domingo, 4 de outubro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 10


Foram horas e horas de muito papo até os velhos amigos botarem as estórias em dia. Marcolino quis saber todos os detalhes da vinda de Antonio, ou melhor Joca, para Minuano. Não teve muito sucesso. Segundo Juca, o homem vivia praticamente em retiro, tinha pouco convívio social, e raramente vinha a cidade. O que se sabia ao certo é que mantinha estreita amizade com Padre Hermínio o amado pároco do lugar, que há anos comandava a paróquia da cidade. Foi justamente como sacristão da igreja, que José Carlos começara sua vida em Minuano. Atualmente tomava conta da fazenda do padre localizada há dois quilômetros da sede do distrito Passaredo e era ajudado por um dos seus cinco filhos, o mais velho, Zequinha. Quando chegou à cidade, a princípio sozinho, nos últimos meses do ano de 1972, tinha um aspecto muito diferente do homem que três anos antes tivera lá comprando a garota. Usava uma farta barba e cabelos compridos. Quando o vira pela primeira vez na igreja, Juca logo desconfiou que o conhecia de algum lugar, mas não conseguia lembrar exatamente de onde. Muito tempo se passou e nada de Bigodão lembrar de onde já vira aquele semblante. Mais ou menos um ano depois da chegada de Joca ao local, depois da missa matinal de domingo, Juca se aproximou do rapaz e o interpelou:
-Joca, há muito que quero te perguntar uma coisa. Tenho a clara impressão de já ter lhe visto antes, mas não consigo lembrar de onde.
-Com certeza o senhor nunca me viu. Sempre morei na Bahia na cidade onde Pe Hermínio morava e era sacristão da igreja dele por lá. Depois de muitos convites resolvi tentar a vida por estas bandas. Agora trouxe minha família.
-Mulher e filhos?
-Sim, seis filhos, mas dois estão com os avós na Bahia.
-Sabe Joca, tenho quase certeza que o conheço ou você parece muito com alguém que já vi antes, mas não consigo lembrar.
-Não senhor, deve estar havendo algum engano.
-Com certeza sim. Tenha um bom dia.
Juca não se conformou com as explicações do sacristão. Sentia um certo desconforto em suas palavras e isto o fez alimentar uma desconfiança gratuita por ele. Foram muitas as tentativas de reanimar a memória até que um dia desistiu.
Marcolino ouvia atentamente cada sílaba proferida pelo amigo.
-Continue Bigodão.
-Uma coisa me deixou mais intrigado ainda. Depois que interroguei o sujeito, ele passou a me evitar nas missas. Procurava não cruzar comigo e sempre virava o rosto para evitar meu olhar. Uns dois meses depois ele saiu da igreja, entrou um outro sacristão novinho e tive notícias que ele tinha ido tomar conta da fazenda que o padre acabara de comprar e por isso se mudara para Passaredo. Até que, pouco depois que o amigo tomou o chá de sumiço, ou seja uns oito anos depois que ele chegara aqui, o Pe Hermínio começou a organizar um jogo de futebol beneficente para os velhinhos e crianças da zona rural lá no campo da fazenda dele. Este evento acontece até hoje uma vez por ano. Os comerciantes e empresários da cidade patrocinam tudo. Tem um grande churrasco e um bingo de um grande prêmio. Às vezes motos, novilhas, já teve até carro. As cartelas são vendidas aos montes. É uma festa que movimenta toda a cidade. Mas eu tenho minhas dúvidas quanto a aplicação do dinheiro arrecadado.
-Você não tem jeito Juca, desconfia de todo mundo mesmo né Tchê?
-Bah Tchê! O homem tem um nível de vida muito alto. Carro novo, casa bonita, fazenda... Se bem que ele já tinha tudo isto antes de começar a organizar este evento. Dizem que ele é de uma família de muitas posses lá na Bahia. Aqui o sujeito é muito adorado.
-Então pare de difamar o pároco, amigo. O homem tá fazendo um trabalho social bonito e você levantando suspeitas.
-Bem, no primeiro ano desta festa, eu fui lá na fazenda ver o jogo e tentar a sorte no bingo. Lá pelas tantas eu vi o Joca tomando umas pinga num bar. Aí sentei pra conversar com ele. O cara já tava meio gambá e aquelas alturas já embolava a língua. Aproveitei sua situação e tentei mais uma vez perguntar de onde eu o conhecia. Não houve jeito dele falar nada, mas naquele dia percebi que sua barba estava mais baixa e seu rosto aparecia mais. Então me concentrei bastante no seu jeito de falar, nas suas feições e me lembrei. Foi aí que perguntei:
-Você conheceu Marcolino? – Ele ficou extremamente nervoso, gaguejou muito, falou um bocado de bobagem até responder que não. Não posso confirmar esta suspeita, não tenho como provar, mas dou minha cara a tapa se ele e Antonio não forem a mesma pessoa. E tem mais. Outra coisa que me intriga é a amizade dele com o padre. Veja se isto não é de se estranhar. Como ele soube da existência de uma criança na cidade cuja mãe morrera e o pai era um bêbado inveterado capaz de vender a própria filha? Alguém daqui o informou.
Neste momento as lágrimas rolaram mais uma vez no rosto de Marcolino. Juca percebeu a mancada que havia dado.
-Desculpe Marquinho, não quis ofender o amigo.
-Não se preocupe Juca. Você falou a pura verdade. Eu fui um crápula mesmo. É por isso que estou aqui, para tentar me redimir um pouco de tudo isto. Você acha então que o padre pode ter participado de tudo?
-Você não acha estranho, um ilustre desconhecido chega a cidade, compra uma menina e some. Três anos depois volta, vai trabalhar com o padre e é seu protegido. Todo mundo sabe disto, não é segredo para ninguém. Há quem fale até que eles têm mais que amizade.
-O povo também é fogo.
-Mas falam isso sim. Há quem diga que os dois são florzinha. Esta estória fica meio abafada porque Padre Hermínio é muito querido por aqui. Ajuda muita gente, faz muita caridade, mas se fala a boca pequena que enche Joca de presentes. Agora eu lhe pergunto, como ele soube da existência da menina? Não teria sido alguém da cidade que lhe deu o serviço?
-Mas se me lembro bem, Padre Hermínio tinha viajado para visitar familiares naquela época. Não estava na cidade.
-Isto só me deixa mais desconfiado. Acho que foi de propósito, para não levantar suspeitas.
-E porque o amigo deixou este assunto de lado? Não informou a polícia, por exemplo?
-Primeiro porque não tenho provas e segundo porque Gerusa deu queixa do amigo. Você lembra bem disto. Na época nada se pode provar e você só passou umas duas noites no xadrez. Mas com algo tão concreto poderia ter sido diferente e o amigo ficar numa situação complicada.
-Começo a achar que suas suspeitas têm fundamento Bigode. Preciso visitar este José Carlos. Como faço para encontrá-lo?
Juca ensinou a Marcolino como chegar a Joca. Os amigos conversaram muito, levantaram diversas hipóteses e Juca se comprometeu a ajudar o amigo.
Marcolino saiu do Bigodão com destino ao Hotel dos Pampas, recentemente inaugurado na cidade e foi muito bem recomendado por Juca. Seus pensamentos eram confusos, não conseguia articular as idéias, mas achava que o amigo tinha muita lógica nas suas suspeitas. Enquanto caminhava envolto nos seus pensamentos, ouviu uma voz conhecida no outro lado da rua.
-Marcolino, é você?
Olhou para o lado e viu Antonieta, prima de Gerusa. Atravessou a rua e se dirigiu a ela.
-Sou eu sim Antonieta. Foi bom encontrá-la aqui. Preciso muito falar com Gerusa. Ela ainda mora no mesmo lugar?
-Mora sim. A gente pensou que você tinha morrido. Por onde andou?
-É uma longa história. Vamos comigo a Gerusa que vou lhe contando.

domingo, 27 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 09


Quando o ônibus começou a se aproximar de Minuano o coração de Marcolino foi ficando apertado disparando no peito. Era difícil voltar a sua cidade natal após treze anos de ausência. Muitas eram as recordações negativas que aquele retorno lhe trazia. Sua culpa o corroía a cada dia, mas depois de muitos anos de trabalho interior, finalmente se sentia pronto para pisar novamente onde um dia, jogou sua vida no ralo e cometeu seu maior desatino. Tinha o claro objetivo de, naquele caminho de volta, resgatar sua dignidade e buscar pistas que o fizessem ter um ponto de partida para encontrar sua filha. Não conseguiria mais viver em paz caso não encontrasse a menina. Imaginava que ela não a perdoasse, sequer sabia que rumo sua vida teria tomado ou mesmo se estava viva, se morava no Brasil ou no exterior, se realmente caíra nas mãos de traficantes ou de um desesperado homem querendo realizar o sonho da paternidade ao lado da esposa infértil. Na verdade nada sabia além da certeza que ele precisava tentar. No meio a estes pensamentos as lágrimas lhe molharam o rosto jorrando dos seus olhos baços e azuis. A passageira sentada ao seu lado, observando o estado do homem, perguntou o que o acometia, se ela podia ajudar, mas ele apenas sussurrou poucas palavras:

-É só um homem velho, recomeçando a sua vida.

