Adriano Carôso

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

PALAVRAS




Se as pessoas bem soubessem
O valor que as palavras têm
As economizariam
Como ao dinheiro também

Assim como o vil metal,
É preciso saber usá-las
Comedidamente, com cuidado,
Não gastá-las

Muita gente tem dinheiro
Mas não sabe se conter
Gasta pelo mundo inteiro
Até tudo se perder

A palavra é assim
Também pode acontecer
Se falar, falar sem fim
Mesmo sem nada a dizer



quarta-feira, 19 de maio de 2010

ESPERANDO POR ELA

Ela vem vindo, amada
Ela vem vindo, faceira
Ela vem vindo, bonita
Ela vem vindo, menina

Ela vem vindo, saudável
Ela vem vindo, a luz
Ela vem vindo, pra nós
Ela vem vindo, divina

Ela vem vindo, em mim
Ela vem vindo, em ti
Ela vem vindo, canção
Ela vem vindo, criança

Ela vem vindo. mulher
Ela vem vindo, poema
Ela vem vindo do ventre
Onde pra nós ela dança.

domingo, 4 de outubro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 10


Foram horas e horas de muito papo até os velhos amigos botarem as estórias em dia. Marcolino quis saber todos os detalhes da vinda de Antonio, ou melhor Joca, para Minuano. Não teve muito sucesso. Segundo Juca, o homem vivia praticamente em retiro, tinha pouco convívio social, e raramente vinha a cidade. O que se sabia ao certo é que mantinha estreita amizade com Padre Hermínio o amado pároco do lugar, que há anos comandava a paróquia da cidade. Foi justamente como sacristão da igreja, que José Carlos começara sua vida em Minuano. Atualmente tomava conta da fazenda do padre localizada há dois quilômetros da sede do distrito Passaredo e era ajudado por um dos seus cinco filhos, o mais velho, Zequinha. Quando chegou à cidade, a princípio sozinho, nos últimos meses do ano de 1972, tinha um aspecto muito diferente do homem que três anos antes tivera lá comprando a garota. Usava uma farta barba e cabelos compridos. Quando o vira pela primeira vez na igreja, Juca logo desconfiou que o conhecia de algum lugar, mas não conseguia lembrar exatamente de onde. Muito tempo se passou e nada de Bigodão lembrar de onde já vira aquele semblante. Mais ou menos um ano depois da chegada de Joca ao local, depois da missa matinal de domingo, Juca se aproximou do rapaz e o interpelou:
-Joca, há muito que quero te perguntar uma coisa. Tenho a clara impressão de já ter lhe visto antes, mas não consigo lembrar de onde.
-Com certeza o senhor nunca me viu. Sempre morei na Bahia na cidade onde Pe Hermínio morava e era sacristão da igreja dele por lá. Depois de muitos convites resolvi tentar a vida por estas bandas. Agora trouxe minha família.
-Mulher e filhos?
-Sim, seis filhos, mas dois estão com os avós na Bahia.
-Sabe Joca, tenho quase certeza que o conheço ou você parece muito com alguém que já vi antes, mas não consigo lembrar.
-Não senhor, deve estar havendo algum engano.
-Com certeza sim. Tenha um bom dia.
Juca não se conformou com as explicações do sacristão. Sentia um certo desconforto em suas palavras e isto o fez alimentar uma desconfiança gratuita por ele. Foram muitas as tentativas de reanimar a memória até que um dia desistiu.
Marcolino ouvia atentamente cada sílaba proferida pelo amigo.
-Continue Bigodão.
-Uma coisa me deixou mais intrigado ainda. Depois que interroguei o sujeito, ele passou a me evitar nas missas. Procurava não cruzar comigo e sempre virava o rosto para evitar meu olhar. Uns dois meses depois ele saiu da igreja, entrou um outro sacristão novinho e tive notícias que ele tinha ido tomar conta da fazenda que o padre acabara de comprar e por isso se mudara para Passaredo. Até que, pouco depois que o amigo tomou o chá de sumiço, ou seja uns oito anos depois que ele chegara aqui, o Pe Hermínio começou a organizar um jogo de futebol beneficente para os velhinhos e crianças da zona rural lá no campo da fazenda dele. Este evento acontece até hoje uma vez por ano. Os comerciantes e empresários da cidade patrocinam tudo. Tem um grande churrasco e um bingo de um grande prêmio. Às vezes motos, novilhas, já teve até carro. As cartelas são vendidas aos montes. É uma festa que movimenta toda a cidade. Mas eu tenho minhas dúvidas quanto a aplicação do dinheiro arrecadado.
