quarta-feira, 29 de abril de 2009

FRIGIDEIRA

A madrugada se arrasta lenta
E eu, virando na cama
De um lado para o outro
Como o omelete tostando
Ambas as faces por igual

Mas, para dar sabor a tal prato
Entre as camadas expostas, ao meio,
É necessário o tempero exato
E iguarias no recheio

Justamente ele é o que se ausenta
E eu, jogado na lama
Sou um omelete roto
Sobre o colchão fritando
Sem gosto e sem sal

A madrugada vai alta
E, no meio de cruzado fogo,
Só agora o que me falta
É desligar esse fogo

Vou ver se consigo dormir....

terça-feira, 28 de abril de 2009

A PONTA DO NOVELO



"Poema de Nelson Elias sobre melodia de Márcio Valverde"

Deixei-a naquela esquina
Como se bem não amara mais
Requinte das vaidades
Dos olhos pingam saudades
E as mãos num sem-que-fazer
Passam horas a tecer
A falta que ela me faz
É ofício de rendeira
Um bilro, um fio, um ponto, um laço
Desmancho tudo que faço
E nem desfaço, refaço
Pra dar o que fazer as mãos
Tecendo seu agasalho
Em fios de lã de saudade
Capote, manta, ilusão.


Sabe quando você perde a ponta do durex? Parece uma bobagem, mas às vezes isso nos consome por um longo tempo. Já se pegou gastando horas em busca da ponta de um novelo? Como começar o bordado se não sabe onde está ponta da linha? E se você não conhece o início imagine o seu fim? O fim da linha? Seu próprio fim? Ou será que você é o novelo emaranhado cuja ponta insiste em se ocultar e portanto não sabe que figura irá bordar? Como colar os pedaços da alma se a ponta da fita adesiva sumiu? É sempre possível fazer uma nova ponta com um estilete, é bem verdade. Mas não irá acabar a fita ao completar o seu arco até o corte? O mesmo não se dá com o novelo? Faça uma nova ponta com a tesoura e verá sua linha acabar antes mesmo da renda tomar forma. Aposentar as agulhas e bilros? Continuar despedaçado? Como tecer uma nova vida sem encontrar a ponta da lã?

São inúmeras as perguntas, infinitos os novelos e metros e metros de lã. São infinitas as formas de rendas, inacabáveis pedaços para colar. Onde estão as minhas pontas?

domingo, 26 de abril de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


VI


Porto Alegre, 25 de maio de 1969

Os acontecimentos da noite anterior não saíam da cabeça de Joca. Começara tudo errado na sua viagem. Não foi para isto que havia saído de tão longe. E se chegasse aos ouvidos de Pe. Ducas? Se as pessoas em Serra Grande viessem saber? Estaria perdido, seria uma desmoralização completa. Um turbilhão fervilhava em sua mente. Nunca imaginara manter relações com um homem, quanto mais com um padre.
Quando Pe. Hermínio foi para o hotel de Joca naquela noite, já saíra mal intencionado. Sempre tivera tesão no rapaz. Desde os tempos em que estava em Conceição. Quando ia à Serra Grande e visitava o amigo de lá, ficava observando-o. Joca era um mulato bonito, de corpo musculoso e bem torneado, olhos negros e vibrantes. Do tipo que ele gostava. Sempre se mantivera distante até por respeito a Ducas que não aprovaria este ato. Mas agora, tão longe, não poderia perder esta oportunidade. Atacaria Joca por suas maiores fraquezas: o dinheiro e o álcool.
Hermínio chegou ao hotel às 20h. Interfonou para Joca descer. Tomaram um táxi e foram para um barzinho bem reservado perto da Redenção.
-Joca, você vai cumprir amanhã uma tarefa muito importante. De você depende o sucesso deste que será talvez o mais arriscado e lucrativo negócio que já fizemos. Não irei. É conveniente que eu me mantenha longe. Você sabe os problemas que tive em Conceição. Não posso deixar isto se repetir. Irei te dar todos os detalhes e dicas para que tudo corra bem. Não se preocupe. Você será muito bem recompensado. Sei que agora não é fácil, mas quando receber a bolada que te aguarda, vai dar pulos de alegria e rir, rir muito desta apreensão e medo que está sentindo agora.

Hermínio explicou todos os detalhes ao sacristão. Como chegar a Minuano e descobrir Marcolino. Como também deveria abordá-lo e quais as armas a serem usadas para o golpe fatal. Não haveria problemas para comprar a menina. Só dependia de Joca fazer tudo certo sem deixar Marcolino alardear para os outros.As amigas da finada sim poderiam “melar” o negócio, mas acreditava que Marcolino desse um jeito nelas.
No meio de todo aquele papo Hermínio foi envolvendo Joca com uns drinquinhos a mais e a cada momento que passava botava em prática sua outra estratégia.
-Sabe Joca, você é um rapaz bonito. Devia curtir mais a vida.
-Quando se tem seis filhos e uma mulher que não larga do seu pé não é fácil padre.
-Mas agora você está bem longe. – Serviu mais um whisky para o sacristão que àquela altura já estava zonzo. – Hoje vamos nos divertir bastante.
Enquanto falava, Hermínio procurava ao máximo tocar no rapaz. Um toque na perna, outro no rosto, sempre com carinho, mas sem parecer invasivo. Joca estava um tanto desconcertado, mas a medida que o álcool lhe subia a cabeça, ficava mais à vontade. Era difícil para ele reconhecer, mas sem dúvida estava excitado. O efeito do álcool o deixava com vontade de sexo e Hermínio soubera envolvê-lo com aquele papo todo. Depois de beberem bastante, jantaram lá mesmo no bar, tomaram um táxi e foram para o hotel de Hermínio. Transaram como dois apaixonados. Joca gostou da experiência e acordou leve. Contudo estava envergonhado e com medo. Tomaram o café da manhã no quarto.

