domingo, 30 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 05

-Você acha que é o que? Quem você pensa que é? Se enxerga garota. Devia dar graças a Deus de ter a nós. Uma família nobre, dinheiro, posição. Mas não! Ainda reclama. Tem inveja de mim porque? Estou cansada de você, de suas chorumelas e lamentos. Fica posando de santinha, de boa, mas a mim você não engana. Você queria estar no meu lugar, ser a filha verdadeira. Se enxerga Carol!
-O que você disse Paula? Filha verdadeira? Do que você está falando?
-Vai dizer que a ingênua nunca percebeu? Que painho e mainha não parecem com você? Que lhe tratam com indiferença, que gostam mais de mim? Você é burra mesmo!
Carolina desfalecia na cama. O pranto lhe tomava. As duras palavras da irmã eram como um punhal em seu peito. No fundo sempre desconfiara, mas ouvindo daquela maneira era um golpe fatal.
-O que eu te fiz pra você ter tanta raiva de mim Paula? Somos irmãs, fomos criadas juntas, te vi nascer e crescer.
-Eu não tenho irmã. Não sou da sua laia. Nunca fui entregue por meus pais a traficantes. Nem eles mesmos lhe quiseram.
-Traficantes? Aonde você ta querendo chegar? Conta logo de uma vez. Não me torture assim.
-Pergunte pro pai, ele vai lhe dizer quanto pagou pelo brinquedinho deles enquanto me esperavam, até mamãe poder me ter. Como uma quadrilha de traficantes trouxe você pra Bahia. Ele te conta tudo.
-Mentira sua louca, mentira! Você é um monstro. Como pode ser tão torpe?
-Mas é verdade. Eu ouvi painho e seu padrinho conversando outro dia no escritório. Você foi trazida por traficantes de crianças que a levariam para a Europa. Veio de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul chamada Minuano e nosso pai comprou você deles. Mamãe não podia engravidar até fazer o tratamento nos Estados Unidos. Então pegaram você, registraram e criaram-na até que eu nascesse. De lá para cá, você foi um estorvo na vida de todos nós. Só você não nota isto.Carolina não conseguia mais emitir uma palavra. Apenas chorava copiosamente olhando desesperada para irmã querendo acreditar que tudo fosse mentira. No fundo sabia que era verdade. Porque Paula a tratava assim? O que tinha feito de mal a ela ao ponto de despertar tanto ódio? Nunca entendera tanta maldade, indiferença e hostilidade por parte da irmã. Agora com a confirmação da desconfiança que não era filha legítima, as coisas começavam a ficar mais claras. Saiu do quarto em disparada a procura dos pais. Eles não estavam em casa. Foi aí que saiu sem rumo, andando pelas ruas ao léu. Era seu aniversário, mas não tinha nada para comemorar. Continuou vagando pelas ruas quando percebeu que já havia anoitecido. Perguntou as horas a um estranho, andou mais um pouco até que sentou num banco de praça e voltou a chorar copiosamente

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 04

Do alto dos seus trinta e oito anos, dezessete deles dedicados à polícia, o investigador Peçanha nunca vira esquema de crime organizado tão ousado e bem armado. Já completara dez anos que trabalhava na investigação do tráfico internacional de crianças e, há dois, assumira a chefia da operação Mamadeira que investigava o hediondo crime. Embora jovem, sempre se destacou na polícia. Prestara concurso aos dezenove anos, quando já cursava a faculdade de direito. Passou em terceiro lugar. Foi emposssado quase dois anos depois. Após se formar, prestou concurso para delegado passando em primeiro lugar. No entanto, sua paixão sempre foi o trabalho investigativo e desde que entrou na corporação tinha como meta de vida desarticular esta famigerada quadrilha. Agora, após ouvir inúmeras vezes as mais de trinta fitas gravadas com conversas telefônicas, autorizadas pela justiça, sentia que estava mais perto do que nunca de desvendar todo o mistério. O padre miserável, que parecia ser o cabeça de todo esquema, já havia sido expulso da igreja. Não pelos crimes que vinha cometendo, mas pelo fato de manter na cidade da sua paróquia, aos olhos de todos, mulher e filhos. Havia também uma desconfiança dos seus superiores, ele sabia disso, pelo fato do padre ter diversas propriedades como fazendas, apartamentos, casas, andar com carros de luxo e ostentar uma vida de riquezas. A igreja no entanto, preferiu não investigar a fundo a questão e por uma cortina encobrindo os podres do Sr. Ducas. Ele não, estava cada vez mais perto do padre e aguardava a resposta sobre o mandado de prisão que solicitara. Pensara em viajar para Serra Grande, mas aguardava o apoio da justiça. Queria voltar de lá com o padre algemado e para isso não podia se precipitar. Tudo indicava que o vigário não desconfiava estar sendo investigado, a operação transcorria há dois anos no mais absoluto sigilo. Agora, tão perto que estava de por a mão no meliante, não podia correr o risco de espantar a presa e deixá-la fugir.
O delegado, mesmo com a pouca idade, sentia necessidade de parar um pouco. Tirar uma licença, dedicar-se mais a vida pessoal. Lembrou que há tempos não saía com uma mulher, e há muito vinha pensando em casar, ter filhos, enfim, constituir uma família. Por isso, estava muito ansioso para encerrar a operação com sucesso e dar um pouco de si a si mesmo. Sua cabeça era um turbilhão e os pensamentos o tomavam.
-Maia, alguma notícia do mandado?-Falou com o assistente ao interfone.
-Não senhor. Até agora não obtivemos resposta.
-Não estou me sentindo bem. Vou para casa. Preciso me recolher um pouco. Se tiver alguma notícia, seja que hora for, você me encontra no bip, no celular ou no fixo, ok?
-Certo chefe.
Peçanha desceu o elevador distraído. Pegou o carro e saiu pensativo. Era um longo caminho da sede da Polícia Federal na Cidade Baixa até seu apartamento no bairro da Pituba. Repassou na mente todo o plano da operação. Nada podia falhar. Colocou no toca fitas a última das gravações que ainda não havia ouvido inteira.
De repente o inesperado. Através dos códigos que ele já conhecia muito bem, o padre marcava com um casal de italianos a entrega de outra criança. Era bom demais para ser verdade. Um encontro marcado para a próxima semana, num grande shopping da cidade. O Dr. Peçanha voltou o trecho da fita várias vezes. Não teve dúvidas. Era a marcação de um encontro para a entrega de uma criança. O que faltava para o flagrante.
Ouvia a fita à exaustão. O cansaço lhe tomava após três noites quase sem dormir, até que adormeceu na direção, saiu da pista e bateu de frente em um poste de iluminação.