-Você não tem jeito Juca, desconfia de todo mundo mesmo né Tchê?
-Bah Tchê! O homem tem um nível de vida muito alto. Carro novo, casa bonita, fazenda... Se bem que ele já tinha tudo isto antes de começar a organizar este evento. Dizem que ele é de uma família de muitas posses lá na Bahia. Aqui o sujeito é muito adorado.
-Então pare de difamar o pároco, amigo. O homem tá fazendo um trabalho social bonito e você levantando suspeitas.
-Bem, no primeiro ano desta festa, eu fui lá na fazenda ver o jogo e tentar a sorte no bingo. Lá pelas tantas eu vi o Joca tomando umas pinga num bar. Aí sentei pra conversar com ele. O cara já tava meio gambá e aquelas alturas já embolava a língua. Aproveitei sua situação e tentei mais uma vez perguntar de onde eu o conhecia. Não houve jeito dele falar nada, mas naquele dia percebi que sua barba estava mais baixa e seu rosto aparecia mais. Então me concentrei bastante no seu jeito de falar, nas suas feições e me lembrei. Foi aí que perguntei:
-Você conheceu Marcolino? – Ele ficou extremamente nervoso, gaguejou muito, falou um bocado de bobagem até responder que não. Não posso confirmar esta suspeita, não tenho como provar, mas dou minha cara a tapa se ele e Antonio não forem a mesma pessoa. E tem mais. Outra coisa que me intriga é a amizade dele com o padre. Veja se isto não é de se estranhar. Como ele soube da existência de uma criança na cidade cuja mãe morrera e o pai era um bêbado inveterado capaz de vender a própria filha? Alguém daqui o informou.
Neste momento as lágrimas rolaram mais uma vez no rosto de Marcolino. Juca percebeu a mancada que havia dado.
-Desculpe Marquinho, não quis ofender o amigo.
-Não se preocupe Juca. Você falou a pura verdade. Eu fui um crápula mesmo. É por isso que estou aqui, para tentar me redimir um pouco de tudo isto. Você acha então que o padre pode ter participado de tudo?
-Você não acha estranho, um ilustre desconhecido chega a cidade, compra uma menina e some. Três anos depois volta, vai trabalhar com o padre e é seu protegido. Todo mundo sabe disto, não é segredo para ninguém. Há quem fale até que eles têm mais que amizade.
-O povo também é fogo.
-Mas falam isso sim. Há quem diga que os dois são florzinha. Esta estória fica meio abafada porque Padre Hermínio é muito querido por aqui. Ajuda muita gente, faz muita caridade, mas se fala a boca pequena que enche Joca de presentes. Agora eu lhe pergunto, como ele soube da existência da menina? Não teria sido alguém da cidade que lhe deu o serviço?
-Mas se me lembro bem, Padre Hermínio tinha viajado para visitar familiares naquela época. Não estava na cidade.
-Isto só me deixa mais desconfiado. Acho que foi de propósito, para não levantar suspeitas.
-E porque o amigo deixou este assunto de lado? Não informou a polícia, por exemplo?
-Primeiro porque não tenho provas e segundo porque Gerusa deu queixa do amigo. Você lembra bem disto. Na época nada se pode provar e você só passou umas duas noites no xadrez. Mas com algo tão concreto poderia ter sido diferente e o amigo ficar numa situação complicada.
-Começo a achar que suas suspeitas têm fundamento Bigode. Preciso visitar este José Carlos. Como faço para encontrá-lo?
Juca ensinou a Marcolino como chegar a Joca. Os amigos conversaram muito, levantaram diversas hipóteses e Juca se comprometeu a ajudar o amigo.
Marcolino saiu do Bigodão com destino ao Hotel dos Pampas, recentemente inaugurado na cidade e foi muito bem recomendado por Juca. Seus pensamentos eram confusos, não conseguia articular as idéias, mas achava que o amigo tinha muita lógica nas suas suspeitas. Enquanto caminhava envolto nos seus pensamentos, ouviu uma voz conhecida no outro lado da rua.
-Marcolino, é você?
Olhou para o lado e viu Antonieta, prima de Gerusa. Atravessou a rua e se dirigiu a ela.
-Sou eu sim Antonieta. Foi bom encontrá-la aqui. Preciso muito falar com Gerusa. Ela ainda mora no mesmo lugar?
-Mora sim. A gente pensou que você tinha morrido. Por onde andou?
-É uma longa história. Vamos comigo a Gerusa que vou lhe contando.

