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quinta-feira, 16 de abril de 2009

AO TELEFONE

-Alô!
-É você!
-Sim. A chuva tá forte, bateu saudade!
-Porque não ligou ontem?
-Viajei, estava trabalhando.
-Pensei que tinha esquecido de mim.
-Não é possível isto. Como esquecer de você?
-Está mentindo, só quer me agradar.
-Não verdade, eu gosto de você!
-Então porque não ligou ontem?
-Já falei, estava viajando a trabalho!
-Não podia parar um minutinho para me ligar? Só um minuto.
-Não dá para falar só um minuto com você.
-Está me chamando de conversadeira? Está se incomodando ao falar comigo?
-Não. Apenas quis dizer que conversar contigo é bom. Por isso não consigo falar pouco.
-Mentiroso. Você sabe que dia é hoje?
-Sim, quinta-feira!
-Ta vendo que você não se importa comigo?
-Porque?
-Hoje completa um mês exatamente que tive aquela afta.
-E porque eu deveria marcar esta data?
-Você ficou um dia sem poder me beijar. Deveria tê-lo marcado para sempre.
-Bobagem.
-Como você é insensível, não se importa comigo.
-Não fala isto. Me importo e muito com você.
-Se se importasse lembraria de qualquer dia que não pode me beijar.
-Prefiro lembrar dos dias em que a beijo com sofreguidão.
-Tá vendo? Só lembra dos beijos. Não falou dos dias em que fazemos amor. Na certa você acha que a Cristina, aquela sua ex sem sal, era melhor do que eu.
-Porque colocar a Cristina na conversa? Quando te conheci tinha mais de um ano que não a via nem falava com ela. Logo depois do nosso término ela foi para Espanha e nunca mais nos falamos.
-Mas você queria revê-la.
-Não. Quero ver você. Estou com saudades. Por isso te liguei.
-Mas estou despreparada. Não fui ao salão.
-Bobagem, você é linda de qualquer jeito.
-E estou meio assim.
-Assim como?
-Assim ora. Você não me entende mesmo né? Hoje não dá pra sairmos.
-Porque?
-Porque não. Está aonde?
-Em casa, pensando em você.
-Mentiroso. Quer sair comigo a tarde para ir ao jogo à noite.
-Mas o jogo é fora, não vou ao estádio.
-Mas se fosse aqui você iria.
-Sim, mas iria te convidar.
-Para me irritar? Sabe que não gosto de futebol. Vá assisti seu jogo na televisão.
-Não vai ser transmitido. Quero sair com você, vamos.
-Hoje não. Deixa para amanhã.
-Amanhã não posso vou passar o dia no congresso.
-Tá vendo? Você nunca pode sair comigo.
-Mas estou te convidando!
-Só porque não ligou ontem. Está querendo se redimir.
-Porra será que você não entende?
-Não seja grosso! Vocês são uns trogloditas.
-Desculpe, não quis ser grosso. Só apelei para que você acredite que eu te amo e quero sair com você.
-Verdade!
-Claro! Eu te amo!
-Fala de novo.
-Eu te amo!
-Não ouvi.
-Eu te amo, te amo, te amo!
-Que lindo. Você é apaixonante!
-Você também.
-Porque os homens tem essa mania de dizer "também". Porque não tem coragem de falar que eu sou apaixonante.
-Mas acabei de falar que te amo?
-Mas não teve coragem de dizer que sou apaixonante.
-Assim fica difícil, não dá pra falar desse jeito. Está de TPM?
-Não sei, talvez.
-Então nos falamos depois.
-Me liga mais tarde.
-Pra quê? Acabamos de nos falar e você não parece estar bem.
-Tá vendo? Não quer ligar porque vai sair com outra ou encher a cara com seus amigos nos bares da cidade.
-Não vou sair de casa. Não sem você.
-Então me liga mais tarde.
-Tá bom, ligo sim.
-Nos falamos depois então. Um beijo. Até mais.
-Um beijinho lindo. Vou sentir saudades. Vou esperar ansiosa ao lado do telefone. Não tenho coragem de desligar. Desliga você.
-Tá bom. Beijão. Mais tarde te ligo..
tum, tum, tum....
-AH FILHO DA PUTA!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

O SONHO É UM PENSAMENTO, A REALIDADE É UMA AÇÃO!


Era uma época boa demais embora eles não soubessem disso. Faziam o que se chamava então, de segundo ano do segundo grau. Ricos, remediados, e até alguns pobres, todos estudavam num colégio particular de, no mínimo, classe média alta. Uma turma unida, entrosada. Um professor de geografia teve a idéia de fazer um passeio didático para a Chapada Diamantina, mas precisamente Lençóis. Para os meninos, a didática estava renegada à últimos planos, o que estava valendo mesmo era a curtição. Aquela excursão prometia ser o barato do ano letivo. A década de 80 alcançava a sua metade. Começavam a surgir Legião, Ultraje, RPM, Barão e outras bandas que deixaram uma marca visceral na história do Brasil e daquela geração.

Alano era um cara complexado. Embora se desse bem com todo mundo, não se sentia parte daquela turma. Era o mais pobre, magrelo em demasia, do interior, alvo de gozações e, por tudo isso, se sentia inferior. Logo quando chegou a Salvador e começaram as aulas, ficou deslumbrado com a beleza das garotas da escola, mas logo percebeu que para ele, pouca coisa ou nada restaria. Foi assim um ano e quase oito meses. Ele conformado com sua situação de menor. O próprio se colocando abaixo daquilo que, não sabia ele, poderia ser. No entanto era um cara sonhador e fantasioso. Sonhava com um carro do ano, com uma academia e um corpo musculoso, em se sentir igual a todos. Mas, na verdade, o que ele mesmo desejava tinha nome, bunda, peitos e vagina. Martha! Como era maravilhosa. A mulher mais bonita da escola na sua visão. Corpo perfeito, rosto lindo, olhos de um azul assassino, sorriso letal. O inalcançável, o sonho impossível.

Um dia ele percebeu que tudo que desejava para se ambientar, estava longe demais das suas mãos. Carro, corpo atlético, dinheiro, tudo isso ainda estava muito distante. Mas tinha ele duas armas muito mais poderosas que todas aquelas juntas, das quais ali, ninguém estava preparado para enfrentar: a inteligência e a sensibilidade. Percebeu também que, mesmo com todos os pontos que julgava desfavoráveis, era uma pessoa querida e respeitada por todos. Justamente por usar, mesmo que de forma inconsciente, as armas que dispunha. Quando tomou tal consciência, tomou junto uma decisão: nem que por uma noite, nem que por um diminuto momento, Martha ainda seria dele. Foi aí que começou a jogar.