domingo, 16 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 03

Eram três horas da tarde quando Carolina despertou. Não estava mais na sala e sim na minha cama. Ao olhar para o lado não me viu e se assustou. Uma estranha sensação de felicidade a tomava. Estranha, pois há muito não sabia o que era se sentir feliz. Estava leve como uma pluma e sorridente. Um sentimento diferente, o qual nunca havia experimentado, a tomava. Ela não sabia, mas aquilo se chamava amor. Neste momento eu estava tomando banho. Também fazia pouco tempo que acordara. O sol entrava pela janela da sala adentro muito forte e me despertou. Carolina dormia como um anjo. Para protegê-la, carreguei-a até o meu quarto e a pus na minha cama. Fechei bem as cortinas para evitar a entrada do sol e ela pudesse dormir melhor. Seu sono era tão pesado que ela não acordou. Olhava para a mulher ao meu lado e não acreditava no que estava vivendo. Tudo tinha sido tão maravilhoso e intenso que não imaginava aquilo como apenas uma transa a mais. Mas, no fundo, algo me dizia que estava entrando num problema muito sério. Aquela mulher era de um outro mundo, extremamente diferente do meu. Filha de milionários e com todos os problemas que carregava consigo, decididamente não era mulher para mim. No entanto a vontade de levar tudo adiante parecia mais forte que a minha consciência e razão. Após observá-la longamente e cada vez mais admirar sua beleza e seu sono tranqüilo, fui tomar meu banho envolto nesses pensamentos e pouco depois ela acordou. Chamou meu nome, mas não a ouvi. A ducha estava forte e fazia muita zoada. Embora se visse sozinha não sentira medo. Não saberia explicar, mas se sentia segura ali. Estava feliz, muito feliz. Quando voltei para o quarto enrolado na toalha ela me chamou e disse:
-Vem fazer amor comigo novamente. Me faz sentir tudo de novo.
Mais uma vez nos amamos, desta feita com mais intensidade e carinho. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo, tamanha era nossa intimidade. Depois do amor, nos abraçamos na cama e após um longo silêncio perguntei:
-Carol, você já pensou que a gente não tem chances, que não podemos ficar juntos?
-Posso ficar com que eu quiser. Sou rejeitada, mas sou dona do meu nariz. Não tenho pais, não tenho ninguém. Logo posso fazer o que quiser e ficar com quem quero e, acredite, quero você. A não ser que você não me queira.
-Não é isto que estou falando, você nem me conhece, como pode saber que é realmente a mim que quer? Como pode saber que sou a pessoa certa para você.
-Intuição. Não preciso te conhecer mais do que conheço. Já vi quem você é e pronto. Sou uma pessoa determinada, sei o que quero pra mim. Brigo com o mundo se preciso for.
-Eu espero que não lhe traga mais problemas do que já tem. As coisas não vão ser como você está pensando. Por mais que não seja filha biológica, que seus pais a rejeitem, você é registrada como tal. Acha mesmo que eles vão admitir que se relacione com alguém como eu? Pobre e sem status?
-Meus pais não ligam para mim. Nunca ligaram. Não se importam com que eu ando ou com o que faço. Você verá que é assim. Não me deixe agora Caco, por favor! Preciso de você. Quero que me ajude.
-Como assim?
-Preciso encontrar meus verdadeiros pais. Não sei bem o que aconteceu para que eles me entregassem aos traficantes. Nem sei se fui realmente entregue ou se fui roubada. Talvez eles me procurem até hoje. Todos os dias vemos nos jornais pais que procuram seus filhos desaparecidos, às vezes por décadas. Tudo que Paula me disse não me dá muitas pistas. Só sei que vim do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Minuano. Mas já é um bom ponto de partida. É por lá que temos que começar.
-Temos que começar? Está ficando louca? Que acha que vou fazer? Abandonar minha vida, meu trabalho para sair com você procurando seus verdadeiros pais? Não, isto não faz sentido, nem vai dar o meu sustento.
-Não pedi para você largar a sua vida, só pedi a sua ajuda. Mas te digo uma coisa Caco: com ou sem você vou descobrir a minha origem, custe o que custar, farei qualquer coisa para isto.
-Você é realmente muito determinada. Preciso pensar em tudo isto. Parece que de ontem pra hoje minha vida virou 180 graus.
-Se a sua virou assim, imagine a minha. Até ontem eu pensava ter pais e uma irmã. Verdade que eles me tratavam de uma forma estranha. Sem carinho, com desprezo até. Sempre achei que havia algo estranho até aquela cobra me dar de presente de aniversário toda a verdade.
-O que pretende fazer agora?