domingo, 27 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 09


Quando o ônibus começou a se aproximar de Minuano o coração de Marcolino foi ficando apertado disparando no peito. Era difícil voltar a sua cidade natal após treze anos de ausência. Muitas eram as recordações negativas que aquele retorno lhe trazia. Sua culpa o corroía a cada dia, mas depois de muitos anos de trabalho interior, finalmente se sentia pronto para pisar novamente onde um dia, jogou sua vida no ralo e cometeu seu maior desatino. Tinha o claro objetivo de, naquele caminho de volta, resgatar sua dignidade e buscar pistas que o fizessem ter um ponto de partida para encontrar sua filha. Não conseguiria mais viver em paz caso não encontrasse a menina. Imaginava que ela não a perdoasse, sequer sabia que rumo sua vida teria tomado ou mesmo se estava viva, se morava no Brasil ou no exterior, se realmente caíra nas mãos de traficantes ou de um desesperado homem querendo realizar o sonho da paternidade ao lado da esposa infértil. Na verdade nada sabia além da certeza que ele precisava tentar. No meio a estes pensamentos as lágrimas lhe molharam o rosto jorrando dos seus olhos baços e azuis. A passageira sentada ao seu lado, observando o estado do homem, perguntou o que o acometia, se ela podia ajudar, mas ele apenas sussurrou poucas palavras:

-É só um homem velho, recomeçando a sua vida.

Quando final mente desceu do ônibus, observou atentamente as profundas mudanças que aconteceram no lugar. Agora já não era mais a agência de passagens na praça do coreto, a parada final do veículo. Uma pequena estação rodoviária fora construída no meio da Av. Érico Veríssimo, principal entrada da cidade que agora ganhara asfalto e um belo canteiro central com oitis amarelos a cada vinte metros. Imediatamente fora cercado por diversos motoristas de carros de praça oferecendo transporte. Ele no entanto, preferiu seguir a pé. Dois quarteirões a frente, dobrou a direita entrando na rua Getúlio Vargas com destino ao Bairro dos Italianos. As casas estavam mudadas, a maioria foram postas abaixo cedendo lugar a lojas de diversos segmentos, bancos e repartições. A rua havia se transformado numa espécie de centro comercial da cidade. Onde antes funcionava o Bar do Guri, lugar aonde tomara muitos e muitos goles da famosa Caninha Catarinense, hoje se via uma casa lotérica bem equipada, na esquina com Rua do Vaneirão, a antiga casa da família Menotti, era hoje um grande banco. O progresso finalmente havia chegado a Minuano. Começou a se perguntar se o eu primeiro destino ainda encontrava-se de pé. O Bar do Bigodão.

Ao fim da Getúlio se chegava à Praça Anita Garibaldi, mas conhecida como Praça do Coreto. Esta ainda conservava em sua maioria, o encanto singelo de treze anos atrás. O belo jardim, impecavelmente cuidado com seu relógio de flores, era a principal atração do lugar. Na esquina da secular farmácia Menotti, esta parecia não ter mudado nada nos últimos cem anos, se tinha acesso a rua do Meio onde finalmente Marcolino avistou a tão conhecida placa: Bar do Bigodão.

-Bigodão, bota um guaraná aí que agora não tomo mais a branquinha tchê!

Juca olhava abismado para o amigo de longas datas com seu farto bigode agora branco amarelado pelo fumo.

-És tu Marquinho? Ou será que bebi demais hoje?

-Não amigo, não bebeste não. Sou eu em carne e osso. Quem é vivo sempre aparece.

-Barbaridade guri. Onde andaste? Desde que sumiu a gente chegou a pensar que o amigo tinha passado destas para melhor.

-Ainda não chegou o meu dia Juca. Tenho muito a fazer nesta vida antes de desencarnar. É uma longa estória. Vamos sentar para eu lhe contar tudo.

Juca pedia a Moreno, seu principal funcionário, que tomasse conta de tudo, e entrou para os fundos do estabelecimento, onde mantinha uma espécie de escritório e depósito num pequeno quarto.

