domingo, 31 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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Introdução

XI

Salvador, 28 de maio de 1969

Os dias que se seguiram à consulta com Dr. Ciszem foram conturbados para Mário e Sandra. Ela desesperada e inconformada, ele exausto, com os nervos à flor da pele, cansado de tentar convence-la que adotar uma criança poderia resolver o problema conforme a orientação do próprio Ciszem. Resolveu pedir ajuda a sogra.
Foi uma decepção muito grande para Sandra que passara a vida inteira sonhando em ser mãe. Na verdade fora criada para isto, ser dona de casa, esposa e mãe. Mas Deus às vezes tem planos diferentes e contra isto não se pode lutar. Sua mãe, D. Carolina, a pedido de Mário, fora passar aqueles dias com ela em sua casa. Consolava Sandra como podia e conversava muito com ela.
-Sandra, acho que Mário tem razão. Não existe outra solução que não seja a adoção de uma criança.
-Mas mãe, um filho que não é nosso, que não sabemos de onde veio, quem são os seus pais, que sangue carrega nas veias. Isto não me parece algo para gente da nossa classe social. A maioria dessas crianças adotadas é de família miserável, às vezes até filhas de marginais. Que tipo de gente podemos botar em nossa casa?
-Filha, ninguém nasce ruim. O mundo e a criação é que se encarregam de formar o caráter de uma pessoa. Se você der amor a um filho adotivo como se fosse seu, educá-lo conforme seus valores, dar-lhe todo o seu amor, sua amizade, seu carinho, é isto que ele vai assimilar na vida. É de um boa índole então que ele vai se formar. E, além do mais, a criança nem precisa saber que não é filha legítima.
-A senhora acha mesmo isto mainha?
-Claro que sim. Veja a minha prima Analu, ela não é filha legítima de tia Olga. Embora saiba disto, é uma pessoa exemplar, uma excelente filha, uma mãe maravilhosa. Foi uma criança largada, sabe Deus por quem, na frente da casa de titia. Quando tia Olga a encontrou, ficou com ela pra criar e hoje são como mãe e filhas sem nenhuma diferença. Mas também foi criada com muito amor e com toda condição. Por que não pode ser assim com você querida?
-Ah mãe, não sei não. Tenho muito medo. Só de pensar que nunca vou poder ter o meu verdadeiro filho...
Neste momento Mário chega em casa todo feliz, cumprimenta a sogra e a esposa e fala:
-Tenho uma notícia maravilhosa para vocês!
-O que é amor? Fala logo.
-Calma Sandra. D. Carolina preciso da sua ajuda para convencer esta teimosa. Louca pra ser mãe e não quer adotar uma criança. Mas acho que ela pode mudar de idéia com o que tenho para contar.
-Fala Mário, estou ficando curiosa. Pára com esse suspense bem.
-Já ouviram falar de crianças brasileiras que são mandadas para a Europa?
-Esta ficando maluco meu genro? Está falando de contrabando de crianças?
-Calma minha sogra, não é nada disto. Falo justamente do contrário, de evitarmos que isto aconteça mais uma vez impunemente. Tem uma menina gaúcha, linda, olhos azuis, branquinha como algodão, linda mesmo, não tem sequer um mês de nascida. Pois esta menina está prestes a ser mandada para a Itália. Se Sandra quiser podemos evitar isto e ficar com ela.
-Você já viu a menina amor?
-Vi sim, fui lá hoje. É linda como uma rosa. – Mentiu Mário. – Tenho um colega que já defendeu umas causas para um dos intermediários do tráfico de crianças. Foi por intermédio dele que tomei conhecimento da menina. Ela pode ser nossa já, basta ligar para que eles mandem traze-la aqui. Depois, ninguém precisa ficar sabendo de nada. Não precisamos contar a ela que não é nossa filha. Temos pessoas de olhos claros na família. Tudo se encaixa perfeitamente. Sandra, só depende de você.
-Quanto vai pagar por ela Mário?
-Isto não vem ao caso. Nada que faça diferença.
-O que a senhora acha mainha?
-Por que não vai ver a menina?
-A gente podia ir ver ela meu amor?
-Não seria bom vocês irem lá. Podemos pedir que eles a mandem aqui. No máximo amanhã ou depois. Tenho certeza que vai adorá-la meu amor. Ela é uma princesa.
-Tudo bem, mande trazer a menina aqui então, mas não prometo nada.

Quando Luzia, empregada da casa desde os primeiros dias de casamento, hoje uma espécie de governanta do casal, vinha com a bandeja trazendo suco e biscoitos para Sandra e a mãe, não pode deixar de ouvir Mário chegar com a notícia. Ficou no corredor que dava acesso à sala íntima onde conversavam e ouviu tudo. Sentiu um arrepio na espinha e um pressentimento nada agradável.