-Não sei. Ainda não decidi. Preciso pensar o que fazer com muita calma. Talvez procurar a polícia. Se é verdade que eles me compraram na mão de traficantes, então cometeram um crime, não foi?
-É, acho que sim.
-Por outro lado isto já tem mais de vinte anos. Já deve ter prescrito. Dr. Mário Constantino é uma raposa velha. Advogado sem escrúpulos, sabe como ninguém se precaver de algum problema. Mas acho que posso contar com meu padrinho. Este sim foi um grande pai pra mim. Só não consigo entender porque nunca me contou a verdade. Poderia estar magoada com ele, mas sei que deve ter tido um motivo muito forte. Tenho que procurá-lo. Meus pensamentos estão muito confusos. Preciso por a cabeça no lugar. Posso ficar aqui hoje?
-Claro que sim! Eu vou adorar.
-Vou pensar em todas as possibilidades que tenho, qual o trunfo que disponho. Tem que haver uma forma. Preciso saber de tudo, caso contrário não terei paz o resto dos meus dias.
-Cuidado para você não se machucar mais ainda. Tem coisas na vida que é melhor a gente nem ficar sabendo.
-Caco, quando uma coisa martela nossa mente, por pior que seja, é melhor ficarmos a par. Nunca vou saber se é ruim caso não a conheça, entende? E, além do mais, se não tentar morrerei na dúvida. Isto aprendi com meu pai, aliás, com Dr. Mário. Nem sei se tenho pai.
-Claro que você tem pai Carolina. Eles te criaram, não esqueça disto. Te deram tudo que tem hoje?
-E o que tenho hoje? Diga-me. Eles só me aturaram por não ter outro jeito. Por serem culpados e não poderem se livrar de mim. Tudo sempre foi para Paula. O mais importante principalmente: o carinho, o amor. Eu nunca tive nada nesta vida Caco. Só ilusões, sonhos e decepções.
-Carol, tome muito cuidado com os seus sentimentos. Não deixe que o ódio a domine, ele pode lhe destruir. Lembre-se sempre que a capacidade de perdoar é muito mais nobre e gratificante que a vingança. Aliás, a melhor vingança é o perdão.
-Não quero me vingar de ninguém, quero apenas me descobrir. Não que ache isto a solução dos meus problemas, mas se estivesse no meu lugar iria me entender. Eu devo ter um pai e uma mãe Caco. Os que me geraram. O que aconteceu com eles? Será que estão vivos? Porque me deram para outros criarem? Será que me deram mesmo ou fui roubada por alguém? E esta história de tráfico de crianças? Você acha que isto deve ficar impune? Não Caco, preciso muito saber de tudo e, acredite, saberei. Quando boto uma coisa na cabeça nada me faz recuar e não vai ser dessa vez. Talvez, depois de saber tudo até entenda melhor os meus pais, tanto biológicos como de criação. A verdade é que isto me dá um novo sentido na vida, algo que não existia. Viver para mim era apenas passar e agora é o caminho para chegar a um lugar específico. Um objetivo, algo porque lutar. Preciso fazer meu caminho de volta para entender como e porque estou aqui. Entende?
-Acho que sim minha princesa, espero só que você não se machuque mais. Vou ver como poderei ajudá-la ta?
-Oh meu amor! Eu sabia que poderia contar contigo. Soube disto desde o momento que me olhou no banco daquela praça.
-Eu tenho medo de me envolver com isto, tenho que ser sincero. Não sei o que pensar.
-Mas eu sei. Sei o que me fez sentir, sei que me tornou mulher. Nunca me senti tão amada e valorizada. Você deu a minha vida um significado. Algo que ela nunca teve.
-Vá tomar um banho meu amor. Vou preparar algo pra gente tomar o café da manhã às cinco da tarde.-Falei rindo.
Enquanto eu cortava umas frutas para um suco e fazia uns sanduíches Carolina tomou banho e veio ao meu encontro. Falava como uma desesperada, não parava um minuto sequer. Eu, atordoado, tentava assimilar suas palavras, mas era difícil para mim. Tudo porque segui aquela mulher. Mas que mulher? Linda, meiga, decidida, fascinante. Sem querer estava me envolvendo num problema muito sério e era preciso tomar uma decisão logo, antes que fosse tarde demais. Eu sentia que minha vida nunca mais seria a mesma. Só não sabia o que estava por vir. Se seria melhor ou pior de tudo que já tinha vivido. O que me esperava naquele caminho de volta?
-Carolina. Espero que não me leve a mal. Preciso ficar sozinho por um tempo. Acho que você também. Fique a vontade. Se quiser ligue o som ou a televisão, ou pegue um livro na estante. Vou sair para caminhar, não demoro.
-Vai Caco. Estarei aqui esperando você. Ela me beijou. Eu estremeci, senti um arrepio frio na espinha. Saí sozinho e caminhei até a orla. Vaguei sem rumo olhando o mar. O que estava do outro lado dele?