Pe. Hermínio deu-lhe o dinheiro para as despesas da viagem até Minuano, para o pagamento da criança bem como um extra para qualquer outra eventualidade que pudesse acontecer. Combinara com Joca que no máximo pagaria mil dólares pela criança, mas que tentasse fechar em quinhentos.
Durante a viagem de quatro horas para Minuano, Joca não pensara em outra coisa senão nos acontecimentos da noite anterior. Sentia um aperto no coração. Tinha que reconhecer para si mesmo: foi maravilhoso. No entanto jurara intimamente que jamais aconteceria de novo. Uma lágrima rolou no seu rosto. Tentou dormir, mas foi em vão.

sábado, 25 de abril de 2009

O FUNDO DO POÇO

Aonde é o fundo do poço em que caí?
Porque ele não chega logo?
Me parece o fim da linha,
Ou melhor, o início da água?
Mas cadê ela?
Porque será que não sinto meu corpo molhar?
Parece uma queda sem fim
Um abismo abissal
Uma forma de morte
Um espelho em frente a outro
Nunca acaba esta visão
Nunca acaba esta queda
Este poço não tem fim.
Mas eu caio firme
Caio com a certeza de que fiz a minha parte
Que deixei a minha arte
Deixei o meu legado.
Me sinto uma pena
Que não pode contra o vento
Não sabe onde vai parar.
O que me espera lá no fundo?
O que me reserva o mundo?
Onde está o meu caminho?
As vezes me sinto sozinho
Mas sei que não estou
Tenho amigos, tenho amor
O que será que me falta?
Madrugada já vai alta
O sono não se aproxima
Perdi a minha rima
Perdi a inspiração
Que venha a água do fundo
Me lave que estou imundo
Mas não me mate.
Eu sei nadar!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O CREPÚSCULO DA BANANEIRA

Tem gente que é poeta e não sabe. Ainda por cima faz graça com isso. Quando meu amigo Luciano na adolescência, apaixonado que estava pela namorada, sua hoje esposa Cássia, escreveu estes versos, para ela, nem imaginava que estava fazendo um poema romântico e de muito valor. Hoje ele o recita para fazer piada, para os amigos darem risada. Sábado passado, quando estávamos reunidos na casa de Ruy, tomando um vinho e fazendo um jantar maravilhoso(só por curiosidade Bacalhau a Gomes de Sá e Camarão ao Pomodoro), ele o recitou. Todos riram. Eu fiquei emocionado. Parabéns Luciano.















O Crepúsculo da Bananeira
Luciano Lubala

O luar clareia o pé de bananeira
Mas, como eu não gosto de goiaba
Roubaram minha bicicleta.






