Em outubro do ano passado, quando fui à Belo Horizonte pela primeira vez na vida, fiquei encantado com a Beleza da Cidade, suas belas mulheres e muito emocionado por estar no palco onde surgiu o movimento musical que mudou a minha vida, o Clube da Esquina. Na viagem de volta, de uma forma inusitada que já contei aqui em outro post, escrevi o poema intitulado Natasha & Letícia. Quando meu amigo Márcio Valverde o leu, resolveu musicá-lo. Fez umas interferências na letra, eliminou alguns versos e assim nasceu esta canção que marcou o meu retorno às parcerias musicais. Aqui segue ela do jeito que ficou registrada numa gravação caseira e sem qualidade mas que dá pra referenciar a canção.
P.S. Nesta gravação a letra ainda não estava totalmente definida. A real é a transcrita abaixo.
Horizonte Belo (Márcio Valverde/Adriano Carôso)
Que saudade do Clube da Esquina, Dos seu versos imortais. Que do Malleta à Santa Tereza, Deram belos horizontes, muito mais!
Belos, sempre belos, musicais... Belo Horizonte, muito mais!
Nascimento para minhas aventuras, Brant me tomou pela raiz. Borges me levaram na loucura. Voar nas asas do 14 Bis.
Guedes, Venturinis e Antunes, Multiplicaram sons de norte a sul. Nos permitindo o prazer da festa, As serestas de Paulinho Pedra Azul.
Belos, sempre belos, musicais... Belo Horizonte, muito mais!
FICHA TÉCNICA Márcio Valverde: Violão e Voz Luciano Carôso: Pitaco providencial que trocou o "Mil tons para minha desventura" por "Nascimento para minhas aventuras" (pra mim lhe valeria até a parceria mas Márcio o retirou sem dó nem piedade) Lívia Milena: Tentativa de transformar nossa canção numa casa de tolerância Vira-lata Anônimo: Latido de fundo musical
Gosto muito do que escreves As palavras parecem carícias Brincam com sentimentos e emoções Rimas ricas, ricos poemas Inventivos e de finais surpreendentes Entram no ouvido da gente Lindos dizeres, versos silentes Elevam as batidas dos corações
Fidalgos são os seus versos Ilimitadas canções Deslumbram o universo Alimentam paixões Lindos dizeres, versos silentes Glamoures luzentes Olhares, verões!
Hoje, revirando o baú da minha vida, lembrei do Barbosa Romeu. Um edifício velho em Pitangueiras de Brotas onde meu irmão Edmundo morou um certo tempo, num apartamento sub-solo que mais parecia uma caixa de fósforos, quando fixou moradia em Salvador depois de perambular por esse mundo de meu Deus sem rumo, sem moradia fixa e sem endereço. Acho que o Barbosa Romeu foi o primeiro lugar onde Edmundo pôde, por exemplo, apresentar um comprovante de endereço, desses tão exigidos em qualquer um dos cadastros que precisamos fazer nessa vida.
As lembranças daquela época, final da década de 80, são as melhores possíveis embora, no que diz respeito ao quesito financeiro, foram tempos difíceis para todos nós. Lembro do dia 8/8/88, quando a dureza tava foda, o saudoso Pintado do Bongô chegou na casa de Edmundo e encontrou ele tomando um caldo com uma banda de pimentão dentro e aí perguntou: -Que porra é essa?. Edmundo sem jeito, tentando disfarçar, falou: -Isto é uma sopa que aprendi na Espanha. -Espanha porra nenhuma, você tá é passando fome caralho! Parece que a combinação dos oitos não foi muito boa pra Edmundo. Pintado era assim, um desbocado com um senso de humor dos mais aguçados possíveis, mas que levou para o túmulo, o grande mérito de ter sido o mestre de percussão de Carlinhos Brown e o amor e admiração de uma infinidade de pessoas. Por falar em Brown, foi lá no Barbosa Romeu que presenciei ele, sentado na cama de Rá Nascimento que na época dividia o apartamento com Edmundo, mostrar em primeira mão a, até então, inédita "Meia Lua Inteira" e dizer que tinha feito uma merda. Deu a música pro Chiclete Com Banana e agora Caetano queria gravar. Graças a Deus tudo deu certo. Chiclete gravou e Caetano também e a música foi um dos temas de maior sucesso da trilha sonora da novela Tieta da Rede Globo, na voz de Caetano é claro e um estrondoso sucesso nacional. Também, depois que Caetano gravou, a versão do Chiclete ficou muito pequena.
Uma das melhores lembranças que tenho de lá, é da festa de inauguração da geladeira. Isso mesmo, inauguração da geladeira! Durante muito tempo não havia geladeira no ap. Quando Edmundo comprou sua primeira geladeira, isso até me fez lembrar de uma outra história, teve uma festa de comemoração. Foi fantástico. Muita música, poesia e alegria e, é claro, até pra justificar o motivo da festa, muita cerveja gelada.
Lá no Barbosa Romeu, vivemos momentos de muita intensidade. Foi uma época de muita criação. Edmundo e Rá fizeram muitas canções belíssimas, Rudney Monteiro também estava sempre presente com melodias maravilhosas que Edmundo letrava. Foi lá que nasceu uma parceria fantástica, dois irmãos que se juntaram e fizeram um quilo de músicas lindas que até hoje encontram-se no anonimato. Coisas do destino e da nossa indústria fonográfica e radiodifusão que executa ao extremo as "Boquinhas da Garrafa", as "Eguinhas Pocotó", os "Sou Chicleteiro" da vida enquanto ignora melodias e poemas lindíssimos que muito podiam aumentar a sensibilidade, cultura e dignidade do nosso povo. Fazer o que? Foi justamente ouvindo parte dessas músicas de Luciano e Edmundo que bateu uma saudade danada daquela época e uma vontade de escrever sobre o Barbosa Romeu. Bons tempos que não voltam mais.