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O SUSTO


O susto é o prenúncio do medo
O medo que está por vir
Ou aquele que já veio?
Do veio porvir
Porventura
A cura do medo
Segredo sem farol
Labareda no teu seio
Alimento na ponta do anzol
Assombração entre o arvoredo

Medo, medo, medo
Segredo, segredo, segredo
Arvoredo, arvoredo, arvoredo
Ventura, ventura, ventura
A cura, a cura, a cura
Pura, pura, pura

Assombração entre o arvoredo
Alimento na ponta do anzol
Labareda no teu seio
Segredo sem farol
A cura do medo
Porventura
Do veio porvir
Ou aquele que já veio?
O medo que está por vir
O susto é o prenúncio do medo

domingo, 9 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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CAPÍTULO 02

A vida de Carolina foi um verdadeiro conto de fadas até seus três anos de idade. Como única filha, era paparicada por todos. Pai, mãe e avós. Tinha tudo do bom e do melhor vivendo rodeada de presentes e carinho. Chegava a ser demasiado o dengo com o qual era tratada por todos. Tinha tudo para ter uma vida de rainha até que, sem que ela pudesse imaginar, um fato novo viria mudar toda a sua vida e o seu destino daquele dia em diante.
Quando Mário e Sandra resolveram criar Carolina, se conformaram plenamente com aquele desvio do destino. Já que não podiam ter filhos, era esta a vontade de Deus, o jeito seria adotar uma criança. Numa circunstância um tanto estranha conheceram Carolina. A paixão foi imediata. A menina era linda e ainda um bebê de dias. Pele alva e olhos claros o que muito contava para o preconceituoso casal. Dedicaram-se como verdadeiros pais à criação da menina. Registram-na como filha legítima e em tudo no que mais poderia influir na sua formação assim agiam. Sandra até já havia esquecido que jamais poderia ser mãe. Era como se já fosse e pronto. Até fizeram um pacto com os avós maternos e paternos para que jamais fosse revelada a Carolina a sua origem, bem como a qualquer outra pessoa. Sandra não comentara sobre o seu problema com ninguém e, logo que tomaram Carolina para criar, viajaram para a Europa onde passaram quase dois anos. Ao voltar, foi fácil apresentar a menina sem levantar suspeitas. Ela cresceria acreditando ser filha biológica do casal. Tudo isto estava perfeito até março de 1972. Naquela época, Dr. Ciszen retornara de uma viagem de três meses aos Estados Unidos onde fizera um curso de aperfeiçoamento. Ele que, além de médico, era amigo íntimo da família, assim que chegou a Salvador foi a casa dos Constantinos para uma visita, para matar as saudades de Carolina por quem se afeiçoara muito e para contar as boas novas que trazia de lá para o casal.
-Dr. Ciszen! Grande prazer ter o amigo de volta! Vamos fazer um brinde de boas vindas.
-Senti muitas saudades Mário. Esta terra é maravilhosa, realmente mágica. Posso ir pra qualquer lugar do mundo, o mais civilizado que seja, mas só me sinto em casa no Brasil e, principalmente, em Salvador. Aqui tenho meus amigos, minha família, minha casa de praia, enfim, tudo meu está aqui. E Sandra? Tudo bem. E a pequena Carol, estou com saudades da minha afilhada. Deve ter crescido um bocado nesses três meses hein? Deve estar linda. Estou louco para vê-la.
Mário pediu que Aurino chama-se a patroa e descesse com Carolina.
-Mas diga Ciszen, como vão as coisas na América. Lá já é primavera, daqui a pouco chega o verão. Irei a Nova York em breve. Preciso resolver uns negócios para um cliente.
-Aquilo nunca muda. Acho o povo frio, feio e chato. Não posso negar que estão a nossa frente, mas prefiro meu Brasil, por mais esculhambado que seja.
-Que nada Ciszen, aquilo sim é que é país. Não esta porcaria de Brasil.
-Amigo não cuspa no prato que come todos os dias.
Durante aquela conversa informal desce Sandra sem Carolina.