domingo, 19 de abril de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


V


Porto Alegre-Rs, 24 de maio de 1969

O ônibus, depois de uma longa e cansativa viagem que durara dias, mais de dois mil kilômetros entre Salvador e Porto Alegre, e começara de trem, chegava a capital gaúcha numa tarde de muito frio. Entre seus passageiros estava Joca. Ele estava um misto de nervoso, amedrontado e ansioso. Nervoso e com medo pela missão que lhe levava àquele lugar. Ansioso por, no curso dos seus quase trinta anos de vida, nunca pusera os pés fora da Bahia. Tudo era novidade. O frio em pleno mês de maio, o verde da estrada tinha um tom diferente do nordestino, daquela paisagem sertaneja, seca e árida a qual estava acostumado.
Ao parar na rodoviária um forte frio na barriga o tomou de assalto. Joca temia que algo desse errado. Não gostaria de ver sua vida no lixo. Afinal tinha mulher e seis filhos para dar de comer. Era exatamente por isso que havia entrado no contrabando de crianças com o Pe. Ducas. Era ele quem encontrava os bebês, na maioria das vezes na zona rural de Serra Grande, e dava o jeito de tirá-los dos pais. Quase sempre pessoas sem nenhuma instrução, vivendo na mais absoluta miséria.
Joca na verdade não ganhava muito com os negócios do padre. Ele nem sequer imaginava o montante de dinheiro que circulava. Porém o que lhe chegava era suficiente para as necessidades da sua família. Filho de pobres lavradores passou toda a vida privado das mais básicas necessidades chegando inclusive a passar fome na infância. Foi quando entrou para sacristão na Igreja de Serra Grande que as coisas para ele começaram a melhorar. Padre Ducas se mostrou generoso. Dava-lhe roupas, mantimentos e o tratava muito bem além de ter lhe proporcionado a oportunidade de estudar. Quando aos dezesseis anos engravidou Filomena de Seu Zé, foi Ducas quem o ajudou a conseguir do hospital ao enxoval. Nos cinco filhos que se seguiram teve também o apoio geral do amigo. Tinha por ele uma gratidão infinita sendo capaz de arriscar a própria vida pelo sacerdote. Era isto que estava fazendo naquele momento. Foi assim que Ducas conquistou sua confiança e o envolveu nos seus negócios. Sabia que Joca jamais abriria a boca para incriminá-lo, sabia também que ele seria capaz até de assumir a culpa caso acontecesse um imprevisto indesejado. Era bom ter um bode expiatório na manga. Contudo sempre escondeu do rapaz os verdadeiros perigos que corriam, bem como os valores reais que movimentava com tais transações. Joca, no entanto, sentia que havia ali algo além do que o padre falava, mas achava melhor não fazer comentários ou perguntas. Ele com certeza sabia o que estava fazendo e não seria capaz de desejar-lhe o mal.
A cabeça de Joca estava a mil. O frio na barriga era maior que o frio que fazia lá fora. O tempo estava realmente ruim. O vento frio e úmido já rachava os seus lábios. Pra completar, olhara para todos os lados assim que descera do ônibus e nem sinal de Pe. Hermínio. O que fazer agora? Pegou sua bagagem e saiu à procura de um lugar para sentar enquanto esperava seu anfitrião. Foram duas horas angustiantes. Mais pareceram dois anos. Tremia de frio até que ouviu a inconfundível voz rouca de Hermínio:
-José Carlos meu amigo! Seja bem vindo ao sul. Tome este agasalho que a coisa aqui é preta. Se não se precaver direitinho vira picolé.
Padre Hermínio recebeu Joca como se realmente fossem amigos íntimos. Em parte pela simpatia e educação que lhe eram peculiares, e, na verdade, por ter um grande interesse naquela visita. Joca era o instrumento para o maior negócio da sua vida.
Os dois saíram andando da rodoviária até um hotelzinho barato na Av. Júlio de Castilhos perto da estação. Lá, Hermínio acomodou Joca no quarto que previamente reservara.
-E então Joca o que achas?
-Bom senhor. Muito bom.
-Não é nada de muito luxo mais é tudo limpinho e o café da manhã é uma delícia. Agora quero que descanse. Esta viagem é de matar. Tome um banho, relaxe bem. À noite voltarei para jantarmos juntos e acertarmos todos os detalhes. Vou telefonar para Ducas avisando da sua chegada e quando voltar estará tudo combinado com ele. Aí te passo as orientações.
Pe. Hermínio foi para o hotel onde estava hospedado, perto dali, mas de outro nível. Um hotel quatro estrelas defronte à rodoviária. No quarto, ligou o aquecedor, serviu-se de um 12 anos, acendeu um charuto cubano e pensou: - agora é só o miserável do Joca fazer tudo certinho e esperar os lucros. Telefonou para Ducas e depois dormiu um sono profundo, o sono dos Deuses. Acordou com o telefone às 19hs conforme pedira na recepção.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

DESEJO

Se eu pudesse saber o que ela queria
Eu queria o que ela quisesse
Se eu pudesse entender o que ela sentia
Sentiria o que nela estivesse

Se eu pudesse ser eu naquele momento
Eu traria o mundo pra dar-te nas mãos
Se eu pudesse falar sobre o sentimento
Naquele momento eu seria a canção

Que a ninasse
A fizesse dormir
Embalasse seu sono
O seu coração

Se eu pudesse ser homem
Um homem pra ela
Cantaria a capela
Eu seria mais eu
Eu faria do mundo
A coisa mais bela
Eu faria da vida
O seu apogeu

Que a encantasse
A fizesse sorrir
Enfeitasse seu pomo
E te desse a mão

Se eu a merecesse, não a perderia
Pra que todo dia
Eu fosse só seu

Se eu a seduzisse enfim bastaria
Aquele sorriso
Seria só meu.

RAINHA

Eu sou uma mulher fatal
Quando me entrego sou completa
Quando me nego sou harpia
Faço para ele tudo que posso
Tudo que me sacia
Tudo que me faz feliz

Sou daquelas que não esperam
Tomo a iniciativa
Sou cativa, sou fogosa
Sou a rosa e o espinho
Sou a rua, sou o ninho
Sou mulher em toda essência

Trago nas mãos o punhal do desejo
No coração o golpe do amor
Sou o carrasco, a cafetina
Sou a menina em forma de flor

Eu sou a Deusa, sou a conquista
A ametista, diamante bruto
A carpideira chorando seu luto
A faxineira limpando seu chão
A dançarina brilhando no palco
Quando desfalco a sua paixão

Eu sou uma pobre criança
Meras lembranças de um tempo longínquo
De mares distantes, de encarnações
A soberana, beata e profana
A vil mundana das mutilações
Quando em seu corpo sem dó eu me finco
Eu sou a dona das emoções

