quarta-feira, 30 de maio de 2007

SALVADOR - SÃO PAULO - O Roteiro da Loucura e da Irresponsabilidade - I

Em abril de 95, encontrava-me numa dureza dessas que a gente não imagina existir pior. Desempregado desde outubro de 94, só vendo as dívidas acumularem-se e nada de trabalho pintar. Vivendo apenas de bicos que não cobriam as minhas despesas, estava à beira do desespero. Foi nesta situação que, junto com um grande amigo do peito cujo nome ainda não citei por aqui, fiz uma das maiores loucuras e irresponsabilidades da minha vida.

Este amigo, Adalberto, ou simplesmente Beto, ou ainda Marajá, ou, como gosto mesmo de chamá-lo, Gatão, é bem mais velho do que eu. Um sujeito espirituoso, de astral sempre elevado, também encontrava-se em situação financeira extremamente delicada. Sua empresa ía de mal a pior e ele virava-se do jeito que podia. Gatão é dessas pessoas que não desanimam e, se a maré não tá pra peixe, pesca cachorro. Inventa de tudo pra fazer, vende qualquer tipo de produto, até gelo no polo norte, desde que seja honestamente, para suprir o sustento da família, na época formada de esposa e duas filhas. Uma tinha seus dezesete anos e a outra, calculo, andava pelos cinco ou seis. Um dia me convidou para passar um final de semana em sua casa na Barra do Pote, uma praia da Ilha de Itaparica. Sabia que, assim como ele, estava em dificuldades e tentava com isso levantar meu astral. Ele sempre conseguia. Afinal, eu, solteiro, sem um pinto pra dar de comer, ficava a queixar-me das minhas agruras, quando ele que já havia experimentado uma situação monetária confortavelmente estável, e isto é um diferencial de significativa importância, dizia pra mim: - Gatão (ele chama todo mundo assim e por isso acabou ganhando tal apelido), esta vida dá voltas, nada como um dia após o outro. Somos pessoas honestas e trabalhadoras, nossa vez vai chegar! Enquanto falava, estampava no rosto um sorriso bonito e sincero. Não dá pra ficar de baixo astral ao lado de uma pessoa assim.

Neste tal fim de semana na ilha, ele me saiu com uma que quase me fez ter um colapso de tanto rir. Era noite de sábado e colocamos cadeiras na porta de casa para ficar conversando, vendo a lua e curtindo a brisa. Aí chegou um rapaz procurando Charliene, sua filha mais velha. Era um namoradinho dela. Ela veio recebê-lo e, depois de ficarem algum tempo conversando sozinhos na varanda, pediu pra dar uma volta na rua com o menino. Ele e D. Gracinha, sua esposa, consentiram. Ficamos observando os dois saírem e vimos que, após alguns metros, eles deram a mão. No mesmo instante Gatão falou: - É por isso que eu digo que é melhor criar galinha do que filha mulher. Galinha a gente cria e come. O cara é assim.

No domingo, quando voltamos da praia, ficamos na varanda bebericando umas cervejinhas e pensando em atitudes que pudéssemos tomar parar levantar um capital de forma mais imediata. Foi aí que ele teve a idéia de irmos pra São Paulo comprar mercadorias para revender em Salvador e pelo interior da Bahia. Haviam alguns obstáculos que foram sendo derrubados um a um. Primeiro, o carro. O seu, uma lata velha digina do Caldeirão do Huck, com o licenciamento atrasado e sem nenhuma condição de enfrentar esta viagem de aproximadamente dois mil kilômetros. O meu, embora tivesse em ótimo estado mecânico e em dias com a documentação, precisava urgente de, pelo menos, dois pneus. Colocaríamos dois pneus recauchutados na frente pagando com cartão de crédito e os dois melhores que haviam, iriam para traseira. Resolvido o primeiro problema. Segundo, alimentação, hospedagem e combustível na estrada. Levaríamos lanches e comida conosco e dormiríamos em hotéis baratos, mais uma vez contando com o milagroso cartão. Terceiro: hospedagem e alimentação em Sampa. Este foi o mais fácil. Na época eu namorava com uma paulista que conseguiu acomodação pra gente em casa de seus pais. Já contei por aqui minha ligação com São Paulo. E, por último e mais difícil, dinheiro pra comprar a mercadoria a ser revendida. Mais uma vez o cartão foi uma das soluções, ele venderia uma ovelha e eu tentaria um empréstimo junto a meu pai. Contávamos com o resultado financeiro desta investida para honrar todos os débitos que iríamos contrair. No meio daquela conversa etílica, achávamos ter resolvido todos os problemas que poderiam impedir a viagem, e calculamos até os números e resultados daquele nosso investimento. Nem imaginávamos o que nos esperava.

terça-feira, 22 de maio de 2007

NAVALHA E CRISTINA NICOLOTTI PARA ELES! - Tomara Que Essa Pizza Asse Até Estorricar

O Brasil está INDIGNADO! Não vejo outra palavra para exprimir o sentimento de vergonha, revolta e perplexidade que o brasileiro está experimentando nos últimos dias com mais um êscandalo nacional, motivado pelo estouro da bomba, a Operação Navalha. A forma vil e torpe com que alguns políticos (não importa a filiação partidária), aliados à empresários inescrupulosos que juntos com seus filhos, sobrinhos, assessores e cia ltda.(nem tão limitada assim, já que chega quase à uma S.A.), todos, sem absoluta exceção, uns filhos da puta de primeira estirpe, manipulam as verbas do poder público em proveito próprio, sem nenhuma cerimônia ou constrangimento, revolta a opinião pública e estimula a cada dia a sonegação fiscal, o desreipeito à ordem pública e a violência.

