sexta-feira, 13 de abril de 2007

A PRIMEIRA GELADEIRA A GENTE NUNCA ESQUECE

Uma autêntica Frigidaire






Balada de Madame Frigidaire
(Belchior)

Ando pós-modernamente apaixonado pela nova geladeira.
Primeira escrava branca que eu comprei, veio e fez a revolução.
Esse eterno feminino do conforto industrial injetou-se em minha veia... Dei Bandeira!
E ao pôr fé nessa deusa gorda da tecnologia, gelei de pura emoção.
Ora! Desde muito adolescente me arrepio ante empregada debutante.
Uma elétrica doméstica então...Que sex appeal! Dá-me um frio na barriga.
Essa deusa da fertilidade, ready-made a la Duchamp, já passou de minha amante.
Virou superstar, a mulher ideal, mais que mãe, mais que a outra... Puta amiga.

Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu, xarope,
Se cansaram de dizer:-Pra que Deus, dinheiro e sexo,
Ideal, pátria e família,
pra quem já tem Frigidaire?

É Freud, rapaziada
vir a cair na cantada
de um objeto mulher.
- Eu me consumo , Madame....E a classe média que mame se, o céu, a prazo, se der.

Que brancorno abre e fecha sensual dessa Nossa Senhora Ascéptica.
Com ela eu saio e traio a televisão, rainha minha e de vocês.
Dona Frigidaire me como. But no Kids, doublé income! Filho compromete a estética.
Como Édipo Rei Momo como, e tomo tudo dela... Deleites da frigidez.

Inventores de Madame Frigidaire, peço bis, muito obrigado.
Afinal, na geladeira, bem ou mal, pôs-se o futuro do País.
E um futuro de terceira, posto assim na geladeira, nunca vai ficar passado.
Queira Deus no fim da orgia, já de cabecinha fria não leve um doce gelado.
Mister Andy, o papa pop, e outro amigo meu, xarope,
Se cansaram de dizer:-Pra que Deus, dinheiro e sexo,
Ideal, pátria e família,
pra quem já tem Frigidaire?
É Freud, rapaziada
vir a cair na cantada
de um objeto mulher. - Eu me consumo , Madame....E a classe média que mame se, o céu, a prazo, se der.
Mas que trocadilho infameLa vraie “Balade dês Dames du Temps Jadis” au contraire.

Estes maravilhosos versos de Belchior fazem-me lembrar da minha primeira geladeira. Segunda na verdade, já que a primeira foi doada e nunca funcionou. Servia de armário.

Depois de perambular por pensionatos e de uma desastrosa experiência de dividir um apartamento com um colega, eu e Luciano decidimos nos aventurar por alugar um apartamento. Só pra variar um pouco, meu pai foi contra. Pegando aqui um gancho deixado em texto anterior, A Necessidade Faz o Ladrão, onde falo dessas aventuras. Não tínhamos nada é claro. Dois estudantes sem renda, exceto umas aulas particulares que eu dava e umas tocadas de Luciano, que, diga-se de passagem, muito pouco rendiam, e tínhamos que montar uma casa inteira. Naquela época eu tava morando de favor na casa de minha tia Morena, minha madrinha na verdade, e Luciano num pensionato.

Começamos o corre-corre da procura. Anúncios de jornais, intermináveis visitas a imóveis quase sempre acabados, já que procurávamos algo bem em conta. Quando não era isso, ficava no fim do mundo. Aí uma amiga, Daniela, nos disse que tinha um apartamento para alugar no seu prédio, fomos lá verificar. O ap tava precisando de uma pintura e alguns ajustes que nunca foram feitos por sinal, mas era bom. Três quartos com dependências e o melhor de tudo, tava dentro do orçamento e ficava no Conjunto dos Bancários, no STIEP, bairro muito bem localizado, perto da rodoviária e do Iguatemi. É isso mesmo, em Salvador estar perto do Iguatemi é uma boa referência de localização. Brincadeiras à parte, quem conhece a cidade sabe porque, não por causa do shopping, mas sim pelo fato de ser bem localizado mesmo, de fácil acesso (tirando os engarrafamentos), com transporte a vontade para todos os pontos da cidade. E, ter um shopping como o Iguatemi por perto não deixa de ser uma mão na roda.

