domingo, 27 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 09


Quando o ônibus começou a se aproximar de Minuano o coração de Marcolino foi ficando apertado disparando no peito. Era difícil voltar a sua cidade natal após treze anos de ausência. Muitas eram as recordações negativas que aquele retorno lhe trazia. Sua culpa o corroía a cada dia, mas depois de muitos anos de trabalho interior, finalmente se sentia pronto para pisar novamente onde um dia, jogou sua vida no ralo e cometeu seu maior desatino. Tinha o claro objetivo de, naquele caminho de volta, resgatar sua dignidade e buscar pistas que o fizessem ter um ponto de partida para encontrar sua filha. Não conseguiria mais viver em paz caso não encontrasse a menina. Imaginava que ela não a perdoasse, sequer sabia que rumo sua vida teria tomado ou mesmo se estava viva, se morava no Brasil ou no exterior, se realmente caíra nas mãos de traficantes ou de um desesperado homem querendo realizar o sonho da paternidade ao lado da esposa infértil. Na verdade nada sabia além da certeza que ele precisava tentar. No meio a estes pensamentos as lágrimas lhe molharam o rosto jorrando dos seus olhos baços e azuis. A passageira sentada ao seu lado, observando o estado do homem, perguntou o que o acometia, se ela podia ajudar, mas ele apenas sussurrou poucas palavras:

-É só um homem velho, recomeçando a sua vida.

Quando final mente desceu do ônibus, observou atentamente as profundas mudanças que aconteceram no lugar. Agora já não era mais a agência de passagens na praça do coreto, a parada final do veículo. Uma pequena estação rodoviária fora construída no meio da Av. Érico Veríssimo, principal entrada da cidade que agora ganhara asfalto e um belo canteiro central com oitis amarelos a cada vinte metros. Imediatamente fora cercado por diversos motoristas de carros de praça oferecendo transporte. Ele no entanto, preferiu seguir a pé. Dois quarteirões a frente, dobrou a direita entrando na rua Getúlio Vargas com destino ao Bairro dos Italianos. As casas estavam mudadas, a maioria foram postas abaixo cedendo lugar a lojas de diversos segmentos, bancos e repartições. A rua havia se transformado numa espécie de centro comercial da cidade. Onde antes funcionava o Bar do Guri, lugar aonde tomara muitos e muitos goles da famosa Caninha Catarinense, hoje se via uma casa lotérica bem equipada, na esquina com Rua do Vaneirão, a antiga casa da família Menotti, era hoje um grande banco. O progresso finalmente havia chegado a Minuano. Começou a se perguntar se o eu primeiro destino ainda encontrava-se de pé. O Bar do Bigodão.

Ao fim da Getúlio se chegava à Praça Anita Garibaldi, mas conhecida como Praça do Coreto. Esta ainda conservava em sua maioria, o encanto singelo de treze anos atrás. O belo jardim, impecavelmente cuidado com seu relógio de flores, era a principal atração do lugar. Na esquina da secular farmácia Menotti, esta parecia não ter mudado nada nos últimos cem anos, se tinha acesso a rua do Meio onde finalmente Marcolino avistou a tão conhecida placa: Bar do Bigodão.

-Bigodão, bota um guaraná aí que agora não tomo mais a branquinha tchê!

Juca olhava abismado para o amigo de longas datas com seu farto bigode agora branco amarelado pelo fumo.

-És tu Marquinho? Ou será que bebi demais hoje?

-Não amigo, não bebeste não. Sou eu em carne e osso. Quem é vivo sempre aparece.

-Barbaridade guri. Onde andaste? Desde que sumiu a gente chegou a pensar que o amigo tinha passado destas para melhor.

-Ainda não chegou o meu dia Juca. Tenho muito a fazer nesta vida antes de desencarnar. É uma longa estória. Vamos sentar para eu lhe contar tudo.

Juca pedia a Moreno, seu principal funcionário, que tomasse conta de tudo, e entrou para os fundos do estabelecimento, onde mantinha uma espécie de escritório e depósito num pequeno quarto.