O que esperar de um povo sofrido que, morrendo nas filas do SUS, passando fome nas ruas, perdendo seus filhos e entes queridos por causa das balas perdidas nas batalhas entre policiais e traficantes, morrendo em casa porque a concessionária de energia elétrica cortou o fornecimento por causa de um débito de R$ 200,00 e o aparelho que o mantinha vivo parou, dentre tantos outros absurdos na miserável vida brasileira, vê estampado nos jornais que os Zuleidos, Charles Bronsons, Mexicanos, Rondeaus, Magalhães, e Josés Reinaldos da vida, isto para não passar dias aqui a listar uma interminável relação de nomes, de ministros à assessores, passando por deputados, senadores, governadores, prefeitos e tantos outros figurões, desviaram bilhões de seus bolsos em manobras nefastas, para habitarem mansões em lotes de 15mil m2 com quadras de tênis, piscinas, campos de futebol, para passearem em iates avaliados em R$ 2 milhões e desfilarem em carros importados do ano? Sabendo que mesmo com todos os vídeos, telefonemas gravados e outras tantas evidências, alguns já encontran-se soltos sabe-se lá com que tipo de alegações? Que nosso presidente nada sabe, nada viu e não conhece a corja que ele mesmo botou no planalto? Que o governador da Bahia, eleito em primeiro turno por esse mesmo povo ora lesado com tanto descaramento, passeava em companhia da ministra na lancha do chefão da quadrilha sem ter conhecimento de quem era o dono? Chega corja de ladrões! Não substimem nossa inteligência! Para vocês só me resta repetir os versos geniais da humorista Cristina Nicolloti: “Vão tomar no cu!”




Na semana passada, recebi um e-mail de Magal, amigo gaúcho, com certeza querendo me gozar, com uma música que, inicialmente, parecia uma canção gospel, mas logo percebi a sacanagem. A letra me fez rir até não poder mais. Na mesma hora, se tivesse o e-mail dos envolvidos no escândalo da Navalha, repassaria para todos eles. Não tinha o menor conhecimento da origem, só imaginava como alguém, com uma voz tão bonita entra em um estúdio para gravar tal canção, cuja letra possui um único verso: - Vá tomar no cu! Seria falta do que fazer? Revolta com a situação do país? Baixaria? Ofensa? Hoje recebi de um sobrinho, Rafael, a quem apresentei referida canção no fim de semana passado quando fiquei hospedado na sua casa em Teofilândia, interior da Bahia, um link para que visse o vídeo da inusitada música. Levava ao blog de Zeca Camargo onde este emitia sua opinião sobre a página musical. Fiquei então conhecendo sua origem e descobri que o hit já é mania nacional, estouradíssimo que está nas paradas de sucessos internáuticas, inspirando uma série de anônimos humoristas que estão dando cada um sua própria versão e interpretação, após uma rápida visita no Youtube onde encontrei 308 vídeos de tal canção. É a tradicional espirituosidade brasileira fazendo piada com a própria miséria. Na verdade deveríamos estar envergonhados, chorando, mas fazendo a única coisa que podemos, para dar um fim a este descalabro: nos manifestar. Uma das armas mais eficazes para isto é o nosso voto.

Com tudo isto acontecendo, com todos os jornais impressos, audíveis e televisivos dando imenso destaque aos fatos, com Cristina Nicolloti expondo aos quatro cantos do mundo sua indgnação, com todas as provas incontestáveis já apresentadas ao grande público, com o povo brasileiro revoltado e à beira de um colapso, com alguns dos envolvidos ainda atrás das grades, sinto um grande cheiro de pizza no ar. Espero apenas que desta vez, nossa famigerada justiça a esqueça no forno. Quem sabe assim, estes ladrões deploráveis, queimem nas penitenciárias até estorricarem. Contudo acho que isto é uma grande ilusão. Enquanto isto, vou fazendo o que dá. Transcrevo os versos de uma outra música para dedicá-los, de autoria do nosso ministro Gilberto Gil (tomemos o criterioso cuidado de separar aqui o poeta do político) e a todos os membros de tão deplorável quadrilha digo em alto e bom som: - Vá tomar no cu!

Pessoa nefasta
(Gilberto Gil)

Tu, pessoa nefasta
Vê se afasta teu mal
Teu astral que se arrasta tão baixo no chão
Tu, pessoa nefasta
Tens a aura da besta
Essa alma bissexta, essa cara de cão

Reza
Chama pelo teu guia
Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia
Cai aos pés do Senhor do Bonfim
Dobra
Teus joelhos cem vezes
Faz as pazes com os deuses
Carrega contigo uma figa de puro marfim

Pede
Que te façam propícia
Que retirem a cobiça, a preguiça, a malícia
A polícia de cima de ti
Basta
Ver-te em teu mundo interno
Pra sacar teu inferno
Teu inferno é aqui

Pessoa nefasta

Tu, pessoa nefasta
Gasta um dia da vida
Tratando a ferida do teu coração
Tu, pessoa nefasta
Faz o espírito obeso
Correr, perder peso, curar, ficar são

Solta
Com a alma no espaço
Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço
Pedaço de tábua no mar
Dia
Após dia boiando
Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
A vontade de ser e de estar

Livre
Das dentadas do mundo
Já não terás, no fundo, desejo profundo
Por nada que não seja bom
Não mais
Que um pedaço de tábua
A boiar sobre as águas
Sem destino nenhum

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A LOJINHA DE PRESENTES



Quando ele entrou na lojinha de presentes pela primeira vez, sua vida mudou. Algo novo aconteceu no seu íntimo. Seu coração bateu num ritmo diferente e um sentimento iconoclasta invadiu o seu ser. Atrás do balcão, aquela mulher. Bonita? Ele não sabia dizer, magnética com certeza. De tanto que a observou, quase esquece de escolher a lembrança que entrara ali para comprar.