Sou a mulher valente, a mulher amada
Eu sou a fada e sou a bruxa.
A que agrada e a que repulsa
A que faz falta e a que sobra
Sou o autor sem sua obra
Eu sou a obra sem seu autor
Eu sou a mãe, a filha, a sogra
Eu sou o ódio, eu sou amor

quinta-feira, 16 de abril de 2009

AO TELEFONE

-Alô!
-É você!
-Sim. A chuva tá forte, bateu saudade!
-Porque não ligou ontem?
-Viajei, estava trabalhando.
-Pensei que tinha esquecido de mim.
-Não é possível isto. Como esquecer de você?
-Está mentindo, só quer me agradar.
-Não verdade, eu gosto de você!
-Então porque não ligou ontem?
-Já falei, estava viajando a trabalho!
-Não podia parar um minutinho para me ligar? Só um minuto.
-Não dá para falar só um minuto com você.
-Está me chamando de conversadeira? Está se incomodando ao falar comigo?
-Não. Apenas quis dizer que conversar contigo é bom. Por isso não consigo falar pouco.
-Mentiroso. Você sabe que dia é hoje?
-Sim, quinta-feira!
-Ta vendo que você não se importa comigo?
-Porque?
-Hoje completa um mês exatamente que tive aquela afta.
-E porque eu deveria marcar esta data?
-Você ficou um dia sem poder me beijar. Deveria tê-lo marcado para sempre.
-Bobagem.
-Como você é insensível, não se importa comigo.
-Não fala isto. Me importo e muito com você.
-Se se importasse lembraria de qualquer dia que não pode me beijar.
-Prefiro lembrar dos dias em que a beijo com sofreguidão.
-Tá vendo? Só lembra dos beijos. Não falou dos dias em que fazemos amor. Na certa você acha que a Cristina, aquela sua ex sem sal, era melhor do que eu.
-Porque colocar a Cristina na conversa? Quando te conheci tinha mais de um ano que não a via nem falava com ela. Logo depois do nosso término ela foi para Espanha e nunca mais nos falamos.
-Mas você queria revê-la.
-Não. Quero ver você. Estou com saudades. Por isso te liguei.
-Mas estou despreparada. Não fui ao salão.
-Bobagem, você é linda de qualquer jeito.
-E estou meio assim.
-Assim como?
-Assim ora. Você não me entende mesmo né? Hoje não dá pra sairmos.
-Porque?
-Porque não. Está aonde?
-Em casa, pensando em você.
-Mentiroso. Quer sair comigo a tarde para ir ao jogo à noite.
-Mas o jogo é fora, não vou ao estádio.
-Mas se fosse aqui você iria.
-Sim, mas iria te convidar.
-Para me irritar? Sabe que não gosto de futebol. Vá assisti seu jogo na televisão.
-Não vai ser transmitido. Quero sair com você, vamos.
-Hoje não. Deixa para amanhã.
-Amanhã não posso vou passar o dia no congresso.
-Tá vendo? Você nunca pode sair comigo.
-Mas estou te convidando!
-Só porque não ligou ontem. Está querendo se redimir.
-Porra será que você não entende?
-Não seja grosso! Você são uns trogloditas.
-Desculpe, não quis ser grosso. Só apelei para que você acredite que eu te amo e quero sair com você.
-Verdade!
-Claro! Eu te amo!
-Fala de novo.
-Eu te amo!
-Não ouvi.
-Eu te amo, te amo, te amo!
-Que lindo. Você é apaixonante!
-Você também.
-Porque os homens tem essa mania de dizer "também". Porque não tem coragem de falar que eu sou apaixonante.
-Mas acabei de falar que te amo?
-Mas não teve coragem de dizer que sou apaixonante.
-Assim fica difícil, não dá pra falar desse jeito. Está de TPM?
-Não sei, talvez.
-Então nos falamos depois.
-Me liga mais tarde.
-Pra quê? Acabamos de nos falar e você não parece estar bem.
-Tá vendo? Não quer ligar porque vai sair com outra ou encher a cara com seus amigos nos bares da cidade.
-Não vou sair de casa. Não sem você.
-Então me liga mais tarde.
-Tá bom, ligo sim.
-Nos falamos depois então. Um beijo. Até mais.
-Um beijinho lindo. Vou sentir saudades. Vou esperar ansiosa ao lado do telefone. Não tenho coragem de desligar. Desliga você.
-Tá bom. Beijão. Mais tarde te ligo..
tum, tum, tum....
-AH FILHO DA PUTA!

terça-feira, 14 de abril de 2009

CHICO BUARQUE, O PENETRA

Fiquei puto com Lorena, do Strange Little Girl, que não me convidou para essa festa. Um meme como este, faço total questão de participar. Logo eu que ando tão distante da blogosfera, quase sem nenhuma interação, não ando lendo ninguém, muito menos comentando, como me acho no direito de ficar puto com ela por não ter me convidado? Bobagem essa minha mas a verdade é que fiquei. Mais ainda por saber que não terei um décimo da capacidade que ela teve para respondê-lo, é um meme muito difícil. A inveja é uma merda!

