segunda-feira, 15 de junho de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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Introdução

XIII


Salvador, 29 de maio de 1969

Joca saiu no táxi com Carolina. Estava extremamente pensativo. Na verdade se decepcionara com Ducas pela traição a Hermínio. Se agia assim com um amigo de tantos anos que não precisava dele para nada, como seria com o próprio sacristão? Estaria só interessado em usar as pessoas? Os pensamentos se misturavam na sua cabeça. Um misto de raiva e decepção. Ou estaria ele ofendido por Hermínio de quem não conseguia esquecer? Não, isto não. Ele sempre fora um homem e não uma bicha apaixonada por um padre! Joca não conseguia se encontrar em seus pensamentos quando o taxista anunciou:
-Chegamos senhor, não vai descer?
Pagou a corrida e olhou para a casa que estava a sua frente. Como alguém podia ter tanto dinheiro e morar num lugar daqueles enquanto outros passavam fome e miséria? É, definitivamente Deus não é justo.
Tocou a sirene e em dois minutos um funcionário da residência veio atendê-lo.
-O que o Sr. deseja?
-Por favor, Dr. Mário Constantino. Ele está a minha espera. Meu nome é Antonio César.
-Acompanhe-me senhor. Ele o espera.
Entraram por um suntuoso jardim impecavelmente cuidado que encantou Joca. Ao fundo via-se a piscina em forma de um caroço de feijão. Ficava cada vez mais impressionado à medida que entrava na mansão. Ao chegar, Dr. Mário o esperava na sala de visitas.
-Prazer Sr. Antonio! Sou Mário Constantino.
-O prazer é todo meu senhor.
Durante as apresentações Mário observava a menina. Embora tivesse mentindo para a esposa, acabou por contar a verdade. Ela era linda. Conforme Dr. Miguel, seu colega, descrevera. Olhos azuis, pele clara e traços finos. Tinha realmente características de nobreza.
-Sr. Antonio. Vou chamar a minha esposa para ver a menina. Caso ela goste, ficaremos com a criança. Se tudo der certo, efetuarei o pagamento em particular no meu escritório ao lado. Não quero que ela presencie isto, entende?
-Claro doutor.
-Outra coisa. Para todos os efeitos eu vi a criança antes. Tive que contar esta mentirinha para convencer minha esposa. O senhor sabe né?
-Sem problemas Dr. Mário.
Mário tocou um sininho e segundos depois adentra a sala o indefectível Aurino. O mordomo que há anos trabalhava na família.
-Aurino. Peça a senhora Sandra que desça. Diga a ela que a menina está aqui.
Quando o mordomo avisou a Sandra, seu coração palpitou e mais parecia rasgar-lhe o peito e querer pular para fora. Não estava certa se era aquilo que realmente queria. Tinha medo, muito medo mesmo. Aquela criança lá embaixo não era sua. Como iria conviver com isto o resto dos seus dias? Seria melhor nem descer para vê-la. Mário não a perdoaria, seria para ele uma afronta. Deu a palavra ao colega que ela veria a criança. Não era justo que nem sequer descesse para olhar. Além do mais, bastava dar uma olhadinha e dizer que não gostou. Que não queria ficar com a menina. Estava decidida. Não iria criar uma desconhecida. Desceu sabendo exatamente o que iria falar.
Tudo mudou quando viu Carolina. Era uma princesa. Como sempre sonhara uma filha. Quando fitou a face da criança esta lhe deu um lindo sorriso. Uma lágrima rolou em seu rosto. Não teve como conter o choro.
Sandra tomou Carolina nos braços. Seus olhos brilhavam. Sentiu uma sensação de maternidade. Pareciam que as duas eram mãe e filha. Foi o que sentiu no momento. Sua mãe tinha razão. Iria criar a menina.
-Mário é linda! Você tinha mesmo razão.
-Ela é nossa filinha Sandra. Como iremos chamá-la meu amor?
-Perdão doutor pela intromissão. A mãe dela, antes de morrer, lhe deu um lindo nome. Carolina.
-É o nome da minha mãe! Exclamou Sandra. Carolina então. Vai se chamar Carolina. Minha Carol.
-Bem Sr. Antonio, vamos até meu escritório para acertarmos todos os detalhes.
Mário efetuou o pagamento a Joca. Foram cem mil dólares. Pagou em espécie e Joca contou nota por nota.
-Sr. Sou uma pessoa influente e não quero meu nome envolvido em escândalos. Por isso o Sr, vai esquecer de mim e de tudo que se passou aqui.
-Não se preocupe Dr. Mário. A discrição é fundamental. Nunca o vi na vida.
-É assim que se fala meu caro. Seja discreto e não irá se arrepender. O mesmo não posso falar caso faça alguma bobagem.
-Não tenha medo. Foi um prazer conhece-lo.
Joca estava satisfeito e orgulhoso de si próprio. Pela primeira vez esteve envolvido tão diretamente nos negócios de Ducas. Tinha consciência que se saíra muito bem. Nunca tinha estado com tanto dinheiro nas mãos. Agora podia entender o que Hermínio queria falar com “lhe pago muito mais”. Percebeu o quanto era pouco o que lhe cabia pelo tanto que se arriscava. E se fugisse com o dinheiro e fosse ao encontro de Hermínio? Mas tinha sua mulher e seus filhos. Não poderia abandoná-los. Não, não podia fazer isto. Naquele momento tomara uma decisão. Aceitaria a proposta de Hermínio.
Joca encontrou Ducas no hotel. Deu-lhe o dinheiro e contou-lhe como foi o encontro com Dr. Mário.
-Bom trabalho Joca. Você está a cada dia mais esperto.
-Obrigado padre, o Sr. é um homem muito bom.
- Que nada Joca, apenas sei reconhecer o trabalho e dedicação do amigo. Tome aqui meu filho. Cento e cinqüenta dólares para você. Hermínio pediu que lhe desse um pouco a mais.
-Obrigado padre.
-Não agradeça. Vamos fazer um brinde ao sucesso. Mas Joca, lembre-se sempre: Para Hermínio esta criança custou US$ 50.000,00. Este é um segredo nosso.
-Claro padre.
Joca se riu por dentro e pensou: -Segredo nosso? Sim, meu e de Hermínio.