Queria saber mais sobre ela. Seria casada? Teria namorado? Do que gostava? Não tinha coragem de perguntar e, sem outra alternativa, passou a freqüentar a lojinha constantemente, sempre arranjando um pretexto para entrar lá. Com o tempo foi fazendo amizade com a moça e descobrindo sua beleza, seu encanto, sua candura. Sem perceber, ficou completamente apaixonado.

Um dia, ao entrar na lojinha, viu-a brincando com um menino que a chamou de mãe. Ele desmoronou. Catatônito, não teve ação. Saiu pensando que a moça era casada. Se tinha filho, era óbvio, tinha de ter um pai. Não sabia ele que a moça nunca chegou a casar. Ainda grávida, terminou o relacionamento de anos e criou o filho sozinha. Menina de coragem aquela, de personalidade e, justamente por isso, ele não a dobraria.

O tempo passou e os dois tornaram-se amigos. Amizade que pra ele era apenas uma ponte para conquistá-la. Àquela altura, já tinha certeza que queria aquela mulher, faltava apenas comunicá-la. Aí estava o maior problema. Tímido, ele não conseguia se abrir, mas, aos poucos, ía dando claros sinais que tinha outras intenções que extrapolavam o campo da pura e simples amizade. A moça muito contida, fazia ouvidos de mercador. As vezes dava a impressão de estar gostando de ser cortejada daquela maneira. Ele ficava confuso, será que tinha alguma chance? Descobriu que pra saber finalmente, teria que ser mais direto. Se encheu de coragem e um dia falou: - Não percebe que além de amizade alimento outras esperanças com você? Aceitaria jantar comigo? A moça nem disse que sim, nem disse que não. Recusou o jantar mas não descartou totalmente a possibilidade. Disse que no momento não estava aberta pra uma nova relação mas quem sabia do futuro? Mais uma vez o confundiu deveras.

Pouco tempo depois, ela apresentou-lhe uma menina como filha de seu novo namorado. Foi a gota d'água. Ele tentou não demonstrar mas a decepção em seu rosto era patente. Decidiu nunca mais cortejá-la e passou a tratá-la como simples amiga. Ficou inclusive, um bom tempo sem pisar na lojinha. No fundo porém, o sentimento que nascera desde a primeira vez que entrara ali, alguns anos atrás, até hoje acompanha o seu coração. Este bate mais forte toda vez que o rapaz entra na lojinha de presentes.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

CONTRA O VERSO

Dentre as linhas obscuras da loucura,
Nos escaninhos do meu pensamento,
Brotam centelhas de candura,
Na cachoeira vil do meu lamento!

As vezes grosso, as vezes delicado.
Do equilíbrio à mais estúpida atitude,
Saio do simples ao mais sofisticado,
A controvérsia em toda sua plenitude!

Vou ruminando minha vida pela estrada,
Pro calor lã, pro frio a seda, o linho.
E essa cabeça tão desencontrada,
Quando encontrará na vida o seu caminho?

sábado, 12 de maio de 2007

EU LHE ENTREGO A MIRIAN! – Ou Sangue de Cristo Tem Poder!, ou Vá Matar o Cão, Ou Ainda, O Preto da Minha Vida!

- Billy, em buraco de cobra tatu caminha dentro?
- Vá matar o cão Velho Diu, sangue de Cristo tem poder!

Dentre as coisas mais podres da humanidade uma das que mais abomino é a discriminação. Seja de que tipo for, racial, social, religiosa, sexual, não importa, todas são execráveis. Hoje, numa fila de banco, ouvi uma colocação que me enojou. Um senhor escuro, foi direto ao caixa sem passar pela fila. A mulher que estava a minha frente comentou comigo: - Aquele preto deve ter muito dinheiro, nem pega fila! Não dei resposta, fiz que não ouvi, mas deu vontade de mandar ela tomar sorvete. No final das contas, observando a situação atentamente, percebi que o senhor já havia pegado a fila antes, mas teve necessidade de buscar um visto com o gerente e voltou para concluir seu atendimento. Não era justo que voltasse ao fim da fila. Fiquei com uma raiva imensa da mulher, saí de lá a julgá-la como se fosse a pessoa mais vil do mundo.

Depois, no carro, voltando para o trabalho, comecei a pensar sobre o assunto com outra ótica. Percebi que eu mesmo, numa infinidade de vezes, agi exatamente como aquela mulher. E que, no geral, todo mundo sempre tem uma atitude deste tipo, mesmo que, na essência, não seja um racista ou preconceituoso. Quantas vezes já fiz comentários do tipo: - Olha aquela menina!, ao perceber a passagem de um homosexual? Isto acontece até hoje. Procuro me policiar, evitar este tipo de coisa, afinal eu sei que não é isto que define o caráter e a nobreza de uma pessoa, mas faz parte da nossa cultura, está enraizado nas nossas cabeças e, às vezes, é inevitável. Sendo assim, como posso eu julgar aquela senhora se sou exatamente igual a ela? Gostaria de encontrá-la novamente para pedir-lhe desculpas. Estas situações são mais comuns no cotidiano do que se imagina. Não tem aquela história de D. Canô? Quando Gil aparecia na televisão ela falava: -Caetano, vem ver o preto que você gosta! Quero ver cabra macho o suficiente pra chamar D. Canô de racista.

Tudo isto me fez lembrar de Juvenal. Um dos meus melhores amigos, quase um irmão. Pessoa que, apesar da distância que nos separa, já que mora a 500km de Salvador e hoje nos vemos muito pouco, vive no meu coração e sei que o amor que lhe dedico é totalmente recíproco. Para falar de Juvenal, ou melhor, de Billy como é mais conhecido, preciso voltar um pouco no tempo. Nem tão pouco assim.