Quando final mente desceu do ônibus, observou atentamente as profundas mudanças que aconteceram no lugar. Agora já não era mais a agência de passagens na praça do coreto, a parada final do veículo. Uma pequena estação rodoviária fora construída no meio da Av. Érico Veríssimo, principal entrada da cidade que agora ganhara asfalto e um belo canteiro central com oitis amarelos a cada vinte metros. Imediatamente fora cercado por diversos motoristas de carros de praça oferecendo transporte. Ele no entanto, preferiu seguir a pé. Dois quarteirões a frente, dobrou a direita entrando na rua Getúlio Vargas com destino ao Bairro dos Italianos. As casas estavam mudadas, a maioria foram postas abaixo cedendo lugar a lojas de diversos segmentos, bancos e repartições. A rua havia se transformado numa espécie de centro comercial da cidade. Onde antes funcionava o Bar do Guri, lugar aonde tomara muitos e muitos goles da famosa Caninha Catarinense, hoje se via uma casa lotérica bem equipada, na esquina com Rua do Vaneirão, a antiga casa da família Menotti, era hoje um grande banco. O progresso finalmente havia chegado a Minuano. Começou a se perguntar se o eu primeiro destino ainda encontrava-se de pé. O Bar do Bigodão.

Ao fim da Getúlio se chegava à Praça Anita Garibaldi, mas conhecida como Praça do Coreto. Esta ainda conservava em sua maioria, o encanto singelo de treze anos atrás. O belo jardim, impecavelmente cuidado com seu relógio de flores, era a principal atração do lugar. Na esquina da secular farmácia Menotti, esta parecia não ter mudado nada nos últimos cem anos, se tinha acesso a rua do Meio onde finalmente Marcolino avistou a tão conhecida placa: Bar do Bigodão.

-Bigodão, bota um guaraná aí que agora não tomo mais a branquinha tchê!

Juca olhava abismado para o amigo de longas datas com seu farto bigode agora branco amarelado pelo fumo.

-És tu Marquinho? Ou será que bebi demais hoje?

-Não amigo, não bebeste não. Sou eu em carne e osso. Quem é vivo sempre aparece.

-Barbaridade guri. Onde andaste? Desde que sumiu a gente chegou a pensar que o amigo tinha passado destas para melhor.

-Ainda não chegou o meu dia Juca. Tenho muito a fazer nesta vida antes de desencarnar. É uma longa estória. Vamos sentar para eu lhe contar tudo.

Juca pedia a Moreno, seu principal funcionário, que tomasse conta de tudo, e entrou para os fundos do estabelecimento, onde mantinha uma espécie de escritório e depósito num pequeno quarto.

Marcolino contou tudo nos mínimos detalhes. Como vendeu Carolina, como gastou até o último centavo daquele maldito dinheiro, sua visão com a filha, a ida para Porto Alegre, tudo que sofreu e passou até ser acolhido pelo pessoal do centro. Contou que deixara de beber, que estudara e como se tornara o principal palestrante da casa. Como descobriu sua mediunidade e o quanto já tinha ajudado outros errantes que, assim como ele outrora, andavam perdidos na vida. Explicou para o amigo que estava empenhado em encontrar a filha e que para isso gastaria todos os dias da sua vida, era o seu plano de redenção.

-Então acho que tenho uma boa notícia para o amigo aqui.

-Que notícia Bigode?

-O sergipano Antonio, o que comprou a guria e na verdade se chama Joca, ou melhor José Carlos, e é baiano, está morando a doze quilômetros daqui, no povoado de Passaredo.

Marcolino entendeu que Deus havia lhe dado mais uma chance.

domingo, 20 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 08


Caminhei até o sol se por completamente. Quando voltei para casa já passavam das sete da noite. Encontrei Carolina absorta na janela, olhando para o horizonte, como se buscasse ali respostas para as inúmeras perguntas que martelavam sua mente. Não quebrei o seu silencio. Eu também procurava respostas para perguntas que sequer sabia enunciar. Sentei no chão da sala e a observei atentamente, até que ela falou.
-Caco, você vai lá em casa comigo? Queria dormir aqui mais uma noite, mas preciso pegar umas coisas. Você me deixa ficar aqui?
- Como posso dizer não a este rostinho angelical? Para falar a verdade vou amar tê-la mais uma noite ao meu lado. Vou tomar um banho rápido e saímos já.
Talvez eu ainda não tivesse consciência, mas acabara de mergulhar de cabeça num mar de tormentas e riquezas. Sem dúvida nenhuma, movido pelo amor. Seria possível um sentimento tão forte nascer em tão pouco tempo? Que magia tinha aquela garota para me deixar tão envolvido? Porque eu não ouvia a voz da razão? Não tinha respostas para nada daquilo apenas queria viver o momento que se apresentava, me deixar levar.
Pegamos um táxi e quinze minutos depois estávamos na frente de uma mansão cinematográfica, encravada num dos pontos mais altos do Horto Florestal, um dos mais nobres bairros da cidade. Carolina abriu o vidro, falou breves palavras ao segurança da guarita e em segundos o imenso portão de ferro torneado se abria a nossa frente. O táxi percorreu um caminho estreito que margeava uma piscina e um jardim, ambos deslumbrantes até chegar numa espécie de estacionamento para visitantes. Pedimos que nos aguardasse e entramos na casa pela porta da frente.
Eu olhava atentamente todos os detalhes. Nunca tinha estado numa casa daquelas, tão suntuosa e bonita. A sala era imensa, decorada com muito bom gosto e repletas de obras de arte. As esculturas foram as que mais me chamaram a atenção. Carolina tocou um sininho que descansava numa pequena mesa de canto, quando apareceu um senhor que aparentava estar perto dos setenta anos e tinha o típico porte de mordomo de romance inglês.
-Aurino, onde estão todos?
-Seus pais saíram senhorita. A senhorita Paula está com o namorado vendo um filme no home theater.
-Aurino, gostaria de lhe perguntar uma coisa, mas queria que fosse muito sincero.
-Pois não D. Carolina.
-Você tem muitos anos aqui em casa. Trabalha com meus pais desde antes do meu nascimento não é?
-Sim senhorita.
-Como foi que eles me adotaram?
-Do que a senhora está falando?
-Pare com isso Aurino. Sei que você sabe de tudo. Você vê tudo que se passa nessa casa.
-Não senhorita. Não tenho olhos, ouvidos ou boca. Faz parte do meu trabalho. Não deveria me perguntar tais coisas. Se quer saber de algo, porque não pergunta a Dr. Mário ou a D. Sandra?
-Se você fala assim é porque sabe de alguma coisa Aurino. Por favor me conte, eu preciso muito saber.
-Senhorita já disse que nada sei, não me pergunte mais nada.
Foram inúteis os apelos de Carolina. Aurino nada falou, sua fidelidade aos patrões era irretocável.
-Onde está Luzia, Aurino?
-Hoje é sua folga senhorita. Deve chegar mais tarde ou amanhã cedo.
-Obrigada.
Carolina dispensou os serviços do mordomo e falou com Caco.
-Meu amor, vou pegar algumas coisas lá em cima e já volto. Fique à vontade.
-Eu espero Carol. Não demore, não quero estar aqui sozinho se seus pais chegarem.
Trocaram um longo beijo e neste momento, vestindo apenas um camisão, entra na sala uma bela morena, de cabelos negros, olhos expressivos, sobrancelhas grossas e sensualidade à flor da pele. Olhou bem para o Casal e disse:
-Maninha! Não vai me apresentar seu mais novo namorado. Ele é um gato!
-Caco esta é minha irmã Paula.
-Muito prazer, me chamo Caio.
-Seja bem vindo Caco. O prazer é todo meu. –Falou Paula com um tom visivelmente provocador.
Neste momento Carolina me puxou pelo braço e fomos até seu quarto no andar superior. Lá chegando, enquanto ela botava umas mudas de roupa na mochila, ligou a televisão. Foi então que vimos a notícia num programa dominical. Seria aquilo uma coincidência?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TERRA BAHIA