Marcolino contou tudo nos mínimos detalhes. Como vendeu Carolina, como gastou até o último centavo daquele maldito dinheiro, sua visão com a filha, a ida para Porto Alegre, tudo que sofreu e passou até ser acolhido pelo pessoal do centro. Contou que deixara de beber, que estudara e como se tornara o principal palestrante da casa. Como descobriu sua mediunidade e o quanto já tinha ajudado outros errantes que, assim como ele outrora, andavam perdidos na vida. Explicou para o amigo que estava empenhado em encontrar a filha e que para isso gastaria todos os dias da sua vida, era o seu plano de redenção.

-Então acho que tenho uma boa notícia para o amigo aqui.

-Que notícia Bigode?

-O sergipano Antonio, o que comprou a guria e na verdade se chama Joca, ou melhor José Carlos, e é baiano, está morando a doze quilômetros daqui, no povoado de Passaredo.

Marcolino entendeu que Deus havia lhe dado mais uma chance.

domingo, 20 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 08


Caminhei até o sol se por completamente. Quando voltei para casa já passavam das sete da noite. Encontrei Carolina absorta na janela, olhando para o horizonte, como se buscasse ali respostas para as inúmeras perguntas que martelavam sua mente. Não quebrei o seu silencio. Eu também procurava respostas para perguntas que sequer sabia enunciar. Sentei no chão da sala e a observei atentamente, até que ela falou.
-Caco, você vai lá em casa comigo? Queria dormir aqui mais uma noite, mas preciso pegar umas coisas. Você me deixa ficar aqui?
- Como posso dizer não a este rostinho angelical? Para falar a verdade vou amar tê-la mais uma noite ao meu lado. Vou tomar um banho rápido e saímos já.
Talvez eu ainda não tivesse consciência, mas acabara de mergulhar de cabeça num mar de tormentas e riquezas. Sem dúvida nenhuma, movido pelo amor. Seria possível um sentimento tão forte nascer em tão pouco tempo? Que magia tinha aquela garota para me deixar tão envolvido? Porque eu não ouvia a voz da razão? Não tinha respostas para nada daquilo apenas queria viver o momento que se apresentava, me deixar levar.
Pegamos um táxi e quinze minutos depois estávamos na frente de uma mansão cinematográfica, encravada num dos pontos mais altos do Horto Florestal, um dos mais nobres bairros da cidade. Carolina abriu o vidro, falou breves palavras ao segurança da guarita e em segundos o imenso portão de ferro torneado se abria a nossa frente. O táxi percorreu um caminho estreito que margeava uma piscina e um jardim, ambos deslumbrantes até chegar numa espécie de estacionamento para visitantes. Pedimos que nos aguardasse e entramos na casa pela porta da frente.
Eu olhava atentamente todos os detalhes. Nunca tinha estado numa casa daquelas, tão suntuosa e bonita. A sala era imensa, decorada com muito bom gosto e repletas de obras de arte. As esculturas foram as que mais me chamaram a atenção. Carolina tocou um sininho que descansava numa pequena mesa de canto, quando apareceu um senhor que aparentava estar perto dos setenta anos e tinha o típico porte de mordomo de romance inglês.
-Aurino, onde estão todos?
-Seus pais saíram senhorita. A senhorita Paula está com o namorado vendo um filme no home theater.
-Aurino, gostaria de lhe perguntar uma coisa, mas queria que fosse muito sincero.
-Pois não D. Carolina.
-Você tem muitos anos aqui em casa. Trabalha com meus pais desde antes do meu nascimento não é?
-Sim senhorita.
-Como foi que eles me adotaram?
-Do que a senhora está falando?
-Pare com isso Aurino. Sei que você sabe de tudo. Você vê tudo que se passa nessa casa.
-Não senhorita. Não tenho olhos, ouvidos ou boca. Faz parte do meu trabalho. Não deveria me perguntar tais coisas. Se quer saber de algo, porque não pergunta a Dr. Mário ou a D. Sandra?
-Se você fala assim é porque sabe de alguma coisa Aurino. Por favor me conte, eu preciso muito saber.
-Senhorita já disse que nada sei, não me pergunte mais nada.
Foram inúteis os apelos de Carolina. Aurino nada falou, sua fidelidade aos patrões era irretocável.
-Onde está Luzia, Aurino?
-Hoje é sua folga senhorita. Deve chegar mais tarde ou amanhã cedo.
-Obrigada.
Carolina dispensou os serviços do mordomo e falou com Caco.
-Meu amor, vou pegar algumas coisas lá em cima e já volto. Fique à vontade.
-Eu espero Carol. Não demore, não quero estar aqui sozinho se seus pais chegarem.
Trocaram um longo beijo e neste momento, vestindo apenas um camisão, entra na sala uma bela morena, de cabelos negros, olhos expressivos, sobrancelhas grossas e sensualidade à flor da pele. Olhou bem para o Casal e disse:
-Maninha! Não vai me apresentar seu mais novo namorado. Ele é um gato!
-Caco esta é minha irmã Paula.
-Muito prazer, me chamo Caio.
-Seja bem vindo Caco. O prazer é todo meu. –Falou Paula com um tom visivelmente provocador.
Neste momento Carolina me puxou pelo braço e fomos até seu quarto no andar superior. Lá chegando, enquanto ela botava umas mudas de roupa na mochila, ligou a televisão. Foi então que vimos a notícia num programa dominical. Seria aquilo uma coincidência?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