-Ciszen! Que prazer tê-lo de volta. Carolina está dormindo, por isso não a trouxe. Ela ficaria muito feliz em vê-lo.
-Deixa ela dormir Sandra, quando acordar a verei.
-Vai ficar para jantar conosco. Vou providenciar seu prato predileto.
-Já que a senhora tanto insiste, não tenho como recusar.
-Mas conte-nos como foi a viagem e o curso. – Falou Sandra.
-Foi tudo muito bom graças ao bom Deus. Pra vocês é que trago uma notícia que, creio eu, vai agradar-lhes muito.
-Não diga! Do que se trata? – Indagou Mário curioso.
-Nos estudos que fiz por lá tomei conhecimento de uma nova técnica no tratamento de alguns casos de infertilidade feminina que creio casar muito bem com o caso de Sandra. Através de um tratamento moderno, desenvolvido por um especialista americano, mulheres como você, têm conseguido em 90% dos casos, restabelecer a possibilidade de ter filhos. O método já foi testado em larga escala com muito sucesso. É um tratamento caro e, por enquanto só pode ser realizado lá. Mas isto não é problema para vocês.
Sandra ouvia atentamente as palavras do médico. Elas lhe davam uma esperança há muito morta no seu coração. Um novo sentido na vida.
-O Sr. acha que valeria a pena submeter-me a um tratamento desses Ciszen?
-Sandra, já diz o ditado que a esperança é a última que morre. Pode não dar certo, mas jamais saberá se não tentar. Deve sim estar preparada psicologicamente para um resultado negativo. Você já tem Carolina que uma princesinha. Caso não dê certo não amargará mais a dor de não ser mãe.
-Dr., Sandra já se conformou com a nossa situação. Temos Carolina que é tudo para nós. Tenho medo de, não dando certo, ela volte a ficar revoltada e caia naquela depressão. Não quero nem imaginar uma coisa assim.
-Calma Mário. Sou eu quem tenho que decidir. Afinal o problema está comigo.
-Eu sei amor, não é disto que falo. Pense bem, lhe darei todo o apoio seja qual for a sua decisão, mas confesso que temo algo de ruim.
-Mário, eu como médico ginecologista e obstetra, sei da importância que é para uma mulher gerar um filho no ventre. Sei também, e vocês mais do que eu, da frustração que é não poder gerá-lo. E, além disso, sou daquelas pessoas que só se dão como perdida quando se esgota a última das últimas das tentativas. Acho que vale a pena Sandra tentar o tratamento.
-Eu quero Dr., quero tentar. O Sr. me dá novas esperanças, este sempre foi o meu sonho. Preciso tentar novamente.
-Posso indicar vocês ao Dr. Clark Gate. Ele é uma das maiores sumidades do mundo no assunto. Foi ele quem desenvolveu este novo método revolucionário. Mário disse-me que está indo a Nova York em breve. Poderiam aproveitar a viagem e fazer uma consulta. Não custa nada. Só ele vai poder dizer se o tratamento se aplica ou não ao seu caso. Pelo que sei, já que fui eu quem acompanhou o seu problema desde o início, e, pelo que estudei por lá, acho que tem grandes chances de dar certo.
Sandra ficou entusiasmadíssima. Nada a impediria de fazer a consulta. Se Dr. Ciszen tinha esperança é porque ela tinha chances. Quem mais do que ele poderia saber disso? Mesmo que Mário não concordasse, ela iria se consultar. Porém, Mário jamais deixou de fazer as vontades de Sandra e não seria desta vez. Acabou por concordar em levá-la na viagem para que pudesse ir ao médico.
A intenção de Ciszen foi a melhor possível. Gostava muito de Sandra e de toda a família. Ela e a mãe eram, além de amigas, suas pacientes há anos. Mas, gostava muito mais de Carolina que além de sua afilhada era como a filha que sempre desejou e não teve. Não teve também coragem de adotar uma e a sua consciência lhe cobrava isto. Se imaginasse o mal que estava fazendo a menina ao sugerir o tratamento a Sandra, jamais teria dito nada.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ANA CAROLINA

O vídeo já diz tudo. O poema de Elisa Lucinda e a parceria de Tom Zé. Sem comentários!