Baile No Coração (Luciano Carôso/Edmundo Carôso)
Sol Quando o sol nascer Vai reacender Tudo que é olhar e farol
Som Diga que quer ser Se você crescer Música de um mundo melhor
Baile no coração Reggae no bem querer Rumba nessa emoção
Pão Pão pra quem colher No trigo o que vê Pão para quem não colha pão
Grão Não para moer Grão para nascer Grão para que venham outros grãos
Baile no coração Reggae no bem querer Rumba nessa emoção
P.S. Meu irmãozinho Luciano Carôso que além de um grande músico e compositor, é uma fera nos assuntos cibernéticos, ao contrário de mim, me ensinou uma maneira de colocar um link para áudio nas minhas postagens. Adorei este recurso e pretendo usá-lo sempre que necessário. Vivendo, fazendo e aprendendo. Então, para inaugurar meu novo conhecimento, vai o link abaixo pra quem quiser ouvir Baile No Coração.
FICHA TÉCNICA Graça Reis: Voz Luciano Carôso: Voz e violão base Rá Nascimento: Voz, violão solo e percussão em tampo de violão Edmundo Carôso: Voz, entrada na hora errada e bobagens faladas
Gravado em Burro Preto. Pequeno toca-fitas mono CCE de Edmundo que registrou muitas criações no Barbosa Romeu
Todo mundo devia conhecer a poesia de Magal e a música de Rá. São duas coisas que não dá pra explicar. Aqui exponho uma parceria dos dois. Pena que não posso mostrar a melodia de Rá pra tão belo poema. (Ah, Ah! Agora eu posso) Confira o áudio de "Flor Cristalina" no link abaixo na voz de Rá Nascimento
Flor cristalina Chuva fina na calçada Mitigando os teus olhos Cristalinos de luar
Pelo destino Pelas ruas do caminho Como o destino do rio Que se entrega todo ao mar
Serei o fio De cabelo esquecido O decote em seu vestido Debruçada na janela
E os olhos dela Aquarela dos meus sonhos Meu coração em pedaços Nunca esquece o teu olhar
Me dá um beijo Que eu te dou o meu abraço Me dá carinho Que eu te dou meu coração
Linda menina Abre a porta e a janela Deixa o sol da primavera Florescer teu coração
A flor cristalina A flor dessa menina....
Poema de Jorge Magalhães sobre melodia de Rá Nascimento.
Quando os alemães bombardearam Guernica Não sabiam que Picasso estava à espreita Quando Lorca foi embora Com a Espanha franquista Não sabia que afinal tudo crepita Na ponta da caneta...
Quando os homens tolos acamparam na ilha Já traziam seus estragos na bandeja Quando a barca foi embora E a perderam de vista Não sabiam que no mais tudo se explica Na ponta da caneta...
Na ponta da caneta Por onde sai a tinta Por onde o ego grita a sua queixa Na ponta da caneta
Na ponta da caneta Por onde alguém se explica Por onde alguém desdenha a sua gueixa Na ponta da caneta....
Poema de Edmundo Carôso musicado por Luciano Carôso
Esta gravação é caseira e experimental. Feita quando a letra ainda não estava 100% definida. Vale o que está escrito acima.
FICHA TÉCNICA Luciano Carôso: Violão Graça Reis: Voz
A segunda vez foi muito mais gostosa. Não desprezando a primeira, mas a segunda é que foi a vez. Foi com Madalena, vamos chamá-la assim, que é um nome bonito da mesma forma que ela. Era uma noite chuvosa na capital da Bahia, nunca vou esquecer. Eu tinha quinze anos e ela quarenta e cinco. Acho que fez uma caridade, mas foi fundamental pra formar o homem que sou.
Não posso esquecer que meu irmão Edmundo, achando que eu era donzelo, foi quem maquinou tudo. Tava em casa, na casa da minha madrinha onde morava na época, quando ele me ligou. – Páre tudo que você tá fazendo e venha pra cá agora. É esse o jeito dele. Ainda bem que obedeci prontamente, Me deu o endereço e, como era tão perto, fui andando mesmo. Ainda não tinha começado a chover. Muita água ía rolar naquela noite.
Quando cheguei ao apartamento de Madalena, uma médica madura e linda, deu vontade de sair correndo. Muito medo e pavor. Eu já imaginava o que Edmundo queria. Ele queria me mostrar a beleza de uma mulher. E eu estava doido pra conhecer. Mas ainda morria de medo.
Na casa, além de Madalena, tinham mais duas mulheres e um cachorro. Marina, Mastrange e Sigmund. Mastrange e Sigmund íam viajar para São Paulo e Edmundo estava apaixonado por Marina. Isso era muito fácil. Só olhar para aquelas coxas torneadas, morenas e com cabelos louros, dava pra se apaixonar. Foi aí que Edmundo falou em segredo: - Você vai levar Mastrange com Madalena pro aeroporto enquanto eu "brigo com Marina porque ela se pintou" e quando voltar verás que "o mar é uma gota". Só que foram muitas gotas de chuva até o Dois de Julho, como antigamente se chamava nosso aeroporto.
Foi nesse dia que eu descobri que existe uma casa, se é que se pode chamar assim, pra mim aquilo é uma prisão, para embarcar os animais no avião. Mastrange e Sig seguiram seu rumo e eu pela primeira vez dirigi em Salvador. A maluca da Madalena me deu o carro pra levar na volta. O pior é que o limpador de pára-brisas, que não limpa nada por sinal, não estava funcionando. Mas a chuva funcionava e muito bem e eu não via nada além das pernas deliciosas de Madalena.
Quando chegamos em casa, Marina dormia no sofá e Edmundo estava com cara de felicidade. Madalena entrou para o quarto e ele disse: -Aguarda que volto já. Entrou também e fechou a porta. Aí eu pensei: - Que filho da puta! Me deixou aqui na mão e vai ficar com ela! Voltou dez minutos depois dizendo: - Entre, ela está nua, agora é com você. Nunca vou lhe perdoar por me despir do prazer de tirar a calcinha de Madalena! O resto foi bom demais!
