Adriano Carôso

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

PALAVRAS




Se as pessoas bem soubessem
O valor que as palavras têm
As economizariam
Como ao dinheiro também

Assim como o vil metal,
É preciso saber usá-las
Comedidamente, com cuidado,
Não gastá-las

Muita gente tem dinheiro
Mas não sabe se conter
Gasta pelo mundo inteiro
Até tudo se perder

A palavra é assim
Também pode acontecer
Se falar, falar sem fim
Mesmo sem nada a dizer



quarta-feira, 19 de maio de 2010

ESPERANDO POR ELA

Ela vem vindo, amada
Ela vem vindo, faceira
Ela vem vindo, bonita
Ela vem vindo, menina

Ela vem vindo, saudável
Ela vem vindo, a luz
Ela vem vindo, pra nós
Ela vem vindo, divina

Ela vem vindo, em mim
Ela vem vindo, em ti
Ela vem vindo, canção
Ela vem vindo, criança

Ela vem vindo. mulher
Ela vem vindo, poema
Ela vem vindo do ventre
Onde pra nós ela dança.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TERRA BAHIA


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Terra Brasil, brasileira
Parada primeira
Colonização
Que se regala festeira
À sua maneira
Num só coração

Berço de tantos talentos
Fortes monumentos
Da nossa cultura
Velhos, rapazes, rebentos
Palavras, inventos
A arte mais pura

Terra de mil Caetanos
Caroso, Adrianos
Valverdes e Rosas
Terra dos Novos Baianos
Amados, fulanos
De Ruys e Barbosas

Terra de boa comida
Gilbertos dão vida
Pros tempos de paz
Castros e Alves na lida
Poesia esculpida
Versos de Moraes

Lugar onde o vento gorjeia
Menina, sereia
Tarde, Itapoã
Quem se deitar nesta areia
Pulsará na veia
De um belo amanhã

Onde renasçam Caimmys
Com notas sublimes
Rede e violão
Onde na esteira de vime
Preguiça é vitrine
Para uma nação

Onde nasceram Marias
Bethânias, poesias
Costas e Gal
Caldas, Dodôs e folias
Reinado de dias
O som, carnaval

Cantam Sangalos e Leites
Pra nosso deleite
Macedos, João
Fortes como seu azeite
Tempero de peixes
Abará, camarão

Dadá e seu sorriso lindo
Nascendo, fluindo
Para exportação
Porto seguro, menino
Correndo, carpindo
Mais uma canção

Terra de tantas belezas
Naturais riquezas
De mares e rios
Terra de tão farta mesa
Alegria e tristeza
Num só desafio

Aqui nasceram pessoas
Tão raras, tão boas
Quase uma elegia
Tu és o hino que entoa
O sino que soa
És terra, Bahia!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O VENDEDOR


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Conta a piada que um certo vendedor, desesperado pela grande maré de azar que atravessava, há meses não preenchia uma folha no seu talão de pedidos, resolveu não trabalhar naquele dia e vagava pela praia procurando espairecer. De repente, uma dor lancinante. Descalço que estava, topara com toda força num objeto metálico e quente por causa do sol em brasa. Depois de proferir palavrões inenarráveis, abaixou-se para acariciar o dedão na vã tentativa de aplacar a dor. Neste momento observou que o tal objeto, nada mais era que a lâmpada perdida por Aladim. Sem titubear, alisou o objeto mágico libertando o Gênio de séculos de prisão.
-O senhor é meu amo, pois me libertou. Com isso terá direito a três pedidos.
-Um minutinho só, enquanto vou correndo no carro buscar o talão.
Não sei se por coincidência ou por capricho do destino, veio parar na minha mão por empréstimo, o livro O Vendedor de Sonhos de Augusto Cury, justamente no momento que acabo de me tornar um vendedor, não de sonhos, não tenho tal pretensão, mas de remédios e produtos de farmácia. Ainda não descobri o que esse maravilhoso livro, pude perceber isso pelo pouco que li até agora, terá relação com minha nova atividade. Mas uma história destas, contada de maneira tão deliciosa, com ensinamentos profundos, com certeza terá sua contribuição no meu engrandecimento nesta nova jornada.

Ainda não tinha contado isto a vocês, mas depois de um ano desempregado, acumulando dívidas e à beira do desespero, me apareceu esta oportunidade que agarrei com mãos, pés, boca e tudo mais que sirva para agarrar alguma coisa. Vale lembrar que isto foi uma mudança radical na minha vida. Primeiro porque tive que me mudar. Agora fixei residência em Serrinha, a 170 km de Salvador, para poder atender a região que darei cobertura, o sertão baiano, na área da produção de sisal. São muitas cidades que visito semanalmente: a partir de Serrinha, que também faz parte do meu setor, vem: Teofilândia, Araci, Jorrinho, Caldas do Jorro, Tucano, Quijingue, Euclides da Cunha, Uauá, Canudos, Monte Santo, Cansanção, Nordestina, Queimadas, Santa Luz, Valente, Retirolândia, Conceição do Coité, até chegar novamente a Serrinha, perfazendo uma ferradura de mais de 600 km de extensão.