Quando cheguei em Santo Amaro, movido pelas intermináveis transferências de meu pai que era o que se chamava na época de Coletor, trocando em miúdos, chefe de agência da Receita Federal pelas cidades desta Bahia afora, conheci Juvenal. Ele já era funcionário da Receita, através de uma empresa terceirizada, e meu pai era o seu chefe. Eu tinha onze anos e ele já ia pela casa dos vinte e cinco, não sei precisar. Até hoje não sei a idade deste negão. Como diz minha mãe, nego quando pinta tem três vezes trinta. Sei que não mudou quase nada do dia que o conheci pra cá. Parece que o tempo não passou pra ele. Quando nos conhecemos foi aquilo que se chama de amor à primeira vista. Tanto eu, como Luciano, meu irmão dois anos mais velho, adoramos o cara. Ele também gostou muito da gente. Tanto é que logo fizemos amizade e começamos a sair juntos. Meu pai criticava. Dizia não entender como ele andava com dois moleques recém saídos do cueiro. Juvenal retrucava: -Seu Carôso, seus meninos são mais maduros do que o Sr. pensa! E assim começamos nossa amizade eterna que até hoje se estende, vinte e sete anos depois.

Lembro que dentre as muitas viagens que fizemos juntos, numa delas pra Lençóis na Chapada Diamantina, casualmente encontramos lá uma colega minha de escola. Logo percebi que minha amiga se engraçou por Billy. Ele não acreditou. À noite, numa seresta, eles dançaram muito e Billy foi levá-la pro hotel. Na volta comentou comigo: - Velho Diu, acho que sua amiga tá a fim de ver a coisa preta! O próprio negão, vinha com seu comentário racista.

Ainda em Santo Amaro, chegou pra trabalhar na Receita uma menina de Salvador, Mirian. Ela observava as brincadeiras imbecis que eu Luciano fazíamos com Billy. Tipo coisa de: - A culpa é da princesa Isabel, não fosse por ela você tava na senzala tomando chibatada! Billy ria feito uma criança, mas Mirian ficava indignada, e com razão. Sempre falava pra ele: - Esses meninos são racistas, não gostam de você, não sei como anda com eles! Ao mesmo tempo, ela tinha razão e estava enganada. Tinha razão quando nos detestava, estava enganada quando pensava que não gostávamos dele. Billy só contemporizava: -Mirian, os meninos são legais, é tudo brincadeira. -Brincadeira o quê Billy, não vê que no fundo é o que eles pensam! A verdade é que Mirian passou incólume pelas nossas vidas e somos amigos fraternos até então. Pra uma coisa Mirian foi preponderante. Até hoje, quando fazemos uma dessas brincadeiras com ele, Billy logo retruca: - Eu lhe entrego a Mirian!

O cara é uma figura. Hoje casado, com dois filhos adultos, Vinícius e Dirley, e sua esposa Vera, fazem parte da minha família. Sinto o maior orgulho de saber que meu pai, em tempos que o concurso público não era exigência imprescindível, foi o responsável pela sua efetivação na Receita, saindo da empresa terceirizada em que era contratado. Lá ele fez carreira e chegou ao topo. Hoje aposentado por motivos de saúde, vive bem e curte a vida como ninguém. Mora em Paulo Afonso, uma cidade maravilhosa, cheia de belezas naturais e não vejo a hora de visitá-lo.

Outro dia, faz uns dois meses, em plena terça-feira, cansado de um dia estafante de trabalho, estava em casa de pijama, afinal eram dez horas da noite. Tocou o interfone. Como o mesmo está quebrado, embora toque não faz a intercomunicação, abri a porta para ver quem era. Não deu pra reconhecer. Afinal, naquela escuridão, um negão daqueles não se sobressai. Só o reconheci quando ouvi: - Velho Diu, vá matar o cão! O prazer foi imensurável. Como amo este negão!

terça-feira, 8 de maio de 2007

VIGÉSIMO ANDAR

Sua beleza é tanta
Que cega a minha retina
A simpatia que emana
Congela os meus ossos

Enquanto sobe o elevador
Seu decote parece vivo
Como se para mostrar-se
Sequer medisse esforços

Suas sardas me confundem
Seu perfume me alucina
Seus cabelos de tão lisos
Fazem meu corpo enrugar

Uma viagem ligeira
Na minha libido um crivo
Que durasse a vida inteira
Até o vigésimo andar

segunda-feira, 7 de maio de 2007

ILHA DO PIRATA – O Fim da História – VII

Os anos que trabalhei com Ray foram maravilhosos, uma grande experiência na minha vida. Trago no coração uma saudade boa daqueles dias de tensão, de noites viradas, muito cálculos, muita alegria, muita arte e sempre, nunca foi diferente, no final tudo dava certo. Eu, que nunca fui artista, sentia uma enorme satisfação ao ver o reconhecimento do cliente. Fico imaginando como Ray deve sentir-se nestes momentos.

Depois do cenário da Fonte Nova, Ray começou a retomar a antiga amizade com João Teixeira. Como já falei antes, gostei de cara de João. Admiro o seu jeito verdadeiro, desses que dizem na tampa o que pensam, sem meias palavras ou dissimulações. Sem contar seu alto astral e seu caráter irrepreensível. Ele também é um grande artista embora tenham estilos completamente diferentes de criar. Ray é do computador. Uma fera na manipulação do 3D Stúdio, Corel Draw e Photoshop, softwares cujos recursos eu duvidaria existir não tivesse sido testemunha ocular de suas proezas. Já João é da ilustração, do desenho manual. Cada um a sua maneira, ambos de grande talento. O ponto em comum está na capacidade de executar na prática o que criam no papel. Foi então natural que surgisse ali, uma parceria para futuros trabalhos. João tinha em Ray uma espécie de ídolo. Um dia nos confessou que foi o exemplo de Ray que lhe mostrou ser possível viver da própria arte.