Consiste no seguinte: escolher um cantor e responder à série de perguntas a seguir apenas com letras, ou trecho delas, de músicas do artista escolhido. Como valorizo muito o lado autoral, escolhi um cantor por consequencia, mas essencialmente um compositor. O meu maior ídolo, o cara que descobri aos doze anos e que nunca mais saiu da minha vida, cuja obra tem a capacidade de traduzí-la nos seus mais íntimos momentos: Chico Buarque. Quem eu gostaria de ser por apenas um dia. Mais uma vez, a inveja é uma merda.

Vamos então às perguntas:

1. És homem ou mulher?

"...Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio
Pele e osso simplesmente, quase sem recheio..."
Partido Alto(Chico Buarque)

2. Descreve-te.

"Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim"
Até o Fim(Chico Buarque)

3. O que as pessoas acham de ti?

"Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons..."
Choro Bandido(Edu Lobo/Chico Buarque)

4. Como descreves o teu último relacionamento?

"Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim ?
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter
Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde "
Trocando em Miúdos(Francis Hime/Chico Buarque)

5.Descreve o momento atual da tua relação:

"...Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus"
Sem Fantasia(Chico Buarque)

7. Onde queria estar agora?

"Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
Aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
Exaltado coração
Então despes a luva para eu ler-te a mão
E não tem linhas tua palma

Sei que é sonho
Incomodado estou, num corpo estranho
Com governantes da América Latina
Notando meu olhar ardente
Em longínqua direção
Julgam todos que avisto alguma salvação
Mas não, é a ti que vejo na colina

Qual esquina dobrei às cegas
E caí no Cairo, ou Lima, ou Calcutá
Que língua é essa em que despejo pragas
E a muralha ecoa

Em Lisboa
Faz algazarra a malta em meu castelo
Pálidos economistas pedem calma
Conduzo tua lisa mão
Por uma escada espiral
E no alto da torre exibo-te o varal
Onde balança ao léu minh’alma

Em Macau, Maputo, Meca, Bogotá
Que sonho é esse de que não se sai
E em que se vai trocando as pernas
E se cai e se levanta noutro sonho

Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engalfinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha"
Sonhos sonhos são(Chico Buarque)

7. O que pensas a respeito do amor?

"Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita

Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito

Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico"
Tanto Amar(Chico Buarque)

8.Como é a tua vida?

"O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro"
Paratodos(Chico Buarque)

9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo:

"Pra mim
Basta um dia
Não mais que um dia
Um meio dia
Me dá
Só um dia
E eu faço desatar
A minha fantasia
Só um
Belo dia
Pois se jura, se esconjura
Se ama e se tortura
Se tritura, se atura e se cura
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia

Só um
Santo dia
Pois se beija, se maltrata
Se come e se mata
Se arremata, se acata e se trata
A dor
Na orgia
Da luz do dia
É só
O que eu pedia, viu
Um dia pra aplacar
Minha agonia
Toda a sangria
Todo o veneno
De um pequeno dia"
Basta Um Dia(Chico Buarque)

10.Escreva uma frase sábia.

"...Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu..."
Pedaço de Mim(Chico Buarque)

Bem é isto. Como não fui convidado para a festa entro de penetra. Não me sinto no direito de repassá-lo, mas se alguém quiser entrar de penetra também, sinta-se a vontade.

SELO


Quero aproveitar este meme para agradecer ao Vidal pelo selo Blog de Ouro. Ele sim merece este, mas com sua imensa bondade compartilhou com os amigos do Bilhetes e acabei por ser agraciado. Obrigado Mano. Agora então vou repassá-lo para outros blogs que merecem ao meu entender, o selo dourado.

Strange Little Girl

Anavision
Florescer
De Tudo Um Pouco
Blog de Lêda
De Pó a Poesia

É claro que a lista seria muito maior, mas vou ficando por aqui. Beijo a todos!