Eu adoro os finais de semana. Primeiro porque tem a folga semanal do meu estressante trabalho, envolto em números, cifras, clips e papéis, e, principalmente, porque neles, posso exercer a minha mais fervorosa paixão: cozinhar. Quase sempre assumo o fogão nos sábados e domingos e isso me dá um prazer inenarrável. Convidar os amigos, inventar novas receitas e confraternizar, é realmente muito bom. Renova minhas energias e me deixa pronto pra mais uma segunda, outro dia que adoro, ao contrário da maioria das pessoas.
Amanhã é sábado e já me encontro pensando em qual cardápio irei trabalhar. Talvez uma massa, uma moqueca, um prato exótico, ainda não sei. Só sei que amanhã vou acordar cedo para ir à feira, local onde normalmente decido o prato principal, enquanto seleciono os melhores ingredientes. Costumo falar que o prazer de cozinhar começa na feira e termina na pia após lavar os pratos, outra coisa que gosto muito de fazer. Acredite quem quiser. Quem me conhece sabe que não estou mentindo.
Neste último natal, passei com a família na casa da minha irmã em Teofilândia, interior da Bahia. Família grande por natureza consideravelmente aumentada pelo grande número de agregados que passaram a noite conosco. Assumi o já tradicional peru, que preparei à base de ervas aromáticas, vinho branco e suco de laranja e um bacalhau denominado Bacalhau à Monosa. Uma receita própria, nascida a partir de uma conversa que tive com o querido amigo Adolfo, colega do curso de cozinheiro que fiz no Senac, na Casa do Comércio aqui em Salvador. Terça à noite, com meu sobrinho João Paulo, o mais novo de Sílvia minha irmã, outro que está se apaixonando pela arte de cozinhar, fizemos um rodízio de pizzas que que deixou com remorsos aqueles que vinham prometendo dieta para 2008. Foram dez pizzas ao todo, dos mais variados sabores.
João Paulo. Seguindo os caminhos do tio.
Com meu cunhado Moisés e as pizzas do rodízio
No ano novo, fui para Itapema, uma paradisíaca praia próxima à Santo Amaro da Purificação, onde preparei uma imensa moqueca de camarão com direito a catado de aratu na entrada. Segundo diria Moreira, outro apaixonado pelo fogão, nem cachorro come. Como é que come se não sobra?
Sou daqueles que gosta do próprio tempero e embora tenha crescido ouvindo Mame Blue falar que elogio de boca própria é vitupério, não me canso de gabar o meu próprio pirão. Sem nenhuma modéstia, gosto muito do que faço.
Por causa dessa paixão, que começou cedo e por necessidade, hoje tenho este blog. Houve uma época que eu achava que blog era coisa de desocupado e nunca tive a intenção de ter um. No entanto, meu irmão Luciano e sua esposa Valéria, me convidaram para postar umas receitas no blog dos dois, o Cozinhar Faz Bem. Lá comecei a estrapolar a receita simples e pura e escrevi alguns textos sobre o assunto. Foi a conta. Tomei gosto pela coisa e hoje estou aqui interagindo neste mundo maravilhoso, que tanto tem me ensinado e me conquistou de cheio. Hoje meu blog é minha nova paixão. Eepero que o fogão não fique com ciúmes. No meu coração tem lugar e carinho para os dois. Bom final de semana a todos e, é claro, bom apetite!
Nada me traz tanta riqueza como os amigos que tenho, Nada me traz tanta incerteza como as coisas que sei, Nada me traz tanta tristeza como os sorrisos que não dou, Nada me traz tanta leveza como o peso do seu amor!
Há tempos que tô querendo Escrever um bilhete pra Sandra Pra saber onde é que anda A nossa tenra paixão
Os momentos de loucura Que vivemos na Bahia Mas que foram embora um dia Nas asas de um avião
Nenhuma linha ou palavra Nem poesia garbosa Nenhuma carta ou bilhete E eis que agora o deleite Nos versos de Nélio Rosa
Este pequeno poema acima, imaturo e com o estilo cordelista que tanto me persegue, foi escrito de supetão, movido pelo desapontamento que senti ao ler o poema homônimo de Nélio Rosa, integrante do livro "O Terno do Meu Avô e Outros Pertences". Nélio, poeta baiano de Feira de Santana, com fortes raízes santamarenses, amigo-irmão e parceiro do meu amigo-irmão e parceiro Márcio Valverde, é um mestre nas palavras. Seu livro é belo desde à casca ao conteúdo, e deveria ser apreciado por todos os amantes da poesia, mas como infelizmente estamos no Brasil e mais propriamente na Bahia, onde a leitura é privilégio de poucos e publicar um livro de poemas é privilégio de loucos, Nélio fez o seu livro sem contar com editora, com um patrocínio sequer, e não tem condições de efetuar sua distribuição e divulgação para fazê-lo chegar às livrarias e ao público específico que facilmente o consumiria. Uma pena. Eu tive a sorte de, sendo amigo de Márcio que fez a produção do cd que acompanha o livro e musicou alguns poemas para o disco, receber de presente um estojo contendo o livro e um cd. Estou extasiado com a poesia de Nélio. Quando li "Bilhete Pra Sandra", logo me vieram à tona os versos acima. Por um motivo específico, que aqui não cabe falar, sempre quis escrever um bilhete pra ela. Agora transcrevo aqui os versos do poeta Nélio. Sou realmente corajoso de expor os meus, diante de tanta beleza. Bilhete Pra Sandra Nélio Rosa
O poeta Gilberto pôs naquela canção que'cê tem o condão pra estar longe e perto
Ele tinha razão (esse poeta Gil?!), mas o que ele não viu é o que vejo então:
é muito além do alto da montanha e do salto que eu agora procuro,
haverá do outro lado (sempre dissimulado) algum porto seguro?
Esta sua presença, Este seu ar de dona de mim, Esta cama chamando o amor Este não e este sim. E este corpo querendo queimar Pra que eu possa sentir seu calor E viver em seu corpo Um imenso prazer E ficar em você esta noite...