NA BAIANA DO ACARAJÉ

-Diga aí freguês?
-Baiana, vê um com e um sem pra viage.
-Bota pimenta?
-Tá muito retada?
-Tá boa.
-Então bota como se o cu fosse seu. Tem guaraná?
-Sim. Tem coca, fanta, fanta uva e soda.
-Bota uma coca pra viage também. Sabe dizer onde eu pego o buzu pra Muriçoca?
-Faz o arrodeio a direita. Ele passa na pista de lá.
-Costuma demorar?
-Demora pra caralho. Só passa de caju em caju.
-Ôto dia peguei esse buzu e o motô botou pra fudê. Corria virado na nisgraça, acho que tava comeno água.
-Esses corno num respeita a gente. Leva o buzu como se fosse fusca. Ôto dia o motô fez uma curva virado na porra e derramou meu balaio todo.
-Filho da puta! Porque você num mandou ele pra casa da porra?
-É que tava na pendura, num podia reclamar. Cê sabe né, as vez a gente pega carona.
-Cê tava indo pronde?
-Da Curva Grande pro Pau Miúdo.
-Ah! Longe pra porra.
-O pior né isso. O buzu tava intupido e tinha um viado fazeno terra em mim. Mandei o sujeito tomar no lugar que galo gosta. Que falta de respeito!
-Pois é baiana. O povo num respeita mais nada. É foda! Cê já viu que tem um carioca trabalhano na padaria de seu Nonô?
-Vi, acho que ele é meio tiziu do peito seco.
-Pois é. O sacana ficou rino da minha cara porque pedi uma vara e dois cassetinho, pode?
-Pode não batera, quem essa bicha pensa que é?
-Sei lá. Aquela coca é fanta mesmo.
-Tô indo baiana. Vou levá o acarajé da nêga antes que isfrie. Ah! Bota uma punheta também. Quanto é?
-Seis real.
-Bota no prego baiana. De hoje a oito eu te pago.

P.S. Este texto é quase uma transcrição literal de um diálogo que ouvi ontem entre a baiana e um cliente quando fui comprar um acarajé.

Glossário de Regionalismos

Diga aí freguês: Saudação de comerciante, principalmente feirante, camelôs e baianas de acrajé, aos seus clientes.
Baiana: Vendedora de acarajé.
Um com, um sem: Acarajé com e sem camarão.
Muito retada: Muito forte, ardendo demais.
Como se o cu fosse seu: pouca pimenta.
Guaraná: Para o baiano guaraná é sinônimo de refrigerante.
Viage: Viagem.
Buzu: Ônibus coletivo.
Muriçoca: Pernilongo. Neste caso alusão ao Vale da Muriçoca que liga o bairro da Federação a Av. Vasco da Gama em Salvador.
Arrodeio: Retorno.
Pra caralho: Muito.
De caju em caju: De quando em vez, espaçadamente.
Ôto: Outro.
Nisgraça: Desgraça.
Comeno água: Fazendo uso de bebida alcoólica.
Motô: Motorista.
Virado na Porra: Forte, nervoso, com muita intensidade.
Balaio: Cesto grande trançado de vime ou cipó.
Na Pendura: Fiado ou de graça.
Num: Não
Cê: Você.
Pronde: Para onde.
Curva Grande: Ladeira no bairro do Garcia em Salvador.
Pau Miúdo: Bairro de Salvador.
Intupido: Muito cheio, entupido.
Fazeno terra: Roçar por trás nas pessoas.
No lugar que galo gosta: No cu.
Trabalhano: Trabalhando.
Tizio do peito seco: Homossexual.
Rino: Rindo.
Vara: Pão francês 200g.
Cassetinho: Pão francês 50g.
Batera: Amigo, parceiro.
Aquela coca é fanta: O rapaz é gay.
Nêga: Esposa, namorada, amante.
Isfriar: Esfriar.
Punheta: Bolinho frito de tapioca coberto com açúcar e canela em pó. Também conhecido como bolinho de estudante.
Botar no prego: Pendurar, fazer fiado.
De hoje a oito: Daqui a uma semana.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

BILHETES II

Eu escrevi bilhetes de amor. Escrevi linhas que falavam da minha angústia e do meu desespero. Escrevi cartas com mentiras e verdades tentando aproximar o meu eu da minha razão. Eu fui fundo nas palavras dos bilhetes não lidos. Esquecidos na porta da geladeira. Como aquele que avisava para desligarem o fogo do feijão antes do incêndio consumado. Eu escrevi bilhetes conotativos com idéias desencontradas e palavras sem sentido, cujos significados desconotativavam o resumo da história. Escrevi bilhetes sem memórias ou lembranças. Sem esperanças, sem pudores. Falava dos meus amores como falo de futebol. Escrevi bilhetes não postados, esquecidos nas gavetas e escaninhos de um cérebro em colapso. Fui relapso, preguiçoso, fui fugaz.

Recebi bilhete azul me apontando a porta da saída. Na hora da despedida um bilhete de apoio e consolo. Li bilhetes de artistas nos versos das canções. Bilhetes de corações apaixonados. Cartas quilométricas desconsiderando a distância entre seus destinatários. Bilhetes com relicários e um passado no papel. Bilhetes de uma vida, uma encarnação não lembrada, nas sessões de regressão no divã de um analista. Um que veio do florista com as rosas vermelhas e amarelas. Este estava perfumado. Bilhetes deixados na mesa, nos correios, no caderno ou no bolso. Bilhetes, bilhetes, bilhetes, que teimo em ler ou escrever com a caneta já falhando. A tinta acabando no bilhete que deixo agora supurando a ferida. Não conto a minha história, só me despeço da vida.