Terra Brasil, brasileira

Parada primeira

Colonização

Que se regala festeira

À sua maneira

Num só coração


Berço de tantos talentos

Fortes monumentos

Da nossa cultura

Velhos, rapazes, rebentos

Palavras, inventos

A arte mais pura


Terra de mil Caetanos

Caroso, Adrianos

Valverdes e Rosas

Terra dos Novos Baianos

Amados, fulanos

De Ruys e Barbosas


Terra de boa comida

Gilbertos dão vida

Pros tempos de paz

Castros e Alves na lida

Poesia esculpida

Versos de Moraes


Lugar onde o vento gorjeia

Menina, sereia

Tarde, Itapoã

Quem se deitar nesta areia

Pulsará na veia

De um belo amanhã


Onde renasçam Caimmys

Com notas sublimes

Rede e violão

Onde na esteira de vime

Preguiça é vitrine

Para uma nação


Onde nasceram Marias

Bethânias, poesias

Costas e Gal

Caldas, Dodôs e folias

Reinado de dias

O som, carnaval


Cantam Sangalos e Leites

Pra nosso deleite

Macedos, João

Fortes como seu azeite

Tempero de peixes

Abará, camarão


Dadá e seu sorriso lindo

Nascendo, fluindo

Para exportação

Porto seguro, menino

Correndo, carpindo

Mais uma canção


Terra de tantas belezas

Naturais riquezas

De mares e rios

Terra de tão farta mesa

Alegria e tristeza

Num só desafio


Aqui nasceram pessoas

Tão raras, tão boas

Quase uma elegia

Tu és o hino que entoa

O sino que soa

És terra, Bahia!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 07


Quando Sandra terminou o tratamento com Dr. Clark e finalmente engravidou, sua vida ganhou um novo sentido. Todas as dores e inseguranças do passado se dissiparam e ela teve a impressão que definitivamente agora era uma mulher completa para a vida e para Mário, seu devotado e fiel marido. Foi uma gravidez tranqüila, embora coberta de cuidados redobrados. Dr Ciszem a acompanhou durante a gestação em Salvador e pôde observar o novo ânimo e gás que o fato trouxera para a amiga. Uma coisa no entanto o preocupava muito. Depois de grávida, Sandra demonstrara um progressivo desinteresse por Carolina fato que, parecia, o marido também compartilhava. Muito apegado à afilhada, a quem tinha como uma filha, Ciszem começou a temer pelo destino da menina. Embora procurasse através de conversas abrir os olhos do casal, sentia seu esforço esvair-se sem sucesso. Quanto mais se aproximava a data do nascimento de uma nova menina, já batizada de Paula Cristina, mais o casal deixava Carolina de lado.

Quando Paula nasceu, Carolina já com três anos, cada vez mais bela e inteligente, começou a perceber que não ocupava mais o mesmo espaço naquela casa. As atenções eram todas agora voltadas para o bebê recém chegado. Na inocência infantil, não podia mensurar as conseqüências do abandono cada vez maior que sofreria e a devastação irreversível que tal fato provocaria em sua vida. Extremamente sensível, Carolina absorvia profundamente, cada atitude, cada demonstração de carinho, afeto, indiferença, enfim, ela absorvia mais que os seres humanos normais, qualquer sentimento a ela dedicado, fosse bom ou ruim. E assim a menina foi aos poucos ficando carente, complexada e triste. Era incapaz porém, de reclamar, de se fazer ouvir. Interiorizava tudo a sua volta, e em pouco tempo, tornou-se um paiol transbordando, pronto para explodir a qualquer momento.

Paula foi criada com excessivo carinho e muita permissividade, sem conhecer limites ou barreiras, ficada a cada dia mais desobediente, agressiva, possessiva e egoísta. Tinha um ciúme doentio da irmã, fato que desenvolvera desde muito cedo, embora não tivesse nenhum motivo para tal. Além de tudo, aprontava as maiores malvadezas com a irmã mais velha, como no dia que tocou fogo no rabo do cachorro após encharcá-lo com gasolina e pôs a culpa na irmã. Por mais que Carolina jurasse inocência, ninguém acreditou nela que ficou de castigo no quarto por uma semana. A palavra de Paula era incontestável. Depois de crescidas, Paula passou a perseguir e desejar qualquer namoradinho ou paquera da irmã. Sem escrúpulos ou pudores, sempre conseguia tomá-los e Carolina nada fazia para contê-la. De certa forma, a própria Carolina também contribuía para os desmandos da irmã que, sem ver limites ou conseqüências para os seus atos descabidos, cada vez mais mergulhava na lama da impunidade e desconfigurava ainda mais o seu já duvidoso caráter.

Paula perdeu a virgindade aos treze anos com Lucas de dezoito anos, que há três meses namorava Carolina. O rapaz que já tentara por diversas vezes chegar às vias de fato com a namorada, não resistiu aos encantos e insinuações da cunhada. Depois do acontecido, Paula fez questão de contar tudo a irmã que imediatamente terminou o namoro. Paula entretanto, deu um pé na bunda no rapaz, uma semana depois. E assim, tudo fazia para tornar a vida de Carolina o maior inferno possível fazendo tudo para tirá-la do seu caminho.

Quando tinha treze anos, num domingo após o almoço que Ciszen, como comumente acontecia, participara, ouviu uma conversa do pai com o compadre no escritório. Ambos haviam abusado um pouco do álcool e falaram além do que deviam.

- Amigo, lembro de quando aquele homem trouxe Carolina aqui. Se eu soubesse naquele momento que Paula viria um dia, não a teria comprado.

-Não fale isto Mário. Carolina é uma menina encantadora, uma excelente aluna, de beleza sem igual. Uma pessoa doce, de boa índole, vai com certeza dar muito orgulho a vocês.

- Sei disso compadre, mas Sandra não tem mais o mesmo amor e atenção com ela. Confesso que eu próprio já não me sinto como pai desta menina. É diferente olhar para Paula e saber que ela sim é fruto do meu amor com Sandra. Deveria ter deixado que os traficantes a levassem para a Europa. Às vezes até tenho vontade de procurar seus verdadeiros pais.

-Nem pense numa coisa assim meu amigo. Poderia acabar com a vida da garota. Porque não deixa tudo como está? Além do mais você não conhece o paradeiro deles.

-Não seria difícil encontrá-los. Dr. Severino, o colega que advoga para o padre que lidera a quadrilha, me contou tudo. Ela foi comprada, me parece que do pai, no Rio Grande do Sul. Numa cidadezinha muito pequena de oito mil habitantes chamada Minuano. Como o amigo pode perceber não seria difícil. Basta por um bom detetive no caso e rapidamente chegamos a eles.

-Nem pense numa loucura dessas Mário. Você e Sandra têm a obrigação moral de cuidar de Carolina para sempre dando tudo do bom e do melhor para ela.

-Mas é isto que fazemos.

-Não estou falando de bens, luxo, roupas ou coisas assim. Falo principalmente de amor, carinho, compreensão e amizade.

-Na medida do possível fazemos isto também amigo.

-Converse com Sandra compadre. Não é tão difícil assim dividir tanto amor. Pense na imensa alegria que ela trouxe para suas vidas num momento crítico, cujo casamento de vocês estava por um fio por causa da impossibilidade de gerarem herdeiros. Outra coisa que o amigo deve considerar é que você também compactuou com um crime e não gostaria de correr o risco de ver o seu nome envolvido num escândalo destes.