Trio Elétrico de Ivete Sangalo - Carnaval 2003
O primeiro trabalho que fizeram juntos quase entra no livro dos recordes. A maior fita do Bonfim do mundo. Tinha 300m de comprimento e circulava todo o perímetro de um mega hotel no complexo de Costa do Sauípe, no litoral norte da Bahia. Até hoje eles fazem vários cenários para este Hotel, um antigo cliente de João. Decorações para natal, reveillon e outras festas.

O último trabalho que participei antes de sair foi uma parceria dos dois e também um dos mais bonitos. A decoração de São João da cidade de São Gonçalo dos Campos. São Gonçalo é uma cidade pequena, mas com um grande potencial, uma indústria tabagista com duas fábricas de charutos, onde são fabricados os melhores charutos brasileiros, e um grande frigorífico especializado no abate de frangos.

Foram vários os pontos que tiveram interferência cenográfica. Dois portais nas entradas da cidade, decoração do palco principal onde aconteceriam os shows, uma feira de artesanato com barraquinhas típicas de festas juninas e para mim, os dois elementos mais bonitos de toda a decoração. A Casa do Fumo e a Casa da Farinha. Cada uma montada numa praça diferente. Ficaram exuberantes. Era difícil acreditar que o forno da casa de farinha fosse cenário. Parecia real de tão perfeito.

Cenário do Programa Bahia 50 Graus da TV Record. Transmitido Ao Vivo de Salvador em Janeiro 2003


Foi também um trabalho que envolveu uma equipe muito grande. Mas uma vez a JC e Carlinhos estavam presentes. Como São Gonçalo fica perto de Amélia Rodrigues, cidade onde João tem um sítio maravilhoso e um atelier bem equipado, e perto também de Feira de Santana onde o comércio é excelente, fizemos nossa base em Amélia. Tivemos alguns contratempos. Chuvas torrenciais quase levam água abaixo algumas peças já prontas e atrasos consideráveis nas parcelas a receber. Houve momento que chegamos a pensar em largar tudo e parar o serviço no meio. Temíamos muito pela parcela final, de onde ainda muito se tinha a pagar tanto a fornecedores como aos operários e de onde o lucro do trabalho saíria. Resolvemos arriscar. A cidade ficou linda, e, embora a última parcela tenha demorado um pouco de sair, quando recebida cobriu todas as despesas pendentes, bem como financiou uma grande farra de comemoração.

Ray Vianna é para mim mais que um amigo ou um compadre, antes de tudo é um grande irmão. Uma pessoa cuja amizade pretendo preservar para sempre. Além do mais, ele tem em mim um de seus mais fervorosos fãs. Obrigado Ray!

Decoração do Pelourinho para o Carnaval 2007. Criação e execução de Ray Vianna, João Teixeira e Euro Pires





sábado, 5 de maio de 2007

O PRESENTE - Dedicado à Cynthia

Neste meu aniversário
Ganhei o melhor presente
Não posso explicar em plenário
Só no íntimo da gente

Me veio sem nem esperar
Sem plano premeditado
Quase me pus a chorar
Fiquei tanto atordoado

Este presente que digo
Tem infinito valor
Veio morar comigo
O meu mais imenso amor

Presente de grande amiga
Alguém que muito estimo
Que só me deu luz na vida
Como este amado mimo

Amiga daquelas, do peito
Amiga de todas as horas
Que me dedica respeito
A quem desejo melhoras

De quem só quero o bem
A quem eu só poderia
Sem desmerecer ninguém
Destacar em galeria

Foi a pessoa na vida
Que mais me presenteou
Acendeu a esquecida
Luz imensa do amor

Agora morando comigo
Mesmo sendo por um tempo
Trazendo seu ombro amigo
Seu braço, sua luz, seu alento

Este seu presente belo
A semente do seu ventre
É a prova do sincero
Caráter, que lhe é inerente

Agradeço-te amiga
Pelo presente que embrulha
Me fazendo nessa vida
Morar com a amada Júlia

O CASAMENTO PERFEITO

Cibele e Jânio recentemente completaram sete anos de casados. Ao contrário do que todos dizem, para eles não era uma fase de crise e sim de muita harmonia. Conquistaram muitos progressos desde que selaram o matrimônio e, hoje, viviam de forma estável. Problemas e brigas existiam, mas num contexto geral, podiam considerar-se um casal feliz. Desde a época de namoro haviam combinado que seria uma união deles e para eles, por isso não queriam ter filhos. Ela nunca se imaginou como mãe. Perdendo noites, as preocupações naturais da maternidade, a perda da privacidade e da liberdade. Definitivamente não era pra ela. Em Jânio encontrou o homem ideal. Carinhoso, bonito, promissor, aparentemente fiel e, o mais importante, não queria crianças.

Os dois estavam embutidos nos mesmos objetivos de estudos e crescimento profissional, além da dedicação mútua. Assim estavam vivendo, assim estavam felizes. Cibele fazia uso de contraceptivos regularmente e, embora tivesse uma vida sexual intensa, sem uso de preservativos, nunca suspeitara de uma gravidez. Acontece que o destino reservara uma surpresa. Fazia três semanas que sua menstruação não chegava. Ela começava a sentir enjôos e achava a barriga um tanto inchada. Tinha certeza que estava grávida. Como dar a notícia a Jânio? Ele certamente tomaria aquilo como uma traição ao pacto dos dois. Ela não planejara, certamente o anticoncepcional havia falhado, mas tinha medo da reação do marido. O pânico foi tanto que não teve condições de fazer o exame para atestar a gestação. Passaram-se duas semanas e nada. Cibele mudou, ficou distante, fria e Jânio percebeu. Ela usou uma série de desculpas e justificativas, mas Jânio notara claramente a alteração no comportamento da esposa. Começou a ficar com uma pulga atrás da orelha e a pressioná-la para que abrisse o jogo.