TERRA BAHIA

Terra Brasil, brasileira

Parada primeira

Colonização

Que se regala festeira

À sua maneira

Num só coração


Berço de tantos talentos

Fortes monumentos

Da nossa cultura

Velhos, rapazes, rebentos

Palavras, inventos

A arte mais pura


Terra de mil Caetanos

Caroso, Adrianos

Valverdes e Rosas

Terra dos Novos Baianos

Amados, fulanos

De Ruys e Barbosas


Terra de boa comida

Gilbertos dão vida

Pros tempos de paz

Castros e Alves na lida

Poesia esculpida

Versos de Moraes


Lugar onde o vento gorjeia

Menina, sereia

Tarde, Itapoã

Quem se deitar nesta areia

Pulsará na veia

De um belo amanhã


Onde renasçam Caimmys

Com notas sublimes

Rede e violão

Onde na esteira de vime

Preguiça é vitrine

Para uma nação


Onde nasceram Marias

Bethânias, poesias

Costas e Gal

Caldas, Dodôs e folias

Reinado de dias

O som, carnaval


Cantam Sangalos e Leites

Pra nosso deleite

Macedos, João

Fortes como seu azeite

Tempero de peixes

Abará, camarão


Dadá e seu sorriso lindo

Nascendo, fluindo

Para exportação

Porto seguro, menino

Correndo, carpindo

Mais uma canção


Terra de tantas belezas

Naturais riquezas

De mares e rios

Terra de tão farta mesa

Alegria e tristeza

Num só desafio


Aqui nasceram pessoas

Tão raras, tão boas

Quase uma elegia

Tu és o hino que entoa

O sino que soa

És terra, Bahia!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 07


Quando Sandra terminou o tratamento com Dr. Clark e finalmente engravidou, sua vida ganhou um novo sentido. Todas as dores e inseguranças do passado se dissiparam e ela teve a impressão que definitivamente agora era uma mulher completa para a vida e para Mário, seu devotado e fiel marido. Foi uma gravidez tranqüila, embora coberta de cuidados redobrados. Dr Ciszem a acompanhou durante a gestação em Salvador e pôde observar o novo ânimo e gás que o fato trouxera para a amiga. Uma coisa no entanto o preocupava muito. Depois de grávida, Sandra demonstrara um progressivo desinteresse por Carolina fato que, parecia, o marido também compartilhava. Muito apegado à afilhada, a quem tinha como uma filha, Ciszem começou a temer pelo destino da menina. Embora procurasse através de conversas abrir os olhos do casal, sentia seu esforço esvair-se sem sucesso. Quanto mais se aproximava a data do nascimento de uma nova menina, já batizada de Paula Cristina, mais o casal deixava Carolina de lado.

Quando Paula nasceu, Carolina já com três anos, cada vez mais bela e inteligente, começou a perceber que não ocupava mais o mesmo espaço naquela casa. As atenções eram todas agora voltadas para o bebê recém chegado. Na inocência infantil, não podia mensurar as conseqüências do abandono cada vez maior que sofreria e a devastação irreversível que tal fato provocaria em sua vida. Extremamente sensível, Carolina absorvia profundamente, cada atitude, cada demonstração de carinho, afeto, indiferença, enfim, ela absorvia mais que os seres humanos normais, qualquer sentimento a ela dedicado, fosse bom ou ruim. E assim a menina foi aos poucos ficando carente, complexada e triste. Era incapaz porém, de reclamar, de se fazer ouvir. Interiorizava tudo a sua volta, e em pouco tempo, tornou-se um paiol transbordando, pronto para explodir a qualquer momento.