-É verdade Ciszen. Talvez por isso nunca mexi nesse vespeiro.

Depois de ouvir aquela conversa, Paula intensificou sua perseguição a irmã e passou a fazer insinuações maldosas quanto a verdadeira identidade de Carol. Até que, oito anos depois, despejos a verdade nos ouvidos da irmã no meio de uma briga entre as duas em pleno aniversário dela.


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O VENDEDOR

Conta a piada que um certo vendedor, desesperado pela grande maré de azar que atravessava, há meses não preenchia uma folha no seu talão de pedidos, resolveu não trabalhar naquele dia e vagava pela praia procurando espairecer. De repente, uma dor lancinante. Descalço que estava, topara com toda força num objeto metálico e quente por causa do sol em brasa. Depois de proferir palavrões inenarráveis, abaixou-se para acariciar o dedão na vã tentativa de aplacar a dor. Neste momento observou que o tal objeto, nada mais era que a lâmpada perdida por Aladim. Sem titubear, alisou o objeto mágico libertando o Gênio de séculos de prisão.

-O senhor é meu amo, pois me libertou. Com isso terá direito a três pedidos.

-Um minutinho só, enquanto vou correndo no carro buscar o talão.


Não sei se por coincidência ou por capricho do destino, veio parar na minha mão por empréstimo, o livro O Vendedor de Sonhos de Augusto Cury, justamente no momento que acabo de me tornar um vendedor, não de sonhos, não tenho tal pretensão, mas de remédios e produtos de farmácia. Ainda não descobri o que esse maravilhoso livro, pude perceber isso pelo pouco que li até agora, terá relação com minha nova atividade. Mas uma história destas, contada de maneira tão deliciosa, com ensinamentos profundos, com certeza terá sua contribuição no meu engrandecimento nesta nova jornada.


Ainda não tinha contado isto a vocês, mas depois de um ano desempregado, acumulando dívidas e à beira do desespero, me apareceu esta oportunidade que agarrei com mãos, pés, boca e tudo mais que sirva para agarrar alguma coisa. Vale lembrar que isto foi uma mudança radical na minha vida. Primeiro porque tive que me mudar. Agora fixei residência em Serrinha, a 170 km de Salvador, para poder atender a região que darei cobertura, o sertão baiano, na área da produção de sisal. São muitas cidades que visito semanalmente: a partir de Serrinha, que também faz parte do meu setor, vem: Teofilândia, Araci, Jorrinho, Caldas do Jorro, Tucano, Quijingue, Euclides da Cunha, Uauá, Canudos, Monte Santo, Cansanção, Nordestina, Queimadas, Santa Luz, Valente, Retirolândia, Conceição do Coité, até chegar novamente a Serrinha, perfazendo uma ferradura de mais de 600 km de extensão.


Depois, tem o fato de nunca eu ter tido experiência com vendas e não entender praticamente nada de medicamentos e suas substâncias com nomes estrambólicos, parecidos, muitas vezes, e de difícil assimilação. Com isso, venho dando muitas cabeçadas, mas, depois de quase três semanas de atividade, acho que estou me saindo até bem, numa otimista auto-avaliação. Este é um dos motivos, sem querer aqui dar nenhuma desculpa esfarrapada pelo meu desaparecimento do mundo maravilhoso dos blogs. A verdade é que pouco estou podendo acessar a net. Trabalhando quase 13 horas por dia, perambulando por cidades que, na sua maioria, não tem internet nos hotéis, como é o caso de agora que escrevo sozinho, num aconchegante, limpo e agradável quarto de hotel em Santa Luz, ficou mais difícil de escrever coisas novas, ler meus autores blogueiros prediletos e, principalmente, comentar nas suas maravilhosas postagens.


Bem, voltando ao vendedor, não consigo descrever a sensação sentida quando por fim, gastei a primeira folha do meu talão de pedidos. Foi deslumbrante, mesmo tendo sido um pedido pouco acima do pedido mínimo e longe de ser um bom pedido. Quase tremia ao preencher aquelas poucas linhas com quantidades, nomes confusos e pouca compreensão. Como um bom sinal, foi no meu primeiro dia de trabalho. Segundo os experientes da área, isto não é fácil. Ponto pra mim. É claro que venho dando minhas cabeçadas, mas aos poucos estou encontrando meu estilo, minha forma de vender. Não sonhos, estes vou tendo enquanto dirijo sob o sol escaldante do sertão baiano, suado nas roupas quentes e apresentáveis que agora sou obrigado a usar, mas os Diclofenacos, Losartanas, Fluoxetinas, Cloridratos e tantos outros acos, anas e inas da vida, pagando propinas a guardas rodoviários para não me multarem por causa das duas linhas de vidro trincado no pára-brisa do meu carro, que a precária situação financeira não me deixou trocar.


Já foram várias as garfes que cometi. Como perguntar ao cliente o fabricante de determinado remédio mais conhecido que o Papa e ouvi dele: -Já vi que você é marinheiro de primeira viagem. –Sim. Respondi. –Porém, não conheço nenhum marinheiro experiente que não tenha dado a primeira viagem ou alguém que aprendeu a nadar sem se jogar pela primeira vez na água. Semana passada, eu cometi uma outra que me deixou muito envergonhado. Depois de conhecer, num pequeno intervalo de tempo, mais de cem pessoas, cometi a imprudência de confiar na memória. Entrei num estabelecimento, sem consultar minhas anotações, que já tinha visitado na semana anterior e chamei sua dona pelo nome.

-Como vai Dona Maria Luiza?

-Bem, mas me chamo Rita de Cássia.

Desconsertado falei a primeira bobagem que me veio na cabeça:

-Maria Luiza e Rita de Cássia? É quase a mesma coisa, chega até a rimar.

Era a cidade de Queimadas, onde até hoje eu não tinha tirado nenhum pedido. É claro que a senhora não comprou nada em minha mão, por mais que eu tentasse me redimir. No lugar dela eu também não compraria.

- Não se zangue comigo D. Rita. Conheci muitas pessoas nos últimos dias e fica difícil gravar o nome de todas. Tire um pedidozinho com seu amigo, para batizá-lo na cidade. Ainda não vendi nada aqui em Queimadas. Preciso mandar o leite da menina.

-Não foi nada Adriano. Não tem nada a ver com isso. Estou sem faltas, já pedi o que precisava com outros representantes. Quem sabe na próxima semana.


Não botei muita fé. Aquelas palavras foi o que eu mais tinha ouvido nos últimos dias. Fui embora desolado sem vender um comprimido na cidade. Hoje, estava retornando à Queimadas e, entrando na cidade, alguns versos surgiram de repente na minha cabeça quase a porta da farmácia da simpática senhora. Então não titubeei. Desci do carro e entrei no estabelecimento falando:


O que D. Rita de Cássia precisa

É tirar um pedido com Adriano

Para que este não cometa o engano

De chamar-lhe Maria Luiza


E aí D. Rita de Cássia?

Flor das acácias de terras amadas

Minha caneta está pronta

Pra marcar na sua ponta

Meu batismo em Queimadas.


Ela riu, olhou meu catálogo e fez um gordo pedido. Mais um ponto para mim. Quem sabe um dia eu chego lá? Eu acredito e continuo sonhando.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

MEU PÉ DE CAJU

Fração dos meus averes prediletos
O meu pé de caju detrás de um muro
Safra em safra me dá frutos seletos
Mas deles ele logo fica puro

Além do passaredo e dos insetos
Mazelas naturais que lhe não curo
Com pedradas garotos irriquietos
Lá não deixam para mim caju maduro

Não me zango, porque não me exaspera
A garotada lesta divertida
A derribar cajus....