Aí veio Ruy Bala, um grande amigo, vindo de Serrinha para trabalhar em Salvador, entrando na roda para ocupar o terceiro quarto. Fizemos um mutirão e nós três mesmos, pintamos o dito cujo. Quanto aos móveis e utensílios, foi uma colcha de retalhos. Minha cama e algumas panelas velhas doadas por minha tia Morena. Ruy trouxe uma estante, sua cama e umas panelas da casa dos pais em Serrinha. Minha mãe entrou com outras tantas panelas, toalhas, roupa de cama, travesseiros e etc. A minha irmã Silvia, coube a doação da mesa, do fogão e da geladeira. Ela tinha acabado de comprar geladeira e fogão novos, e os dela comprados para o seu primeiro casamento em 1980, ficaram pra gente. Estávamos em 1988. A mesa na verdade, era sua prancheta do inacabado curso de arquitetura. Eu a apelidei de Haroldo, por causa daquele personagem de Chico Anísio, o viado que, com medo da AIDS, resolveu virar homem, e, por mais que tentasse, não conseguia. Era o caso da prancheta, por mais que tentássemos deixá-la nos noventa graus, reta como uma mesa, ela insistia em voltar à inclinação de prancheta e a gente era obrigado a fazer as refeições com os pratos e talheres escorregando por causa da inclinação.

O caminhão que trouxe as coisas de Serrinha onde minha irmã também morava na época, e de Santo Amaro, onde morava minha mãe, foi emprestado por meu tio Raimundo, meu padrinho, marido de tia Morena, da sua empresa. Fomos eu e Luciano na boléia com Zé, o motorista particular de minha tia, dirigindo o caminhão. Já na viagem de ida, um desses guardas rodoviários querendo uma graninha nos parou. Não lembro qual, mas encontrou alguma irregularidade no veículo, tipo a pintura ta arranhada, o banco ta furado ou coisa assim. Como não tínhamos grana para molhar sua mão, como ele insinuou por mais de uma vez, o filho da puta nos multou. Pra completar, na volta, quando entrava no condomínio, a uns cem metros do prédio, o caminhão quebrou o diferencial e não saiu mais do lugar. Só no dia seguinte quando o reboque chegou.

Não foi moleza carregar tudo para o apartamento que já ficava no terceiro andar dum prédio sem elevador, com o caminhão tão longe assim. Os carregadores éramos nós, eu, Luciano e Zé, além de Ruy, que não viajou, mas ficou nos esperando no ap. Foi aí que o desastre aconteceu.
Com carregadores tão franzinos e despreparados, na hora de levar a geladeira, uma duplex enorme por sinal, foi um fiasco. A escada, em forma de caracol, muito apertada, dificultava nossa ação. Algumas pessoas, sensibilizadas com nosso vexame, se ofereceram para ajudar. Quando percebi já tinha um batalhão empenhado na função. Foi aí que alguém teve a infeliz idéia de deitar a bichinha. A porta abriu de vez e quebrou e, com a excessiva inclinação, o gás foi embora. Com isso durante os seis meses que moramos ali ela nunca gelou e nós, por dureza talvez, por descaso não sei, nunca mandamos consertar. Virou nossa dispensa. Com a escassez de armários, acabou sendo de grande utilidade. Perdi a conta da quantidade de vezes que perdemos comida por não termos uma Frigidaire.

Acabados os incidentes da mudança, esses seis meses ali, foram maravilhosos. Tempos bons aqueles. Nossos fígados estariam em bem melhor estado se não tivéssemos alugado aquele ap.

Logo depois que mudei um tio meu, José, me convidou para tomar conta de uma sorveteria que ele comprara em Lauro de Freitas, cidade da grande Salvador. O gerente de sorveteria era, na verdade, motorista particular. Já que na sorveteria ficava um menino que ele contratou para ficar no balcão, e eu levando e buscando minha tia no trabalho, no supermercado, minha prima na escola e muito mais. Lá mesmo só ia de tardinha para pegar o dinheiro do caixa que, de tanto que era, meu tio baixou as portas dois meses depois e eu continuei com ele por um bom tempo. Tinha um lado bom, o carro dormia comigo e eu podia ir pra faculdade com ele, fora os passeios dos fins de semana.