Observando seu alvo, percebeu que ela era uma deslumbrada, apaixonada por Régis. Um cara que era tudo que ele não era, tudo que ele um dia sonhara, mas que pouco dava importância à menina, que a usava e jogava fora como se joga a garrafa da água no lixo depois da sede morta na boca. Ela se humilhava, sempre voltava à seus pés mas Alano percebeu que ela, como todas as pessoas na vida, tinha também seu limite e este estava muito próximo. Com conversas, apoio e compreensão, ganhou a confiança e a simpatia de Martha. Quando soube do passeio logo pensou que sua maior chance havia chegado. Uma convivência intensa, num fim de semana inteiro, era o que ele precisava. Tinha um problema sério porém: Régis também iria para o passeio e Martha só falava nas possibilidades de reatar com ele nesta viagem, o namoro que só ela cumpria. O próprio Régis resolveu este problema para Alano, sem que este mexesse uma palha sequer. Logo na viagem de ida, ficou com Simone, outra gata das mais cobiçadas, deixando Martha decepcionada, fragilizada e carente. Era tudo que Alano precisava.

Lá em Lencóis, durante as caminhadas no primeiro dia, era sempre junto de Alano que Martha seguia. Era com ele que ela chorava as suas mágoas, com ele que ela se abria. Sabendo onde queria chegar, o cara foi aos poucos mostrando a menina, o pouco valor que ela se dava e o muito valor que ela possuía. "-Você já pensou que existem muitos outros homens que dariam uma vida pelo seu choro? Ou melhor, que dariam uma vida para não fazê-la chorar?" Além das palavras, aproveitava os momentos propícios para exercer o poderoso recurso do toque. Sempre ao confortá-la, tocava a sua pele com carinho. Um toque de compreensão, um toque de consolo, mas sem deixar de mostrar, que ali também, havia um toque de desejo. Ela parecia não entender, não esboçava porém, a menor resistência ao que vinha acontecendo.

A noite chegou, a fogueira acendeu, Alano então, usou suas armas e deu o golpe fatal. Pegou o violão e começou a tocar e cantar naquela roda que circulava o fogo, mas pra ele ali, só Martha existia. Em cada música, em cada acorde, em cada verso, em cada olhar que mirava sempre os olhos de Martha. A cada música que rolava, sempre escolhida com precisão, Martha parecia, cada vez mais , entender o recado. Quando a madrugada iniciava seus primeiros acordes, Régis levantou com Simone e se embrenhou nos campos que circundavam a pousada. Alano logo entoou: "Agora, justamente agora, agora que eu penso em ir embora você me sorri, me sorri...ele foi embora, nem faz uma hora...tolo, pensou que beijar sua boca foi consolo... se não fez amor com você, faço eu!" Uma lágrima rolou no rosto de Martha. Alano a secou com "Se você quiser ser minha namorada, ah! que linda namorada, você poderia ser..." Quando a música terminou ele disse: "-Martha. Venha comigo, quero lhe mostrar uma coisa!" Ela atendeu e saíram juntos, em vez dos campos, tomaram o sentido oposto, e foram para a margem do rio. A lua cheia, com a antecedência devida encomendada pelo rapaz, iluminava e fazia brilhar os rostos que agora muito próximos se encontravam. "-Martha você precisa e precisa com urgência, ser a mulher forte e maravilhosa que carregas, mas que nunca deixa aflorar." Beijou-lhe com intensidade, com desejo e volúpia. E ali, naquela calma e bela margem de rio, pela primeira vez, os dois fizeram amor.

domingo, 30 de março de 2008

NÃO DEIXE PARA AMANHÃ....


Armado até os dentes de coragem, bati à sua porta pra dizer que a amo. Que passei todo esse tempo desnudo, declarando-me através de gestos e comportamentos, embora não fosse bom com as palavras e, por isso, tinha muita dificuldade em pronunciá-las.

Naquele dia porém seria diferente. Em vez de elogiá-la, beijaria a sua boca. Em vez de um "Há quanto tempo?" um "Os dias parecem não passar quando não te vejo". Ao invés de olhar o seu decote maravilhoso, olharia fundo nos seus olhos e pronunciaria estas simples palavras, eu amo você. Três palavrinhas apenas que podem determinar o futuro de uma vida inteira.

As vezes me pergunto porque tenho tanto medo dessas pequenas palavras se as sinto dentro do peito com intensidade imensurável. Em quantos momentos, quando ela me sorria, como se esperasse por elas, estive com elas na ponta da língua mas algo travou os meus lábios e não me deixou falar. Naquele dia porém, seria tudo diferente.

Comprei um tênis novo, pus minha melhor roupa, usei meu perfume francês guardado a sete chaves para ocasiões extremamente especias. Algo mais especial que dizer eu te amo a mulher que você deseja dividir o resto dos seus dias?. Ah! Cortei o cabelo também. Precisava me sentir bonito, isto deixaria-me mais seguro. Era como uma muleta equilibrando os passos do capenga.

Saí em disparada, coração disparado. A alma armada de coragem, o coração armado de amor e as mãos armadas de rosas vermelhas perfumadas. "-EU TE AMO!" Como seria fácil. Eram só três palavrinhas e ainda por cima sinceras. uma mamata! Andei os três quarteirões até sua porta, que me pareceram três mil kilômetros, mas cheguei. Cheguei a tempo de vê-la sair com um homem bonito, forte e elegante. Antes de entrar no carro ela me viu e sorriu novamente para mim. Aquele sorriso me pareceu muito diferente de todos os outros anteriores. Ainda disse: - Aonde vai lindo desse jeito e com estas rosas? Qual a felizarda que irá recebê-las? Espero que tenha uma boa sorte! Ah! Conhece Paulo, meu namorado? Só consegui sussurrar: - Muito prazer!, quase inaudível. Entraram num Audi preto novinho em folha e foram-se pra nunca mais. Uma gota salgada escorreu do meu olho. Acho que era uma lágrima!

quinta-feira, 6 de março de 2008

JORNADA NAS ESTRELAS - De Trovão Azul à Interprise!

Pinte este carro de azul e você verá o Trovão.

Quando Muriçoca conheceu Zezinho, os dois ainda eram muito novos. O primeiro com sete anos e o outro chegando aos nove. A antipatia foi instantânea. Muriçoca, como o apelido sugere, era um moleque franzino, magrelo e, como é até hoje, um covarde para brigas braçais. Já Zezinho, um menino forte, brigador, daqueles que não levam desaforo pra casa. Era um "baba", ou uma "pelada" como se chamam em outros lugares. Traduzindo, um bando de pernas de pau tentando jogar futebol. Zezinho era muito melhor que Muriçoca, este um verdadeiro fracasso com a bola. Ninguém o queria em seu time. No meio daquela partida os dois discutiram. Muriçoca, vendo o tamanho de Zezinho tratou de desconversar e sair de fininho, não queria apanhar, e achou o cara um boçal. Durante um tempo andaram se estranhando. Zezinho sempre provocava e Muriçoca corria do pau. Nenhum dos dois imaginava que daquela rusga momentânea, nasceria uma amizade de vida, um amor de irmãos.