E até quisera ser eu
Um pé de caju da mesma classe
Para que produzindo nesta vida
Desse fruto a quem pedra me jogasse.

domingo, 6 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 06


-Meus amigos! Onde estaria a justiça de Deus se não existisse a reencarnação. Porque o Senhor colocaria no mundo um pobre coitado, aleijado e miserável enquanto outro é afortunado e perfeito? Aos olhos do Criador não deveriam ser todos iguais sendo Ele pura bondade, justiça e compreensão? Não meus senhores, não seria Deus justo conosco permitindo e criando tamanhas diferenças. É por isso que nascemos e morremos para nascer de novo, tendo a oportunidade de a cada vida reparar os erros de vidas passadas e assim elevar o nosso espírito em busca do engrandecimento e da paz. Somos iguais sim meus irmãos aos olhos de Deus, mas temos contas diferentes a acertar. O mal que causamos aqui, pode nos ser cobrado aqui mesmo, mas muito comumente damos conta dele nas encarnações futuras. É por isso que devemos, na medida do possível, reparar os nossos erros na vida corrente, na mesma encarnação que o cometemos. É uma maneira de amenizar o calvário do espírito até que ele possa reencarnar, para uma vida mais serena, mais feliz. Vou contar uma história aos amigos aqui presentes: Numa pequena cidadezinha do interior, existia um rapaz, ignorante, sem educação ou fortuna, mas que teve a oportunidade de construir uma vida e uma família feliz. Casou com uma moça trabalhadora, fiel e dedicada. No entanto o rapaz, preferia a vida boêmia, refestelando-se nos bares e bordéis da cidade, gastando com bebida e mulheres o pouco dinheiro que a esposa auferia com o suor do seu trabalho. Invariavelmente andava trôpego, sem alimentação adequada, minava a própria saúde na esbórnia da vida. Então a esposa engravidou e ele não gostou nada disto. Não queria uma criança disputando com ele os cuidados e, principalmente, o dinheiro da mulher. Ignorou a gestação ficando cada dia mais longe de casa sem dar o devido apoio que a situação exigia. Chegou o dia da esposa dar a luz. Nasceu uma linda menina e mais uma vez o rapaz teve a chance de redimir-se dos erros e destemperos que cometera, uma vez que o Senhor levou a mãe para junto de si no momento do parto. Em vez disto ele abandonou a guria a própria sorte, na mão de estranhos. Certa feita, um forasteiro aparece na cidade e lhe propõe comprar a garota. Oferece-lhe míseros vinténs e o que fez o rapaz? Raptou a menina da casa das pessoas que a cuidavam entregando-lhe ao forasteiro. Pouco durou o dinheiro recebido. Foram muitas farras e orgias que consumiram o vil metal até o último centavo. Mais uma vez na miséria, sem amigos, sem dinheiro, sem nada, passou a viver perambulando pelas ruas, da caridade do próximo, mendigando trocados que invariavelmente gastava com cachaça. Maltrapilho, sujo e solitário, vivia a espera de esmolas para beber. Ás vezes bondosas almas lhe davam comida e cobertores, sua vida entrava em profundo vazio, num colapso total. Até que um dia, anos depois do acontecido teve uma visão: sua esposa apareceu e disse: - Vá buscar a nossa filha, ela está sofrendo e vai sofrer muito mais ainda. Seu semblante era triste, sua voz embargada pelo choro. Pensou estar tendo uma alucinação provocada pelos nocivos efeitos do álcool, mas a esposa o tomou nos braços, levitaram e sobrevoaram sua vida. Viu seus dias de criança pobre, mas bem cuidada. Sua mãe zelosa a lhe ensinar os caminhos tortuosos do destino. Lição que insistia em não assimilar. Viu o dia que jogou veneno de rato no prato da irmã por pura brincadeira maldosa, levando-a a passar dias e dias internada na enfermaria de um fétido hospital. Viu o dia que apagara da memória, quando foi violentado pelo padrasto e a imensa dor interior que a isto se sucedeu. Viu seu primeiro gole, sua primeira aposta, suas infindas derrotas. Por fim, viu uma linda mulher de olhos azuis com a expressão desesperada dos suicidas á beira de um penhasco. Antes que ele dissesse algo ela se jogou. Observava inerte o corpo em queda livre tendo certeza de que era a sua filha quando a esposa o falou: -Vai, ainda dá tempo de pegá-la antes da queda. Neste momento acordou imundo, no meio da rua, sob um frio de três graus. A vergonha e a indignação o tomavam. Como pode ter sido tão torpe? Era um monstro. O rapaz fugiu da cidadezinha e foi para a capital. Pediu ajuda neste Centro Espírita onde foi acolhido, alimentado e orientado. Deixou de beber, estudou, e trabalhou durante treze anos, sempre marcado pelo remorso e arrependimento. A culpa lhe corroia até que se sentiu pronto para iniciar o caminho da sua redenção e segurar a mulher antes da queda. Era chegado o momento.

-Bem amigos este rapaz da história, é a pessoa que vos fala. Neste momento me despeço de vocês para ir em busca da minha salvação. Preciso me redimir dos meus erros, encontrar o meu caminho e salvar a minha filha. Talvez não salve a minha vida, mas assim poderei descansar em paz.


O palestrante Marcolino foi aplaudido de pé pela imensa platéia presente no auditório do Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes em Porto Alegre.


domingo, 30 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 05

-Você acha que é o que? Quem você pensa que é? Se enxerga garota. Devia dar graças a Deus de ter a nós. Uma família nobre, dinheiro, posição. Mas não! Ainda reclama. Tem inveja de mim porque? Estou cansada de você, de suas chorumelas e lamentos. Fica posando de santinha, de boa, mas a mim você não engana. Você queria estar no meu lugar, ser a filha verdadeira. Se enxerga Carol!
-O que você disse Paula? Filha verdadeira? Do que você está falando?
-Vai dizer que a ingênua nunca percebeu? Que painho e mainha não parecem com você? Que lhe tratam com indiferença, que gostam mais de mim? Você é burra mesmo!
Carolina desfalecia na cama. O pranto lhe tomava. As duras palavras da irmã eram como um punhal em seu peito. No fundo sempre desconfiara, mas ouvindo daquela maneira era um golpe fatal.
-O que eu te fiz pra você ter tanta raiva de mim Paula? Somos irmãs, fomos criadas juntas, te vi nascer e crescer.
-Eu não tenho irmã. Não sou da sua laia. Nunca fui entregue por meus pais a traficantes. Nem eles mesmos lhe quiseram.
-Traficantes? Aonde você ta querendo chegar? Conta logo de uma vez. Não me torture assim.
-Pergunte pro pai, ele vai lhe dizer quanto pagou pelo brinquedinho deles enquanto me esperavam, até mamãe poder me ter. Como uma quadrilha de traficantes trouxe você pra Bahia. Ele te conta tudo.
-Mentira sua louca, mentira! Você é um monstro. Como pode ser tão torpe?
-Mas é verdade. Eu ouvi painho e seu padrinho conversando outro dia no escritório. Você foi trazida por traficantes de crianças que a levariam para a Europa. Veio de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul chamada Minuano e nosso pai comprou você deles. Mamãe não podia engravidar até fazer o tratamento nos Estados Unidos. Então pegaram você, registraram e criaram-na até que eu nascesse. De lá para cá, você foi um estorvo na vida de todos nós. Só você não nota isto.Carolina não conseguia mais emitir uma palavra. Apenas chorava copiosamente olhando desesperada para irmã querendo acreditar que tudo fosse mentira. No fundo sabia que era verdade. Porque Paula a tratava assim? O que tinha feito de mal a ela ao ponto de despertar tanto ódio? Nunca entendera tanta maldade, indiferença e hostilidade por parte da irmã. Agora com a confirmação da desconfiança que não era filha legítima, as coisas começavam a ficar mais claras. Saiu do quarto em disparada a procura dos pais. Eles não estavam em casa. Foi aí que saiu sem rumo, andando pelas ruas ao léu. Era seu aniversário, mas não tinha nada para comemorar. Continuou vagando pelas ruas quando percebeu que já havia anoitecido. Perguntou as horas a um estranho, andou mais um pouco até que sentou num banco de praça e voltou a chorar copiosamente