Com o meu salário, que devia valer em moeda de hoje um salário mínimo e meio, fui juntando grana pra comprar uma geladeira nova. Talvez por isso tenha significado tanto pra mim. Comprada com o suor do meu primeiro trabalho fixo e com a responsabilidade do dinheiro economizado. Pena que ela não chegou a tempo de conhecer o apartamento dos Bancários. Quando a grana que juntei deu pra comprá-la, meu pai havia surpreendido todos nós e comprado um apartamento pra gente. Um sub-solo escuro, quente e úmido no popular bairro de Brotas, mas nosso.
Como a nova mudança já estava prestes pra acontecer, pedi à loja que fizesse a entrega no novo endereço. Ela foi o primeiro morador do apartamento já que ficou lá sozinha por mais de uma semana até nos mudarmos. Quando isto aconteceu, nós todos juntos redescobrimos o prazer de tomar uma água gelada. Aí nos apaixonamos pela nova Frigidaire!*
*Quando surgiu a geladeira, na década de quarenta, se não estou enganado, uma marca logo se popularizou a Frigidaire. Durante muitos anos, a marca virou sinônimo do produto e muita gente só chamava geladeira de frigidaire. É o caso daquela famosa lâmina de marca Gillette, que até hoje é assim.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

ILHA DO PIRATA – A Foto Reveladora - II

O Triozinho das Frutas. Lavagem do Bomfim de 1993

Quando você tá na pior é que descobre quem são os verdadeiros amigos. Por cima é tudo uma festa. Um monte de gente te rodeando, se dizendo amigo do peito e, muitas vezes até, querendo te ver pelas costas. Agora, quando se estar por baixo, só os amigos leais, aqueles que te amam de verdade, vêm ao seu socorro. Com Ray foi assim. Já tínhamos quase dois anos de convivência, que já tinha se expandido do âmbito profissional para o pessoal, quando, após uma série de problemas pessoais com Brown, fui sumariamente demitido da Timbalada. Não houve nenhum tipo de aviso, nada que me fizesse pensar que estaria por um fio. Foi pá bufo: -Você tá fora e pronto. O pior, é que ainda conciliava os dois trabalhos e continuava ensinando. Como a Timbalada vinha num processo ascendente e tava difícil de me dividir, tive de optar por um deles. Pesei os prós e os contras dos dois e, depois de uma conversa com Cícero que me garantiu estar solidificado lá dentro, e que tinha muitos planos futuros para mim, no início de outubro de 94, pedi demissão da escola. Cícero não teve culpa de nada, foi pego de surpresa tanto quanto eu. Enquanto Brown falava comigo, sentia que, assim como eu, o chão lhe faltava nos pés.

Passei um perrengue danado em quase dois anos desempregado e a maioria dos meus “amigos” da época, virou as costas pra mim. Fui demitido no dia 28 de outubro, aniversário do meu grande amigo Zé Filho, que mais tarde viria a ser também meu compadre, já que batizei a sua primogênita Jade, morador de Serrinha interior da Bahia, onde morei quatro anos da minha infância. Após a notícia, fiquei tão desnorteado que não consegui sequer entrar mais na minha sala. Aquela altura, depois do terceiro disco já havíamos alugado uma casa no Bairro nobre da Pituba e montado um puta escritório. Tinha sala pra todo mundo, inclusive pra mim. Desci as escadas, entrei no carro e fui para casa. Juntei umas mudas de roupa e, sem avisar a ninguém peguei a estrada para ver meu amigo no seu aniversário. Naquele dia eu almocei na casa de Ray e recebi a notícia assim que voltei pro escritório. Era uma sexta-feira e não tinha falado com ele mais. Quando já estava 10km estrada adentro ele ligou no meu celular. Todo animado queria saber qual o programa da noite. Sentiu na minha voz o meu estado de espírito e perguntou o que era. Quando contei a ele, como tudo mundo, ficou abismado. Me disse que se eu desse meia volta para pegá-lo, viajaria comigo. Aquela atitude mostrou o caráter do cara que nestes tempos já conhecia bem. Peguei o primeiro retorno. Foi uma bengala salvadora sua companhia em tal viagem. Não sei como seria vencer sozinho os quase 200km que separam Salvador de Serrinha.