O tempo passou e fez com que os dois fossem colegas de escola. Não da mesma sala, mas se encontravam diariamente. Nenhum deles sabe porque mas algo fez com que eles se aproximassem. Aí as diferenças entre eles começaram a ser mais aparentes. Além da força física, tinha o lado social. Zezinho, muito podre, já trabalhava naquela época. Era empacotador de um supermercado. Muriçoca, era filho de uma cara "remediado", classe média, mas destes que todos, em cidades pequenas, acham que são ricos. Na verdade, comparado com Zezinho, ele era rico mesmo. Outra diferença foi gritante entre os dois: o gosto pelos estudos. Muriçoca era daqueles que sempre estavam entre os melhores da classe enquanto Zezinho não tava nem aí pra nada. Foram muitas as vezes que ele tentou botar o outro nos eixos. Com conselhos, aulas, estudos coletivos, mas não havia jeito. Zezinho só queria saber de "farra". Até os livros e cadernos, dava aos colegas pra levarem pra casa e trazer no outro dia. Sempre achava um besta para fazer os seus deveres. No entanto ele era um menino obstinado e tinha muitos sonhos na vida. Naquela época pareciam sonhos, depois todos iriam descobrir que eram objetivos.

Dentre os seus sonhos, o que ele mais falava, era sobre carros. Sonhava em ter um Opala quatro portas todo equipado. Mas, com o seu salário de empacotador, isso parecia muito distante. Num dia muito triste, seu pai faleceu. Deixou uma viúva desempregada com quatro filhos para criar e, de bem mesmo, só o casebre onde moravam. Foi então que D. Leninha, mãe de Zezinho, mostrou ser uma mulher retada. Arranjou emprego e, sozinha, tocou a criação e educação dos meninos a ferro e fogo. Aos poucos, reformou o pequeno casebre e o transformou numa casa decente e bonita. E mais do que o lado material, foi dando a eles um alicerce de caráter e dignidade. Assim Zezinho começou a progredir. Seu primeiro passo foi quando saiu do supermercado e foi trabalhar como balconista de farmácia. Tinha um salário melhor e ainda as comissões. Muriçoca continuava com o esteio do seu pai. Estudando muito, mas ainda não ganhava o seu próprio quinhão.

Os dois juntos viveram aventuras incríveis. Durante o ano, Zezinho economizava o que podia e Muriçoca também, das mesadas e, às vezes, de umas aulas particulares que dava. Gastavam tudo nas férias com viagens. A Chapada Diamantina era o destino predileto. E assim cresceram, viraram adolescentes e, sempre juntos, bateram na porta da fase adulta. Muriçoca já não morava na mesma cidade, mas isto não impediu que a amizade prosperasse. Um belo dia, na cidade onde morava Muriçoca, estavam os dois bêbados na piscina quando o telefone tocou. Era a irmã de Zezinho dizendo que ele tinha sido aprovado no teste que fizera para uma grande companhia estatal. Que ele precisava voltar urgente, com fotos e documentos a postos. Nas pressas, Zezinho arrumou as malas e, ainda bêbado, saiu pra tirar as fotos e pegar o primeiro ônibus. Foi com cara de chapado que Zezinho saiu no seu primeiro crachá daquele emprego que seria então o início da realização dos seus sonhos e das conquistas dos seus objetivos.

Aí entra na história o Trovão Azul. Foi o primeiro carro de Zezinho. Comprado pela mãe é bem verdade, mas destinado a ele. Muriçoca então o ajudou nas aulas de direção. O coitado do Trovão sofreu na mão daquele barbeiro até que ele tivesse mesmo condição de dirigir. Só por curiosidade, Trovão Azul era um chevete ano mil novecentos e antigamente, daquele modelo mais velho, cuja frente tinha a inclinação para dentro, ou seja, da parte superior para inferior. O nome veio por causa da sua cor. Um azul "cheguei" de doer os olhos. São muitas histórias que Zezinho e Muriçoca poderiam contar daquele carro. No entanto os dois preferem deixá-las no anonimato. Assim é melhor pra muita gente.

Muitos anos se passaram. Os dois constituíram famílias, tiveram filhos e a amizade estava lá. Não sem os seus percalços, mas estava lá. Zezinho foi transferido para muito longe e então começaram a se ver e se falar muito pouco. Agora, Zezinho e Muriçoca, cada um no seu lugar, seguiam suas jornadas separadamente. De longe Muriçoca acompanhava os sonhos de Zezinho se realizando. Opala quatro portas já era obsoleto. Caminhonete cabine dupla seria uma boa opção. Com o progresso automotivo, Zezinho trocou o alvo do seu sonho e chegou lá . Teve vários tipos de carro, mas enfim chegou a uma S10 cabine dupla. Todo mundo pensou: agora sua vida está completa.

Mas Zezinho não se limitou a isto. Voltou a estudar, fez faculdade e brevemente se formará em administrador. Trabalhando até hoje na estatal, já tem um outro emprego e administra uma empresa mesmo antes de se formar. Seus ganhos se multiplicaram e seus sonhos também. A S10 ficou pequena. Comprou então uma Hillux topo de linha. Câmbio automático e o escambal. Todos os acessórios possíveis e imagináveis. Ligou para Muriçoca contando a novidade. Este perguntou: -Como é dirigir esta máquina? -A bicha é uma Nave! -Pronto, só pode ser a Interprise!

Se a gente pensar bem, a vida de Zezinho foi uma jornada nas estrelas e ele o comandante desta nave. Mesmo de longe, Muriçoca o admira e sente muito orgulho desse amigo que é um grande vencedor! Mas o que mais o valoriza, carros e dinheiro à parte, é sua dignidade e o seu caráter. Agora o próximo sonho, é uma incógnita. Se Muriçoca tivesse que apostar o seu rico dinheirinho, diria que é um foguete. Um dia, Zezinho chega na lua!A INTERPRISE pronta para a sua Jornada Nas Estrelas!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

O FUMANTE DA SACADA

Esse vício miserável que o persegue, ou que ele não consegue abandonar, o deixou em maus lençóis naquele dia. Visitando novas terras, hospedado em casa de seu ex-cunhado e amigo, foi-lhe dado pra dormir com sua filha, um belo quarto, numa bela casa, num belo condomínio fechado, desses de seguranças implacáveis.