domingo, 24 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO


X

Minuano, 27 de maio de 1969

Marcolino entrou no Bigodão com sorriso de orelha a orelha e ar de superior.
-Juca, passa a régua na minha conta. Quero pagar o que devo.
-O que aconteceu tchê! Tirou na loteria?
-Dívida é dívida, tem que ser paga guri. Bota logo uma branquinha para comemorar o pagamento Bigode.
-Onde arranjou dinheiro Marquinho? Andou fazendo alguma besteira?
-Marcolino filho da puta! Cadê Carolina seu bagual(1) duma figa? – Era Gerusa aos berros entrando desesperada no bar. – Foi assim que deixou de beber seu canalha? O que foi que você fez com a menina? Cadê minha Carol? – Ela não conseguia nem falar direito tamanho o desespero.
-Êpa! Sua Carol? Se enxerga mulher, sua filha se chama Salomé. Carolina é minha filha e não sua entendeu? Ela está bem, pode ficar tranqüila.
-Pelo amor de Deus Marquinho, onde está Carolina? O que você fez com ela?
-Eu dei para um grande amigo meu criar. Ele é rico, vai dar um futuro melhor pra menina. Escola, casa bonita, viagens, enfim, tudo que a gente não pode dar.
-Quem é esse amigo Marcolino? Nunca soube que tinhas amigo rico, tchê! De onde você conhece ele?
-Ele não é daqui não, é de Sergipe. Terra de gente boa, gente de bons sentimentos.
-O que não é o seu caso desgraçado. Filho da puta! Como pode existir um verme como você? Tu é um monstro! Não liga nem para quem ajudou a botar no mundo, não se importa com o destino da menina. Só pensa em você mesmo. Eu não estou engolindo esta história miserável!
-Claro que me importo com o destino de Carolina. Justamente por me importar que tomei esta atitude. Com o Antonio ela vai ter um futuro digno de uma rainha. Vai ter carinho, amor, educação e tudo que você mesmo diz que uma criança precisa. Será que você não entende Géu, é melhor para ela.
Gerusa olhava para Marcolino com olhos de serpente. A raiva lhe tomava por dentro e antes que fizesse uma bobagem saiu em prantos a correr desesperada pelas ruas sem saber o que fazer. Isto não ficaria assim. Ia por aquele verme na cadeia. Não podia fazer mais nada. Entregaria o mau caráter à polícia. Chegando ao posto policial, o delegado e o único guarda do município não se encontravam. O posto estava vazio. Resolveu esperar. Desde aquele dia, nunca mais dirigiu uma palavra a ele.

-Marcolino, esta estória está muito mal contada. – Era Juca que observara a discussão dos dois. – Você vendeu a menina para o sergipano de ontem né Marquinho?
-Relaxa Juca. Antonio é homem decente, rico. Logo se vê que é gente fina. Não pode ter filhos o coitado. Sua esposa sonha com isso. Eles vão dar um futuro melhor para a minha filinha.
-Para com isso Marquinho. Quando foi que te importaste com a menina? Além do mais sei que o sergipano te soltou uma nota preta. Onde tu arranjou dinheiro para pagar a conta?
-Eu não vendi a menina não Bigode. Ele só me deu uma gratificaçãozinha, entende? Nada de muito valor. Então estou aproveitando para honrar meu compromisso. Mas se não queres a grana não precisa que eu pague não é mesmo Juca?
-Não é isto que tô falando tchê. Sabes que não é. Já ouviu falar de contrabando de crianças amigo? Contrabandistas que roubam ou compram crianças no Brasil e mandam para o exterior? E se esse Antonio, se é que ele se chama assim, for um deles?
-Onde já se viu Juca! Um moço tão fino como aquele contrabandista? Tu ta é maluco que nem a desmiolada da Gerusa, isso sim.
-Quem vê cara não vê coração rapaz. Tu não sabe nada da vida mesmo tchê.
-Vamos largar de conversa fiada ô Bigode. Bota mais uma branquinha aí. Preciso de inspiração e abrir o apetite. Tenho que me alimentar bem. Mais tarde vou na Donana. Chegou uma chinoca(2) da fronteira que é uma beleza. Macanuda(3) a guria tchê, precisas ver. Deve ter uns quinze anos. Ta todo mundo querendo abater a guria.
-É já me disseram. Mas não to indo na Donana estes dias não. Da última vez deu o maior rolo com a patroa. Você sabe.
-Eu sou um homem viúvo, desimpedido. Só não comi a franga ontem porque ainda tava naqueles dia. Já botei preço e Donana garantiu que hoje guarda ela só pra mim. Vou dar um agradinho a mais pra velha.
-Quando foi que ser casado foi empecilho para você freqüentar Donana ou qualquer bordel da cidade Marquinho? Tu é muito cara de pau guri!
Marcolino passou o dia na boemia. Pagou bebida para os amigos, comeu tudo que podia, depois foi comemorar na Pensão da Donana. Foram exatamente oito dias de comemorações, orgias e farras, tempo suficiente até ele gastar o último centavo do dinheiro que recebeu por Carolina. Depois disso, caiu numa sarjeta de dar dó. Vivia feito mendigo pelas ruas implorando alguns trocados que invariavelmente gastava em cachaça. Comia com a caridade dos outros. Os que se diziam amigos desapareceram, mas o povo de Minuano tinha um bom coração e sempre davam a ele comida e agasalhos. Dormia pelas ruas e raramente tomava banho. O único amigo de farra que não o abandonou foi Juca. Nunca mais ele vendeu ou deu cachaça a Marcolino, mas sempre aparecia com um prato de comida ou cobertores e, era o único que sentava na calçada para conversar com ele. Marcolino passou dez anos perambulando pelas ruas da cidade nesta vida de pedinte. Ficou só pele e osso e quase morreu de cirrose até o dia que teve a visão que mudou a sua vida para sempre.