Foi um ato simples que me chamou atenção pra ele. Embora já simpatizasse muito com Ray ainda não tinha estreitado maiores relações. Na lavagem do Bonfim de 93, portanto pouco tempo depois de nos conhecermos, eu estava exausto de dias e dias e noites viradas, trabalhando nos preparativos para a saída da Timbalada. Naquela época ainda eram permitos trios elétricos seguindo o cortejo. Lembro que no dia do desfile, viramos de quarta pra quinta. Eram cinco horas da manhã quando, tomado pelo cansaço, adormeci no chão da varanda de D. Madalena, sem colchão, travesseiro e nada. Só o corpo estendido na cerâmica fria. Sonhava em sono profundo, quando às seis, Gilson, irmão de Brown, chutou levemente o meu pé: -Adriano, acorda cara, tá na hora de irmos preparar a saída. Acordei de sobressalto e fomos nós. Eu dirigindo a Kombi repleta de gente e instrumentos, não sei como coube tudo aquilo dentro dela. Quando o bloco saiu já pasava das dez. Dobramos o Mercado Modelo por volta do meio-dia. Aí eu não estava mais aguentando o peso do corpo sobre as pernas e entrei na boléia do caminhãozinho que servia de trio, para esticá-las. Não sei quanto tempo fiquei, sei que não foi muito. Logo, logo, Ziriguidum, um colega de trabalho, chamou-me pelo rádio, algum pepino aguardava-me.

Por falar no caminhãozinho, foi um show o que Ray fez com ele. Com os poucos recursos que dispunhámos, transformou um mondrongo, num dos destaques daquele cortejo. Pena que meu compadre, embora mestre na manipulção dos softwares da sua área, Corel, Photoshop e 3D Stúdio, é um tanto avesso ao mundo informático e não mantém atualizado o seu site que, até hoje, está da forma como foi criado quando eu ainda trabalhava com ele, em 2001. Mas, uma visita por lá, deixará claro pra qualquer um o talento deste artista que vem pontuando a música baiana com a plástica do seu trabalho.

O cortejo seguiu Cidade Baixa adentro e o trio manobrou para voltar no Largo de Roma. Não sei precisar bem mas devia faltar 1km dos 8km que, aproximadamente, tem o trajeto. Despachados caminhão e equipamentos, músicos e nós da técnica, seguimos a pé até escadaria da Igreja do Bomfim. A noite já havia caído há tempos.

Aos pés da escadaria, depois da benção do Senhor do Bomfim, desfizemos o desfile, embarcamos os músicos e equipamentos no ônibus e caminhão que já esperavam por perto, com destino a seus lares e cases*. Fomos então pra casa de Ivana Souto, amiga de Brown, que veio a ser durante um bom tempo empresária da carreira solo dele mais tarde. Ela morava ali mesmo no Bomfim e em sua residência**, nos esperava uma feijoada e muita cerveja gelada. Não consigo lembrar se Ray foi com a gente ou se mesmo, ficou até o fim do cortejo. Se bem o conheço, acho que deve ter picado a mula muito antes dali. Preferi não perguntar a ele, não tenho compromisso com as minúcias dos detalhes mas com a verdade dos fatos. Cabeça e bucho cheios, de álcool e feijão respectivamente, fui dormir na Kombi até as outras pessoas que retornariam comigo, se refestelarem na festa. Foi a única vez na vida que participei de uma lavagem do Bomfim. De lá pra cá, mesmo estando em Salvador, vou sempre pro lado oposto da cidade.

Dias depois, com um atraso significativo e depois de muita reclamação, já que como falei antes a maré não andava pra peixe, Ray foi no escritório receber o resto do pagamento pelo seu trabalho no trio. Reclamou bastante por ter sido um dos últimos a receber. É sempre assim, e nisso ele estava coberto de razão, os de casa vão sendo protelados em benefício dos estranhos, estes cortam o crédito primeiro. Acontece que os de casa também têm contas a pagar e, no caso dele, uma legião de operários que mais tarde vim a conhecer bem todos, esperavam também pelos seus pagamentos com suas contas a pagar, numa cadeia de dívidas e compromissos interminável.