domingo, 2 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO I

Quando dobrei a esquina vi que ela havia sentado num banquinho da praça. Aproximei-me o mais que pude. Foi então que percebi o seu desespero. Ela chorava muito.
-Posso ajudá-la? – Perguntei.
Ela me olhou e nada disse. Apenas chorava. Seus olhos estavam vermelhos, sua face molhada pelas lágrimas. Observei atentamente suas feições e vi o quão bonita ela era. Linda. Seus olhos brilhavam, de um azul celestial, mesmo embaçados pelo pranto. Sua tez parecia suave como uma seda e os cabelos loiros e lisos balançavam ao vento daquele início de noite.
-Menina, sabe que não deve ficar aqui sozinha? Já escureceu e logo ficará perigoso. – Falei enquanto sentava ao seu lado. Ela me olhou profundamente e, por um instante, parou de chorar. Tentou falar algo, mas o pranto tomou-lhe novamente. Abraçou-me com se me conhecesse há tempos e, com todo o carinho, ofereci meu ombro para consolá-la.
-Não sei que tipo de problema está passando. Não sei se quer o seu nome, mas não gosto de ver uma moça tão linda chorando na rua, em plena noite a se expor.
-Carolina. Me chamo Carolina. – Pela primeira vez ouvi sua voz, estava trêmula. Pela aparência imaginei que tivesse mais ou menos a minha idade, 24 anos, mas não quis perguntar.
-Quer que te leve pra casa Carolina?
-Não. Pra casa não. Nunca mais quero por os pés lá.
-Então o que posso fazer para te tirar daqui. Você não vai ficar aqui sozinha vai?
-Não. Vou para um hotel. Quero passar esta noite refletindo. Amanhã decido o que fazer da minha vida.
-Que tal se fôssemos a um barzinho? Podemos conversar e assim você relaxa um pouco.
-Você me leva?
-Claro. Não a convidei?
Pegamos um táxi e fomos a um bar no Parque do Abaeté. Lá a brisa da lagoa soprava como carícia em nossos rostos.
-Quer tomar um chopp?
-Prefiro uma caipirosca, por favor.
-Garçom! Traga-nos um chopp e uma caipirosca.
-Pouco açúcar, por favor. – Pediu Carolina.
-Tem certeza que não quer conversar sobre você?
-Você já está sendo muito gentil. Não quero te encher com os meus problemas. Provavelmente já tem os seus.
-Isto com certeza. Afinal quem não tiver problemas que mande o primeiro beijo.
Pela primeira vez ela sorriu.
-Desculpe minha falta de educação, sequer perguntei o seu nome.
-Não tem problema, você estava transtornada. Eu é que fui mal educado em não me apresentar. Me chamo Caio Marcelo, mas pode me chamar de Caco.
-Caco, eu espero não estar atrapalhando.
-De forma nenhuma. Na verdade é até bom. Estava indo para casa e ficaria sozinho. Com certeza acabaria a noite deprimido. Sabe, hoje é meu aniversário e não gosto de passar esta data sem estar rodeado pelos amigos.
-É mesmo? Coincidência, também faço aniversário hoje!
-Jura? Quando nasceu?
-Em 69.
-Realmente é muita coincidência, também sou do mesmo ano. Temos exatamente a mesma idade.
-Então vamos comemorar juntos. Um brinde a nós.
-Que tenhamos muitos anos de vida então. Tintin..
Brindamos o nosso dia e conversamos muito noite adentro. Não perguntei mais nada sobre o estado de desespero que a encontrei. Ela já estava descontraída, não quis trazê-la de volta ao sofrimento. Não sentimos o tempo passar até que notei o bar se esvaziando. Já era tarde e os garçons começavam a desmontar as mesas.
-Carolina, acho que já estão querendo fechar a casa.
-É mesmo! A gente perdeu a noção da hora. Vamos pedir a conta.
-Você já decidiu pra onde vai?
-Não, ainda não pensei nisto. Qualquer hotel próximo pra mim ta bom. Olha Caco, queria te agradecer. Você foi demais, conseguiu fazer com que eu esquecesse tudo que estou passando. Muito obrigada mesmo.
-Não agradeça, não fiz nada demais. Pra mim foi maravilhoso também. Salvou minha noite. Gostaria de poder ajudar mais. Sei que algo muito grave está acontecendo contigo, mas não quero me meter na sua vida. De qualquer maneira, saiba que ganhou um amigo e que estarei a sua inteira disposição quando precisar.
O garçom trouxe a conta que Carolina insistiu em pagar porém não deixei que isto acontecesse. Pedi ao garçom que chamasse um táxi.
-Carolina, não quero parecer inconveniente nem mal intencionado, mas se quiser pode ir pra minha casa comigo. Lá preparo algo para comermos, você toma um banho, relaxa, dorme e amanhã, com a cabeça fria, decide o que fazer.
-Não, não quero incomodar. As pessoas lá não estão esperando visitas. Vai ser um transtorno.
-De forma alguma. Primeiro porque moro sozinho e depois será um grande prazer para mim, poder acolhê-la.