N.A. _____________________________________________________
1. Bagual: Equino selvagem, não domado.
2. Chinoca: Caboclinha, pessoa do sexo feminino de pouca idade que apresenta traços étnicos indígenas.
3. Macanudo: Bom, superior, belo, admirável, etc.

domingo, 17 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO


IX

Porto Alegre, 27 de maio de 1969

A viagem foi tranqüila. Carolina chorou só um pouco. Joca, com a experiência de seis filhos não teve dificuldades. Pegou a mamadeira que preparara na pensão, sob o desconfiado olhar de Donana, e acalmou a menina. Pe Hermínio já o esperava na rodoviária. Já tinha também providenciado um berço para o quarto com o hotel. Joca embarcava na manhã seguinte no primeiro vôo para Salvador.
-Não devemos sair mais hoje Joca, não é conveniente, pode chamar atenção. Desconfio que Gerusa, quando souber do ocorrido, irá procurar a polícia. Por falar nisso ela te viu?
-Não, em nenhum momento.
-Ótimo! Já providenciei que sirvam mingau quando ela estiver com fome. É só a gente pedir. Para todos os efeitos ela é sua filha. Entendeu?
-Olhe para esta menina padre. Quem vai acreditar que é minha filha?
-Não se preocupe. Ninguém precisa vê-la. Agasalhada do jeito que está quem verá a pele dela? Não me chame de padre, me chame apenas de Hermínio. Não está com fome?
-Para falar a verdade estou morrendo de fome.
-Vamos aproveitar enquanto ela dorme para comer. Vou pedir para mandarem algo bem gostoso para nós dois. Acariciou o rosto de Joca enquanto falava.
-Ela tem um nome o Sr. Sabia? Carolina.
-Sabia sim Joca. Mas isto não vem ao caso. Dentro de alguns dias esta menina vai embarcar para a Europa. Ducas já está fazendo os contatos e providenciando a documentação com nosso advogado em Salvador. Quando ela chegar lá, com certeza ganhará outro nome. Às vezes fico com remorsos, mas a verdade é que estamos ajudando e muito esta criança. Teria uma vida de privações aqui. Escola, alimentação, lazer? Que futuro teria essa menina aqui sendo criada por uma lavadeira? Ela vai ser adotada por um casal de condição. Vai ter uma vida melhor, viver num país melhor do que esta merda de Brasil. Por isso Deus não só nos perdoa como nos apóia.
-O Sr. acha mesmo padre?
-Hermínio, me chame de Hermínio meu garoto. Claro que sim Joca. Fique tranqüilo. – Alisou os cabelos encaracolados de Joca enquanto falava. – O que quer comer?
- O que escolher está bom pra mim.
-Então vou pedir um canelone de ricota.
-Cane o quê?!!!
-Canelone de ricota. É um prato italiano. A cozinha deste hotel é maravilhosa. Você vai gostar. Que tal um bom vinho para acompanhar?
-Pode ser.
Comeram no quarto mesmo. Carolina dormia tranqüila. Era uma criança serena, não estranhava ninguém e, justiça seja feita, estava sendo muito bem tratada pelos dois. Joca se deliciava com o canelone e com a segunda garrafa de vinho.
-Hermínio, isto aqui é gostoso mesmo. Vixe Maria! Não sei quando foi que comi algo assim. Acho que nunca. – Falou Joca mais solto sob o efeito do vinho.
-Você ainda vai comer muita coisa maravilhosa nesta vida Joca. Até melhor do que este canelone. Quando experimentar meu filé ao molho de madeira verá que além de bom padre sou um ótimo cozinheiro.
-Tomara que um dia eu possa provar.
-Só depende de você meu caro.
Durante o resto da tarde os dois ficaram com Carolina. Hermínio, sem que Joca notasse sua intenção, não deixava a menina dormir. Brincava com ela o tempo inteiro. Queria que ela sentisse muito sono à noite. Não poderia perder a última noite de Joca no sul. Só de pensar já estava excitado. Estava sentindo que o rapaz gostara do que aconteceu embora fugisse do assunto. Preferiu não pressionar. Esperou que a quarta garrafa de vinho fizesse o efeito desejado.
Joca contou com detalhes tudo que acontecera em Minuano. Como foi fácil convencer Marcolino Os dois riram. Sem nem mesmo entender, não teve coragem de contar ao padre que dormira com a moça na pensão de Donana. Às 10h mais ou menos, após uma última mamadeira, Carolina dormiu exausta. Hermínio serviu dois wiskhys 12 anos.
-Vamos fazer um brinde Joca. Tudo deu certo, temos que comemorar.
-Confesso que estou mais aliviado. Não pensei que fosse fácil assim. Ainda tenho um pouco de medo. A menina estava com uma amiga da mãe. Como o Sr. mesmo falou ela pode chamar a polícia e ainda tem a viagem de avião amanhã para Salvador. E se a polícia tiver avisada no aeroporto?
-Não se preocupe. Mesmo que Gerusa avise ao delegado, pois ela já deve estar louca uma hora dessas, eles não têm recursos para se prepararem em tão pouco tempo. Quando a polícia daqui souber, se souber, você já estará seguro em Salvador e a menina voando para a felicidade na Europa. Além do mais, pensam que é Sergipano. Depois de uns meses tudo vai ser esquecido. É sempre assim. Marcolino foi quem ganhou uma inimiga para o resto da vida, mas isso não é problema nosso.
Hermínio riu com o prazer da vitória. Pensava em quantos dólares valeria a criança. Já fazia tempo que não dava uma engordada destas na sua conta bancária. Ia tratar de abrir uma em Porto Alegre o mais rápido possível. Não poderia chamar atenção em Minuano com um depósito deste valor. Já cometera este erro antes. Agora que estava prestes a largar a batina e se beneficiar de tudo que juntou na vida para ter uma velhice feliz e tranqüila, não podia mais se expor.
-Hermínio, posso te fazer uma pergunta? – Falou Joca com a voz já embolada pelos efeitos do álcool.
-Claro Joca fale!
-Este negócio é muito arriscado não é?
-Não se preocupe. É seguro. Trabalhamos com muito cuidado. Quem poderia descobrir? Não dá nada pra gente não. Fique sossegado.
-Às vezes me dá medo. Não tenho nada Hermínio, nem como me defender caso algo aconteça.
-Não será preciso Joca, relaxe. – Falou enquanto alisava o rapaz e se aproximava mais.
-Tudo bem, confio em vocês. Mas tem outra coisa que quero falar. Não sei por onde começar.
-Pelo começo talvez. O que está te preocupando?
-É a respeito do que aconteceu ante-ontem. Não gostaria que ninguém soubesse. O Sr. me entende né?
-Claro que sim. Nem eu quero que ninguém saiba, muito menos Ducas. Ele não ia me perdoar. Mas quero que saiba que adorei. Você foi fantástico. Isto não é o fim do mundo acredite. – Enquanto falava Hermínio começou a alisar o pênis de Joca por sobre o calção que logo ficou duro. Este tremia de nervosismo e tesão. Não ia conseguir resistir. Amanhã ele iria embora e nunca mais isto aconteceria. Não tinha problema, só aquela vez. Como se adivinhasse os pensamentos de Joca, Hermínio tirou o pênis dele para fora e começou a fazer sexo oral no sacristão. Depois beijou-o na boca e foi correspondido. Mais uma vez fizeram amor ardentemente. Joca era demais, um homem como poucos, pensou o padre. Por isso sua esposa não largava do seu pé. Qualquer mulher, assim como ele, adoraria um homem daquele. Depois do sexo, deitaram juntinhos na cama de casal e Hermínio falou:
-Joca, se você quiser, posso dar-lhe uma vida bem melhor. Basta que venha morar comigo. Pode ser o sacristão da minha paróquia. Em breve pretendo largar a batina e podemos viver juntos num lugar tranqüilo, longe de tudo e de todos. Pode trazer sua família. Consigo uma casa para vocês, uma casa boa. Garanto a escola dos meninos. Te pago bem pelos seus serviços na paróquia. Aí poderemos fazer amor sempre sem que ninguém saiba. Claro que isto não pode ser agora. É preciso dar um tempo para as coisas esfriarem por lá. Você não deve ser reconhecido em Minuano.
-Hermínio você está louco! Pe. Ducas jamais iria me perdoar se eu o deixasse. Tenho uma dívida muito grande para com ele. É mais do que um pai para mim. E, além disto, jamais poderei voltar a Minuano.
-Deixe que eu cuido disso. Quanto a Ducas, tudo que fez na vida foi te explorar. Ficar com a fortuna enquanto só lhe dava migalhas. Você tem idéia de quanto ele lucra em cima do seu trabalho? Vá para a Bahia, pense no assunto. Temos muito tempo pela frente. Pense: é o futuro dos seus filhos que está em jogo. Você não quer dar uma vida melhor para eles? Pense, pense com muito carinho. Eu vou entrar em contato no tempo certo. Se precisar é só me ligar. Sabe como me achar. Agora vamos dormir um pouco, temos que sair cedo amanhã.