Esta sua distância Que me deixa aqui sem ação E estas linhas falando de amor Nesta minha canção Que um dia eu fiz pra você Pra tentar penetrar sem pudor No seu interior e no seu coração Com as cordas do meu violão...
E você quem é? É só uma mulher A impor os meus trilhos.... Me pondo pra longe de ti sem saber
Vou voltar outro dia Sem seguir o seu guia Ou quem sabe amanhã.....
Poema escrito em 1984, quando eu tinha 15 anos, sobre melodia de Márcio Valverde e Luciano Carôso.
Mais um ano vai embora. Novo ano se aproxima. Vale pensar nos erros do passado, procurar não repeti-los, pra que venha um futuro melhor. Uma nova vida nos espera. Vamos encará-la com dignidade e respeito.
Sempre procuro fazer o já manjado balanço de final de ano e programar os objetivos pro ano seguinte. É claro que nem tudo dá certo, mas é preciso estabelecer metas e procurar cumpri-las. O homem que não tem objetivos passa pela vida sem vivê-la, apenas passa. As metas são o combustível do nosso progresso e, como nada cai do céu além de chuva, raio e avião, precisamos fazer a nossa parte.
Muitas coisas boas aconteceram em 2007 para mim. A melhor delas foi minha filha ter vindo morar comigo, pena que agora ela está prestes a ir para Belém do Pará morar com a mãe e já estou chorando de saudades. Depois disso, sem dúvida, voltar a escrever foi tudo de bom. Fazer este blog tem sido um imenso prazer, uma terapia. Conhecer este universo e interagir com ele foi e está sendo muito gratificante. Sem contar os talentos que descobri por aqui e olha que não foram poucos.
Pensando em entrar o novo ano de cara nova, mudei também a cara do blog.
Por isso quero agradecer o carinho de todos, os comentários, as contribuições e tudo de bom que vocês têm me dado. Espero corresponder a tanto e cada vez mais ter a presença de vocês.
Desejo de coração um feliz 2008, com muita paz, muita saúde, muito sucesso e realizações. Não sou muito bom para mensagens, nada original, mas o sentimento é verdadeiro e sincero. Quero deixar externado aqui o meu muito obrigado a todos, muitos beijos e um FELIZ ANO NOVO!
Ler blogs está se tornando um vício. Fico impressionado com a quantidade de pessoas anônimas com um puta talento escrevendo nesta rede coisas que nos deixam sem ar, como disse Gabriele Fidalgo. Nesta viagem, tenho descoberto pérolas de imensa beleza e inestimável valor. Diversos estilos e propostas vão me apaixonando e enriquecendo. A medida que me encanto com cada um deles, coloco seu link aqui. Sei que minha turma de leitores é muito pequena, mas não posso deixar de dar a eles a oportunidade de conhecer estas maravilhas. Hoje, viajando pelo Anjobaldio, vi um vídeopoema de Samantha Abreu, uma paranaense de tirar o fôlego pelo talento e sensualidade. Não resisti à tentação de colocá-lo aqui também. Não pedi permissão a ela, espero que não se importe, mas quero brindar quem me lê, com este vinho de safra sem igual que é o poema "As Sombras".
Agora, vou viajar para o feriadão de fim de ano, onde não terei acesso à rede e fico me perguntando como será a síndrome de abstinência. Por segurança, levarei uns livros para qualquer eventualidade.
A partir de um comentário da talentosíssima Gabriele Fidalgo, percebi que as pessoas podem pensar que os poemas "Boas Festas" e "Natal da Filha da Marofona", publicados imediatamente anteriores à essa postagem, são meus o que é um equívoco. Na verdade, eles fazem parte do marcador"Poemas de Zé Ribeiro", meu falecido avô paterno. Falo dele no texto intitulado "Zé Ribeiro - É por isso que Tote não presta!"
É importante deixar claro a autoria de tais versos. Temos que dar o devido crédito ao criador. Gabriele, mais uma vez muito obrigado pelo carinho. Um grande abraço!
Sendo mais que perfeito no julgar Na cristandade do seu trono augusto Nunca deixou ninguém a separar Todos têm para o mestre O mesmo custo
Eu também sou cristão, Mas de falar o que é vero, é real, Não tenho susto Pois há separação, irei mostrar Que o Cristo desta vez Vem sendo injusto
O preço dos pirões que era de cá Há muito se fazendo de santinho Subiu, chegou no céu e ficou lá
Será reza meu Deus dos tubarões? E o que faz dando apreço a tal precinho, Quem do templo tangeu os vendilhões, Que não tange do céu esse mocinho?
Corrija essa injustiça, um Deus não erra Enxote Jesus Cristo o malandreco Metendo-lhe o chicote no fucinho E mande que ele desça para Terra Não deixe este malandro aí no céu
Boas Festas, estou a recebê-las Grafadas nos cartões só para ler Boas Festas Jesus, Como hei de tê-las, Enquanto este pilantra não descer?
Feliz Natal amigos. Que 2008 venha cheio de boas novidades para todos nós!
"Quando entrar Setembro, E a boa nova andar nos campos... ...A lição sabemos de cor, Só nos resta aprender." Sol de Primavera(Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Era Setembro As primeiras pétalas surgiam Traziam cor para os campos Beleza para os olhos Mel para os lábios
Era Setembro Nasciam várias centelhas Cantos ferozes bramiam Como se longe buscassem Ternura nos seus afagos
Era Setembro Tinha luz nos meus olhos Rima nas minhas palavras
Rima nas palavras dela Doce no mar de Abrolhos O gosto bem me lembro
Era Setembro E os campos que ora floriam Enchiam a vida de cor
Era Setembro As rosas que ora nasciam Enchiam o campo de amor
Acabado o sexo ela vestiu sua roupa e se perguntou o que estaria fazendo ali. Não era por amor, nem por dinheiro. Sentira pena daquele rapaz. Quando ele a abordou, ela deu o preço: R$ 100,00. Ele oferece R$ 20,00. É só o que tenho. Não quero sexo, quero uma companhia, alguém pra conversar. Estou trabalhando, por R$ 20,00 nem um boquete dá pra fazer. Mas eu preciso, me ouve um minuto, eu te imploro. As lágrimas molharam seu bonito rosto. Não sabe porque, mas sentiu uma imensa vontade de fazer algo por ele e entrou no carro. É por pouco tempo. Quase não ganhei nada esta noite. O rapaz ligou a máquina e andou em silêncio por alguns minutos nas avenidas da cidade grande. Talvez dez, vinte minutos, ela não olhou o relógio.