Foi tanta a pressão que Cibele não suportou. Acabou por contar a Jânio da sua suspeita. A reação dele foi a pior possível. Primeiro acusou-a de desleixo, irresponsabilidade, de tentar enganá-lo. Depois contestou a paternidade. Cibele não sabia, mas Jânio era estéril e, mesmo no calor daquele momento, não teve coragem de contar. Na verdade ele era um complexado, falava que não queria filhos por não ter coragem de assumir sua condição de infértil. E, por último, isto foi à gota d´água, logo sugeriu o aborto. Cibele tremeu nas bases. Não queria ser mãe, mas jamais cometeria um ato daqueles. Preferia abrir mão de todos os seus princípios, a carregar a culpa de tirar a vida de uma criança inocente, cuja existência não foi sua escolha e por quem se sentia com total responsabilidade. Jânio foi irredutível. Sabia que o filho não era dele embora não contestasse com a esposa a situação, para não expor o seu grande fracasso. Era incapaz de procriar. Aí nasceu a desconfiança, a decepção, a desarmonia, coisas que alguém jamais imaginaria existir entre os dois.

Os últimos dias foram um inferno. Mal se falavam e, quando isto acontecia, só trocavam acusações e ofensas. Cibele, já não agüentando a situação, buscou os conselhos da mãe. Esta, por sua vez, levou-a ao médico. Era o mais natural, tudo estava movido por meras suposições. Realizados os exames, veio o surpreendente diagnóstico. Ela não estava grávida. Uma pequena disfunção hormonal atrasou suas regras e a cabeça cuidou para o surgimento do resto dos sintomas. Um verdadeiro alívio. Não via à hora de contar ao marido que tudo não passara de um grande engano.

Assim as coisas se resolveram. Ficou, no entanto, uma grande seqüela, uma nova visão de um para o outro, na forma de enxergar o seu companheiro. Botadas as cartas na mesa, o casal prosseguiu com a vida de sempre. Mas o casamento perfeito jamais foi o mesmo depois da suposta gravidez de Cibele. Não foi à-toa que eles vieram a se separar um ano depois.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

A VIAGEM

O que dizer da morte?
A única coisa certa
Que a vida tem
A liberdade do espírito
O fim da matéria
A dor austera que nos faz bem

Já aos quinze anos
Com ela convivi
Quando levou bom amigo
De mesma idade
Ensimesmado chorei, muito sofri
Ele trilhou seu caminho de felicidade

Agora adulto, despreparado
Se foi mãe postiça
Que tanto amei
Desencontrado
Quanta injustiça
A dor profunda que só eu sei

Não é o início
Nem intermezzo
Dentre o teu seio, não há um fim
Imploro Deus, por isso rezo!
Que nunca um filho
Se vá sem mim

quinta-feira, 3 de maio de 2007

ILHA DO PIRATA – Fonte Nova Sem Futebol – VI


A capa do DVD MTV AO VIVO 10 ANOS de Ivete Sangalo
A inauguração da Ilha foi um sucesso. As pessoas ficavam encantadas com a nova decoração, faziam questão de comentar e parabenizar Ray pelo resultado. No dia seguinte ele deu entrevista numa rádio local falando sobre a ilha e o seu trabalho. Foi convidado a visitar outras casas de shows que pretendiam investir na decoração. Ficamos mais dois dias em Porto Seguro. Não houve novos serviços por lá, exceto um ano depois quando voltamos para desmontagem do cenário, mas saímos com o doce sabor de dever cumprido. Sinto até hoje, um grande orgulho de ter participado daquele trabalho.

Na volta a Salvador, tivemos a primeira reunião com a produção de Ivete Sangalo e a única, pelo menos que eu tenha participado, com a presença dela. Foi na casa de Cíntia, a sua irmã. Ivete, que eu já conhecia pessoalmente da Perto da Selva, embora ela óbvio não lembrasse de mim, sempre a mesma pessoa que costumamos ver na televisão. Extrovertida, brincalhona, verdadeira, boca porca, fala um palavrão atrás do outro, e muito objetiva. Passou o briefing do projeto, ou seja, as instruções do que ela pensava sobre a cara do cenário. Lembro que ela foi taxativa: - Não sei como você vai fazer, mas quero um globo de boate. Globo este que Ray genialmente idealizou ser retrátil. Num determinado momento do show ele descia e virava a tela de projeção. Puta dor de cabeça este globo nos deu. Contratamos um engenheiro para calcular detalhadamente todos os elementos do mecanismo. Desde a potência do motor ao tamanho de cada peça. Nas vésperas do show, durante os primeiros ensaios, o primeiro problema. Ivete não ficou satisfeita com o globo, falou pra Ray: - Cara você me prometeu uma viagem pro Caribe e me levou pra Fernando de Noronha. De fuder, mas não é um globo de boate. O pior é que ela tinha razão. Pensando em não aumentar demais o peso da peça, Ray projetou o globo com um forro de lona e pedaços de acrílico espelhado colados. Tanto o formato, assim como a quantidade de espelhos, não deram o efeito desejado. Tanto é que tivemos de fazer depois a semi-bola de fibra de vidro e concentrar muito mais os pedaços de espelho. Aí Ivete foi ao delírio. Na madrugada que antecedeu ao show, durante os testes finais, o motor do globo queimou. Saímos com o dia quase amanhecendo do Parque de Exposições e, já às 7hs da manhã, estávamos reunidos na porta de Jorginho Estrela, que colou com a gente depois da ilha até o final do verão, decidindo as providências que resolveriam o problema. Entre globos e motores salvaram-se todos, foi um sucesso total.