No berço ao lado, Carolina dormia tranqüila alheia a tudo, ignorando o destino que lhe esperava, por causa daqueles dois.

domingo, 10 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO


VIII

Minuano, 26 de maio de 1969

Marcolino, como nunca acontecia, acordou bem cedo, chamado por Joca. Só pensava no dinheiro que estava prestes a ganhar. Não o interessava o destino da filha. Sabia que Gerusa ia ter um treco, seria capaz de matar-lhe, mas isto depois ele resolvia. Não podia perder esta oportunidade. Eram sete e meia quando chegou à casa de Gerusa. Esta já tinha saído para o trabalho o que para ele era perfeito. Falou então com Salomé, filha de Gerusa que ficava com Carolina enquanto a mãe trabalhava.
-Seu Marquinho! Acordou bem cedo hoje, não foi?
-Vou procurar trabalho Salomé. Não dá mais para continuar nesta vida. Tenho uma filha e preciso ajudar na criação. Não posso continuar levando esta vida. Vou fazer Carolina sentir orgulho de mim. De início, logo deixei de beber.
-Que bom seu Marquinho. Minha mãe vai ficar muito contente.
-Cadê a Carolina, está dormindo?
-Está. Lá no quarto da mamãe. Dei uma mamadeira para ela agorinha mesmo.
-Posso vê-la?
-Claro. Vamos até lá.
Quando chegaram no quarto, Marcolino curvou-se junto ao berço e admirou a criança dormindo feito um anjo. Pela primeira vez percebeu o quanto a menina era bonita.
-Salomé, vai lá no tanque chamar sua mãe. Preciso conversar com ela.
-É pra já seu Marquinho. Olha a menina pra mim. – E saiu correndo ansiosa para contar à mãe como Marcolino havia mudado.
Quando Salomé saiu, Marcolino pegou Carolina no berço, pulou a janela do quarto e saiu em disparada para a pensão conforme havia combinado com Joca. Este já o esperava com tudo pronto. Desde fraldas até certidão de nascimento falsa para não haver problemas na viagem. Hermínio havia pensado em tudo.Estava preocupado e suando frio. Marcolino estava demorando, não podia perder o horário do ônibus. Será que alguma coisa dera errado? Pensou.Teve a preocupação de que Marcolino dormisse na pensão assim ele mesmo o acordara para não haver atraso. Andava de um lado para o outro olhando o relógio a cada segundo. Será que o rapaz chegaria a tempo?
Nem bem acabou de pensar Marcolino entrou no quarto com Carolina nos braços. Ela estava tranqüila, não chorava. Donana no entanto, muito estranhou Marcolino com a menina. Não acreditou quando ele disse que a tinha pego para dar uma voltinha e mostrar ao amigo. Joca pagou a conta e saiu com Marcolino para a rodoviária.
Chegaram em cima da hora, mas o ônibus ainda não havia saído. Antes de embarcar, pegou a menina no colo, pagou o combinado a Marcolino e se despediu.
-Você não vai se arrepender Marcolino. Sua filha vai ter uma vida de rainha.