-Será que posso confiar em você? – Falou rindo. Um sorriso encantador.
-Sou um cavalheiro. Seria incapaz de te importunar. Fique tranqüila.
Fomos para o meu apartamento. Eu estava confuso. Na verdade, no fundo, no fundo, pensava em tentar algo com ela, mas batia um grande receio de decepcioná-la. Nunca havia tido uma mulher tão linda nos braços. Talvez aquele momento de fragilidade que ela atravessava tornasse as coisas mais fáceis. Por outro lado poderia espantá-la se tentasse alguma coisa. Cabeça de homem! Que horror! Resolvi então me comportar e ser mesmo o cavalheiro que havia propagado.
Quando chegamos à minha casa, arranjei algumas roupas para Carolina poder tomar um banho. Havia algo da minha irmã Helena em casa que sempre vinha do interior passar dias comigo. Dei-lhe toalhas limpas, sabonete novo, etc. Notei que ela me observava a cada passo e que em seus lindos olhos brilhavam um lampejo de medo, uma linha de arrependimento. Como se tivesse lido meus pensamentos anteriores.
Enquanto ela tomava seu banho, fui para cozinha preparar algo rápido para jantarmos. Fiz um macarrão ao alho e óleo com camarões fritos à milanesa. Quando ela saiu do banho, veio para cozinha e ficou observando-me enquanto cozinhava.
-Nunca vi um homem como você sabia?
-O que tenho de diferente dos outros homens?
-Sei lá. Acho que é esse seu jeito gentil, sua maneira de tratar as pessoas. Nunca na vida um homem cozinhou para mim, a não ser em restaurantes é claro, mas isto não conta.
-Os melhores cozinheiros são homens se você não sabe.
-Já ouvi falar isto, mas nunca achei um disposto a me provar.
-Não sou bom. Faço o suficiente para me virar sozinho. Como pode ver não tenho ninguém para cozinhar pra mim.
-Você não tem família Caco?
-Tenho minha mãe e uma irmã, mas elas moram no interior.
-Você não as vê muito?
-Vejo sim. Sempre vou lá visitá-las. Às vezes minha irmã aparece por aqui e fica uns dias, mas não é muito freqüente não.
-Como você se relaciona com elas? Bem?
-Ah sim, muito bem! Elas são maravilhosas.
-Você é que tem sorte. Não posso dizer o mesmo.
-Você está revoltada com sua família? Porque diz que não quer mais voltar para casa?
-É uma história muito comprida Caco. Um dia posso te contar. Agora preferia não falar neste assunto. O máximo que posso te dizer agora é que tenho pais e uma irmã que não são meus e nunca me trataram como se fossem.
-Eles devem estar preocupados com você. Não gostaria de ligar avisando que não vai voltar para casa?
-Não, não precisa. Eles só se preocupam consigo mesmo. Mas este negócio está cheirando bem, hein? Você parece ser bom.
-Quando provar você fala certo?
Foi uma noite maravilhosa. Conversamos muito. Carolina me contou sua vida e as descobertas que tinha feito naquele dia. Todo o seu drama. Observei tudo que dizia. Não imaginava que pessoas como ela pudessem ter aqueles tipos de problemas. Foi uma surpresa para mim. Falei um pouco de mim também. Dos meus sonhos, minhas decepções, meus desencontros e desencantos, meus acertos e progressos e da minha total falta de grana, enfim, falamos de nós. Nada poderia fazer para consolá-la. Seus problemas eram maiores que todos os meus somados. Entretidos que estávamos na conversa, nem percebemos quando o sol raiou. O dia estava lindo, mas o sono nos dominava. Ainda bem que era domingo, não teria de trabalhar.
-Carolina, acho melhor a gente ir dormir. O dia já amanheceu. Foi uma das melhores noites da minha vida. Você é uma companhia muito agradável. Vou para o outro quarto. Espero que consiga descansar o corpo e principalmente a cabeça.
Neste momento ela olhou fundo nos meus olhos. Seu olhar era de ternura. Então, se aproximou e me beijou com uma ternura sôfrega. Aquele beijo foi diferente de tudo que já havia experimentado. O sol que nascia foi a única testemunha do nosso amor. Nos amamos até cairmos exaustos no tapete da sala. Adormecemos profundamente, abraçados como um só ser. Até aquele dia, Carolina era virgem.

sábado, 1 de agosto de 2009

PRESENTE PRA LAI

25 de Julho de 2009

É seu aniversário
E sou eu quem ganho o presente
Da imensa alegria
De estar com você

É seu aniversário
E eu sou quem fico contente
De ver minh'alma cansada
Na estrada rejuvenescer

É seu aniversário
E embora eu não mereça
Que no meu campo floresça
Um belo jardim em flor

Vejo na frente o cenário
De um lindo campo florido
E o sabor colorido
Da língua do seu amor

É seu aniversário
E nada trago nas mãos pra te dar
Nem jóias, mimos ou teréns

É seu aniversário
E nada pra te ofertar
Só meu amor, parabéns!