Bolsos abastecidos, ânimos arrefecidos, Ray sacou do bolso um presente pra mim. Aquele gesto nunca vai sair da minha cabeça, marcou a minha vida. Era uma foto que, não tenho a mínima idéia de que momento, ele tirou enquanto eu estava na boléia do caminhãozinho. Minha expressão embora cansada estava muito bôa. Talvez ele não saiba o quanto aquele presente significou pra mim. Nada de valor material teria me tocado tanto. Até hoje não me perdôo por não tê-la mais comigo. Se perdeu nas minhas intermináveis mudanças de casa em casa por Salvador.

*Cases - Estojo onde se guardam instrumentos ou equipamentos. A pronúncia é algo como queises.
**Mais uma vez usando expresão roubada da minha amiga Glauce.

CURRÍCULUM VITAE DE COZINHEIRO

Na cozinha didática do Senac, aula de massas do professor Cristiano

Além de escrever neste blog, já citei em texto anterior, minha paixão pela cozinha. Embora tudo tenha começado como hobby, vou buscando aos poucos, o caminho para profissionalização. O curso do Senac foi um passo muito importante para tal. Sendo assim, venho desde de 2004, realizando trabalhos na área. Como a receptividade vinha sendo a melhor possível, fiz o curso para aperfeiçoar os meus conhecimentos e poder megulhar mais a fundo no mercado dos eventos.

O curso teve um papel muito importante, não falo do papel onde impresso estão os 06 certificados que recebi, Curso Intensivo de Cozinheiro, Manipulador de Alimentos, Decoração de Pratos Para Buffet, Massas Diversas, Preparação e Apresentação de Saladas e Boas Práticas, mas da significativa melhora no meu desempenho após concluí-lo.

Sou também colaborador do blog Cozinhar Faz Bem, onde apresento várias receitas e dicas culinárias.

Venho oferecer meus serviços para eventos, com alto padrão de qualidade e higiêne, nas seguintes especialidades:

Consultoria de Cardápio
Cozinheiro
Assador de Churrasco

O cardápio é variado:

Comida Bahiana,
Maniçoba,
Sarapatel,
Feijoada,
Cozinha Internacional(massas, carnes, peixes e aves),
Receitas Próprias,
Churrasco,
E muito mais.

Faça um contato comigo através de e-mail adriano_caroso@yahoo.com.br ou pelo telefone (71) 8104-0480. Terei o maior prazer em atendê-lo(a) e colaborar com seu evento. Preços Especiais.

Obs: Não ofereço serviço de buffet. Eventos apenas aos sábados, domingos e feriados.

Atenciosamente

Adriano Carôso

ILHA DO PIRATA – Ray Vianna Na História - I

Ray Vianna

Depois de iniciar minha carreira profissional como professor de matemática do 2º grau na Escola Tomaz de Aquino em Salvador, prematuramente é bem verdade, afinal tinha apenas 20 anos de idade, mas isto é outra história a se contar, fui convidado por um grande amigo, Cícero Menezes, para participar e trabalhar num projeto que ele tava produzindo para Carlinhos Brown, a TIMBALADA. Estávamos em 1992 e a Timbalada não passava de um embrião na cabeça e nos sonhos do iluminado Brown. Este eu já conhecia de outras épocas. Amigo e parceiro de meu irmão Edmundo Carôso, fui testemunha do nascimento de algumas canções dos dois e ainda tive o privilégio de vê-lo cantar, no quarto de Edmundo do cubículo que era seu apartamento no Edifício Barbosa Romeu, em Pitangueira de Brotas, algumas canções inéditas suas que, mais tarde, vieram a ser sucesso nacional. “Meia Lua Inteira” é uma delas.

O primeiro passo foi organizar os ensaios do candeal. Não aqueles que foram, a poucos anos atrás, o point do verão em Salvador, no Candyall Gueto Square, uma super casa de show com equipamentos de primeira geração, onde só tinha grã-fino, uma vez que a meia entrada custava R$ 40,00, mas os que eram realizados no meio da rua sem calçamento, cujo palco era a carroceria de um caminhão caindo aos pedaços, e o som, era uma velharia zoadenta do impagável Nicolau Rios. Tempos difíceis aqueles, o escritório era a sala de D. Madalena, mãe de Brown, equipado com um aparelho de fax que Carlinhos tinha trazido de uma de suas viagens como músico de outros artistas.