Estacionou numa rua erma, escura. Ela sentiu medo, preferiu não falar nada. Quando começou a falar, foi compulsivo. Falou excessivamente, mas não fez uma queixa sequer. Não falou mal da vida, não se queixou do trabalho, da família, da saúde, apenas falou. Perguntou o estilo de música que ela gostava. Tim Maia. Colocou “Azul da Cor do Mar”. “Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar, dizer que aprendi...”. Sabe, quando eu era criança e ouvia esta música, ficava me imaginando recebendo minha professora Adélia no altar. Ela era bonita, cativante. Sonhava muito casar com ela. Fantasias de alunos com professores são comuns. Você já teve alguma? Sim, tinha um professor do ginásio que eu era apaixonada. Alex. Não era bonito, mas me atraía bastante. Coisa de adolescente...
Passaram-se horas. Agora o rapaz não mais parecia sofrido nem triste. Tinha paz no seu semblante. Ela sentia-se bem, sentia-se leve. Gostava daquele papo, esqueceu da calçada e do dinheiro que estava perdendo ou deixando de ganhar. Fazia muito que não era tratada como um ser humano comum, uma pessoa que tem defeitos e qualidades, uma mulher. Ele a convidou para um lanche. Como pode pagar se só tem os R$ 20,00 que vai me dar? Pensou, mas ficou para si. Aceitou o convite. Foram a uma lanchonete 24hs. Ele ofereceu o cardápio e disse que ela escolhesse à vontade. Intrigada, ela se preocupou em pedir algo bem barato, que os R$20,00 dessem pra cobrir. Um hambúrguer por favor. Dois. Ele complementou. Você tem filhos? Tenho um garoto de quatro anos, por isso estou nessa....Sua mão tocou suavemente o seu braço e disse: não precisa falar nada. Não quero saber o porque você faz o que faz. Se faz com dignidade é o que importa. Você me parece digna. Procuro ser. Como ele se chama? Marcelo. Bonito nome.
A conversa se estendeu por longos minutos e já quase amanhecia quando ela, por única e espontânea vontade, o beijou. Sem trocar mais palavras, os olhares falaram por elas, foram para um motel e se amaram como um casal de apaixonados que transa pela primeira vez. Ele acende um cigarro. Ela abre uma Ice. Ela pergunta. Você é casado? Sou. Não se atreveu perguntar porque o rapaz encontrava-se ali. Apenas sussurrou baixinho, bem.... Mais uma vez ele a beijou. Fizeram amor novamente e o relógio era a última coisa que importava. Acabado o sexo ela vestiu sua roupa e se perguntou o que estaria fazendo ali. Não era por amor, nem por dinheiro. Sentira pena daquele rapaz. Agora sentia admiração e respeito. Levantou, vestiu a roupa. Preciso ir. É a minha hora. Ele se vestiu, pagou a conta e perguntou: posso levá-la em casa? Sim. Na saída ele disse: obrigado pela noite, você foi maravilhosa. Sacou a carteira e pegou uma nota de R$ 100,00. Guarde o seu dinheiro. Não quebre esse encanto. Preciso desta noite na memória por toda a minha vida. E o silêncio reinou até a casa da garota.
Você esqueceu da água
Da fonte que lhe nutriu
Pongada na minha aba
Seguiu o curso do rio
Deu um corte de navalha
Em quem nunca mereceu
Meu pranto agora desaba
É mais forte do que eu
Você me deixou de lado
Remando contra maré
Cometeu ingratidão
Desdenhou da minha fé
Zombou da minha canção
Isso é triste não se faz
Vá cumprir o seu destino
Atracando em outro cais
Agora eu vou viver
Sem me desesperar
Vá montar sua morada
Longe do meu coração
Sofrer a troco de nada
Isso é muita ingratidão.
O melhor o tempo esconde Longe, muito longe Mas bem dentro aqui
Quando o bonde dava a volta ali
No cais de Araújo Pinho Tamarindeirinho
Nunca me esqueci Onde o imperador fez xixi
Caba doce Santo Amaro, Gosto muito raro Trago em mim por ti E uma estrela sempre a luzir
Bonde da Trilhos Urbanos Vão passando os anos E eu não te perdi Meu trabalho é te traduzir
Rua da Matriz ao Conde No trole ou no bonde Tudo é bom de ver São Popó do Maculelê
Mas aquela curva aberta, Aquela coisa certa Não dá pra entender O Apolo e o Rio Subaé
Pena de Pavão de Krishna Maravilha vixe Maria mãe de Deus Será que esses olhos são meus?
Cinema transcendental Trilhos urbanos, Gal Cantando o Balancê Como eu sei lembrar de você.
Santo Amaro da Purificação é uma cidade iluminada. Terra de artistas e poetas, tão bem cantada nos versos de um dos seus mais ilustres filhos, Caetano Veloso, como se vê na letra de “Trilhos Urbanos” acima. Santo Amaro tem uma importância fundamental na minha formação como pessoa. Sou o homem que sou porque tive o privilégio de passar parte da minha infância lá. Caso contrário, seria muito pior. Lá também nasceram os primeiros rabiscos e versos que criei. Lá conheci Márcio Valverde, amigo, irmão e parceiro. Santamarense nato e apaixonado, Márcio foi um dos responsáveis diretos para que eu voltasse a compor e a ter coragem de expor novamente os meus versos. Um dia ele me ligou após ter lido o texto que escrevi sobre a cidade e sobre ele logo no início deste blog. Reclamou que o chamei de ingrato e me convidou a voltar a compor com ele. No início não dei muita importância, não estava tencionando voltar a fazer música, mas o destino nos reserva caminhos e às vezes não temos como lutar contra eles.