Marcolino contou tudo nos mínimos detalhes. Como vendeu Carolina, como gastou até o último centavo daquele maldito dinheiro, sua visão com a filha, a ida para Porto Alegre, tudo que sofreu e passou até ser acolhido pelo pessoal do centro. Contou que deixara de beber, que estudara e como se tornara o principal palestrante da casa. Como descobriu sua mediunidade e o quanto já tinha ajudado outros errantes que, assim como ele outrora, andavam perdidos na vida. Explicou para o amigo que estava empenhado em encontrar a filha e que para isso gastaria todos os dias da sua vida, era o seu plano de redenção.

-Então acho que tenho uma boa notícia para o amigo aqui.

-Que notícia Bigode?

-O sergipano Antonio, o que comprou a guria e na verdade se chama Joca, ou melhor José Carlos, e é baiano, está morando a doze quilômetros daqui, no povoado de Passaredo.

Marcolino entendeu que Deus havia lhe dado mais uma chance.

domingo, 20 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 08


Caminhei até o sol se por completamente. Quando voltei para casa já passavam das sete da noite. Encontrei Carolina absorta na janela, olhando para o horizonte, como se buscasse ali respostas para as inúmeras perguntas que martelavam sua mente. Não quebrei o seu silencio. Eu também procurava respostas para perguntas que sequer sabia enunciar. Sentei no chão da sala e a observei atentamente, até que ela falou.
-Caco, você vai lá em casa comigo? Queria dormir aqui mais uma noite, mas preciso pegar umas coisas. Você me deixa ficar aqui?
- Como posso dizer não a este rostinho angelical? Para falar a verdade vou amar tê-la mais uma noite ao meu lado. Vou tomar um banho rápido e saímos já.
Talvez eu ainda não tivesse consciência, mas acabara de mergulhar de cabeça num mar de tormentas e riquezas. Sem dúvida nenhuma, movido pelo amor. Seria possível um sentimento tão forte nascer em tão pouco tempo? Que magia tinha aquela garota para me deixar tão envolvido? Porque eu não ouvia a voz da razão? Não tinha respostas para nada daquilo apenas queria viver o momento que se apresentava, me deixar levar.
Pegamos um táxi e quinze minutos depois estávamos na frente de uma mansão cinematográfica, encravada num dos pontos mais altos do Horto Florestal, um dos mais nobres bairros da cidade. Carolina abriu o vidro, falou breves palavras ao segurança da guarita e em segundos o imenso portão de ferro torneado se abria a nossa frente. O táxi percorreu um caminho estreito que margeava uma piscina e um jardim, ambos deslumbrantes até chegar numa espécie de estacionamento para visitantes. Pedimos que nos aguardasse e entramos na casa pela porta da frente.
Eu olhava atentamente todos os detalhes. Nunca tinha estado numa casa daquelas, tão suntuosa e bonita. A sala era imensa, decorada com muito bom gosto e repletas de obras de arte. As esculturas foram as que mais me chamaram a atenção. Carolina tocou um sininho que descansava numa pequena mesa de canto, quando apareceu um senhor que aparentava estar perto dos setenta anos e tinha o típico porte de mordomo de romance inglês.
-Aurino, onde estão todos?
-Seus pais saíram senhorita. A senhorita Paula está com o namorado vendo um filme no home theater.
-Aurino, gostaria de lhe perguntar uma coisa, mas queria que fosse muito sincero.
-Pois não D. Carolina.
-Você tem muitos anos aqui em casa. Trabalha com meus pais desde antes do meu nascimento não é?
-Sim senhorita.
-Como foi que eles me adotaram?
-Do que a senhora está falando?
-Pare com isso Aurino. Sei que você sabe de tudo. Você vê tudo que se passa nessa casa.
-Não senhorita. Não tenho olhos, ouvidos ou boca. Faz parte do meu trabalho. Não deveria me perguntar tais coisas. Se quer saber de algo, porque não pergunta a Dr. Mário ou a D. Sandra?
-Se você fala assim é porque sabe de alguma coisa Aurino. Por favor me conte, eu preciso muito saber.
-Senhorita já disse que nada sei, não me pergunte mais nada.
Foram inúteis os apelos de Carolina. Aurino nada falou, sua fidelidade aos patrões era irretocável.
-Onde está Luzia, Aurino?
-Hoje é sua folga senhorita. Deve chegar mais tarde ou amanhã cedo.
-Obrigada.
Carolina dispensou os serviços do mordomo e falou com Caco.
-Meu amor, vou pegar algumas coisas lá em cima e já volto. Fique à vontade.
-Eu espero Carol. Não demore, não quero estar aqui sozinho se seus pais chegarem.
Trocaram um longo beijo e neste momento, vestindo apenas um camisão, entra na sala uma bela morena, de cabelos negros, olhos expressivos, sobrancelhas grossas e sensualidade à flor da pele. Olhou bem para o Casal e disse:
-Maninha! Não vai me apresentar seu mais novo namorado. Ele é um gato!
-Caco esta é minha irmã Paula.
-Muito prazer, me chamo Caio.
-Seja bem vindo Caco. O prazer é todo meu. –Falou Paula com um tom visivelmente provocador.
Neste momento Carolina me puxou pelo braço e fomos até seu quarto no andar superior. Lá chegando, enquanto ela botava umas mudas de roupa na mochila, ligou a televisão. Foi então que vimos a notícia num programa dominical. Seria aquilo uma coincidência?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TERRA BAHIA