Paula foi criada com excessivo carinho e muita permissividade, sem conhecer limites ou barreiras, ficada a cada dia mais desobediente, agressiva, possessiva e egoísta. Tinha um ciúme doentio da irmã, fato que desenvolvera desde muito cedo, embora não tivesse nenhum motivo para tal. Além de tudo, aprontava as maiores malvadezas com a irmã mais velha, como no dia que tocou fogo no rabo do cachorro após encharcá-lo com gasolina e pôs a culpa na irmã. Por mais que Carolina jurasse inocência, ninguém acreditou nela que ficou de castigo no quarto por uma semana. A palavra de Paula era incontestável. Depois de crescidas, Paula passou a perseguir e desejar qualquer namoradinho ou paquera da irmã. Sem escrúpulos ou pudores, sempre conseguia tomá-los e Carolina nada fazia para contê-la. De certa forma, a própria Carolina também contribuía para os desmandos da irmã que, sem ver limites ou conseqüências para os seus atos descabidos, cada vez mais mergulhava na lama da impunidade e desconfigurava ainda mais o seu já duvidoso caráter.

Paula perdeu a virgindade aos treze anos com Lucas de dezoito anos, que há três meses namorava Carolina. O rapaz que já tentara por diversas vezes chegar às vias de fato com a namorada, não resistiu aos encantos e insinuações da cunhada. Depois do acontecido, Paula fez questão de contar tudo a irmã que imediatamente terminou o namoro. Paula entretanto, deu um pé na bunda no rapaz, uma semana depois. E assim, tudo fazia para tornar a vida de Carolina o maior inferno possível fazendo tudo para tirá-la do seu caminho.

Quando tinha treze anos, num domingo após o almoço que Ciszen, como comumente acontecia, participara, ouviu uma conversa do pai com o compadre no escritório. Ambos haviam abusado um pouco do álcool e falaram além do que deviam.

- Amigo, lembro de quando aquele homem trouxe Carolina aqui. Se eu soubesse naquele momento que Paula viria um dia, não a teria comprado.

-Não fale isto Mário. Carolina é uma menina encantadora, uma excelente aluna, de beleza sem igual. Uma pessoa doce, de boa índole, vai com certeza dar muito orgulho a vocês.

- Sei disso compadre, mas Sandra não tem mais o mesmo amor e atenção com ela. Confesso que eu próprio já não me sinto como pai desta menina. É diferente olhar para Paula e saber que ela sim é fruto do meu amor com Sandra. Deveria ter deixado que os traficantes a levassem para a Europa. Às vezes até tenho vontade de procurar seus verdadeiros pais.

-Nem pense numa coisa assim meu amigo. Poderia acabar com a vida da garota. Porque não deixa tudo como está? Além do mais você não conhece o paradeiro deles.

-Não seria difícil encontrá-los. Dr. Severino, o colega que advoga para o padre que lidera a quadrilha, me contou tudo. Ela foi comprada, me parece que do pai, no Rio Grande do Sul. Numa cidadezinha muito pequena de oito mil habitantes chamada Minuano. Como o amigo pode perceber não seria difícil. Basta por um bom detetive no caso e rapidamente chegamos a eles.

-Nem pense numa loucura dessas Mário. Você e Sandra têm a obrigação moral de cuidar de Carolina para sempre dando tudo do bom e do melhor para ela.

-Mas é isto que fazemos.

-Não estou falando de bens, luxo, roupas ou coisas assim. Falo principalmente de amor, carinho, compreensão e amizade.

-Na medida do possível fazemos isto também amigo.

-Converse com Sandra compadre. Não é tão difícil assim dividir tanto amor. Pense na imensa alegria que ela trouxe para suas vidas num momento crítico, cujo casamento de vocês estava por um fio por causa da impossibilidade de gerarem herdeiros. Outra coisa que o amigo deve considerar é que você também compactuou com um crime e não gostaria de correr o risco de ver o seu nome envolvido num escândalo destes.

-É verdade Ciszen. Talvez por isso nunca mexi nesse vespeiro.