Quando voltei de Belo Horizonte, encantado com a cidade e inspirado pelos fluidos do Clube da Esquina, uns versos vieram me perseguindo. Começou no caminho para o aeroporto. Sem lembrar que lá estava em horário de verão e o meu celular no horário de Salvador, coloquei o aparelho pra despertar a tempo de me preparar para vencer os quase 50km que separam o centro da cidade até COFINS. Acordei com calma e fui me arrumando para descer, fechar a conta do hotel, tomar o café da manhã e seguir viagem de volta. No meio do banho me dei conta do equívoco e que estava uma hora atrasado. Sem o desjejum, peguei um táxi correndo e pedi ao motorista que adiantasse para que eu não perdesse o vôo. Enquanto o carro seguia em disparada pelas ruas da cidade, eu, morrendo de medo, burilava na cabeça os versos de Natasha & Letícia que já publiquei aqui. Cheguei ao aeroporto com o poema pronto, mas, como estava em cima da hora, não tive tempo de registrar em papel antes de entrar no avião. Pedi ao comissário que me conseguisse caneta e papel e ele ficou de levar assim que tudo estivesse em ordem para decolagem. Acontece que dormi antes e cheguei ao Rio de Janeiro, onde fiz uma conexão, sem registrar o poema. No Galeão comprei um caderno e uma caneta. A princípio temi não recordar os versos compostos em meio ao pânico do táxi em alta velocidade, mas enquanto aguardava o almoço consegui enfim passar pro papel as insistentes palavras. Quando cheguei a Salvador, me dei conta que tinha esquecido o caderno no carrinho de bagagens no aeroporto do Rio. Mas, o poema me perseguiu e lembrei dele inteirinho em casa onde definitivamente fiz o seu registro em arquivo ponto doc. Aí tive a idéia de mandar um e-mail pra Márcio com o poema. No dia seguinte ele me respondeu que tinha gostado e que aguardasse, pois iria por a letra na caixa do seu violão. Meu irmão Luciano que conhece o cara como ninguém me disse logo: - Se ele guardou na caixa da viola é porque gostou e vai rolar. Não deu outra. Dois dias depois me liga Márcio às onze horas da noite e canta a música pra mim. Foi uma emoção muito legal. Natasha & Letícia virou "Horizonte Belo", a primeira das muitas músicas que pretendo fazer. Com umas pequenas alterações e a exclusão da última estrofe, a canção ficou pronta.
Pois bem, sexta passada, 14/12/07, viajei a Santo Amaro a fim de passar o final de semana com Márcio e sua família, a esposa Lívia e os filhos Flor e Gabriel. Levei comigo minha princesinha Júlia e muita saudade daquela terra. Uma terra de amores, uma terra onde enquanto de um lado da praça rola uma roda de violão com boêmios apaixonados, no outro lado acontece uma briga de gangues de rua sem que um interfira no barato do outro. Isto é Santo Amaro, uma cidade bipolar. A cidade pulsa cultura e exala poesia por todos os poros.
Sexta foi o dia do reencontro. Saímos à noite para Praça da Purificação onde jogamos conversa fora, ou dentro, no lendário Chapéu de Palha enquanto as crianças brincavam no jardim. O Chapéu é o bar mais antigo da cidade. Muitos estabelecimentos já abriram e fecharam suas portas, já foram moda e decadência e o Chapéu continua intacto, encravado no meio da principal praça da cidade. Desde 1967 ele é palco de paixões, canções, poemas, brigas, beijos, amores, violões, vidas e mortes. Um patrimônio do lugar.
Sábado pela manhã Márcio me convidou para comer uma feijoada na feira. Enquanto esperávamos o prato o maluco falou: -temos que escrever algo sobre a ingratidão. “Você esqueceu da água, da fonte que lhe nutriu”. Eu prontamente respondi: -“pongada na minha aba, seguiu o curso do rio...” E assim nasceu "Ingratidão". Letra e melodia(feita de boca) na mesa da barraca de feira, regada a feijoada e coca cola. Em casa no violão, acertamos os detalhes e fechamos a canção. Era hora de ir para a Pedra, visitar os amigos Humberto e Edna e o maravilhoso estabelecimento que eles tem por lá, o Solar da Pedra. Levamos a criançada e passamos o dia na piscina degustando umas geladas e a saborosa companhia dos anfitriões e da sua filha Ana Geórgia. Nada como a presença de amigos tão queridos para aflorar a sensibilidade e aumentar a inspiração.
À noite, após a cerimônia de formatura de alfabetização da impagável Flor, uma artista de 06 anos de idade, eu e Márcio voltamos sozinhos pro Chapéu. Lá falamos das nossas vidas, das nossas artes, dos nossos amores e desencontros. Lá também escrevemos "Pranto". Um poema a quatro mãos que aguarda uma melodia para virar música. Foi aí que chegou um grupo de pessoas de fora com um violão na mão. Nem precisava contar, afinal estávamos em Santo Amaro, mas o bar inteiro virou um único grupo abençoado pelas canções que Robson, Paschoal(estes do grupo de visitantes) e Márcio Valverde tocaram até quase quatro horas da manhã. Uma maravilha.
Hoje, ou melhor ontem pois já passa da meia-noite, fomos à praia de Itapema, passar o dia com os sogros de Márcio, Seo Raimundo e D. Naná. Mais cervejas, mais feijoadas, mais canções e amizades. Santo Amaro, me aguarde!
Com Márcio Valverde no lendário Chapéu de Palha
Na foto acima o famoso Solar de Biju onde hoje funciona o Campus da Universidade estadual numa das esquinas da Praça da Purificação em Santo Amaro-Ba.