domingo, 12 de abril de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO

IV


Salvador, 15 de maio de 1969


Dr Mário e Sandra formavam um casal, como se diz, perfeito ou pelo menos quase. Mário um advogado de sucesso, bem sucedido financeiramente, sócio majoritário do escritório Marchesini & Filhos Advogados Associados, o mais conceituado da cidade, gozava de um enorme prestígio junto à sociedade soteropolitana. Sandra, filha de um milionário da construção civil, vivia nas colunas sócias e revistas de celebridades, era uma mulher fútil, dondoca, mas extremamente linda e dedicada ao marido. Estavam casados a cinco anos em plena harmonia. Tudo transcorria na mais perfeita ordem exceto por um detalhe: até o momento não tinham conseguido ter filhos. Mário já havia feito todos os exames e com ele estava tudo normal. Sandra relutara muito. Tinha imensa vontade de ser mãe e nem cogitava a hipótese de ser ela a infértil. Seria um desastre. Um filho era tudo que faltava na sua vida. A única coisa no mundo que desejava e ainda não tinha. Naquele dia sairia o tão esperado resultado dos seus exames.
Estavam na sala de espera do Dr. Ciszem, maior autoridade da Bahia e um dos médicos mais respeitados do Brasil em reprodução humana. De repente, em meio ao clima tenso que pesava sobre os dois, a recepcionista avisou:
-Dr. Mário, D. Sandra. É a vez dos senhores.
Por mais que Ciszem quisesse amenizar sabia que era impossível. Era amigo da família há muitos anos e tinha consciência do quanto para ela era importante engravidar. Decidiu então pelo mais prático: ser direto.
-Sandra! Infelizmente tenho que ser sincero. Você não pode ter filhos.
Foi como se o mundo desmoronasse sobre sua cabeça. Como se tudo que sempre teve na vida não valesse nada. Agora ela via que não valia realmente.
Sandra chorou até esgotar sua última lágrima. Seu descontrole era total por mais que Mário e Dr. Ciszem tentassem acalmá-la. Só depois que o médico aplicou-lhe um sedativo, acalmou-se um tanto desorientada adormeceu na maca do consultório.
-Dr. Mário. Sei que não é fácil a situação de vocês. Sei o quanto desejavam uma criança, mas estas são as fatalidades da vida contra as quais nada podemos fazer, nem com todo dinheiro e prestígio do mundo. Porém isto não é o fim. Outras alternativas podem amenizar o sofrimento de vocês. Adotar uma criança, além de ser um gesto humano muito bonito, vai com certeza resolver este problema.
-Mas Dr. Ciszen, Sandra não vai aceitar uma criança que não tenha sido gerada por ela. Que ela não saiba a procedência dos pais biológicos. Definitivamente ela não vai admitir isto.
-Cabe a você como marido convencê-la. Deixe passar um pouco o trauma da notícia. Vá aos poucos explicando que uma criança adotada é também um filho nosso. O tempo se encarrega de torná-la assim como se fosse gerada em nosso próprio ventre. Vocês aprenderão a amá-la como se fosse um filho legítimo. Além do mais, é melhor que a solidão de uma mãe frustrada.
-Vou fazer de tudo Dr. Espero que ela aceite, pois não sei como será daqui pra frente. Tenho medo que nossa vida se transforme num inferno.
-Vá com calma e lembre-se: procure não contrariá-la. Evite ao máximo que ela se aborreça ou fique nervosa. O trauma foi grande para ela eu sei. Tenho certeza que tudo vai dar certo.
-Assim espero amigo, assim espero. Muito obrigado.
-Boa sorte. Não hesite em me procurar a qualquer hora do dia ou da noite. Tenha fé em Deus e tudo vai ficar bem.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

POETISA

Se tu soubesses
A força e beleza das tuas palavras
O quão fundo elas adentram os corações
Quando descem coma lavas
E incendeiam as emoções

Se tu soubesses
Como é belo o sentimento
Expostos em teu papel
Quantos sonham com você
Nas estrofes que tu gravas
Com a força do teu cinzel

Como a mágica dos teus versos
Primam na ilusão das rimas
Na mente insana do leitor
Se tu soubesses
Que propagas em poemas
As mais belas cantilenas
E o lindo fruto do amor

domingo, 5 de abril de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


III


Serra Grande-Ba, 15 de maio de 1969

O Padre Ducas voltava intrigado do posto telefônico após a ligação que acabara de receber. Uma criança de olhos azuis era uma jóia preciosa. Prato cheio para qualquer casal europeu. Valeria uma fortuna com certeza. Nessas horas, sempre lembrava de pedir perdão a Deus, mas tinha a consciência que não era um bom padre, na verdade em quase nada seguia os mandamentos da igreja católica. Claro que a sociedade serragrandense não imaginava nem por sonho os negócios escusos em que andava metido. Exceto pelo fato de ter uma companheira e dois filhos e, de vez em quando, gostar de tomar umas e outras, era querido pela maioria dos fiéis da cidade. Muito bem quisto pelas beatas, as aconselhava e, vez ou outra comia algumas delas, inclusive as casadas. Tudo no mais perfeito sigilo e discrição. A própria sacristia era o seu “matadouro”. Lugar livre de qualquer suspeita.
Padre Ducas no entanto estava envolvido com um negócio milionário de contrabando de crianças. Chegava a mandar de 50 a 100 meninos por ano para a Europa. Isto lhe rendia uma verdadeira fortuna. Era pouco se considerado o risco que corria, mas também com a quantidade de intermediários, todo mundo tinha de “mamar” um pouquinho. Além disso, jamais faria esta quantia com as míseras contribuições dos fiéis para a sua sagrada igreja.
Desta vez recebeu um telefonema de um antigo sócio nos negócios, Padre Hermínio, ex-pároco de uma cidade vizinha a Serra Grande, Conceição. Dois anos atrás ele foi mandado para uma pequena cidade do Rio Grande do Sul. Até hoje não se sabe o motivo da transferência. Falavam as más línguas que foi por causa da sua suposta homossexualidade e por ostentar um nível de vida nada compatível com o de um sacerdote. Este erro Ducas nunca cometeu. Pelo contrário, sempre aconselhou Hermínio a ser mais discreto. Guardava suas economias em paraísos fiscais enquanto o amigo vivia com carros novos, tinha várias propriedades inclusive uma fazenda enorme com uma sede maravilhosa onde criava gado e cavalos de raça. Com tanto patrimônio, numa cidade de cinqüenta mil habitantes, logo começaram as especulações de qual seria a origem do dinheiro do padre. Ducas já não fazia negócios com ele há um bom tenpo e se sentiu aliviado quando Hermínio foi transferido para bem longe. Agora ele ligava com esta notícia bombástica.