Terra Brasil, brasileira

Parada primeira

Colonização

Que se regala festeira

À sua maneira

Num só coração


Berço de tantos talentos

Fortes monumentos

Da nossa cultura

Velhos, rapazes, rebentos

Palavras, inventos

A arte mais pura


Terra de mil Caetanos

Caroso, Adrianos

Valverdes e Rosas

Terra dos Novos Baianos

Amados, fulanos

De Ruys e Barbosas


Terra de boa comida

Gilbertos dão vida

Pros tempos de paz

Castros e Alves na lida

Poesia esculpida

Versos de Moraes


Lugar onde o vento gorjeia

Menina, sereia

Tarde, Itapoã

Quem se deitar nesta areia

Pulsará na veia

De um belo amanhã


Onde renasçam Caimmys

Com notas sublimes

Rede e violão

Onde na esteira de vime

Preguiça é vitrine

Para uma nação


Onde nasceram Marias

Bethânias, poesias

Costas e Gal

Caldas, Dodôs e folias

Reinado de dias

O som, carnaval


Cantam Sangalos e Leites

Pra nosso deleite

Macedos, João

Fortes como seu azeite

Tempero de peixes

Abará, camarão


Dadá e seu sorriso lindo

Nascendo, fluindo

Para exportação

Porto seguro, menino

Correndo, carpindo

Mais uma canção


Terra de tantas belezas

Naturais riquezas

De mares e rios

Terra de tão farta mesa

Alegria e tristeza

Num só desafio


Aqui nasceram pessoas

Tão raras, tão boas

Quase uma elegia

Tu és o hino que entoa

O sino que soa

És terra, Bahia!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 07


Quando Sandra terminou o tratamento com Dr. Clark e finalmente engravidou, sua vida ganhou um novo sentido. Todas as dores e inseguranças do passado se dissiparam e ela teve a impressão que definitivamente agora era uma mulher completa para a vida e para Mário, seu devotado e fiel marido. Foi uma gravidez tranqüila, embora coberta de cuidados redobrados. Dr Ciszem a acompanhou durante a gestação em Salvador e pôde observar o novo ânimo e gás que o fato trouxera para a amiga. Uma coisa no entanto o preocupava muito. Depois de grávida, Sandra demonstrara um progressivo desinteresse por Carolina fato que, parecia, o marido também compartilhava. Muito apegado à afilhada, a quem tinha como uma filha, Ciszem começou a temer pelo destino da menina. Embora procurasse através de conversas abrir os olhos do casal, sentia seu esforço esvair-se sem sucesso. Quanto mais se aproximava a data do nascimento de uma nova menina, já batizada de Paula Cristina, mais o casal deixava Carolina de lado.

Quando Paula nasceu, Carolina já com três anos, cada vez mais bela e inteligente, começou a perceber que não ocupava mais o mesmo espaço naquela casa. As atenções eram todas agora voltadas para o bebê recém chegado. Na inocência infantil, não podia mensurar as conseqüências do abandono cada vez maior que sofreria e a devastação irreversível que tal fato provocaria em sua vida. Extremamente sensível, Carolina absorvia profundamente, cada atitude, cada demonstração de carinho, afeto, indiferença, enfim, ela absorvia mais que os seres humanos normais, qualquer sentimento a ela dedicado, fosse bom ou ruim. E assim a menina foi aos poucos ficando carente, complexada e triste. Era incapaz porém, de reclamar, de se fazer ouvir. Interiorizava tudo a sua volta, e em pouco tempo, tornou-se um paiol transbordando, pronto para explodir a qualquer momento.