domingo, 7 de junho de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO

XII

Salvador, 28 de Maio de 1969

Quando Hermínio deixou Joca no aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre, este estava com uma cara inconfundível: a de quem vai viajar de avião pela primeira vez. Era para ele uma experiência fantástica. Sempre sonhara com isso. Preferia apenas que fosse numa outra circunstância. O padre cuidou do embarque de Joca e da menina. Não tiveram nenhum problema pela presença da criança. A certidão que Hermínio providenciara abriu as portas do vôo para a criança. Hermínio orientou o rapaz de como proceder durante a viagem.
-Bem Joca, espero que faça uma ótima viagem. Ducas vai te esperar no aeroporto de Salvador. Daí em diante é com ele. Ele pagará a você. Quando for pagar a minha parte pedirei que deixe um pouco contigo pela sua competência.
-Não precisa Hermínio. O que for a minha parte já me basta.
-Precisa sim. Não se desvalorize. Seu trabalho foi fundamental e de grande importância. Além do mais, nada paga os momentos maravilhosos que vivemos. Vá com Deus meu filho. Que ele te proteja sempre. Agora pense muito no que te propus. Pense nos seus filhos, na sua mulher, e como será bom tudo isso para nós. Deus te guie!
-Não sei Hermínio. Vejo muita confusão em torno disto. Acho que não vai dar certo.
-Vai sim. Vai com Deus. É a última chamada. Você não pode perder este avião. Daqui pra frente o funcionário da companhia aérea vai te guiar. Boa viagem.
-Obrigado padre. Fica com Deus você também.

Joca passou o vôo inteiro pensativo. Não pode sequer curtir a sua primeira viagem aérea tamanha era a confusão na sua mente. Em tão pouco tempo, muitas coisas aconteceram na sua vida que o deixaram atordoado. Bebeu muito durante a viagem e sentiu um forte enjôo. A comissária logo percebeu que Joca não estava passando bem.
-O Sr. está sentindo alguma coisa?
-Estou um pouco enjoado.
-Se der vá ao toillete que eu fico com a menina. Ou então use o saquinho.
-Joca levantou às pressas e conseguiu chegar ao sanitário a tempo. Vomitou tudo que comera e bebera naquele dia, mas saiu bastante aliviado. O vôo foi demorado. Quatro escalas se sucederam até a chegada em Salvador. Teve a sensação que se cansara mais do que na ida, mas achou maravilhoso sair de tão longe e chegar no mesmo dia.
Ducas se encontrava no Aeroporto Internacional Dois de Julho a espera do sacristão. Estava tranqüilo, pois a pouco havia mantido contato com Hermínio e tivera um relatório detalhado de toda ação. Ficara bastante satisfeito com o desempenho de Joca na missão. No início, ficou um pouco apreensivo pela inexperiência do rapaz. Ele próprio não poderia se expor tanto. Resolveu arriscar. Quando a chegada do vôo foi anunciada nos alto-falantes, correu para o mirante e aguardou ansioso. Quando Joca desceu da aeronave com a criança no colo, mandou-lhe um aceno com um sorriso que em poucas ocasiões era tão sincero.
-Joca meu amigo! Fez boa viagem com sua filhinha?
-Fiz padre. Um pouco cansativa, tive alguns enjôos, mas tudo bem.
-É natural da primeira vez meu filho. E a criança como está?
-Muito bem. Esta menina é um doce. Não estranha, quase não chora. Sabe padre, criei muito afeto por ela. Parece até que é minha filha mesmo.
-Ela é sua filha rapaz! Não estrague tudo depois de fazer tudo certo. Vamos, no carro a gente conversa.