Depois de ouvir aquela conversa, Paula intensificou sua perseguição a irmã e passou a fazer insinuações maldosas quanto a verdadeira identidade de Carol. Até que, oito anos depois, despejos a verdade nos ouvidos da irmã no meio de uma briga entre as duas em pleno aniversário dela.


quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O VENDEDOR

Conta a piada que um certo vendedor, desesperado pela grande maré de azar que atravessava, há meses não preenchia uma folha no seu talão de pedidos, resolveu não trabalhar naquele dia e vagava pela praia procurando espairecer. De repente, uma dor lancinante. Descalço que estava, topara com toda força num objeto metálico e quente por causa do sol em brasa. Depois de proferir palavrões inenarráveis, abaixou-se para acariciar o dedão na vã tentativa de aplacar a dor. Neste momento observou que o tal objeto, nada mais era que a lâmpada perdida por Aladim. Sem titubear, alisou o objeto mágico libertando o Gênio de séculos de prisão.

-O senhor é meu amo, pois me libertou. Com isso terá direito a três pedidos.

-Um minutinho só, enquanto vou correndo no carro buscar o talão.


Não sei se por coincidência ou por capricho do destino, veio parar na minha mão por empréstimo, o livro O Vendedor de Sonhos de Augusto Cury, justamente no momento que acabo de me tornar um vendedor, não de sonhos, não tenho tal pretensão, mas de remédios e produtos de farmácia. Ainda não descobri o que esse maravilhoso livro, pude perceber isso pelo pouco que li até agora, terá relação com minha nova atividade. Mas uma história destas, contada de maneira tão deliciosa, com ensinamentos profundos, com certeza terá sua contribuição no meu engrandecimento nesta nova jornada.


Ainda não tinha contado isto a vocês, mas depois de um ano desempregado, acumulando dívidas e à beira do desespero, me apareceu esta oportunidade que agarrei com mãos, pés, boca e tudo mais que sirva para agarrar alguma coisa. Vale lembrar que isto foi uma mudança radical na minha vida. Primeiro porque tive que me mudar. Agora fixei residência em Serrinha, a 170 km de Salvador, para poder atender a região que darei cobertura, o sertão baiano, na área da produção de sisal. São muitas cidades que visito semanalmente: a partir de Serrinha, que também faz parte do meu setor, vem: Teofilândia, Araci, Jorrinho, Caldas do Jorro, Tucano, Quijingue, Euclides da Cunha, Uauá, Canudos, Monte Santo, Cansanção, Nordestina, Queimadas, Santa Luz, Valente, Retirolândia, Conceição do Coité, até chegar novamente a Serrinha, perfazendo uma ferradura de mais de 600 km de extensão.


Depois, tem o fato de nunca eu ter tido experiência com vendas e não entender praticamente nada de medicamentos e suas substâncias com nomes estrambólicos, parecidos, muitas vezes, e de difícil assimilação. Com isso, venho dando muitas cabeçadas, mas, depois de quase três semanas de atividade, acho que estou me saindo até bem, numa otimista auto-avaliação. Este é um dos motivos, sem querer aqui dar nenhuma desculpa esfarrapada pelo meu desaparecimento do mundo maravilhoso dos blogs. A verdade é que pouco estou podendo acessar a net. Trabalhando quase 13 horas por dia, perambulando por cidades que, na sua maioria, não tem internet nos hotéis, como é o caso de agora que escrevo sozinho, num aconchegante, limpo e agradável quarto de hotel em Santa Luz, ficou mais difícil de escrever coisas novas, ler meus autores blogueiros prediletos e, principalmente, comentar nas suas maravilhosas postagens.


Bem, voltando ao vendedor, não consigo descrever a sensação sentida quando por fim, gastei a primeira folha do meu talão de pedidos. Foi deslumbrante, mesmo tendo sido um pedido pouco acima do pedido mínimo e longe de ser um bom pedido. Quase tremia ao preencher aquelas poucas linhas com quantidades, nomes confusos e pouca compreensão. Como um bom sinal, foi no meu primeiro dia de trabalho. Segundo os experientes da área, isto não é fácil. Ponto pra mim. É claro que venho dando minhas cabeçadas, mas aos poucos estou encontrando meu estilo, minha forma de vender. Não sonhos, estes vou tendo enquanto dirijo sob o sol escaldante do sertão baiano, suado nas roupas quentes e apresentáveis que agora sou obrigado a usar, mas os Diclofenacos, Losartanas, Fluoxetinas, Cloridratos e tantos outros acos, anas e inas da vida, pagando propinas a guardas rodoviários para não me multarem por causa das duas linhas de vidro trincado no pára-brisa do meu carro, que a precária situação financeira não me deixou trocar.