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 04

Do alto dos seus trinta e oito anos, dezessete deles dedicados à polícia, o investigador Peçanha nunca vira esquema de crime organizado tão ousado e bem armado. Já completara dez anos que trabalhava na investigação do tráfico internacional de crianças e, há dois, assumira a chefia da operação Mamadeira que investigava o hediondo crime. Embora jovem, sempre se destacou na polícia. Prestara concurso aos dezenove anos, quando já cursava a faculdade de direito. Passou em terceiro lugar. Foi emposssado quase dois anos depois. Após se formar, prestou concurso para delegado passando em primeiro lugar. No entanto, sua paixão sempre foi o trabalho investigativo e desde que entrou na corporação tinha como meta de vida desarticular esta famigerada quadrilha. Agora, após ouvir inúmeras vezes as mais de trinta fitas gravadas com conversas telefônicas, autorizadas pela justiça, sentia que estava mais perto do que nunca de desvendar todo o mistério. O padre miserável, que parecia ser o cabeça de todo esquema, já havia sido expulso da igreja. Não pelos crimes que vinha cometendo, mas pelo fato de manter na cidade da sua paróquia, aos olhos de todos, mulher e filhos. Havia também uma desconfiança dos seus superiores, ele sabia disso, pelo fato do padre ter diversas propriedades como fazendas, apartamentos, casas, andar com carros de luxo e ostentar uma vida de riquezas. A igreja no entanto, preferiu não investigar a fundo a questão e por uma cortina encobrindo os podres do Sr. Ducas. Ele não, estava cada vez mais perto do padre e aguardava a resposta sobre o mandado de prisão que solicitara. Pensara em viajar para Serra Grande, mas aguardava o apoio da justiça. Queria voltar de lá com o padre algemado e para isso não podia se precipitar. Tudo indicava que o vigário não desconfiava estar sendo investigado, a operação transcorria há dois anos no mais absoluto sigilo. Agora, tão perto que estava de por a mão no meliante, não podia correr o risco de espantar a presa e deixá-la fugir.
O delegado, mesmo com a pouca idade, sentia necessidade de parar um pouco. Tirar uma licença, dedicar-se mais a vida pessoal. Lembrou que há tempos não saía com uma mulher, e há muito vinha pensando em casar, ter filhos, enfim, constituir uma família. Por isso, estava muito ansioso para encerrar a operação com sucesso e dar um pouco de si a si mesmo. Sua cabeça era um turbilhão e os pensamentos o tomavam.
-Maia, alguma notícia do mandado?-Falou com o assistente ao interfone.
-Não senhor. Até agora não obtivemos resposta.
-Não estou me sentindo bem. Vou para casa. Preciso me recolher um pouco. Se tiver alguma notícia, seja que hora for, você me encontra no bip, no celular ou no fixo, ok?
-Certo chefe.
Peçanha desceu o elevador distraído. Pegou o carro e saiu pensativo. Era um longo caminho da sede da Polícia Federal na Cidade Baixa até seu apartamento no bairro da Pituba. Repassou na mente todo o plano da operação. Nada podia falhar. Colocou no toca fitas a última das gravações que ainda não havia ouvido inteira.
De repente o inesperado. Através dos códigos que ele já conhecia muito bem, o padre marcava com um casal de italianos a entrega de outra criança. Era bom demais para ser verdade. Um encontro marcado para a próxima semana, num grande shopping da cidade. O Dr. Peçanha voltou o trecho da fita várias vezes. Não teve dúvidas. Era a marcação de um encontro para a entrega de uma criança. O que faltava para o flagrante.
Ouvia a fita à exaustão. O cansaço lhe tomava após três noites quase sem dormir, até que adormeceu na direção, saiu da pista e bateu de frente em um poste de iluminação.

domingo, 16 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 03

Eram três horas da tarde quando Carolina despertou. Não estava mais na sala e sim na minha cama. Ao olhar para o lado não me viu e se assustou. Uma estranha sensação de felicidade a tomava. Estranha, pois há muito não sabia o que era se sentir feliz. Estava leve como uma pluma e sorridente. Um sentimento diferente, o qual nunca havia experimentado, a tomava. Ela não sabia, mas aquilo se chamava amor. Neste momento eu estava tomando banho. Também fazia pouco tempo que acordara. O sol entrava pela janela da sala adentro muito forte e me despertou. Carolina dormia como um anjo. Para protegê-la, carreguei-a até o meu quarto e a pus na minha cama. Fechei bem as cortinas para evitar a entrada do sol e ela pudesse dormir melhor. Seu sono era tão pesado que ela não acordou. Olhava para a mulher ao meu lado e não acreditava no que estava vivendo. Tudo tinha sido tão maravilhoso e intenso que não imaginava aquilo como apenas uma transa a mais. Mas, no fundo, algo me dizia que estava entrando num problema muito sério. Aquela mulher era de um outro mundo, extremamente diferente do meu. Filha de milionários e com todos os problemas que carregava consigo, decididamente não era mulher para mim. No entanto a vontade de levar tudo adiante parecia mais forte que a minha consciência e razão. Após observá-la longamente e cada vez mais admirar sua beleza e seu sono tranqüilo, fui tomar meu banho envolto nesses pensamentos e pouco depois ela acordou. Chamou meu nome, mas não a ouvi. A ducha estava forte e fazia muita zoada. Embora se visse sozinha não sentira medo. Não saberia explicar, mas se sentia segura ali. Estava feliz, muito feliz. Quando voltei para o quarto enrolado na toalha ela me chamou e disse:
-Vem fazer amor comigo novamente. Me faz sentir tudo de novo.
Mais uma vez nos amamos, desta feita com mais intensidade e carinho. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo, tamanha era nossa intimidade. Depois do amor, nos abraçamos na cama e após um longo silêncio perguntei:
-Carol, você já pensou que a gente não tem chances, que não podemos ficar juntos?
-Posso ficar com que eu quiser. Sou rejeitada, mas sou dona do meu nariz. Não tenho pais, não tenho ninguém. Logo posso fazer o que quiser e ficar com quem quero e, acredite, quero você. A não ser que você não me queira.
-Não é isto que estou falando, você nem me conhece, como pode saber que é realmente a mim que quer? Como pode saber que sou a pessoa certa para você.
-Intuição. Não preciso te conhecer mais do que conheço. Já vi quem você é e pronto. Sou uma pessoa determinada, sei o que quero pra mim. Brigo com o mundo se preciso for.