No meio da madrugada, como era de costume, acordou com vontade de ir ao banheiro, como se diz em linguagem popular, de tirar a água do joelho. Mas o vício, este vilão iconoclasta, fez com que, antes das necessidades, fosse à sacada do quarto pitar um cigarrinho. A casa era de dois andares, com uma sacada privada, uma espécie de varanda, em cada quarto.
Separando a sacada do quarto, uma porta de correr envidraçada. Ele levanta, tira um cigarro da carteira, pega o isqueiro e vai fumar na varanda. Preocupado com a filha, pai zeloso que é, evitando que a fumaça entrasse quarto adentro, desliza a porta da sacada até fechá-la.

Acende o "crivo". Que tragada maravilhosa! Pitando seu cigarro, admira a noite, a beleza do lugar e o frescor da madrugada. Pensa na vida e nas perdas daquele momento e, mesmo com tudo isso, sente-se muito feliz. De bicicleta, dois amigáveis seguranças, passam em ronda noturna e acenam para o rapaz. A retribuição foi calorosa e sincera.

Depois de consumado o cigarro, lembra desesperadamente que precisa ir ao banheiro e, sonolentamente, que deve voltar a dormir. Foi aí que tudo começou. O seu suplício, o seu vexame.
A tal porta de correr envidraçada, a desgraçada porta, estava travada e não abria por fora. O que fazer? Começou por bater levemente no vidro e baixinho chamar pela filha. Porém, o sono pesado da menina não deixou a pequena se mexer. Passou então a forçar a porta, quando os mesmos amigáveis seguranças, agora não tão amigáveis assim, apontaram-lhe um facho de lanterna e, sabe Deus, o que mais. As indefectíveis bicicletas, agora transportavam educados seguranças, cheios de receios e desconfianças.
Tentou explicar a situação. Quanto mais falava, menos os convencia, mais se enrolava. Naquele momento, já revia a sua vida e pedia perdão por seus pecados esperando o tiro de misericórdia. Foi então que chegou a viatura com mais dois seguranças e acordou a primeira vizinha. O segurança falou: - O que está acontecendo senhor? A vizinha respondeu: - Manda bala neste filho da puta. Ele está forçando a porta! Nas casas vizinhas, luzes começaram a acender e intermináveis janelas se abriam com curiosos de plantão. Apenas com short de dormir, sem camisa, àquela hora da madrugada, o suposto ladrão, verdadeiro visitante, catatônico, envergonhado, quase molha as calças. Estava difícil segurar a bexiga.
A segurança, via rádio, solicitou à guarita que ligasse para residência, no intuito de acordar alguém para tirar o babaca da sacada, daquela situação humilhante e vexatória. Tudo em vão. Casa de dois andares, telefones só em baixo, quartos só em cima, ninguém acordou para salvar o imbecil. Outro grito ecoou da vizinhança: - Prende este marginal, está roubando nosso sossego! Foi então que uma alma iluminada apareceu em outra casa vizinha: - Aí no andar de baixo, ao lado da garagem, dorme um senhor. Será mais fácil acordá-lo. Pede pra ele subir e soltar o rapaz! Foi a única viv'alma que acreditou ser ele um visitante e não um ladrão. Um beócio, mas não um ladrão.
Exatamente neste momente, sem entender nada do que se passava, sua filha, num gesto sonolento, rápido, simples e salvador, levantou e abriu a porta, voltando à dormir como se nada estivesse acontecendo. Ele agradeceu aos educados e pacientes seguranças e, só então lembrou que estava morrendo de vontade de urinar. Saiu se contorcendo até o próximo banheiro. Foi a mijada mais gostosa da sua vida. Quando voltou a dormir, excitado pelo acontecido à pouco, sonhou com o dono da casa sendo inquirido e cobrado pelo incidente da noite anterior. Pela manhã, ao acordar, envergonhado, alvo de gozações e piadas mais do que justas, o rapaz pensou: - Toda essa merda por causa do cigarro. O jeito é deixar de fumar! Tomara que ele consiga.

Seria até engraçado se não fosse uma história
real!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

O PROGRAMA


Acabado o sexo ela vestiu sua roupa e se perguntou o que estaria fazendo ali. Não era por amor, nem por dinheiro. Sentira pena daquele rapaz. Quando ele a abordou, ela deu o preço: R$ 100,00. Ele oferece R$ 20,00. É só o que tenho. Não quero sexo, quero uma companhia, alguém pra conversar. Estou trabalhando, por R$ 20,00 nem um boquete dá pra fazer. Mas eu preciso, me ouve um minuto, eu te imploro. As lágrimas molharam seu bonito rosto. Não sabe porque, mas sentiu uma imensa vontade de fazer algo por ele e entrou no carro. É por pouco tempo. Quase não ganhei nada esta noite. O rapaz ligou a máquina e andou em silêncio por alguns minutos nas avenidas da cidade grande. Talvez dez, vinte minutos, ela não olhou o relógio.

Estacionou numa rua erma, escura. Ela sentiu medo, preferiu não falar nada. Quando começou a falar, foi compulsivo. Falou excessivamente, mas não fez uma queixa sequer. Não falou mal da vida, não se queixou do trabalho, da família, da saúde, apenas falou. Perguntou o estilo de música que ela gostava. Tim Maia. Colocou “Azul da Cor do Mar”. “Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar, dizer que aprendi...”. Sabe, quando eu era criança e ouvia esta música, ficava me imaginando recebendo minha professora Adélia no altar. Ela era bonita, cativante. Sonhava muito casar com ela. Fantasias de alunos com professores são comuns. Você já teve alguma? Sim, tinha um professor do ginásio que eu era apaixonada. Alex. Não era bonito, mas me atraía bastante. Coisa de adolescente...

Passaram-se horas. Agora o rapaz não mais parecia sofrido nem triste. Tinha paz no seu semblante. Ela sentia-se bem, sentia-se leve. Gostava daquele papo, esqueceu da calçada e do dinheiro que estava perdendo ou deixando de ganhar. Fazia muito que não era tratada como um ser humano comum, uma pessoa que tem defeitos e qualidades, uma mulher. Ele a convidou para um lanche. Como pode pagar se só tem os R$ 20,00 que vai me dar? Pensou, mas ficou para si. Aceitou o convite. Foram a uma lanchonete 24hs. Ele ofereceu o cardápio e disse que ela escolhesse à vontade. Intrigada, ela se preocupou em pedir algo bem barato, que os R$20,00 dessem pra cobrir. Um hambúrguer por favor. Dois. Ele complementou. Você tem filhos? Tenho um garoto de quatro anos, por isso estou nessa....Sua mão tocou suavemente o seu braço e disse: não precisa falar nada. Não quero saber o porque você faz o que faz. Se faz com dignidade é o que importa. Você me parece digna. Procuro ser. Como ele se chama? Marcelo. Bonito nome.