Ao contrário do que todos dizem acho que segunda-feira é o melhor dia da semana. É a real possibilidade de grandes reviravoltas. A segunda é o melhor dia pra você refletir e mudar sua vida. Pra melhor é claro. Só não vá acordar de ressaca. Boa semana para todos!
Hoje passei a tarde na casa de Vieira. Foi muito especial. Não falo pelo cardápio maravilhoso preparado por sua esposa, um risoto de camarão sem igual, que inveja! Isto foi tudo de bom. Mas, o prazer de partilhar de tanta cultura, de tanta sensibilidade musical e tanta candura, é outra história.
Conheci Vieira há pouco tempo. Ele é o tipo do cara que, pra pessoas como eu, despreparadas e preconceituosas, você não gosta a primeira vista e depois tem que engolir suas primeiras impressões. Quando o vi pela primeira vez, de terno, compenetrado, com cara de certinho, nem sonhei que ali dentro se escondia um intelectual, uma pessoa com a sensibilidade à flor da pele e um violonista de marca maior. Vieira é tão retado que me fez ouvir hoje, pela primeira vez, uma música de Chico Buarque, “Mambembe”. O mais importante: tocada por ele. Eu que achava conhecer todo o trabalho de Chico. Ledo engano! Depois, pra acabar de me matar, ele botou o cd com o próprio Chico cantando.
E não foi só isso. Veio Gil, Caetano, João Bosco, Djavan, Vinícius, Maria Bethânia, Tom, e que tom especial, o DVD do Free Jazz Festival, Tributo à Antonio Carlos Jobim, além de outras pérolas da MPB. Passaram-se quatro horas e pareceram quatro minutos...
E, pensar que tudo isto veio de um convite que o fiz e não cumpri. Ainda bem que não sou confiável.
Passar a tarde com ele e Armênia, Paulo e Lai, outros seres muito especiais, é ganhar uma nova vida, um novo gás e saber que você não está sozinho. Que na estrada infinda da solidão, a companhia é o mais precioso tesouro. Valeu Vieira! Que venham chicadas, boscadas, tonzadas, caetanadas, adrianadas e vieiradas. Essas são as melhores!
Quando Evandro acordou, a visão que teve foi assustadora. Seu corpo desacordado no chão de uma biblioteca intacta. Seus livros valiosos jaziam na estante, criteriosamente arrumados como sempre. Estaria tendo uma alucinação. Há poucos instantes as prateleiras estavam vazias. Como isto poderia acontecer? Lembrou da sala e correu para verificar. Ficou surpreso ao perceber que não andava e sim flutuava lentamente. Um forte terror invadiu sua mente e ele teve por um momento nova ânsia de desmaio. Na sala, tudo no seu devido lugar. O fio do telefone conectado, o aparelho na devida posição. O que estaria acontecendo? Voltou à biblioteca e ficou longos minutos contemplando o seu corpo no chão sem entender o que estava acontecendo.
Foi aí que lembrou do acidente. Mais uma vez o remorso o corroeu. Rapidamente saiu flutuando até local e mais surpreso ainda ficou ao ver o mendigo são e salvo, sentado na calçada comendo um pão velho provavelmente dado por algum transeunte. De repente o inesperado. O mendigo levanta-se, visivelmente bêbado e atravessa a rua rapidamente. Um carro, em alta velocidade o atropela jogando-lhe a alguns metros de distância. O mendigo agonizava e sangrava muito. O carro parou e seu motorista desceu. Como podia? Era ele. Assustado olhou em volta como se procurasse testemunhas àquela hora da madrugada. Após alguns segundos de dúvida, pegou o mendigo colocou no banco de trás e o levou a unidade de emergência mais próxima.
Lá chegando imaginou como a vida era injusta, como o mundo era cruel. Como podia alguém ser tratado num local como aquele? O que estava sendo feito com os milhões que o governo arrecadava com a previdência? Bem, ele não ia consertar o mundo. Estava mesmo preocupado em saber o estado do pedinte. Foi aí que veio o médico e deu a notícia. O mendigo não resistira aos ferimentos e acabara de vir a óbito. Evandro empalideceu. Uma dor aguda começou a tomar-lhe o braço esquerdo projetando-se levemente para o peito. De repente a dor ficou insuportável, como se alguém batesse em seu peito com muita força. Perdeu os sentidos e desmaiou. Imediatamente o médico acionou os enfermeiros e o removeram para uma unidade de tratamento intensivo. Muitos aparelhos foram ligados. Deram vários choques em seu peito, uma agitação insana tomou conta da sala. o aparelho que monitorava seus batimentos mudou o gráfico na tela e o ritmo dos sinais. Não entendia nada, mas devia ser uma coisa boa a tirar pela mudança positiva dos semblantes da equipe. O médico então retirou a máscara e falou sorrindo: - Ainda não foi desta vez meu amigo! Só então Evandro entendeu que estava morto.
Continuando as discussões sobre a Fonte Nova e lembrando das declarações do nosso ilustre governador, o Excelentíssimo Sr Jaques Wagner, após a fatídica tragédia, gostaria que os leitores escutassem sua entrevista no site de Claudio Humbertoconcedida antes da viagem à Suíssa junto com o Presidente Lula, custeada com o nosso dinheiro é claro. Cada um que faça suas comparações e tire suas próprias conclusões. Ouça aqui
A hora que Nonato perdeu o penalty. Ninguém podia imaginar o que estava para acontecer mais tarde!
Não quero ser o chato batendo na mesma tecla, mas agora que os ventos do esquecimento começam a soprar sobre a tragédia da Fonte Nova, acho que, até em respeito às vítimas e à dor dos seus amigos e familiares, precisamos continuar as discussões, pressionar os órgãos competentes e exigir a punição dos responsáveis.