Ducas foi até o estacionamento retirar o carro e foi pegar Joca na plataforma de desembarque. Ao entrar no veículo, a menina acordou e mostrou seus lindos olhos azuis para o sacerdote.
-Que bela menina Joca!
-Carolina padre. Foi a mãe quem deu o nome quando ela nasceu.
-Ela não tem nome Joca. Quem dará seu nome serão os verdadeiros pais daqui pra frente.
-Quando ela embarca para a Europa?
-Os planos mudaram meu filho. Esta menina deve ficar aqui mesmo. Será menos complicado e mais lucrativo. O mesmo preço com muito menos despesa.
-Como assim padre?
-Saberá de tudo em breve. Não se preocupe. Afinal, será você mesmo quem vai entregá-la. Falta acertar alguns detalhes. Até amanhã tudo se resolve, mas quero lhe pedir uma coisa. Não vamos comentar nada destas mudanças com Hermínio. Ele não precisa saber. Assim os lucros serão maiores pra gente. Para todos os efeitos a menina embarca para Itália amanhã cedo. Certo Joca?
-Claro padre. – Falou Joca tomado por um profundo sentimento de decepção.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A LÍNGUA DO "F"

O discurso etílico de mesa de bar às vezes produz algumas pérolas. Ontem de madrugada fui com uns amigos ao aeroporto esperar meu compadre Zé Filho que veio do Pará passar alguns dias na boa terra. De lá fomos a um barzinho tomar umas geladas e comer uma bela feijoada. Depois de muitas cervejas, meu amigo Goiabão já não conseguia pronunciar corretamente uma palavra sequer chapado que estava. Mas, na hora de contar este "causo" articulou tudo direitinho para delírio dos bêbados a sua volta que deram muitas risadas, incluindo este que vos fala. A autoria é desconhecida, mas vale o registro.

"Um sujeito entra no restaurante, senta e chama a garçonete pelo nome:
-Filomena faça favor!
-Pois não senhor o que deseja?
-Fineza fazer frango frito.
-Algum acompanhamento?
-Farofa e fritas.
-Quer algo para beber?
-Frisante.
Depois de comer, a solícita garçonete pergunta:
-Está satisfeito? Quer mais alguma coisa para comer?
-Filé e fígado.
-Para acompanhar?
-Feijão e farinha.
Quando acabou o segundo prato, Filomena perguntou ao senhor:
-Aceita alguma sobremesa:
-Frutas frescas.
Ela trouxe a fruta junto com um copo de água e um cafezinho. Ao tomar o café o senhor fez uma cara horrível.
-O que foi, não está bom o café?
-Frio e fraco.
-E como o senhor gosta?
-Forte e fervendo.
-Desculpe amigo, qual o seu nome?
-Francisco Fernandes Fontoura Figueira Filho.
-Qua a sua profissão?
-Fui ferreiro.
-E porque não é mais?
-Faltou ferro.
-E o que o senhor fazia?
-Faca, faquinha, facão, fechadura, ferrolho, ferro fundido, funil...
-E agora depois de aposentado como o senhor se sente?
-Feio, fodido e falido.
-Tudo bem seu Fernandes. Se o senhor falar mais seis palavras começadas com F não vai pagar a conta.
-Formidável! Ficando fiado fico freguês.
Ao falar isto, se levantou e saiu sem pagar a despesa. Filomena, percebendo o erro do moço gritou:
-Seu Fernandes, o Sr. disse apenas cinco palavras.
-Foda-se Filomena!"