De longe, Antonieta, prima distante de Gerusa, observava intrigada a conversa dos dois. Quem seria a criança que Marcolino estava entregando para aquele estranho? E o que tinha no envelope que recebeu? O que conversavam aqueles dois?

-Boa viagem, amigo. Vai com Deus!
O ônibus saiu enquanto Marcolino observava pensando; espero nunca mais vê-lo Antonio. Estava enganado.

sábado, 9 de maio de 2009

REFLEXÃO DE SER FILHA

Poema de Júlia Lopes e Adriano Carôso

Nós filhas muitas vezes brigamos
Com nossas mães
E, às vezes pensamos,
Como seriam nossas vidas sem elas?
Eu achei a resposta.
Nada seriam porque as amamos,
Todas elas
E, às vezes pensamos
As amamos tanto
Que mesmo quando elas brigam
Ainda assim a gente gosta.

E vocês mães sabem que amamos muito
Mesmo sendo de um jeito esquisito
Mesmo desobedientes, isto é o amor
E, como uma flor,
Ele é sempre bonito

Minha mãezinha querida
Hoje acordei com vontade
De falar que a amo tanto
No teu dia especial e dedicado
Mas para mim não existe dia melhor
Para mostrar minha felicidade,
Desfrutar do teu encanto,
Que quando estou ao teu lado.

Quero fazer contigo o meu traçado
E assim construir a minha trilha
Ver seu amor a mim dedicado
Para que eu não me fira ou me arranhe
Sermos juntas um só bocado
Ser pra sempre tua filha
Ter-te sempre minha mãe.

Mãe, parabéns pelo seu dia!

Dedicado a Cynthia Lopes Pinto

P.S. Dedico também esse post a todas as mães do mundo em especial a minha, Lourdes, a D. Leonor, minha sogra, a D. Maria Helena, avó de Júlia, a minha irmã Sílvia, a Elisângela, a Sandra, a Socorro e a Lai, que ainda não é mãe, mas isto não será por muito tempo.

Adriano Carôso

terça-feira, 5 de maio de 2009

BA x VI - "Quem Não Sabe Brincar, Não Desce Pro Play"

Domingo passado, eu entrei numa aventura sem igual. Não iria contar aqui, mas como meu irmão, se aproveitando da infinita vantagem que o fato lhe dá, está escancarando em seu blog, mentiras escabrosas, resolvi contar a verdade dos fatos para que vocês, queridos leitores, leiam as duas versões e tirem as próprias conclusões. Eu sou um grande admirador de contistas. Daquelas pessoas que têm o talento de pegar uma história real e transformar num conto de carochinhas. De prender o leitor como se aquilo fosse o maior romance do mundo. Edmundo é mestre nisto, mas nada lhe dá o direito de falar tamanhas inverdades ao meu respeito. Até porque, sou torcedor do Bahia desde que tinha sete anos de idade, e ele, bem mais velho que eu, achava que futebol era coisa de maluco. Cansei de o ver falar que ouvir um jogo no rádio, além de lhe dar uma profunda depressão, era coisa de quem tinha de se internar. Pois é, eu não me internei e muita crítica sofri por causa disto. Até que o tal, depois de entrar na fase dos enta, foi trabalhar no Vitória(leia vicetória,com letra minúscula e tudo). O cara virou, da noite para o dia, o maior rubro negro que já conheci. E o maior pirracento também. Coisa que sempre fui, independente o assunto, seja futebol ou mulher, física quântica ou poesia, por causa de tudo que aprendi com ele, que sempre foi um espelho e ídolo pra mim. Mas, resumindo a narração, vamos aos fatos reais.

Sábado, 02 de maio, era meu aniversário e eu, a contive de meu pai, fui para o interior comemorar. Edmundo, sabido de marca maior, que conhece minhas fraquezas como ninguém, me ligou e disse: -Velho Diu! Tenho dois ingressos para o Ba-Vi. Se você quiser me dar uma carona, já que meu carro está parado por causa da batida, te dou o outro pra gente ir junto. Eu falei: -Tedinho não sei, vou pra Serrinha na carona de Ruy e não sei que hora ele volta no domingo. Vai ter o churrasco do meu aniversário, boca livre que meu pai tá bancando e isso eu não quero perder. Se Ruy voltar cedo eu vou com você. Ele, sabendo como me influenciar desde que eu nasci, disse: -Eu não posso garantir nada, se você não vier, vou fazer um plano B. Acho outro amigo, talvez um Vitória, que queira ir comigo, ingresso de graça e tudo o mais e aí não posso garantir nada. Meu orgulho foi às alturas e me deu vontade de mandá-lo tomar banho para não dizer outra coisa. Mas, como até então eu precisava dele, preferi ficar calado.

E, com medo de perder a boca livre do estádio, ou por saber que ele não queria amigo nenhum, Vitória ou Bahia, e sim o irmão de quem estava morrendo de saudade, do interior o liguei e falei: -Não marca nada com ninguém. Se Ruy não for cedo, vou embora de ônibus e chego no horário do jogo. O filho da puta falou: - Venha almoçar aqui em casa. Vou fazer um rango, a gente come e vai pro estádio depois. Eu disse: -Ôpa, muito bom. Como seu rango depois vamos pro jogo, assim não preciso gastar a grana para comer na rua. Nos 170kms que me separavam de Salvador, ele me ligou três vezes, querendo saber onde eu estava e se ia mesmo cumprir o nosso combinado. Eu sempre falando que estava chegando.