A conversa se estendeu por longos minutos e já quase amanhecia quando ela, por única e espontânea vontade, o beijou. Sem trocar mais palavras, os olhares falaram por elas, foram para um motel e se amaram como um casal de apaixonados que transa pela primeira vez. Ele acende um cigarro. Ela abre uma Ice. Ela pergunta. Você é casado? Sou. Não se atreveu perguntar porque o rapaz encontrava-se ali. Apenas sussurrou baixinho, bem.... Mais uma vez ele a beijou. Fizeram amor novamente e o relógio era a última coisa que importava. Acabado o sexo ela vestiu sua roupa e se perguntou o que estaria fazendo ali. Não era por amor, nem por dinheiro. Sentira pena daquele rapaz. Agora sentia admiração e respeito. Levantou, vestiu a roupa. Preciso ir. É a minha hora. Ele se vestiu, pagou a conta e perguntou: posso levá-la em casa? Sim. Na saída ele disse: obrigado pela noite, você foi maravilhosa. Sacou a carteira e pegou uma nota de R$ 100,00. Guarde o seu dinheiro. Não quebre esse encanto. Preciso desta noite na memória por toda a minha vida. E o silêncio reinou até a casa da garota.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

QUANDO O DESTINO QUER...

Continuação da estória publicada em 20 de setembro de 2007


Quando Evandro acordou, a visão que teve foi assustadora. Seu corpo desacordado no chão de uma biblioteca intacta. Seus livros valiosos jaziam na estante, criteriosamente arrumados como sempre. Estaria tendo uma alucinação. Há poucos instantes as prateleiras estavam vazias. Como isto poderia acontecer? Lembrou da sala e correu para verificar. Ficou surpreso ao perceber que não andava e sim flutuava lentamente. Um forte terror invadiu sua mente e ele teve por um momento nova ânsia de desmaio. Na sala, tudo no seu devido lugar. O fio do telefone conectado, o aparelho na devida posição. O que estaria acontecendo? Voltou à biblioteca e ficou longos minutos contemplando o seu corpo no chão sem entender o que estava acontecendo.

Foi aí que lembrou do acidente. Mais uma vez o remorso o corroeu. Rapidamente saiu flutuando até local e mais surpreso ainda ficou ao ver o mendigo são e salvo, sentado na calçada comendo um pão velho provavelmente dado por algum transeunte. De repente o inesperado. O mendigo levanta-se, visivelmente bêbado e atravessa a rua rapidamente. Um carro, em alta velocidade o atropela jogando-lhe a alguns metros de distância. O mendigo agonizava e sangrava muito. O carro parou e seu motorista desceu. Como podia? Era ele. Assustado olhou em volta como se procurasse testemunhas àquela hora da madrugada. Após alguns segundos de dúvida, pegou o mendigo colocou no banco de trás e o levou a unidade de emergência mais próxima.

Lá chegando imaginou como a vida era injusta, como o mundo era cruel. Como podia alguém ser tratado num local como aquele? O que estava sendo feito com os milhões que o governo arrecadava com a previdência? Bem, ele não ia consertar o mundo. Estava mesmo preocupado em saber o estado do pedinte. Foi aí que veio o médico e deu a notícia. O mendigo não resistira aos ferimentos e acabara de vir a óbito. Evandro empalideceu. Uma dor aguda começou a tomar-lhe o braço esquerdo projetando-se levemente para o peito. De repente a dor ficou insuportável, como se alguém batesse em seu peito com muita força. Perdeu os sentidos e desmaiou. Imediatamente o médico acionou os enfermeiros e o removeram para uma unidade de tratamento intensivo. Muitos aparelhos foram ligados. Deram vários choques em seu peito, uma agitação insana tomou conta da sala. o aparelho que monitorava seus batimentos mudou o gráfico na tela e o ritmo dos sinais. Não entendia nada, mas devia ser uma coisa boa a tirar pela mudança positiva dos semblantes da equipe. O médico então retirou a máscara e falou sorrindo: - Ainda não foi desta vez meu amigo! Só então Evandro entendeu que estava morto.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

VUMBORA BAÊÊÊÊÊÊÊÊAAAA!!!!!

Hoje recebi de um amigo um e-mail despretensioso que achei muito interessante. É na verdade uma pequena crônica, dessas histórias que circulam pela internet e a gente nunca sabe quem escreveu. Achei muito interessante e tem inclusive muito a ver com o que escrevi em Teste Para Cardíacos. Por isso, resolvi transcrevê-la aqui. Pena que não posso dar crédito ao seu autor. Lá vai!


BAÊÊÊÊÊÊÊÊAAAA!!!!!


Seu Jurandir chegou em Salvador num vôo da GOL, às 19:20 do dia 7 de outubro. Saiu do avião e partiu para buscar sua mala no saguão de desembarque. Como a bagagem demorava de aparecer na esteira, Seu Jurandir sacou a Maxi-Goiabinha que a aeromoça tinha lhe oferecido e ele havia guardado no bolso para mais tarde. A mala chegou, ele colocou no carrinho e saiu pelo portão para procurar um táxi.

- “Quanto é o táxi até...
Ele olhou um papel na sua mão e completou:
... Ondina?”
- “Ondina? 88 conto”
- disse o motorista.

Seu Jurandir fez cara feia, mas entrou no carro mesmo assim. Afinal, Seu Jurandir é paulista e veio conhecer Salvador pela primeira vez no alto dos seus 53 anos. O táxi partiu e logo depois que passou pelo túnel de bambuzais, o motorista fez um pedido:

- “O senhor se incomoda se eu ligar o rádio?”

Seu Jurandir observou o motorista. Era um homem que aparentava uns 40 anos. Tinha uma aparência serena, óculos escorregando pelo nariz e uma boina azul, vermelha e branca na cabeça. Seu Jurandir disse que não se incomodava, mas ficou surpreso quando o rádio ligou. Não era bossa nova ou MPB, nem pagode, arrocha ou axé. O que estava ecoando dos alto falantes do táxi era um jogo de futebol.

- “É que eu torço pro Bahia, sabe? E esse jogo é decisivo” - explicou-se o motorista.

Seu Jurandir não era muito de papo, nem de futebol. Assistia de vez em quando a um jogo do São Paulo na TV, time pelo qual ele carregava uma certa simpatia. Por isso, ficou calado, ouvindo o locutor do jogo junto com o motorista. O locutor gritava:

- “6 MINUTOS DE ACRÉSCIMO!!!”

A cada berro do locutor, Seu Jurandir percebia que o motorista ficava mais nervoso. A aparência serena inicial dava lugar a um semblante de desespero. O homem suava e fazia o sinal da cruz enquanto o carro passava pela Avenida Paralela.

- “Não é possível. A gente precisa de um golzinho só!!!” - desesperava-se o motorista.
- “TERMINA O JOGO NO ACRE!” - berrava o locutor.
- “Pelamordedeus, a gente só depende da gente!!!” - desesperava-se ainda mais o motorista.

