho ato impensado, que iriam mudar minha vida de forma drástica depois daquele encontro. Naquele dia eu completava exatamente 24 anos de idade.

quinta-feira, 19 de março de 2009

MÃOS DADAS


Há duas semanas atrás eu conversava com a amiga Ana Casanova sobre o poder de aproximação que a internet, e em particular a blogosfera, tem sobre os seres humanos. Distâncias kilométricas tornam-se insignificantes diante da rede. Ela me falava sobre o fato de amigos blogueiros localizados nos mais longínquos rincões estarem usando o poder da rede para fazerem parcerias das mais diversas. Uma idéia muito interessante me pareceu. Eu mesmo já havia visto algo sobre isto e lido alguns frutos destas parcerias. Lembrei também, que muito antes do advento da internet, parceiros como Roberto Carlos e Erasmo Carlos, usaram o telefone para criarem músicas antológicas que, até hoje, mesmo com toda a força da net, se mostram atuais e continuam sensibilizando corações das mais novas gerações. Eu mesmo já fiz músicas através de e-mails com o meu amigo e parceiro Márcio Valverde. Quase sempre o resultado final nos deixa muito orgulhosos. Ela então me propôs o desafio de fazermos um poema juntos. Assim, através de e-mails fomos reunindo idéias de cada um para que juntas transformassem-se numa coisa só. Daí nasceu este poema que por sugestão minha parla sobre o tema em questão. A aproximação que a internet possibilita a quem está tão longe, como no nosso caso, que estamos separados por um oceano imenso.

Mais uma vez lembro a frase de Richard Bach: "podem os kilômetros separarnos dos amigos?"

Mãos Dadas
Ana Casanova/Adriano Carôso

Num campo lindo e florido
Demos as mãos, e
Escrevemos um poema
Poema de amor, de amizade
Poema onde a saudade
Tem um fundo colorido
Poema que nos invade
Poema de quatro mãos
Poema que é canção
Uma bela cantilena
Poema que nos une
Muito embora a distancia
Em tudo nos aproxime
Através do oceano
Transportados em sonhos
Na sintonia das palavras
Na maré das emoções
Poema que nos transporta
Em continentes e ilhas
Nesta imensa simbiose
Pura, singela e sem medos
E, juntos desafiamos
Tudo o que nos afasta
Pela força da partilha
Num poema a vinte dedos.

P.S. Ana Casanova é uma escritora angolana radicada em Portugal que escreve o blog Anavision.