Já foram várias as garfes que cometi. Como perguntar ao cliente o fabricante de determinado remédio mais conhecido que o Papa e ouvi dele: -Já vi que você é marinheiro de primeira viagem. –Sim. Respondi. –Porém, não conheço nenhum marinheiro experiente que não tenha dado a primeira viagem ou alguém que aprendeu a nadar sem se jogar pela primeira vez na água. Semana passada, eu cometi uma outra que me deixou muito envergonhado. Depois de conhecer, num pequeno intervalo de tempo, mais de cem pessoas, cometi a imprudência de confiar na memória. Entrei num estabelecimento, sem consultar minhas anotações, que já tinha visitado na semana anterior e chamei sua dona pelo nome.

-Como vai Dona Maria Luiza?

-Bem, mas me chamo Rita de Cássia.

Desconsertado falei a primeira bobagem que me veio na cabeça:

-Maria Luiza e Rita de Cássia? É quase a mesma coisa, chega até a rimar.

Era a cidade de Queimadas, onde até hoje eu não tinha tirado nenhum pedido. É claro que a senhora não comprou nada em minha mão, por mais que eu tentasse me redimir. No lugar dela eu também não compraria.

- Não se zangue comigo D. Rita. Conheci muitas pessoas nos últimos dias e fica difícil gravar o nome de todas. Tire um pedidozinho com seu amigo, para batizá-lo na cidade. Ainda não vendi nada aqui em Queimadas. Preciso mandar o leite da menina.

-Não foi nada Adriano. Não tem nada a ver com isso. Estou sem faltas, já pedi o que precisava com outros representantes. Quem sabe na próxima semana.


Não botei muita fé. Aquelas palavras foi o que eu mais tinha ouvido nos últimos dias. Fui embora desolado sem vender um comprimido na cidade. Hoje, estava retornando à Queimadas e, entrando na cidade, alguns versos surgiram de repente na minha cabeça quase a porta da farmácia da simpática senhora. Então não titubeei. Desci do carro e entrei no estabelecimento falando:


O que D. Rita de Cássia precisa

É tirar um pedido com Adriano

Para que este não cometa o engano

De chamar-lhe Maria Luiza


E aí D. Rita de Cássia?

Flor das acácias de terras amadas

Minha caneta está pronta

Pra marcar na sua ponta

Meu batismo em Queimadas.


Ela riu, olhou meu catálogo e fez um gordo pedido. Mais um ponto para mim. Quem sabe um dia eu chego lá? Eu acredito e continuo sonhando.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

MEU PÉ DE CAJU

Fração dos meus averes prediletos
O meu pé de caju detrás de um muro
Safra em safra me dá frutos seletos
Mas deles ele logo fica puro

Além do passaredo e dos insetos
Mazelas naturais que lhe não curo
Com pedradas garotos irriquietos
Lá não deixam para mim caju maduro

Não me zango, porque não me exaspera
A garotada lesta divertida
A derribar cajus....

E até quisera ser eu
Um pé de caju da mesma classe
Para que produzindo nesta vida
Desse fruto a quem pedra me jogasse.