Seu Jurandir começou a ficar assustado. O motorista estava suando que nem cuscuz, embora o ar-condicionado do carro estivesse ligado no máximo.

- VAI QUE DÁ BAHIA!!!! - berrava o locutor.
- Vai que dá Bahia!!!! - repetia o motorista.

Seu Jurandir já se segurava na porta do carro, quando o locutor recitou:

- “É A ÚLTIMA CHANCE! LÁ VEM CARLOS ALBERTO, CRUZOU NA ÁREA, CHARLES DE CARRINHO.............................................................GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!”

O motorista começou a tremer, chorar e gritar ao mesmo tempo:

- “É goool, é goool, é gooool, bora Bahêa minha porra, bora Bahêa, minha nirgraça!!! Aí bando de rubro-negro feladaputa! Toma aí!!! É a estrela! Eu disse, eu disse!!! É goool porra!! É gol do Bahia caralho!!”

As mãos do homem tremiam, o táxi já não andava em linha reta. Agora, quem se desesperava era Seu Jurandir, que pedia assustado para o táxi parar.

“Pára, pára!” - gritava Seu Jurandir.
“Bahêa, Bahêa! - gritava o motorista.

Meio que em estado de choque, o motorista finalmente encostou o carro no Posto 2 da Paralela. Bastou o táxi parar, para ele deixar seu Jurandir sozinho no carro e sair pela porta correndo e gritando uns 15 putasquepariu.

Sozinho no carro, Seu Jurandir observava o cenário ao seu redor. Carros buzinando, fogos explodindo no céu, gente gritando, chorando, ajoelhando. Cada vez mais carros chegavam ao posto em festa, comemorando o que parecia ser um título inédito. Em meio ao buzinaço, o motorista voltou pro táxi.

“Desculpa, senhor. É que é muita emoção. Esse time é foda.”

Agora curioso, Seu Jurandir perguntou:
- O Bahia foi campeão?
- Campeão? Não, se classificou pro octogonal”
- respondeu o motorista ofegante.
- Octogonal?
- É, o octogonal da Série C.
- Da Série C? Terceira divisão?
- É ganhamos do Fast, do Fast do Amazonas. 1x0, caralho!
- “Sei, sei”
- disse um incrédulo seu Jurandir.
Ainda em êxtase, o motorista perguntou:
“Pra onde é que o senhor está indo mesmo?”
E o seu Jurandir respondeu:
- “Pro aeroporto. Volta pro aeroporto que eu não fico mais um segundo nessa terra de maluco.”

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

QUANDO O DESTINO QUER...

Quando Evandro entrou em casa logo percebeu que havia algo diferente. Já fazia muitos anos que ele morava sozinho e conhecia cada canto do lugar, a milimétrica posição de cada objeto, nada escapava ao rigoroso crivo do seu jeito sistemático de ser. Extremamente organizado notou imediatamente que o telefone estava um pouco mais a direita do que de costume. Quando foi conferir, erá óbvio que alguem o afastara para dar passagem à mão e alcançar o fundo da mesinha. Logo viu que o fio estava desconectado da tomada. Como poderia alguém ter feito aquilo. Não havia nem um sinal de arrombamento. A porta e fechadura estavam intactos. Ninguém possuía uma cópia da chave, nem poderia, aquele era o seu mundo, seu porto seguro, não havia como compartilhar com outrem. Ficou um pouco amedrontado. Será que havia mais alguém em casa? O que estaria fazendo ali? Seria um assalto? Uma vingança? Os pensamentos fluíram desordenadamente e uma sensação de pânico invadiu o seu interior.

Naquele momento, ele lembrou os acontecimentos da noite anterior. Fizera algo horrível, desumano e talvez estivesse agora pagando por sua conduta deplorável. Atropelou um mendigo e se negou a dar socorro. Chegou a parar o carro, viu o corpo agonizante e ensanguentado do homem no chão. Quando imaginou a sujeira que seria no seu estofamento novinho, olhou ao redor e, àquela hora da madrugada, não havia uma viva testemunha do acontecido. Contudo, tal atitude lhe tirou a paz. Não houve um segundo sequer desde o acidente, que sua mente não ruminasse um remorso sem fim. Começou a ficar assustado. Teria alguma relação com estes fatos da noite anterior?

Ofegante, começou a examinar cada detalhe e percebeu outros claros sinais de que alguém esteve ou estava ali. Apurou a audição, nem um ruído. Restava o andar superior onde ficava seu quarto, o banheiro e a biblioteca, o lugar mais preservado da casa, pelo qual ele seria capaz de morrer. Teve medo de subir os degraus, nem podia imaginar o que o esperava. Sem outra alternativa, começou a subir. A cada degrau seu coração acelerava. Tinha a impressão que saltaria do peito. Primeiro o banheiro. Nada além da torneira que pingava lentamente. Devia ter consertado o vazamento, pensou. No quarto outro sinal. O telefone da cabeceira também havia sido desligado. De resto tudo normal. A essa altura, o coração parecia furar-lhe o peitoral, tamanha a força e velocidade dos batimentos. Uma dor aguda começou a tomar-lhe o braço esquerdo projetando-se levemente para o peito. A respiração ficou mais difícil, faltava-lhe ar. Com as poucas forças que restavam, arrastou-se até a biblioteca. Ao entrar, olhando as estantes vazias, nenhum livro sequer, o que acontecera? Quem roubaria um monte de livros velhos? Para ele, era sua maior fortuna. Foi aí que a dor ficou insuportável, como se alguém batesse em seu peito com muita força. Perdeu os sentidos e desmaiou.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A LOJINHA DE PRESENTES



Quando ele entrou na lojinha de presentes pela primeira vez, sua vida mudou. Algo novo aconteceu no seu íntimo. Seu coração bateu num ritmo diferente e um sentimento iconoclasta invadiu o seu ser. Atrás do balcão, aquela mulher. Bonita? Ele não sabia dizer, magnética com certeza. De tanto que a observou, quase esquece de escolher a lembrança que entrara ali para comprar.

Queria saber mais sobre ela. Seria casada? Teria namorado? Do que gostava? Não tinha coragem de perguntar e, sem outra alternativa, passou a freqüentar a lojinha constantemente, sempre arranjando um pretexto para entrar lá. Com o tempo foi fazendo amizade com a moça e descobrindo sua beleza, seu encanto, sua candura. Sem perceber, ficou completamente apaixonado.

Um dia, ao entrar na lojinha, viu-a brincando com um menino que a chamou de mãe. Ele desmoronou. Catatônito, não teve ação. Saiu pensando que a moça era casada. Se tinha filho, era óbvio, tinha de ter um pai. Não sabia ele que a moça nunca chegou a casar. Ainda grávida, terminou o relacionamento de anos e criou o filho sozinha. Menina de coragem aquela, de personalidade e, justamente por isso, ele não a dobraria.