Parei na porta de casa ao meio dia na carona gratuita de Ruy. Nem me despedi direito, subi, botei a camisa do Bahia, como chovia muito e fazia frio, pus o gorro também. Peguei meu carro e fui filar o feijão na casa do carcamano. Chegando lá ele falou: -Meu coração tá apertado, algo me diz pra não irmos pro estádio. -Que nada, vim de viagem tão cedo, agora vai amarelar? No fundo eu estava com o mesmo sentimento. Algo me dizia para não ir. Comemos o feijão, maravilhoso por sinal, e saímos pro campo. Eu ainda o chamei para tomar uma, mas ele, cheio de mania que é, disse que só beberia do meio do segundo tempo pra frente. Eu achei pertinente.

Eu precisava comprar pilhas para o meu rádio e Edmundo queria que eu comprasse no mercadinho do condomínio dele. Lá só tinha pilha da bala, alcalina de R$ 4,25. Eu que comprei meu radinho por R$ 5,00 no camelô da Fonte Nova, não aceitei pagar. Disse: - Vou comprar no camelô a paraguaia por R$1,00. Ele falou: - Vendedor de rádio e pilha é que não vai faltar nas redondezas do estádio.

No caminho para o estádio, ele o tempo todo falava: -Vamos voltar, ouvimos o jogo pelo rádio tomando uma lá em Gil(um bar em seu condomínio), não tomamos chuva e, independente do resultado, estou preocupado com você. Todo fantasiado de Bahia. Até nos encontrarmos na volta do jogo, você voltará na contra-mão da torcida do Vitória, que estará alegre ou feliz, mas com certeza a fim de brigar. Vi que o cara tinha total razão, ainda quero escrever sobre isso. As torcidas estão transformando um lazer numa guerra. Uma diversão numa tortura. Paramos no estacionamento, pagamos R$ 5,00, comprei uma capa de chuva por mais R$ 5,00, e fomos em direção ao estádio. Não havia um vendedor de pilhas sequer. Fomos até depios do campo e voltamos e nada. No caminho, eu fantasiado de Bahia, ele de Vitória, cruzamos com um grupo de torcedores rubro-negros. Uns quinze mais ou menos. Quando me viram com a camisa do Bahia cantaram: "Camisa feia, cheia de cor, todo viado que conheço é tricolor!" Eu tremi na base. Imaginei a cena que Edmundo havia descrito. Eu voltando na contra-mão da torcida. Não importava o resultado. Estava ali para tomar no cu, além de porrada é claro. Comecei a temer pela minha sorte. Aí resolvi aceitar a sua proposta. Voltar para casa. Mas aí ele começou a tirar onda. Já tá aqui, voltar pra que? Foi aí que Deus intercedeu.

Naquele momento, caiu um toró torrencial. Foi o motivo que achei para convencer o cara. Vale lembrar que, no meio do engarrafamento monstro que pegamos, tinha uma campanha de vacinação contra gripe. Os agentes nos convenceram a tomar a vacina. Ele desceu primeiro enquanto eu tentava encostar o carro. Ouvi a agente falando pra ele: -O Sr. Vai tomando a vacina enquanto seu filho estaciona. Toma filho da puta! Mesmo assim voltou ele cartando que eu era torcedor W.O. Pôs até esse título no seu post. Ou seja, que eu tinha corrido do pau. Mas ele topou. Naquele momento, nem imaginávamos ainda que o jogo iria passar na tv, ao vivo para todo mundo. Fomos pra Gil e assistimos ao jogo na televisão devidamente protegidos do torrencial dilúvio que caiu sobre o Barradão, mais conhecido como Barralixo.

O Bahia precisava ganhar por uma diferença de dois gols para ser campeão. Edmundo já havia falado que não gostaria que nossa rivalidade esportiva transformasse aqule encontro fraternal numa briga de família. Fizemos este pacto então. O jogo começou e logo aos 14min o Baêa meteu 1x0. Edmundo ficou logo emburrado. Mais tarde começou a reclamar de uma falta que o juiz não marcou. Eu falei: - Quem não sabe brincar não desce pro play. Infeliz idéia esta minha. Ele, que não conhecia o ditado, tomou aquilo como pirraça. Nos descontos do primeiro tempo, aos 46min, o Baêa broca de novo: 2x0. Placar do primeiro tempo. Eu, já me sentindo o campeão, entoei uns versos de uma paródia que fiz com o hino do Vitória, fazendo alusão ao fato do time nunca ter sido campeão brasileiro. Eu já fui duas.

Eu sou, um time sem glória
Não tenho história, nem tradição
Eu sou, sou o vicetória

E nunca fui um campeão

No segundo tempo tudo mudou de figura. O vitória, que jogava pior que o Bahia, fez 2X1 e em seguida empatou o jogo. A cada lance Edmundo falava: - Quem não sabe brincar não desce pro play. Quando o jogo acabou ele ligou para o filho e contou a mesma cantilena: - Quem não sabe brincar, não desce pro play. Mesmo assim tomamos amigavelmente mais um lote de cerveja até que fui para casa.