-Eu espero que não lhe traga mais problemas do que já tem. As coisas não vão ser como você está pensando. Por mais que não seja filha biológica, que seus pais a rejeitem, você é registrada como tal. Acha mesmo que eles vão admitir que se relacione com alguém como eu? Pobre e sem status?
-Meus pais não ligam para mim. Nunca ligaram. Não se importam com que eu ando ou com o que faço. Você verá que é assim. Não me deixe agora Caco, por favor! Preciso de você. Quero que me ajude.
-Como assim?
-Preciso encontrar meus verdadeiros pais. Não sei bem o que aconteceu para que eles me entregassem aos traficantes. Nem sei se fui realmente entregue ou se fui roubada. Talvez eles me procurem até hoje. Todos os dias vemos nos jornais pais que procuram seus filhos desaparecidos, às vezes por décadas. Tudo que Paula me disse não me dá muitas pistas. Só sei que vim do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Minuano. Mas já é um bom ponto de partida. É por lá que temos que começar.
-Temos que começar? Está ficando louca? Que acha que vou fazer? Abandonar minha vida, meu trabalho para sair com você procurando seus verdadeiros pais? Não, isto não faz sentido, nem vai dar o meu sustento.
-Não pedi para você largar a sua vida, só pedi a sua ajuda. Mas te digo uma coisa Caco: com ou sem você vou descobrir a minha origem, custe o que custar, farei qualquer coisa para isto.
-Você é realmente muito determinada. Preciso pensar em tudo isto. Parece que de ontem pra hoje minha vida virou 180 graus.
-Se a sua virou assim, imagine a minha. Até ontem eu pensava ter pais e uma irmã. Verdade que eles me tratavam de uma forma estranha. Sem carinho, com desprezo até. Sempre achei que havia algo estranho até aquela cobra me dar de presente de aniversário toda a verdade.
-O que pretende fazer agora?
-Não sei. Ainda não decidi. Preciso pensar o que fazer com muita calma. Talvez procurar a polícia. Se é verdade que eles me compraram na mão de traficantes, então cometeram um crime, não foi?
-É, acho que sim.
-Por outro lado isto já tem mais de vinte anos. Já deve ter prescrito. Dr. Mário Constantino é uma raposa velha. Advogado sem escrúpulos, sabe como ninguém se precaver de algum problema. Mas acho que posso contar com meu padrinho. Este sim foi um grande pai pra mim. Só não consigo entender porque nunca me contou a verdade. Poderia estar magoada com ele, mas sei que deve ter tido um motivo muito forte. Tenho que procurá-lo. Meus pensamentos estão muito confusos. Preciso por a cabeça no lugar. Posso ficar aqui hoje?
-Claro que sim! Eu vou adorar.
-Vou pensar em todas as possibilidades que tenho, qual o trunfo que disponho. Tem que haver uma forma. Preciso saber de tudo, caso contrário não terei paz o resto dos meus dias.
-Cuidado para você não se machucar mais ainda. Tem coisas na vida que é melhor a gente nem ficar sabendo.
-Caco, quando uma coisa martela nossa mente, por pior que seja, é melhor ficarmos a par. Nunca vou saber se é ruim caso não a conheça, entende? E, além do mais, se não tentar morrerei na dúvida. Isto aprendi com meu pai, aliás, com Dr. Mário. Nem sei se tenho pai.
-Claro que você tem pai Carolina. Eles te criaram, não esqueça disto. Te deram tudo que tem hoje?
-E o que tenho hoje? Diga-me. Eles só me aturaram por não ter outro jeito. Por serem culpados e não poderem se livrar de mim. Tudo sempre foi para Paula. O mais importante principalmente: o carinho, o amor. Eu nunca tive nada nesta vida Caco. Só ilusões, sonhos e decepções.
-Carol, tome muito cuidado com os seus sentimentos. Não deixe que o ódio a domine, ele pode lhe destruir. Lembre-se sempre que a capacidade de perdoar é muito mais nobre e gratificante que a vingança. Aliás, a melhor vingança é o perdão.
-Não quero me vingar de ninguém, quero apenas me descobrir. Não que ache isto a solução dos meus problemas, mas se estivesse no meu lugar iria me entender. Eu devo ter um pai e uma mãe Caco. Os que me geraram. O que aconteceu com eles? Será que estão vivos? Porque me deram para outros criarem? Será que me deram mesmo ou fui roubada por alguém? E esta história de tráfico de crianças? Você acha que isto deve ficar impune? Não Caco, preciso muito saber de tudo e, acredite, saberei. Quando boto uma coisa na cabeça nada me faz recuar e não vai ser dessa vez. Talvez, depois de saber tudo até entenda melhor os meus pais, tanto biológicos como de criação. A verdade é que isto me dá um novo sentido na vida, algo que não existia. Viver para mim era apenas passar e agora é o caminho para chegar a um lugar específico. Um objetivo, algo porque lutar. Preciso fazer meu caminho de volta para entender como e porque estou aqui. Entende?
-Acho que sim minha princesa, espero só que você não se machuque mais. Vou ver como poderei ajudá-la ta?
-Oh meu amor! Eu sabia que poderia contar contigo. Soube disto desde o momento que me olhou no banco daquela praça.
-Eu tenho medo de me envolver com isto, tenho que ser sincero. Não sei o que pensar.
-Mas eu sei. Sei o que me fez sentir, sei que me tornou mulher. Nunca me senti tão amada e valorizada. Você deu a minha vida um significado. Algo que ela nunca teve.
-Vá tomar um banho meu amor. Vou preparar algo pra gente tomar o café da manhã às cinco da tarde.-Falei rindo.
Enquanto eu cortava umas frutas para um suco e fazia uns sanduíches Carolina tomou banho e veio ao meu encontro. Falava como uma desesperada, não parava um minuto sequer. Eu, atordoado, tentava assimilar suas palavras, mas era difícil para mim. Tudo porque segui aquela mulher. Mas que mulher? Linda, meiga, decidida, fascinante. Sem querer estava me envolvendo num problema muito sério e era preciso tomar uma decisão logo, antes que fosse tarde demais. Eu sentia que minha vida nunca mais seria a mesma. Só não sabia o que estava por vir. Se seria melhor ou pior de tudo que já tinha vivido. O que me esperava naquele caminho de volta?
-Carolina. Espero que não me leve a mal. Preciso ficar sozinho por um tempo. Acho que você também. Fique a vontade. Se quiser ligue o som ou a televisão, ou pegue um livro na estante. Vou sair para caminhar, não demoro.
-Vai Caco. Estarei aqui esperando você. Ela me beijou. Eu estremeci, senti um arrepio frio na espinha. Saí sozinho e caminhei até a orla. Vaguei sem rumo olhando o mar. O que estava do outro lado dele?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O SUSTO