O tempo passou e os dois tornaram-se amigos. Amizade que pra ele era apenas uma ponte para conquistá-la. Àquela altura, já tinha certeza que queria aquela mulher, faltava apenas comunicá-la. Aí estava o maior problema. Tímido, ele não conseguia se abrir, mas, aos poucos, ía dando claros sinais que tinha outras intenções que extrapolavam o campo da pura e simples amizade. A moça muito contida, fazia ouvidos de mercador. As vezes dava a impressão de estar gostando de ser cortejada daquela maneira. Ele ficava confuso, será que tinha alguma chance? Descobriu que pra saber finalmente, teria que ser mais direto. Se encheu de coragem e um dia falou: - Não percebe que além de amizade alimento outras esperanças com você? Aceitaria jantar comigo? A moça nem disse que sim, nem disse que não. Recusou o jantar mas não descartou totalmente a possibilidade. Disse que no momento não estava aberta pra uma nova relação mas quem sabia do futuro? Mais uma vez o confundiu deveras.

Pouco tempo depois, ela apresentou-lhe uma menina como filha de seu novo namorado. Foi a gota d'água. Ele tentou não demonstrar mas a decepção em seu rosto era patente. Decidiu nunca mais cortejá-la e passou a tratá-la como simples amiga. Ficou inclusive, um bom tempo sem pisar na lojinha. No fundo porém, o sentimento que nascera desde a primeira vez que entrara ali, alguns anos atrás, até hoje acompanha o seu coração. Este bate mais forte toda vez que o rapaz entra na lojinha de presentes.

sábado, 5 de maio de 2007

O CASAMENTO PERFEITO

Cibele e Jânio recentemente completaram sete anos de casados. Ao contrário do que todos dizem, para eles não era uma fase de crise e sim de muita harmonia. Conquistaram muitos progressos desde que selaram o matrimônio e, hoje, viviam de forma estável. Problemas e brigas existiam, mas num contexto geral, podiam considerar-se um casal feliz. Desde a época de namoro haviam combinado que seria uma união deles e para eles, por isso não queriam ter filhos. Ela nunca se imaginou como mãe. Perdendo noites, as preocupações naturais da maternidade, a perda da privacidade e da liberdade. Definitivamente não era pra ela. Em Jânio encontrou o homem ideal. Carinhoso, bonito, promissor, aparentemente fiel e, o mais importante, não queria crianças.

Os dois estavam embutidos nos mesmos objetivos de estudos e crescimento profissional, além da dedicação mútua. Assim estavam vivendo, assim estavam felizes. Cibele fazia uso de contraceptivos regularmente e, embora tivesse uma vida sexual intensa, sem uso de preservativos, nunca suspeitara de uma gravidez. Acontece que o destino reservara uma surpresa. Fazia três semanas que sua menstruação não chegava. Ela começava a sentir enjôos e achava a barriga um tanto inchada. Tinha certeza que estava grávida. Como dar a notícia a Jânio? Ele certamente tomaria aquilo como uma traição ao pacto dos dois. Ela não planejara, certamente o anticoncepcional havia falhado, mas tinha medo da reação do marido. O pânico foi tanto que não teve condições de fazer o exame para atestar a gestação. Passaram-se duas semanas e nada. Cibele mudou, ficou distante, fria e Jânio percebeu. Ela usou uma série de desculpas e justificativas, mas Jânio notara claramente a alteração no comportamento da esposa. Começou a ficar com uma pulga atrás da orelha e a pressioná-la para que abrisse o jogo.

Foi tanta a pressão que Cibele não suportou. Acabou por contar a Jânio da sua suspeita. A reação dele foi a pior possível. Primeiro acusou-a de desleixo, irresponsabilidade, de tentar enganá-lo. Depois contestou a paternidade. Cibele não sabia, mas Jânio era estéril e, mesmo no calor daquele momento, não teve coragem de contar. Na verdade ele era um complexado, falava que não queria filhos por não ter coragem de assumir sua condição de infértil. E, por último, isto foi à gota d´água, logo sugeriu o aborto. Cibele tremeu nas bases. Não queria ser mãe, mas jamais cometeria um ato daqueles. Preferia abrir mão de todos os seus princípios, a carregar a culpa de tirar a vida de uma criança inocente, cuja existência não foi sua escolha e por quem se sentia com total responsabilidade. Jânio foi irredutível. Sabia que o filho não era dele embora não contestasse com a esposa a situação, para não expor o seu grande fracasso. Era incapaz de procriar. Aí nasceu a desconfiança, a decepção, a desarmonia, coisas que alguém jamais imaginaria existir entre os dois.

Os últimos dias foram um inferno. Mal se falavam e, quando isto acontecia, só trocavam acusações e ofensas. Cibele, já não agüentando a situação, buscou os conselhos da mãe. Esta, por sua vez, levou-a ao médico. Era o mais natural, tudo estava movido por meras suposições. Realizados os exames, veio o surpreendente diagnóstico. Ela não estava grávida. Uma pequena disfunção hormonal atrasou suas regras e a cabeça cuidou para o surgimento do resto dos sintomas. Um verdadeiro alívio. Não via à hora de contar ao marido que tudo não passara de um grande engano.

Assim as coisas se resolveram. Ficou, no entanto, uma grande seqüela, uma nova visão de um para o outro, na forma de enxergar o seu companheiro. Botadas as cartas na mesa, o casal prosseguiu com a vida de sempre. Mas o casamento perfeito jamais foi o mesmo depois da suposta gravidez de Cibele. Não foi à-toa que eles vieram a se separar um ano depois.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ


Conta a lenda que Zeboré, através da genética, herdou de seu pai uma de suas principais qualidades: ser um homem de visão. Intelectual, empresário bem sucedido, Zé tinha suas convicções e as defendia com unhas e dentes. Dentre elas a de que futebol era coisa de maluco, de quem não tinha o que fazer. Achava um absurdo, um ser humano passar a tarde de domingo com um radinho de pilha na mão, escutando palavras inaudíveis do locutor gritando feito um insano. Para ele isto era prenúncio certo de depressão na segunda. Exceto por farras homéricas tendo como pretexto os jogos do Brasil nas copas do mundo e umas poucas incursões a estádios levados por amigos loucos, segundo ele, apaixonados pela arte de chutar a bolinha.

Um alvo certeiro das suas críticas era o seu irmão Dibi. Torcedor fanático do Arranca Toco, principal rival do Perna de Pau, os dois melhores times da cidade onde moravam. Dibi era daqueles piolhos de estádio, onvinte assíduo de jogos e resenhas. Dos que se fantasiam dos pés a cabeça nos dias de peleja e, assim como todo bom torcedor, detesta quando falam mal do seu time ou da sua paixão. Frustradas foram todas as tentativas de Dibi de convencer Zeboré do contrário. Fazer vê-lo a beleza do esporte, a integração do torcedor, a diversão saudável que alivia as tensões da vida e das preocupações pessoais. Dibi desistiu, pensava estar ali um caso perdido. Estava enganado. A vida dá muitas voltas e às vezes nos prega peças arrasadoras.