Depois, tem o fato de nunca eu ter tido experiência com vendas e não entender praticamente nada de medicamentos e suas substâncias com nomes estrambólicos, parecidos, muitas vezes, e de difícil assimilação. Com isso, venho dando muitas cabeçadas, mas, depois de quase três semanas de atividade, acho que estou me saindo até bem, numa otimista auto-avaliação. Este é um dos motivos, sem querer aqui dar nenhuma desculpa esfarrapada pelo meu desaparecimento do mundo maravilhoso dos blogs. A verdade é que pouco estou podendo acessar a net. Trabalhando quase 13 horas por dia, perambulando por cidades que, na sua maioria, não tem internet nos hotéis, como é o caso de agora que escrevo sozinho, num aconchegante, limpo e agradável quarto de hotel em Santa Luz, ficou mais difícil de escrever coisas novas, ler meus autores blogueiros prediletos e, principalmente, comentar nas suas maravilhosas postagens.

Bem, voltando ao vendedor, não consigo descrever a sensação sentida quando por fim, gastei a primeira folha do meu talão de pedidos. Foi deslumbrante, mesmo tendo sido um pedido pouco acima do pedido mínimo e longe de ser um bom pedido. Quase tremia ao preencher aquelas poucas linhas com quantidades, nomes confusos e pouca compreensão. Como um bom sinal, foi no meu primeiro dia de trabalho. Segundo os experientes da área, isto não é fácil. Ponto pra mim. É claro que venho dando minhas cabeçadas, mas aos poucos estou encontrando meu estilo, minha forma de vender. Não sonhos, estes vou tendo enquanto dirijo sob o sol escaldante do sertão baiano, suado nas roupas quentes e apresentáveis que agora sou obrigado a usar, mas os Diclofenacos, Losartanas, Fluoxetinas, Cloridratos e tantos outros acos, anas e inas da vida, pagando propinas a guardas rodoviários para não me multarem por causa das duas linhas de vidro trincado no pára-brisa do meu carro, que a precária situação financeira não me deixou trocar.

Já foram várias as garfes que cometi. Como perguntar ao cliente o fabricante de determinado remédio mais conhecido que o Papa e ouvi dele: -Já vi que você é marinheiro de primeira viagem. –Sim. Respondi. –Porém, não conheço nenhum marinheiro experiente que não tenha dado a primeira viagem ou alguém que aprendeu a nadar sem se jogar pela primeira vez na água. Semana passada, eu cometi uma outra que me deixou muito envergonhado. Depois de conhecer, num pequeno intervalo de tempo, mais de cem pessoas, cometi a imprudência de confiar na memória. Entrei num estabelecimento, sem consultar minhas anotações, que já tinha visitado na semana anterior e chamei sua dona pelo nome.
-Como vai Dona Maria Luiza?
-Bem, mas me chamo Rita de Cássia.
Desconsertado falei a primeira bobagem que me veio na cabeça:
-Maria Luiza e Rita de Cássia? É quase a mesma coisa, chega até a rimar.
Era a cidade de Queimadas, onde até hoje eu não tinha tirado nenhum pedido. É claro que a senhora não comprou nada em minha mão, por mais que eu tentasse me redimir. No lugar dela eu também não compraria.
- Não se zangue comigo D. Rita. Conheci muitas pessoas nos últimos dias e fica difícil gravar o nome de todas. Tire um pedidozinho com seu amigo, para batizá-lo na cidade. Ainda não vendi nada aqui em Queimadas. Preciso mandar o leite da menina.
-Não foi nada Adriano. Não tem nada a ver com isso. Estou sem faltas, já pedi o que precisava com outros representantes. Quem sabe na próxima semana.

Não botei muita fé. Aquelas palavras foi o que eu mais tinha ouvido nos últimos dias. Fui embora desolado sem vender um comprimido na cidade. Hoje, estava retornando à Queimadas e, entrando na cidade, alguns versos surgiram de repente na minha cabeça quase a porta da farmácia da simpática senhora. Então não titubeei. Desci do carro e entrei no estabelecimento falando:

O que D. Rita de Cássia precisa
É tirar um pedido com Adriano
Para que este não cometa o engano
De chamar-lhe Maria Luiza

E aí D. Rita de Cássia?
Flor das acácias de terras amadas
Minha caneta está pronta
Pra marcar na sua ponta
Meu batismo em Queimadas.
Ela riu, olhou meu catálogo e fez um gordo pedido. Mais um ponto para mim. Quem sabe um dia eu chego lá? Eu acredito e continuo sonhando.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

MEU PÉ DE CAJU

Fração dos meus averes prediletos
O meu pé de caju detrás de um muro
Safra em safra me dá frutos seletos
Mas deles ele logo fica puro

Além do passaredo e dos insetos
Mazelas naturais que lhe não curo
Com pedradas garotos irriquietos
Lá não deixam para mim caju maduro

Não me zango, porque não me exaspera
A garotada lesta divertida
A derribar cajus....