Segunda, quando acordei na maior ressaca, recebi um recado do meu sobrinho Pablo, filho de Edmundo, que havia ligado e dizia: - Quem não sabe brincar, não desce pro play.

domingo, 3 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

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INTRODUÇÃO

VII

Minuano, 25 de maio de 1969

Ao chegar a Minuano Joca logo se informou onde ficava o Bigodão e foi direto pra lá. Como o padre tinha orientado não perguntou por Marcolino a ninguém. Esperou até que chegasse alguém com as características que Hermínio lhe dera. Pediu uma cerveja e um petisco. Logo Juca, o dono do recinto, aproximou-se. Bastava olhar para Joca, ouvir apenas uma sílaba por ele pronunciada para saber que o cara não era dali.
-O Sr. não é destas bandas tchê?
-Não. Sou sergipano. Estou de passagem.
-O que te trazes aqui?
-Vou para Porto Alegre visitar minha irmã que veio de Aracaju há muito tempo. Nunca tive condição de vir vê-la, mas agora apareceu uma oportunidade.
-Desculpe a intromissão, mas não seria melhor ter ido direto pra lá? Porque passou por Minuano?
-É que tomei o ônibus errado, entende?
-Bah! Tri-chato rapaz!
Juca não acreditara naquela conversa de ônibus errado. Tinha algo estranho ali. O que faria aquele sergipano em Minuano? Isto lhe intrigou. Iria descobrir.
Joca procurava ser simpático, não queria despertar suspeitas. Sentiu que Juca não havia engolido muito a sua estória. Estava ficando agoniado pois Marcolino não aparecia. Até que, às duas horas da tarde, com cara de sono e de ressaca, olhos inchados com profundas olheiras, um sujeito branco de olhos claros e cabelos lisos alourados, adentra o bar alardeando: - Bota uma aí tchê! Preciso curar a de ontem guri! – Joca não teve dúvidas, a descrição de Hermínio fora perfeita. Era Marcolino.
-Bota uma comidinha também Juca, estou numa ressaca dos diabos, tchê!
-Eu quero novidade Marcolino! Disto a gente já sabe. O pior é que sua conta já está estourada.. Desde o falecimento de Maria que você não paga nada. Ainda por cima é comida e cachaça todo dia. Assim não dá.
-Bah! Juca. Não acredito que estás falando sério tchê. Somos amigos de longas datas guri. Sabes que estou em dificuldades financeiras. Terás coragem de me deixar com fome?
-Vou lhe servir hoje, mas se não pagar o que deve até amanhã, serei obrigado a cortar o seu crédito.
Joca observara a conversa de Marcolino com Juca. As coisas estavam dando certo. Nesta situação não seria difícil convencer o rapaz a vender a criança.
-Por favor amigo, o que tem aí para almoço? – Gritou Joca para chamar a atenção de Marcolino. Juca levou-lhe o cardápio.
-Cara nova na área Juca? – Quis saber Marcolino quem era o forasteiro.
-Sou sergipano. Estou a caminho de Porto Alegre. Vim para visitar a minha irmã. Já tem dez anos que não a vejo.- O próprio Joca respondeu. – Aceita uma cervejinha?
Não foi preciso oferecer duas vezes. Marcolino já puxou uma cadeira e sentou na mesa do desconhecido.
-Sou Marcolino Dantas, muito prazer! E o amigo?
-Antonio César ao seu dispor!
Joca e Marcolino começaram a beber juntos e conversar. O rapaz até que era simpático, mas logo se percebia que se tratava de um bêbado aproveitador.
-O almoço hoje é por minha conta.
-O amigo é muito generoso. Não quero incomodar, mas se o amigo faz tanta questão.
-Que incômodo que nada. Quando se está longe da nossa terra é sempre bom uma companhia agradável, uma nova amizade.
-Nisto o amigo tem razão.
-Você que conhece, o que acha que devo pedir para comer?
-Estás no Rio Grande tchê! Vamos pedir um churrasco misto. Dá para os dois e é uma delícia.
-Então churrasco. Pode pedir.
Comeram e beberam muito. Depois passaram a tarde jogando bilhar, bebendo e papeando. Juca ficou o tempo inteiro ligado na conversa dos dois. Alguma coisa lhe dizia que o forasteiro viera ali justamente para encontrar Marcolino. Mas com que intuito?