domingo, 6 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 06


-Meus amigos! Onde estaria a justiça de Deus se não existisse a reencarnação. Porque o Senhor colocaria no mundo um pobre coitado, aleijado e miserável enquanto outro é afortunado e perfeito? Aos olhos do Criador não deveriam ser todos iguais sendo Ele pura bondade, justiça e compreensão? Não meus senhores, não seria Deus justo conosco permitindo e criando tamanhas diferenças. É por isso que nascemos e morremos para nascer de novo, tendo a oportunidade de a cada vida reparar os erros de vidas passadas e assim elevar o nosso espírito em busca do engrandecimento e da paz. Somos iguais sim meus irmãos aos olhos de Deus, mas temos contas diferentes a acertar. O mal que causamos aqui, pode nos ser cobrado aqui mesmo, mas muito comumente damos conta dele nas encarnações futuras. É por isso que devemos, na medida do possível, reparar os nossos erros na vida corrente, na mesma encarnação que o cometemos. É uma maneira de amenizar o calvário do espírito até que ele possa reencarnar, para uma vida mais serena, mais feliz. Vou contar uma história aos amigos aqui presentes: Numa pequena cidadezinha do interior, existia um rapaz, ignorante, sem educação ou fortuna, mas que teve a oportunidade de construir uma vida e uma família feliz. Casou com uma moça trabalhadora, fiel e dedicada. No entanto o rapaz, preferia a vida boêmia, refestelando-se nos bares e bordéis da cidade, gastando com bebida e mulheres o pouco dinheiro que a esposa auferia com o suor do seu trabalho. Invariavelmente andava trôpego, sem alimentação adequada, minava a própria saúde na esbórnia da vida. Então a esposa engravidou e ele não gostou nada disto. Não queria uma criança disputando com ele os cuidados e, principalmente, o dinheiro da mulher. Ignorou a gestação ficando cada dia mais longe de casa sem dar o devido apoio que a situação exigia. Chegou o dia da esposa dar a luz. Nasceu uma linda menina e mais uma vez o rapaz teve a chance de redimir-se dos erros e destemperos que cometera, uma vez que o Senhor levou a mãe para junto de si no momento do parto. Em vez disto ele abandonou a guria a própria sorte, na mão de estranhos. Certa feita, um forasteiro aparece na cidade e lhe propõe comprar a garota. Oferece-lhe míseros vinténs e o que fez o rapaz? Raptou a menina da casa das pessoas que a cuidavam entregando-lhe ao forasteiro. Pouco durou o dinheiro recebido. Foram muitas farras e orgias que consumiram o vil metal até o último centavo. Mais uma vez na miséria, sem amigos, sem dinheiro, sem nada, passou a viver perambulando pelas ruas, da caridade do próximo, mendigando trocados que invariavelmente gastava com cachaça. Maltrapilho, sujo e solitário, vivia a espera de esmolas para beber. Ás vezes bondosas almas lhe davam comida e cobertores, sua vida entrava em profundo vazio, num colapso total. Até que um dia, anos depois do acontecido teve uma visão: sua esposa apareceu e disse: - Vá buscar a nossa filha, ela está sofrendo e vai sofrer muito mais ainda. Seu semblante era triste, sua voz embargada pelo choro. Pensou estar tendo uma alucinação provocada pelos nocivos efeitos do álcool, mas a esposa o tomou nos braços, levitaram e sobrevoaram sua vida. Viu seus dias de criança pobre, mas bem cuidada. Sua mãe zelosa a lhe ensinar os caminhos tortuosos do destino. Lição que insistia em não assimilar. Viu o dia que jogou veneno de rato no prato da irmã por pura brincadeira maldosa, levando-a a passar dias e dias internada na enfermaria de um fétido hospital. Viu o dia que apagara da memória, quando foi violentado pelo padrasto e a imensa dor interior que a isto se sucedeu. Viu seu primeiro gole, sua primeira aposta, suas infindas derrotas. Por fim, viu uma linda mulher de olhos azuis com a expressão desesperada dos suicidas á beira de um penhasco. Antes que ele dissesse algo ela se jogou. Observava inerte o corpo em queda livre tendo certeza de que era a sua filha quando a esposa o falou: -Vai, ainda dá tempo de pegá-la antes da queda. Neste momento acordou imundo, no meio da rua, sob um frio de três graus. A vergonha e a indignação o tomavam. Como pode ter sido tão torpe? Era um monstro. O rapaz fugiu da cidadezinha e foi para a capital. Pediu ajuda neste Centro Espírita onde foi acolhido, alimentado e orientado. Deixou de beber, estudou, e trabalhou durante treze anos, sempre marcado pelo remorso e arrependimento. A culpa lhe corroia até que se sentiu pronto para iniciar o caminho da sua redenção e segurar a mulher antes da queda. Era chegado o momento.

-Bem amigos este rapaz da história, é a pessoa que vos fala. Neste momento me despeço de vocês para ir em busca da minha salvação. Preciso me redimir dos meus erros, encontrar o meu caminho e salvar a minha filha. Talvez não salve a minha vida, mas assim poderei descansar em paz.


O palestrante Marcolino foi aplaudido de pé pela imensa platéia presente no auditório do Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes em Porto Alegre.