Desde que chegou a Minuano, Hermínio começou a sondar a região. Qual a possibilidade de trabalhar com crianças de lá? Elas tinham a pele mais “pura”, normalmente olhos claros. Isto com certeza agradaria aos europeus que pagariam melhor. Mas, nos dois anos que se passaram desde sua chegada, nenhuma oportunidade como esta havia aparecido. Carolina filha recém nascida de um casal miserável e rejeitada pelo pai. A mãe, morrera logo após o parto, vitimada por uma forte hemorragia. O pai, beberrão inveterado, louco por dinheiro, não criaria dificuldades para vender a menina a preço de banana já que tanto a detestava. Bastariam umas poucas garrafas de cachaça. Os lucros seriam imensos. Foi isto que explicara detalhadamente à Ducas no seu telefonema que, pôr estar bem longe, seria o intermediário ideal para não levantar suspeitas.
Enquanto caminhava Ducas arquitetava todo o plano que traçaria o destino daquela criança. Era realmente um negócio imperdível. Ao chegar a igreja dirigiu-se imediatamente ao seu comparsa e sacristão:
-Joca! Arrume as malas. Você vai fazer uma longa viagem.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O TÚNEL

Talvez meu destino
Esteja sendo traçado
A dois mil quilômetros
Da minha casa
Talvez esteja na esquina
Do próximo quarteirão
Não importa a distância
Que eu tenha de percorrer
Sei que chego lá
Afinal, há sempre uma luz
No fim do túnel
Ou não há?

A AMIGA

É um pedaço de mim
Um pedaço vital
Que hoje se desprende e vai embora
Queria ter palavras nessa hora
Mas só tenho lágrimas para rolar

É um membro, uma veia,
Um coração devastado
Perde a força, o traçado
Bombeia o sangue errado
Não sabe qual é seu lugar

Como sentir esta falta?
Como viver sem seu lastro?
E dizer que a vida é bela?
Como enfrentar esta fera,
Sem seu ombro pra chorar?

Vai, mas leva contigo
Todo meu ser, minha vida
Saiba que sua amiga
Sempre vai te esperar

Te amo, te amo, te amo,
E sempre que eu te chamo
É por amor que eu clamo
Contigo compartilhar.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

BAIANADA


Agora há pouco, por volta das 18h30, eu estava num ponto de ônibus esperando um amigo. Como este demorava, fiquei observando o intenso movimento de carros àquela altura do início da noite, na movimentada avenida da orla marítima no Jardim de Alah aqui em Salvador. Neste momento, ignorando o recuo apropriado para a parada no ponto, um motorista parou o ônibus no meio da rua abrindo as portas para embarque e desembarque dos passageiros. Não restando outra alternativa, quem descia ou subia no veículo tinha que atravessar a faixa de recuo. Foi então que um apressadinho, motivado pela irresponsabilidade brutal do motô*, resolveu fazer pior que ele e ultrapassá-lo usando o recuo do ponto, quase causando uma tragédia sem precedentes. Não tenho dúvidas que foi a mão de Deus que evitou o desastre. Imediatamente me lembrei de Caetano Veloso, um baiano que dispensa apresentações, e sua música "Vamo Comer", além do post que publiquei aqui, o Baiano na Direção. Gostaria que isto fosse uma brincadeira de 1º de abril, o dia da mentira, mas é a mais pura verdade. Basta ler ou assistir aos jornais locais diariamente para vermos a imensa incidência de acidentes de trânsitos, em boa parte fatais, na capital baiana. A maioria deles seriam evitados se houvesse mais consciência por parte dos motoristas, motociclistas, e pedestres, enfim, pela população em geral. Meu Deus! Até quando amargaremos esta vergonha, este recorde lastimável? Sei que este é um problema mais amplo, que ultrapassa as fronteiras baianas, mas, sinceramente, pelo que já vi e vivi longe daqui, acho que estamos na frente de outros estados, o que é lamentável e vergonhoso.

Como meu amigo demorou mais ainda, fiquei maquinando na cabeça cheia de indignação, os versos expostos a seguir. Não tem nenhuma pretensão poética, foi apenas uma forma de passar o tempo e de dar o meu grito de protesto. Não gostaria de dar razão a Caetano. Que pena!

BAIANADA

O ônibus pára no meio da rua
O carro ultrapassa pelo ponto
"Baiano, burro, nasce e cresce"**
Compra carteira por qualquer cem conto

Quebra-molas é sinal aberto
Canteiro, faixa intermitente
"Baiano, burro, nasce e cresce"
É os ás na direção valente

A vida é uma brincadeira
O carro arma para a guerra
"Baiano, burro, nasce e cresce"
A cada hora uma vida enterra

Tem sempre que chegar primeiro
A rua é pista de corrida
"Baiano, burro, nasce e cresce"
E esquece o valor da vida

Onde andam os nossos valores?
O respeito pela vida humana
"Baiano, burro, nasce e cresce"
Numa corrida cruel e insana

O trânsito é uma batalha
Avenida é campo minado
"Baiano, burro, nasce e cresce"
E passa no sinal fechado

E eu que também sou baiano
Já tô achando que não sou normal
"Baiano, burro, nasce e cresce"
E ainda fala que eu sou boçal

*Motô: Forma carinhosa que o baiano chama o motorista de ônibus.
**Versos de Caetano Veloso da música "Vamo Comer" "Baiano burro, nasce e cresce e nunca pára no sinal. E quem pára e espera o verde é que é chamado de boçal.".