Joca foi aos poucos conquistando a confiança de Marcolino e o deixando cada vez mais bêbado e à vontade. No fim da tarde, Joca sentiu que já estava na hora.
-É, hoje não é o meu dia, não ganhei uma sequer. Desse jeito vai me levar a falência. Você é um jogador retado.
-O amigo não quer jogar outra? Quem sabe a sorte não muda?
-Este não é o caso de sorte Marco e sim de saber jogar. Você joga muito melhor do que eu. Já está ficando tarde, preciso encontrar uma pensão para passar a noite. Amanhã viajo cedo para Porto Alegre.
-Vá pra pensão da Donana. Lá é ótimo e tem umas gurias que se deitam por qualquer mincharia.
-Por acaso se incomoda de me levar lá? Não conheço nada na cidade. Depois podíamos pegar umas meninas para nos divertir um pouco. O que achas?
-Com prazer amigo! Cadê sua bagagem?
-Está guardada com Seu Juca.
Pediram a conta que Joca pagou sozinho, pegaram a bagagem e saíram rumo à pensão de Donana. No caminho Joca, aproveitando a embriaguez de Marcolino, começou a por o plano em prática.
-Pelo que pude perceber o amigo não está em boa condição financeira, não é?
-É Antonio. Estou desempregado, as coisas não estã fáceis.
-Desculpe a intromissão, mas quanto é o seu débito com Juca?
-Nada de muito grande. O Bigodão é que é sovina tchê.
-Acho que posso ajudar o amigo.
-Como assim? Não entendo.
-Vai entender. Vamos até a pensão. Lá explico tudo. Vou propor-lhe um negócio que resolverá seu problema.
Chegaram à pensão ao cair da noite. Marcolino fez as apresentações com Donana. Pegaram um quarto pra Joca.
-Donana, pede pra descer duas gurias, a gente vai se divertir muito hoje. Vamos mostrar ao amigo aqui que a gaúcha é quente tchê.
-Bah Marquinho! E a conta? Quem vai pagar. Você já ta devendo na casa a noitada com a Flor.
-Não se preocupe Donana, eu pago. Tome este dinheiro como garantia. – Se antecipou Joca – Agora preciso ter um particular com o amigo enquanto conheço o quarto. Depois voltamos para ver as garotas.
Donana levou os rapazes até o quarto e deixou-os a sós.
-Marcolino, vou lhe contar o verdadeiro motivo que me trouxe aqui. Na verdade não tenho irmã no sul. Toda minha família encontra-se lá em Sergipe. Eu tenho passado por um problema que está custando meu casamento e acho que o amigo pode me ajudar a resolvê-lo.
-Mas bah tchê! Que tanto mistério é este homem de Deus? Fala logo.
-Sou casado há sete anos mas não posso ter filhos. Minha mulher não se conforma, entende? Sei que antes de morrer sua esposa teve uma filhinha e que o amigo não é muito chegado a crianças nem tem condições de criá-la de forma decente. Eu poderia dar um lar, educação, amor e conforto para a menina se me deixasse adotá-la. Minha esposa seria feliz e com certeza será uma ótima mãe. Com quem a criança está agora?
-Mas tchê, como sabes disto tudo se é de tão longe guri?
-As notícias têm pés ligeiros Marcolino. Minha esposa tem uma prima distante que mora aqui na cidade vizinha. Mas isto não vem ao caso. Posso te pagar uma boa grana pela menina.
-Quanto? – Os olhos de Marcolino brilharam naquele momento.
-Mais do que o amigo imagina. Que tal quinhentos dólares? É dinheiro suficiente para resolver seus problemas e tocar sua vida até arranjar um trabalho. – Mentiu Joca.
-Não é pelo dinheiro amigo. Mas, para ajudar o amigo e sair desse buraco que estou. Não tenho mesmo jeito com criança. Não vou poder dar boa vida para ela. Mas existe um problema sério e talvez esta quantia não dê para resolver tudo. O amigo entende?
-Acho que sim. Que problema é este?
-Chama-se Gerusa. Maria e Géu eram muito amigas, quase irmãs. Ela morreu no parto ao lado da amiga e a desgraçada invocou de cuidar da guria. Não vai permitir nunca.
-Ela nem precisa saber. A filha é sua e não dela. Eu e minha esposa temos muito mais condição de cuidar da menina, não acha?
-Nisto o amigo tem razão. Gerusa é uma pobre coitada que vive de lavar roupa para os outros. Mas é osso duro de roer. Talvez se ela levasse uma graninha também. – Mentiu Marcolino.
- Tudo bem. Vou te pagar oitocentos dólares. Assim você pode dar uma gratificaçãozinha pelo tempo que cuidou da menina. Mas se o amigo aceita um conselho, não fala nada com ela agora. Pega a menina amanhã cedo para dar uma volta e me traz ela aqui. Viajo no ônibus das 9h. Quando Gerusa der por si, a menina já vai estar longe. Aí você dar um cala boca pra ela se quiser. Quando o amigo trouxer a menina te pago em dinheiro vivo.
-Negócio fechado amigo. Amanhã cedo pego Carolina para passear e te trago aqui. Você me paga e se manda, mas não pode comentar com ninguém senão estou frito.
-Claro que não Marcolino. Nem eu quero que ninguém saiba. Vou cuidar da menina como se fosse minha filha. Nem ela vai saber de nada. Não sabia que ela já tinha um nome.
-Foi a falecida quem botou. O amigo não me leve a mal, mas como pretende fazer a menina, branca cor de neve e de olho azul, acreditar que é sua filha mesmo?
-Minha esposa é filha de alemães, Marco. – Falou Joca desconcertado. – Carolina. É um nome lindo. Pois é assim que ela vai se chamar. Carolina. Nada mais justo que fazer a vontade da mãe. Que Deus a tenha.
Depois de tudo acertado os dois desceram e foram para o salão da pensão. Na verdade, o lugar era muito mais um bordel do que pensão, mas ninguém se incomodava muito com isso. Dançaram e beberam com várias mulheres diferentes até que cada um escolheu a sua. Providenciaram um quarto para Marcolino e subiram. Joca transou com uma garota loirinha com cara de criança; Ela dizia ter dezoito anos. Mas o rapaz desconfiou que a menina fosse menor de idade. Não perguntou muita coisa. Queria apenas se satisfazer. Enquanto fazia sexo com ela lembrou de Hermínio. Sentiu um imenso tesão e gozou alucinadamente.

sábado, 2 de maio de 2009

ANIVERSÁRIO

Será que o corpo aguenta
O peso dos quarenta
Esta maturação?

Será que a cabeça vã
Suporta mais um cã
Outra transformação?

Olho para trás em seguida
Vejo os anos que passaram
As flores que deixaram
E os espinhos que trouxeram

Vejo o filme da minha vida
O futuro que sonhei
No que me transformei
Nas cenas que se expuseram

Vejo o carinho dos amigos
O amor da minha filha.
O filme da minha vida
Terá um final feliz?

O que me reserva o futuro
Este imenso túnel escuro
Este eterno relicário?

Que seja um caminho contente
É o que peço de presente
Em mais um aniversário