Depois do cenário de Festa, Ray passou a fazer diversos trabalhos para Ivete, incluindo vários trios elétricos e o cenário da maior produção que já participei na vida, o show de Ivete na Fonte Nova para a gravação do seu primeiro DVD. Torcedor fanático do Bahia, freqüentador assíduo daquele estádio, sempre sonhei um dia visitar suas dependências. Nem imaginava que iria passar uma semana inteira quase morando lá dentro.

Engraçado que o show foi em 21 de dezembro de 2003 e, por causa do campeonato brasileiro, a Fonte Nova só foi liberada dia 15, segunda-feira, já que o Bahia daria seu último vexame do ano dia 14 ao perder de 7 X 0 para o Cruzeiro e ser rebaixado para a segunda divisão. Não me lembro exatamente porque, mas eu não fui ao estádio naquela segunda. Graças a Deus. Não suportaria ver o que Ray e Paulo Pipoca, ambos torcedores do Vitória, me relataram com todo o prazer. Camisas e bandeiras do meu time rasgadas e queimadas pelas arquibancadas, rádios estilhaçados, enfim, um cenário degradante.

A criação deste cenário específico, não foi de Ray e sim de Mônica Sangalo, outra irmã de Ivete. Na verdade Mônica mostrou a ele algumas ilustrações do que ela pensava, mas para virar um projeto executável, era preciso muitas alterações. A cara ficou a de Mônica, mas o dedo de Ray foi fundamental e acabou mudando completamente alguns elementos. A execução foi totalmente nossa mais uma vez contando com a equipe brilhante da JC sob a batuta do seu infalível maestro Carlinhos, sem contar boa parte da nossa equipe de Porto Seguro.

Neste cenário, dois grandes problemas poderiam ter atrapalhado o brilho da festa e posto abaixo o excelente trabalho de Ray, não fosse à agilidade e talento do nosso amigo Paulo Pipoca. Primeiro o elevador. Ivete entrava no palco de baixo, através de um elevador criado por Ray. Um grande círculo à frente, no centro do palco que tinha um formato de meia lua. Era suspenso por um desses carrinhos andaimes que comumente vimos em grandes atacados. Na sua base, dois semi-círculos de vidro bem grosso permitiriam a passagem de luz por baixo. Horas antes de começar o show, um dos vidros não suportou o calor dos holofotes e partiu. Com muita rapidez, Paulo colocou uma emenda de madeira que tapou o buraco, mas deixou um pequeno batente. Embora Ivete tivesse avisada, passamos o show inteiro apreensivos com medo que ela tropeçasse. Mais uma vez, Deus não permitiu o pior. Hoje, assistindo ao DVD, com os olhos clínicos de quem teve lá, em cada minuto daquela montagem, dá pra notar o pequeno armengue* que aquilo ficou, mas que salvou nossa pele.



Como se não bastasse o elevador, todos os pontos de força do palco eram de 220v. Porém os canhões que soltariam durante o show, a chuva de papel picado brilhante, eram 110v. Tivemos o cuidado de deixar um ponto com esta voltagem para ligar tais máquinas que já estavam inclusive testadas. Acontece que, enquanto nós almoçávamos, algum infeliz, simplesmente cortou nossos pontos 110v e desligou as máquinas. Mais uma vez Paulo, minutos antes do show começar, numa rapidez assustadora, arranjou fio e, sabe Deus de onde, puxou um ponto novo religando os canhões. Ainda bem. Foi justamente desta chuva de papel brilhante, que nasceu a foto da capa do DVD.
*Armengue: Expressão típica da Bahia que significa coisa mal feita ou sem acabamento.

ANIVERSÁRIO II – Obrigado Tio!

Devido a muitas atribulações no trabalho e muito tempo dedicado à manutenção deste blog, fiquei muitos dias sem entrar no Orkut. Como ontem foi o meu aniversário, hoje resolvi verificar os novos recados, exatamente trinta. Dentre eles um me chamou especial atenção. Era a resposta de um recado que eu havia deixado para uma moça gaúcha que não conheço. Isto não é muito de meu feitio, no Orkut interajo apenas com pessoas que efetivamente conheço embora de vez em quando visite os perfis dos amigos de meus amigos, foi o caso desta menina. Muito me tocou o texto dela na sua apresentação, bem como o de um depoimento que uma amiga dela deixou lá. Senti naqueles textos um talento nato para escrita, uma verdadeira vocação. Não resisti à tentação de deixar um recado parabenizando o texto das duas e perguntando se já tinham pensado em levar isto a sério. Vou transcrever aqui exatamente o que ela respondeu: Sorry, mas não entendi o que o senhor quis colocar! Foi muito estranho aos meus ouvidos este Senhor.

Acabo de completar 38 anos, e embora, a muito, alguns cabelos brancos tenham aparecido, me considero jovem. Nunca havia sido antes chamado de senhor, a não ser por atendentes de call center, ou pelos coleguinhas da minha filha de sete anos. Foi um choque. Não sei a idade da moça, acredito que vinte e poucos anos. Me fez lembrar um reclame de determinado refrigerante onde a garota no elevador fala pro cara: - Obrigado Tio!

terça-feira, 1 de maio de 2007

DIVAGANDO III

Muito me excita o momento
Em que com ela estou
Deveras me aflige o tormento
Em que sem ela me vou

ANIVERSÁRIO


Não quero fazer aniversário
Quero pular os dias de amanhãs
Vou esconder no fundo do armário
Todos os meus precoces cãs

A FOME - Na Minha Ínfima Visão


O Poeta usou muitas palavras
Para a fome definir
Pra mim, é a vontade de comer
Aquilo que eu ainda não comi!