Depois da bancarrota, Zeboré se viu na mais profunda depressão. Sem trabalho ou perspectiva, sua reserva esvaindo-se pelo ralo abaixo, sem luz no fim do túnel. Já quase jogando a toalha, Carequinha, grande amigo de vida, outro louco apaixonado pelo esporte, assume uma função na diretoria do Perna de Pau e convida-o a assessorá-lo. O salário não era dos melhores, mas qualquer coisa é melhor do que nada. Assustava-lhe a idéia de trabalhar neste mundo do qual se considerava um ET. Sem opção mais aprazível Zeboré aceitou o desafio.

Ainda segundo a lenda, uma semana depois, nosso personagem foi visto vestido de Perna de Pau até o pescoço, gritando desesperadamente no meio da torcida nas arquibancadas do estádio do seu, agora, clube do coração, discutindo regras, ou cagando-as talvez, e ainda por cima empunhando rente ao ouvido, um rádio de pilha que mais parecia um micro system. É isso aí Zeboré, esse mundo dá voltas….

terça-feira, 17 de abril de 2007

RESERVADO PARA IDOSOS, GESTANTES E DEFICIENTES

Ele entrou no ônibus exausto após um dia estafante de muito trabalho. Como seu ponto de partida era perto do início da linha, ainda encontrou vazia uma daquelas cadeiras reservadas para idosos e deficientes. Aquela hora do dia, nos intermináveis quilômetros e paradas que separam o Itaigara de Periperi, lá na periferia da cidade, com certeza a lotação iria entupir. Só restava rezar para o impossível acontecer: não entrar no veículo, nenhum idoso, grávida ou aleijadinho que lhe forçasse, já que era um homem de princípios e de boa educação, a ceder o assento. Ainda em Brotas, portanto muito longe de alcançar o fim da linha, seu lugar de descer, o buzu já tava entupido inclusive com gente pendurada pela porta da entrada. Eis que ao seu lado, carregada de livros e sacolas, uma linda mulher, de seus 25 anos, encosta na sua cadeira. Foi instantânea a sua atração por adorável criatura mas, o seu estado de total fadiga não permitiu que cedesse ao incontrolável desejo de levantar para que a moça sentasse. Limitou-se a pegar seus livros e sacolas e guardá-los no colo para descansar braços tão macios e lindos.

No sacolejo da viagem, nos freios de arrumação, vez ou outra a moça roçava em seu ombro a maciez de seu sexo. A ereção foi natural e ele rezou pra que ela não descesse tão cedo. Primeiro para continuar sentindo aquele contato maravilhoso, segundo pra não ser obrigado a tirar do colo os objetos que escondiam desconcertante situação.

A viagem transcorria normalmente, se é que se pode chamar de normal o estado de quase orgasmo em que encontrava-se quando, já na Calçada, Cidade Baixa, sobe uma velhinha, com certeza com mais de setenta, pela porta da frente. Ele não conseguia entender como a velha subiu, aquele lugar parecia não caber uma mosca sequer. Em fração de segundos, intermináveis dúvidas povoaram o seu cérebro. Ceder o lugar a velha ou usufruir do êxtase que sentia com a moça a roçar-lhe o corpo e já era capaz de sentir o cheiro que emanava das entranhas daquela mulher. Difícil escolha.

Desconcertado, com as faces rubras, levantou-se para que a idosa sentasse. Quando foi entregar a moça seus livros e pacotes, esta, num movimento tão rápido que seus olhos perderam ao piscar, sentou-se no seu lugar. A pobre velha ficou em pé, espremida pelos inúmeros passageiros que amontoavam-se no corredor. Pensou em reclamar com a mulher mas a visão do seu rosto e as lembranças do prazer que esta lhe proporcionara minutos atrás, não lhe permitiram. Envergonhado, desceu na próxima parada e pegou outro ônibus para casa, ainda mais lotado que aquele.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

PREGUIÇA DE BAIANO - A REDE

"As vezes, sinto uma vontade imensa de trabalhar, aí vou prum canto quietinho, fico lá deitadinho, esperando a vontade passar"





Doca era uma baiano da gema, desses que ficam retados quando são chamados de preguiçoso. Tudo bem que ele gostava de uma maré mansa de vez em quando mas dava um duro danado, não achava justo tal rótulo. Tudo culpa de Dorival Caymmi, baiano dos mais ilustres, que com seus versos descansados deixou a gente com essa fama terrível em todo o brasil. Fama sem proveito, porque de preguiçoso o baiano não tem nada. É claro que o clima quente dos trópicos, os abençoados quilômetros de praias lindas e paradisíacas que temos, fazem do baiano um povo malemolente, nunca preguiçoso. Acreditem ou não o baiano trabalha e trabalha muito. Mas isto é uma outra história. Viemos aqui falar de Doca e da rede. É que ela virou o símbolo da “preguiça” baiana. Quem não gosta de dar uma relaxada numa delas. Quem não gosta de tirar aquela sesta após o almoço. Baiano, paulistas, cariocas, gaúchos, pernambucanos, cearenses, enfim, todo mundo gosta da rede.

O que Doca nunca imaginou ser possível, é fazer amor na rede. Já tinha ouvido várias histórias de pessoas que diziam ter feito mas nunca acreditou. Achava conversa mole de gente que gosta de contar vantagem. Ele mesmo nunca tinha provado. Um dia, apaixonado que tava por uma gatinha, dessas que viram furacão na hora do bem bom, se viu numa situação que era a rede ou nada. É claro que ele escolheu a primeira. Achou incômodo, esquesito, mas amou. Não pela rede em si, mas pela companhia. A rede se tornou um mero detalhe ofuscado pela pessoa que estava ao seu lado. Contudo jamais poderá esquecer das duas. Da rede e da gata. Por mais que te doessem as costas, por mais que te marquessemm os joelhos, por mais que se sentisse estranho e desconfortável, Doca nunca havia chegado aos lugares que aquela experiência na rede o levou. Até pra dizer que é ruim é preciso provar. Foi o que Doca fez. Não se arrependeu. Se alguém disser que é ruim, vai comprar briga com o cara. -O problema não tá na rede, tá na pessoa que deitou com você nela. Isto eu posso garantir. Quero ver achar ruim um tcheco-tcheco com uma gata daquela?

Ele nunca vai esquecer da rede, muito menos da mulher que lhe proporcionou aqueles momentos mágicos, extasiantes. Cara de sorte este Doca.

Os versinhos acima, ao lado da foto, são de autoria desconhecida. Muito populares na Bahia.