Paula foi criada com excessivo carinho e muita permissividade, sem conhecer limites ou barreiras, ficada a cada dia mais desobediente, agressiva, possessiva e egoísta. Tinha um ciúme doentio da irmã, fato que desenvolvera desde muito cedo, embora não tivesse nenhum motivo para tal. Além de tudo, aprontava as maiores malvadezas com a irmã mais velha, como no dia que tocou fogo no rabo do cachorro após encharcá-lo com gasolina e pôs a culpa na irmã. Por mais que Carolina jurasse inocência, ninguém acreditou nela que ficou de castigo no quarto por uma semana. A palavra de Paula era incontestável. Depois de crescidas, Paula passou a perseguir e desejar qualquer namoradinho ou paquera da irmã. Sem escrúpulos ou pudores, sempre conseguia tomá-los e Carolina nada fazia para contê-la. De certa forma, a própria Carolina também contribuía para os desmandos da irmã que, sem ver limites ou conseqüências para os seus atos descabidos, cada vez mais mergulhava na lama da impunidade e desconfigurava ainda mais o seu já duvidoso caráter.

Paula perdeu a virgindade aos treze anos com Lucas de dezoito anos, que há três meses namorava Carolina. O rapaz que já tentara por diversas vezes chegar às vias de fato com a namorada, não resistiu aos encantos e insinuações da cunhada. Depois do acontecido, Paula fez questão de contar tudo a irmã que imediatamente terminou o namoro. Paula entretanto, deu um pé na bunda no rapaz, uma semana depois. E assim, tudo fazia para tornar a vida de Carolina o maior inferno possível fazendo tudo para tirá-la do seu caminho.

Quando tinha treze anos, num domingo após o almoço que Ciszen, como comumente acontecia, participara, ouviu uma conversa do pai com o compadre no escritório. Ambos haviam abusado um pouco do álcool e falaram além do que deviam.

- Amigo, lembro de quando aquele homem trouxe Carolina aqui. Se eu soubesse naquele momento que Paula viria um dia, não a teria comprado.

-Não fale isto Mário. Carolina é uma menina encantadora, uma excelente aluna, de beleza sem igual. Uma pessoa doce, de boa índole, vai com certeza dar muito orgulho a vocês.

- Sei disso compadre, mas Sandra não tem mais o mesmo amor e atenção com ela. Confesso que eu próprio já não me sinto como pai desta menina. É diferente olhar para Paula e saber que ela sim é fruto do meu amor com Sandra. Deveria ter deixado que os traficantes a levassem para a Europa. Às vezes até tenho vontade de procurar seus verdadeiros pais.

-Nem pense numa coisa assim meu amigo. Poderia acabar com a vida da garota. Porque não deixa tudo como está? Além do mais você não conhece o paradeiro deles.

-Não seria difícil encontrá-los. Dr. Severino, o colega que advoga para o padre que lidera a quadrilha, me contou tudo. Ela foi comprada, me parece que do pai, no Rio Grande do Sul. Numa cidadezinha muito pequena de oito mil habitantes chamada Minuano. Como o amigo pode perceber não seria difícil. Basta por um bom detetive no caso e rapidamente chegamos a eles.

-Nem pense numa loucura dessas Mário. Você e Sandra têm a obrigação moral de cuidar de Carolina para sempre dando tudo do bom e do melhor para ela.

-Mas é isto que fazemos.

-Não estou falando de bens, luxo, roupas ou coisas assim. Falo principalmente de amor, carinho, compreensão e amizade.

-Na medida do possível fazemos isto também amigo.

-Converse com Sandra compadre. Não é tão difícil assim dividir tanto amor. Pense na imensa alegria que ela trouxe para suas vidas num momento crítico, cujo casamento de vocês estava por um fio por causa da impossibilidade de gerarem herdeiros. Outra coisa que o amigo deve considerar é que você também compactuou com um crime e não gostaria de correr o risco de ver o seu nome envolvido num escândalo destes.

-É verdade Ciszen. Talvez por isso nunca mexi nesse vespeiro.

Depois de ouvir aquela conversa, Paula intensificou sua perseguição a irmã e passou a fazer insinuações maldosas quanto a verdadeira identidade de Carol. Até que, oito anos depois, despejos a verdade nos ouvidos da irmã no meio de uma briga entre as duas em pleno aniversário dela.