CULINÁRIA BAIANA

Habitada por índios, descoberta por portugueses e recheada por africanos que aos montes foram sendo trazidos para a nossa terra, a Bahia sofreu a influência marcante destas culturas. Tantos ingredientes, cada um na sua exata porção, deram origem a uma das receitas mais saborosas do mundo, A CULINÁRIA BAIANA.

Podemos dizer que, casualmente ou não, a busca de novos sabores, foi preponderante para a descoberta das terras brasileiras, haja vista que um tesouro, dos mais preciosos da época, as especiarias, motivou, em 08 de março de 1500, a saída da expedição de Cabral de terras lusitanas, em busca do caminho das Índias. Lá estavam as tão valiosas especiarias, as mesmas tão ao alcance das nossas mãos e mesas hoje em dia: cravo, canela, gengibre, baunilha, mostarda, erva-doce, dentre muitas outras. Em tempos de ausência de técnicas de conservação de alimentos, seu valor mais tinha a ver com a questão da pura sobrevivência do que com o requinte culinário. As especiarias tornavam os sabores mais toleráveis, além de amenizarem, pelas suas propriedades medicinais, eventuais desarranjos de saúde, provocados pela ingestão de comidas inadequadas.

Após o discutível desvio acidental da rota desejada, os portugueses desembarcaram no Brasil a 23 de abril de 1500, um dia depois de avistarem nossas terras. Os primeiros contatos com os habitantes locais, os Índios, foram marcados por trocas amistosas de alguns presentes, em sua maioria iguarias de cada um dos povos. Inicialmente os índios brasileiros rejeitaram os sabores europeus, cuspindo quase tudo que lhes era servido, inclusive o vinho. Foi uma questão de dias. Logo em 29 de abril, dois nativos subiram a bordo de uma das embarcações e comeram de tudo que lhes ofereceram. Esbaldaram-se com arroz e presunto cozido servido frio e beberam vinho.

Do cardápio local, os primeiros ingredientes experimentados pelos portugueses vieram do mar e rios: peixes e camarões. “Grossos e curtos, entre os quais tinha um tão grande e grosso, como em nenhum tempo vi tamanho” admira-se Caminha em sua carta ao rei, onde descrevia as belezas e encantos, assim como os defeitos, pelo menos aos olhos dos portugueses, da nova terra e seu povo.
Começava ali a nascer, a culinária brasileira, uma mistura de culturas e sabores que hoje, extremamente diversificada e influenciada por outras culturas, encanta os paladares mais requintados do mundo tendo como um dos destaques principais, a culinária baiana.

As primeiras mudas de cana-de-açúcar chegaram ao Brasil a bordo das embarcações que sucederam Cabral. Encontrando um solo fértil de massapê e clima úmido que logo se mostraram ideais para seu cultivo. Assim se formava a lavoura que trouxe às nossas terras, a pitada de sabor que faltava para completar a receita: o povo africano. Eles vieram das Ilhas do Golfo Guiné, Angola, Moçambique, Costa do Marfim, Costa da Malagueta e outras regiões da África. Tinham culturas diversas, algumas milenares e, conseqüentemente, culinárias distintas entre si, que ajudaram e muito a enriquecer os sabores do cardápio brasileiro. Trouxeram na bagagem um extraordinário talento de adaptação aos poucos ingredientes a que tinham acesso aos seus hábitos culinários. Aperfeiçoaram por exemplo, o pirão, uma invenção portuguesa no Brasil, a partir da farinha de mandioca, já vastamente usada pelos índios e das técnicas portuguesas de caldos e papas. Para fazer render a pequena ração que recebiam, escaldavam a farinha no caldo fervente dos alimentos e comiam com pimenta malagueta. Era o Pirão Massapé, assim chamado pela coloração arroxeada do preparo.

Com a intensificação do tráfico de escravos (negros africanos), vários produtos e plantas alimentares da áfrica vieram para cá. Quiabo, inhame, gengibre, dendê, côco e tantos outros. Aqui, junto aos produtos locais e os trazidos pelos portugueses, foram “assados, grelhados e cozidos” durante anos e anos de colonização, sofrimento e história, dando origem ao “prato” de sabor indescritível e tempero sem igual: A CULINÁRIA BAIANA.

Bibliografia consultada:

Fruend, F.; Vieira, S. e Zuanetti, R. 2001. O Mundo da Cozinha. Rio de Janeiro: Senac Nacional
Leal, M. L. Soares. 1998. A História da Gastronomia. Rio de Janeiro: Senac Nacional
Romio, Eda. 2000. 500 Anos de Sabor. São Paulo: Romio