DIVAGANDO II

Ainda que rubra a face ficasse
Ainda que o pau mantivesse-se ereto
Ainda que ela me me desconcertasse
Pra mim ela ainda
É bem mais do que sexo

FUTEBOL - Não Dá Pra Ir de Encontro À Chico Buarque

A Torcida do Baêêêêaaaaa.......Na Fonte Nova


O futebol é coisa dos apaixonados. Mesmo que ele acabe casamentos, toda mulher devia saber que um fanático por futebol, tem um grande potencial de homem carinhoso. O problema é que a comparação entre a importância do esporte e da esposa, é inevitável na cabeça das mulheres que, enciumadas, teimam em relacionar o futebol com puladas de cercas ou coisas do gênero.

A ausência do marido enquanto ulula insanamente no estádio, é sempre relacionada com a traição. Não vejo a coisa assim. Apiaxonado por futebol que sou, frequentador de estádios e farrista de primeira, sofri na pele esta questão. Nunca usei o futebol como pretexto de fuga da mulher amada, até porquê se você ama realmente, não foge, leva ela com você. O problema é que ela quase nunca quer. Ou então perderia o pretexto da reclamação, ou acha ridícula nossa atitude perante a comoção fanática do torcedor. E quase sempre não quer que você vá. Não importa.

Não podemos forçar a mulher a sentir a mesma emoção, assim como elas não podem forçar-nos a abdicar de algo que faz parte do nosso íntimo, da nossa paixão, que não está dedicada exclusivamente à ela, sem precisar mensurar o que é mais ou o que é menos. É claro que ela é sempre mais.

Se há uma relação verdadeira, tem que haver concessões, um tem que compreender o outro. Sempre sonhei em ter a minha mulher como companheira de estádio, e fiz tudo pra que isso acontecesse. O problema é que, a única vez que casei, arranjei logo uma torcedora do Payssandu para o sacramento, informal mas sacramento. Tentei de todo jeito mas não consegui transformá-la em Bahia.

Ainda tentei aliciar a minha filha para tal, levando-a nos estádios desde pequena, fantasiada do meu time de coração e, naquela época, com uns três anos, até que gostava. Acontece que Júlia é ela mesma, personalidade muito forte, e ninguém vai conseguir influenciá-la. Hoje simplesmente detesta futebol. Tenho pena do seu futuro marido, vai precisar de muito jogo de cintura. Mesmo assim, a sua nobreza de caráter a faz ficar feliz toda vez que meu Bahia ganha, ela comemora pela felicidade do pai. É uma filha retada de bôa.
Hoje, desiludido que estou com as agruras que tenho passado com meu time, estou um pouco arredio do futebol. Sei no entanto, que isto é um paiol interior. Basta uma faísca e a explosão é inevitável.

O Futebol
(Chico Buarque)
Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro

Para estufar esse filó
Como eu sonhei
Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu

Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga
(Para Mané, para Didi, para Mané, Mané para Didi, para Mané para Didi, para Pagão para Pelé e Canhoteiro)


A ÉTICA DOS E-MAILS - Internacionalização da Amazônia

Tenho o maior critério no trato com os e-mails. Recebemos todos os dias uma infinidade de mensagens virtuais, a maioria spams, e se fizermos uma filtragem minuciosa, menos de 10% são confiáveis. Muitas vezes até, o autor citado nem é o criador de determinado texto ou opinião. Por isso, antes de passar adiante uma determinada informação, procuro atestar a veracidade da mesma. Acontece que, acabo de receber um e-mail, cuja a autoria foi atribuída a Cristóvam Buarque. Preferências políticas a parte, já que não gosto de me manifestar sobre o assunto, achei tão genial que resolvi passar adiante sem ao menos comprovar sua autenticidade. Seja dele ou não, seja verdade ou mentira, isto é uma grande verdade, uma grande lição àqueles que acham que nossa capital é Buenos Aires e a capital do mundo é Nova York. Daqui em diante, é pura transcrição do que recebi do amigo Magal.

ESSA CALOU OS AMERICANOS. SHOW DO MINISTRO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO NOS ESTADOS UNIDOS.
Essa merece ser lida, afinal não é todo dia que um brasileiro dá um esculacho educadíssimo nos americanos!


Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do DF, ex-ministro da educação e atual senador CRISTÓVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro. Esta foi a resposta do Sr. Cristóvam Buarque:

"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade. Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele, um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. "Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa!".

Divagando I

Se um dia eu tentasse compreendê-la
Mais perdido ainda ficaria
Por isso, a mim basta apenas tê-la
Em Sampa, na memória ou na Bahia

REIVINDICAÇÃO DE LUCY - Não Sou Louco de Contestar

Se eu não conhecesse bem a lisura e o caráter de meu irmão Luciano, até tentaria contestá-lo em tal questão. Após ler o texto que escrevi sobre uma experiência nossa, A PRIMEIRA GELADEIRA A GENTE NUNCA ESQUECE, está reivindicando a autoria do apelido da nossa mesa, Haroldo, que credito a mim. Por mais que tenha buscado nos mais obscuros neurônios da minha memória, não consigo lembrar o fato que me faça assinar em baixo da sua afirmação. Contudo Luciano merece todo o crédito, já que vaidade e plágio, não fazem parte dos seus defeitos. Como posso eu ousar contestá-lo.