E até quisera ser eu
Um pé de caju da mesma classe
Para que produzindo nesta vida
Desse fruto a quem pedra me jogasse.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O SUSTO


O susto é o prenúncio do medo
O medo que está por vir
Ou aquele que já veio?
Do veio porvir
Porventura
A cura do medo
Segredo sem farol
Labareda no teu seio
Alimento na ponta do anzol
Assombração entre o arvoredo

Medo, medo, medo
Segredo, segredo, segredo
Arvoredo, arvoredo, arvoredo
Ventura, ventura, ventura
A cura, a cura, a cura
Pura, pura, pura

Assombração entre o arvoredo
Alimento na ponta do anzol
Labareda no teu seio
Segredo sem farol
A cura do medo
Porventura
Do veio porvir
Ou aquele que já veio?
O medo que está por vir
O susto é o prenúncio do medo

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ANA CAROLINA

O vídeo já diz tudo. O poema de Elisa Lucinda e a parceria de Tom Zé. Sem comentários!

NA BAIANA DO ACARAJÉ

-Diga aí freguês?
-Baiana, vê um com e um sem pra viage.
-Bota pimenta?
-Tá muito retada?
-Tá boa.
-Então bota como se o cu fosse seu. Tem guaraná?
-Sim. Tem coca, fanta, fanta uva e soda.
-Bota uma coca pra viage também. Sabe dizer onde eu pego o buzu pra Muriçoca?
-Faz o arrodeio a direita. Ele passa na pista de lá.
-Costuma demorar?
-Demora pra caralho. Só passa de caju em caju.
-Ôto dia peguei esse buzu e o motô botou pra fudê. Corria virado na nisgraça, acho que tava comeno água.
-Esses corno num respeita a gente. Leva o buzu como se fosse fusca. Ôto dia o motô fez uma curva virado na porra e derramou meu balaio todo.
-Filho da puta! Porque você num mandou ele pra casa da porra?
-É que tava na pendura, num podia reclamar. Cê sabe né, as vez a gente pega carona.
-Cê tava indo pronde?
-Da Curva Grande pro Pau Miúdo.
-Ah! Longe pra porra.
-O pior né isso. O buzu tava intupido e tinha um viado fazeno terra em mim. Mandei o sujeito tomar no lugar que galo gosta. Que falta de respeito!
-Pois é baiana. O povo num respeita mais nada. É foda! Cê já viu que tem um carioca trabalhano na padaria de seu Nonô?
-Vi, acho que ele é meio tiziu do peito seco.
-Pois é. O sacana ficou rino da minha cara porque pedi uma vara e dois cassetinho, pode?
-Pode não batera, quem essa bicha pensa que é?
-Sei lá. Aquela coca é fanta mesmo.
-Tô indo baiana. Vou levá o acarajé da nêga antes que isfrie. Ah! Bota uma punheta também. Quanto é?
-Seis real.
-Bota no prego baiana. De hoje a oito eu te pago.

P.S. Este texto é quase uma transcrição literal de um diálogo que ouvi ontem entre a baiana e um cliente quando fui comprar um acarajé.

Glossário de Regionalismos

Diga aí freguês: Saudação de comerciante, principalmente feirante, camelôs e baianas de acrajé, aos seus clientes.
Baiana: Vendedora de acarajé.
Um com, um sem: Acarajé com e sem camarão.
Muito retada: Muito forte, ardendo demais.
Como se o cu fosse seu: pouca pimenta.
Guaraná: Para o baiano guaraná é sinônimo de refrigerante.
Viage: Viagem.
Buzu: Ônibus coletivo.
Muriçoca: Pernilongo. Neste caso alusão ao Vale da Muriçoca que liga o bairro da Federação a Av. Vasco da Gama em Salvador.
Arrodeio: Retorno.
Pra caralho: Muito.
De caju em caju: De quando em vez, espaçadamente.
Ôto: Outro.
Nisgraça: Desgraça.
Comeno água: Fazendo uso de bebida alcoólica.
Motô: Motorista.
Virado na Porra: Forte, nervoso, com muita intensidade.
Balaio: Cesto grande trançado de vime ou cipó.
Na Pendura: Fiado ou de graça.
Num: Não
Cê: Você.
Pronde: Para onde.
Curva Grande: Ladeira no bairro do Garcia em Salvador.
Pau Miúdo: Bairro de Salvador.
Intupido: Muito cheio, entupido.
Fazeno terra: Roçar por trás nas pessoas.
No lugar que galo gosta: No cu.
Trabalhano: Trabalhando.
Tizio do peito seco: Homossexual.
Rino: Rindo.
Vara: Pão francês 200g.
Cassetinho: Pão francês 50g.
Batera: Amigo, parceiro.
Aquela coca é fanta: O rapaz é gay.
Nêga: Esposa, namorada, amante.
Isfriar: Esfriar.
Punheta: Bolinho frito de tapioca coberto com açúcar e canela em pó. Também conhecido como bolinho de estudante.
Botar no prego: Pendurar, fazer fiado.
De hoje a oito: Daqui a uma semana.