O susto é o prenúncio do medo
O medo que está por vir
Ou aquele que já veio?
Do veio porvir
Porventura
A cura do medo
Segredo sem farol
Labareda no teu seio
Alimento na ponta do anzol
Assombração entre o arvoredo

Medo, medo, medo
Segredo, segredo, segredo
Arvoredo, arvoredo, arvoredo
Ventura, ventura, ventura
A cura, a cura, a cura
Pura, pura, pura

Assombração entre o arvoredo
Alimento na ponta do anzol
Labareda no teu seio
Segredo sem farol
A cura do medo
Porventura
Do veio porvir
Ou aquele que já veio?
O medo que está por vir
O susto é o prenúncio do medo

domingo, 9 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 02

A vida de Carolina foi um verdadeiro conto de fadas até seus três anos de idade. Como única filha, era paparicada por todos. Pai, mãe e avós. Tinha tudo do bom e do melhor vivendo rodeada de presentes e carinho. Chegava a ser demasiado o dengo com o qual era tratada por todos. Tinha tudo para ter uma vida de rainha até que, sem que ela pudesse imaginar, um fato novo viria mudar toda a sua vida e o seu destino daquele dia em diante.
Quando Mário e Sandra resolveram criar Carolina, se conformaram plenamente com aquele desvio do destino. Já que não podiam ter filhos, era esta a vontade de Deus, o jeito seria adotar uma criança. Numa circunstância um tanto estranha conheceram Carolina. A paixão foi imediata. A menina era linda e ainda um bebê de dias. Pele alva e olhos claros o que muito contava para o preconceituoso casal. Dedicaram-se como verdadeiros pais à criação da menina. Registram-na como filha legítima e em tudo no que mais poderia influir na sua formação assim agiam. Sandra até já havia esquecido que jamais poderia ser mãe. Era como se já fosse e pronto. Até fizeram um pacto com os avós maternos e paternos para que jamais fosse revelada a Carolina a sua origem, bem como a qualquer outra pessoa. Sandra não comentara sobre o seu problema com ninguém e, logo que tomaram Carolina para criar, viajaram para a Europa onde passaram quase dois anos. Ao voltar, foi fácil apresentar a menina sem levantar suspeitas. Ela cresceria acreditando ser filha biológica do casal. Tudo isto estava perfeito até março de 1972. Naquela época, Dr. Ciszen retornara de uma viagem de três meses aos Estados Unidos onde fizera um curso de aperfeiçoamento. Ele que, além de médico, era amigo íntimo da família, assim que chegou a Salvador foi a casa dos Constantinos para uma visita, para matar as saudades de Carolina por quem se afeiçoara muito e para contar as boas novas que trazia de lá para o casal.
-Dr. Ciszen! Grande prazer ter o amigo de volta! Vamos fazer um brinde de boas vindas.
-Senti muitas saudades Mário. Esta terra é maravilhosa, realmente mágica. Posso ir pra qualquer lugar do mundo, o mais civilizado que seja, mas só me sinto em casa no Brasil e, principalmente, em Salvador. Aqui tenho meus amigos, minha família, minha casa de praia, enfim, tudo meu está aqui. E Sandra? Tudo bem. E a pequena Carol, estou com saudades da minha afilhada. Deve ter crescido um bocado nesses três meses hein? Deve estar linda. Estou louco para vê-la.
Mário pediu que Aurino chama-se a patroa e descesse com Carolina.
-Mas diga Ciszen, como vão as coisas na América. Lá já é primavera, daqui a pouco chega o verão. Irei a Nova York em breve. Preciso resolver uns negócios para um cliente.
-Aquilo nunca muda. Acho o povo frio, feio e chato. Não posso negar que estão a nossa frente, mas prefiro meu Brasil, por mais esculhambado que seja.
-Que nada Ciszen, aquilo sim é que é país. Não esta porcaria de Brasil.
-Amigo não cuspa no prato que come todos os dias.
Durante aquela conversa informal desce Sandra sem Carolina.
-Ciszen! Que prazer tê-lo de volta. Carolina está dormindo, por isso não a trouxe. Ela ficaria muito feliz em vê-lo.
-Deixa ela dormir Sandra, quando acordar a verei.
-Vai ficar para jantar conosco. Vou providenciar seu prato predileto.
-Já que a senhora tanto insiste, não tenho como recusar.
-Mas conte-nos como foi a viagem e o curso. – Falou Sandra.
-Foi tudo muito bom graças ao bom Deus. Pra vocês é que trago uma notícia que, creio eu, vai agradar-lhes muito.
-Não diga! Do que se trata? – Indagou Mário curioso.
-Nos estudos que fiz por lá tomei conhecimento de uma nova técnica no tratamento de alguns casos de infertilidade feminina que creio casar muito bem com o caso de Sandra. Através de um tratamento moderno, desenvolvido por um especialista americano, mulheres como você, têm conseguido em 90% dos casos, restabelecer a possibilidade de ter filhos. O método já foi testado em larga escala com muito sucesso. É um tratamento caro e, por enquanto só pode ser realizado lá. Mas isto não é problema para vocês.
Sandra ouvia atentamente as palavras do médico. Elas lhe davam uma esperança há muito morta no seu coração. Um novo sentido na vida.
-O Sr. acha que valeria a pena submeter-me a um tratamento desses Ciszen?
-Sandra, já diz o ditado que a esperança é a última que morre. Pode não dar certo, mas jamais saberá se não tentar. Deve sim estar preparada psicologicamente para um resultado negativo. Você já tem Carolina que uma princesinha. Caso não dê certo não amargará mais a dor de não ser mãe.
-Dr., Sandra já se conformou com a nossa situação. Temos Carolina que é tudo para nós. Tenho medo de, não dando certo, ela volte a ficar revoltada e caia naquela depressão. Não quero nem imaginar uma coisa assim.
-Calma Mário. Sou eu quem tenho que decidir. Afinal o problema está comigo.
-Eu sei amor, não é disto que falo. Pense bem, lhe darei todo o apoio seja qual for a sua decisão, mas confesso que temo algo de ruim.
-Mário, eu como médico ginecologista e obstetra, sei da importância que é para uma mulher gerar um filho no ventre. Sei também, e vocês mais do que eu, da frustração que é não poder gerá-lo. E, além disso, sou daquelas pessoas que só se dão como perdida quando se esgota a última das últimas das tentativas. Acho que vale a pena Sandra tentar o tratamento.
-Eu quero Dr., quero tentar. O Sr. me dá novas esperanças, este sempre foi o meu sonho. Preciso tentar novamente.
-Posso indicar vocês ao Dr. Clark Gate. Ele é uma das maiores sumidades do mundo no assunto. Foi ele quem desenvolveu este novo método revolucionário. Mário disse-me que está indo a Nova York em breve. Poderiam aproveitar a viagem e fazer uma consulta. Não custa nada. Só ele vai poder dizer se o tratamento se aplica ou não ao seu caso. Pelo que sei, já que fui eu quem acompanhou o seu problema desde o início, e, pelo que estudei por lá, acho que tem grandes chances de dar certo.
Sandra ficou entusiasmadíssima. Nada a impediria de fazer a consulta. Se Dr. Ciszen tinha esperança é porque ela tinha chances. Quem mais do que ele poderia saber disso? Mesmo que Mário não concordasse, ela iria se consultar. Porém, Mário jamais deixou de fazer as vontades de Sandra e não seria desta vez. Acabou por concordar em levá-la na viagem para que pudesse ir ao médico.
A intenção de Ciszen foi a melhor possível. Gostava muito de Sandra e de toda a família. Ela e a mãe eram, além de amigas, suas pacientes há anos. Mas, gostava muito mais de Carolina que além de sua afilhada era como a filha que sempre desejou e não teve. Não teve também coragem de adotar uma e a sua consciência lhe cobrava isto. Se imaginasse o mal que estava fazendo a menina ao sugerir o tratamento a Sandra, jamais teria dito nada.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ANA CAROLINA

O vídeo já diz tudo. O poema de Elisa Lucinda e a parceria de Tom Zé. Sem comentários!

NA BAIANA DO ACARAJÉ

-Diga aí freguês?
-Baiana, vê um com e um sem pra viage.
-Bota pimenta?
-Tá muito retada?
-Tá boa.
-Então bota como se o cu fosse seu. Tem guaraná?
-Sim. Tem coca, fanta, fanta uva e soda.
-Bota uma coca pra viage também. Sabe dizer onde eu pego o buzu pra Muriçoca?
-Faz o arrodeio a direita. Ele passa na pista de lá.
-Costuma demorar?
-Demora pra caralho. Só passa de caju em caju.
-Ôto dia peguei esse buzu e o motô botou pra fudê. Corria virado na nisgraça, acho que tava comeno água.
-Esses corno num respeita a gente. Leva o buzu como se fosse fusca. Ôto dia o motô fez uma curva virado na porra e derramou meu balaio todo.
-Filho da puta! Porque você num mandou ele pra casa da porra?
-É que tava na pendura, num podia reclamar. Cê sabe né, as vez a gente pega carona.
-Cê tava indo pronde?
-Da Curva Grande pro Pau Miúdo.
-Ah! Longe pra porra.
-O pior né isso. O buzu tava intupido e tinha um viado fazeno terra em mim. Mandei o sujeito tomar no lugar que galo gosta. Que falta de respeito!
-Pois é baiana. O povo num respeita mais nada. É foda! Cê já viu que tem um carioca trabalhano na padaria de seu Nonô?
-Vi, acho que ele é meio tiziu do peito seco.
-Pois é. O sacana ficou rino da minha cara porque pedi uma vara e dois cassetinho, pode?
-Pode não batera, quem essa bicha pensa que é?
-Sei lá. Aquela coca é fanta mesmo.
-Tô indo baiana. Vou levá o acarajé da nêga antes que isfrie. Ah! Bota uma punheta também. Quanto é?
-Seis real.
-Bota no prego baiana. De hoje a oito eu te pago.

P.S. Este texto é quase uma transcrição literal de um diálogo que ouvi ontem entre a baiana e um cliente quando fui comprar um acarajé.

Glossário de Regionalismos

Diga aí freguês: Saudação de comerciante, principalmente feirante, camelôs e baianas de acrajé, aos seus clientes.
Baiana: Vendedora de acarajé.
Um com, um sem: Acarajé com e sem camarão.
Muito retada: Muito forte, ardendo demais.
Como se o cu fosse seu: pouca pimenta.
Guaraná: Para o baiano guaraná é sinônimo de refrigerante.
Viage: Viagem.
Buzu: Ônibus coletivo.
Muriçoca: Pernilongo. Neste caso alusão ao Vale da Muriçoca que liga o bairro da Federação a Av. Vasco da Gama em Salvador.
Arrodeio: Retorno.
Pra caralho: Muito.
De caju em caju: De quando em vez, espaçadamente.
Ôto: Outro.
Nisgraça: Desgraça.
Comeno água: Fazendo uso de bebida alcoólica.
Motô: Motorista.
Virado na Porra: Forte, nervoso, com muita intensidade.
Balaio: Cesto grande trançado de vime ou cipó.
Na Pendura: Fiado ou de graça.
Num: Não
Cê: Você.
Pronde: Para onde.
Curva Grande: Ladeira no bairro do Garcia em Salvador.
Pau Miúdo: Bairro de Salvador.
Intupido: Muito cheio, entupido.
Fazeno terra: Roçar por trás nas pessoas.
No lugar que galo gosta: No cu.
Trabalhano: Trabalhando.
Tizio do peito seco: Homossexual.
Rino: Rindo.
Vara: Pão francês 200g.
Cassetinho: Pão francês 50g.
Batera: Amigo, parceiro.
Aquela coca é fanta: O rapaz é gay.
Nêga: Esposa, namorada, amante.
Isfriar: Esfriar.
Punheta: Bolinho frito de tapioca coberto com açúcar e canela em pó. Também conhecido como bolinho de estudante.
Botar no prego: Pendurar, fazer fiado.
De hoje a oito: Daqui a uma semana.