Naquela tarde fatídica de 25 de novembro de 2007, eu estava lá. No intuito de me divertir, de comemorar a subida do Bahia para a 2ª divisão, junto com os amigos, Duda, Marcão, Ruy Bala, Marcelo, Erenilson, Saracura e tantos outros companheiros de Fonte. Estávamos a poucos metros do local que desabou e não vimos absolutamente nada. Aliás, isto foi uma coisa intrigante, parece que a mão de Deus intercedeu para que a tragédia não tivesse proporções muito maiores. Na hora do acontecido, faltavam dez minutos para o fim da partida, muitos já comemoravam, outros como eu estavam apreensivos com medo do Bahia levar um gol e deixar pra resolver na última partida(que bom que isto não aconteceu, teríamos amargado mais um ano de terceirona), a verdade é que, de um jeito ou de outro, todos estavam tão ligados no campo, que muito poucos perceberam o desabamento. Vocês já imaginaram o pânico absurdo que poderia se instalar se o estádio todo tivesse visto que parte da arquibancada desabou? Como os mais de sessenta mil torcedores que lotavam a Fonte Nova se comportariam numa situação dessas? Sem dúvida pânico geral.
A verdade é que apenas um pequeno grupo que estava ao redor do local percebeu o desabamento e o pânico foi rapidamente e eficientemente controlado pela polícia. Nós mesmos ficamos mais de vinte minutos sentados onde assistimos ao jogo esperando a confusão da saída diminuir, só tivemos conhecimento da tragédia quando, ao irmos embora, tentamos passar pelo local desabado que estava interditado e os policiais nos puseram a par do acidente e solicitaram que desviássemos nossa rota de saída. Soubemos ali apenas que havia mortes, mas não tínhamos idéia das proporções do desastre.
Havia vários trios elétricos nas proximidades do estádio esperando para animar o carnaval da comemoração, mas a imprensa de forma coerente e acertada apelou para que eles não ligassem o som. Não havia mais o que comemorar e sim o que lamentar. Foi aí, ouvindo o rádio no carro de volta para casa, que tive maiores informações e percebi o tamanho da merda que havia acontecido. Comecei a temer por muitos amigos que costumavam ficar bem ali onde a arquibancada foi abaixo. Ao chegar em casa, comecei a ligar para as pessoas mais próximas me certificando que estavam bem e também a receber vários telefonemas de amigos e parentes preocupados comigo. Uma dessas ligações foi muito especial para mim. Era Júlia, minha filha. Ela estava com um casal de amigos na Ilha de Itaparica quando ouviu alguém comentar a tragédia e imediatamente ligou para o pai procurando saber se estava bem. Aí a ficha caiu e vi que qualquer um, inclusive eu, poderia ter despencado junto com a arquibancada naquele momento. Agradeci a Deus por demais. Nasci novamente.
Hoje, menos de uma semana depois, após o anúncio da futura implosão da Fonte Nova e da construção de um novo estádio, já quase não se ouve falar no acidente e na possível punição dos responsáveis. Estão criando uma nova polêmica com base nos prós e contras de tal implosão, sobre a importância do novo estádio para Salvador e a possibilidade de ser sede de jogos da copa de 2014, e abafando a verdadeira causa da discussão: a morte de sete seres humanos que, como nós, queriam apenas vibrar com o seu time e foram estupidamente assassinados pela irresponsabilidade, incompetência e ganância de uns poucos. Foram sete, mas poderiam ter sido milhares. Não podemos nos calar, temos de exigir a punição dos responsáveis e novas posturas dos políticos, dirigentes esportivos, da própria imprensa que nunca antes exigiu a interdição da Fonte Nova e hoje fica bradando que já sabia, para evitar que outras tragédias como estas aconteçam por aí afora. Quando é que teremos mais dignidade neste país?
Pena que tenha sido deste jeito, mas tem que valer como exemplo e aviso que precisamos mudar nossa postura cômoda, apática e covarde se quisermos ter mais respeito e consideração por parte daqueles que detém o poder. Queremos os responsáveis na cadeia, pagando pela morte dos sete inocentes que saíram de suas casa para uma festa e nunca mais retornarão aos seus lares, para o aconchego dos seus familiares.
Estão esperando os laudos da perícia técnica como se isto fosse preciso para saber que ali existiu uma reunião de incompetência, descaso e irresponsabilidade. Quem não sabe que a Fonte Nova, estádio com quase cinqüenta anos, o anel superior, justamente o que desabou, com exatos trinta e seis anos, estava carente de manutenção? Quem não via aquelas infiltrações e as ferragens das estruturas já aparentes e completamente oxidadas? Os banheiros imundos, sem água e sem nenhuma condição de serem usados por um ser humano normal? É muito descaso com um local que tanta renda gerou para o estado e que, por longos anos foi a segunda casa para muitos torcedores baianos. Leiam o depoimento que Roberta, uma amiga minha, torcedora fanática do Bahia me mandou pelo orkut: “As lágrimas insistem em cair pela tragédia e agora se misturam com o dissabor de saber que a minha 2ª casa, aquela que “me viu” sorrir, chorar, gritar, vibrar, desmaiar, brigar, invadir, desesperar, proteger, ser protegida... Palco de diversas fotos, de diversos amigos, de mais uma família núcle, a BAMOR, e mais outros familiares aderentes, TERROR, POVÃO, GARRA... Enfim, a tristeza de saber que não tem mais jeito, que domingo (25.11.07) foi meu último jogo ali na FONTE NOVA, na minha 2ª casa que faz parte da minha vida. Choro mesmo, sem vergonha, é como se arrancassem um pedaço de mim, da minha vida, desculpem mais um desabafo. Todos os momentos ficarão pra sempre na memória, todos sem exceção. Vamos Bahia, Vamos ser campeão e essa estrela será dedicada às VÍTIMAS, a CLEBER, e agora a FONTE NOVA.” Comovente e revoltante.
Por isso meus amigos não vamos deixar que este trágico acidente caia no esquecimento. Vamos cobrar dos responsáveis para que eles paguem por seus atos criminosos. Não vamos deixar que fatos como estes se repitam. Por nós e pela memória dos sete companheiros que se foram nesta tragédia!
Após o final do jogo, a torcida do Bahia faz feio, invade o campo e depedra o estádio. Reparem que todos comemoravam sem saber que uma tragédia acabara de acontecer!