Enquanto os ensaios a cada domingo ficavam cada vez mais lotados, levando gente de todos os níveis socias a descer o Candeal Pequeno, a Timbalada emplacava nas rádios o sucesso "Canto Pro Mar" (Carlinhos Brown). Surgiu o convite pra gravar o primeiro disco e resolvemos montar um escritório de verdade. Alugamos uma salinha de 10m2 na Ladeira do Acupe em Brotas. O grupo de funcionários era composto por uma imensa equipe, eu e a secretária recém contratada. Cícero sempre passava por lá, mas como não tinha espaço, despachava comigo e seguia para o trabalho de campo.

Foi nessa salinha que vi Ray Vianna pela primeira vez. Coincidência do destino, Ray era, ou pelo menos imaginava que era, amigo de Edmundo. Este nutria por ele uma antipatia gratuita e não gostava do cara, porém Ray não sabia de nada. Ele foi lá receber o pagamento pelos serviços prestados como artista plástico para a Timbalada. Naquelo momento, ninguém imaginava que estava nascendo, uma amizade de vida, uma parceria profissional e o batizado de Júlia, que, como eu ainda nem sonhava em conhecer Cynthia, não fazia parte dos meus planos.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

OUTRA PÉROLA DE ZÉ RIBEIRO

Zé Ribeiro adorava epigrama. Deixou cada um genial. Um dos que mais gosto, fala de uma conterrânea sua, detestada pelo poeta. Ele define a mulher nos quatro versos seguintes.
Besta, pedante e zanagra
Como se a todos pisasse
É tudo isto, e ainda caga
Quanto mais se não cagasse.

O ORÇAMENTO DA BAIA

Dedicado à Luciano de Nardi, o Gauchinho.








Eu vou contar pra vocês
Uma pequena história
Que lembro de quando em vez
Sempre trago na memória

O causo que agora conto
Me deixa entristecido
Porquê, sem aumentar ponto
Foi ingratidão de amigo

Um sujeito macanudo
Eu chamaria retado
As vezes um tanto posudo
Um pouco cabra safado

Morando num apartamento
Que mais parece um ovo
Me serviu de alojamento
Ele hospedou-me de novo

Como bom anfitrião
Agindo na boa norma
Me falou da intenção
De fazer uma reforma

Para aquecer o frio
Queria botar lareira
De estômago vazio
Pensou numa churrasqueira

Eu, grato pela hospedagem
Logo quis colaborar
Cheio de camaradagem
Comecei a planejar

Fui tirando as medidas
Calculando os valores
Arquitetando as saídas
Para os dutos exaustores

Fiz tudo de boa vontade
É isso que não me conforma
Parti com seriedade
Pra orçar a tal reforma

Dei uma pausada branda
Sem problemas, sem estragos
Saímos para uma banda
Paquerar, tomar uns tragos

Circulamos pelos bares
Da linda cidade, em paz
Tragando e flertando olhares
Voltamos pra casa gambás

O gaúcho foi dormir
Fui então pro meu intento
Desperto não desisti
De fazer o orçamento

Sou assim determinado
Faça sol ou chuva caia
Mas estava acabado
O orçamento da baia

O dia já clareava
Me deitei pra descansar
Enquanto ele acordava
Disparando a reclamar

Falou muito da zoada
Que fiquei de luz acesa
Deixei desorganizada
A estante e a mesa

Me levou para almoçar
Cheio de sono e ressaca
Inda veio criticar
Que meti o pé na jaca

O pior de tudo isso
Que me deixou sem defesa
Dispensou o meu serviço
Contratou uma empresa

Só consegui perdoá-lo
Já muito tempo passado
Pois voltei a visitá-lo
Com o ap reformado

Ele acendeu a lareira
Pra esquentar nosso elo
E na nova churrasqueira
Fez um fla-flu pra banguelo








Glossário Regionalista

Macanudo: Bom, legal, maravilhoso.
Retado: A depender do contexto pode ter várias acepções. Nervoso, chateado, corajoso e muitas outras. Neste caso é um sinônimo de macanudo.
Cabra safado: Assim como retado tem vários significados. Pessoa pirracenta, brincalhona, que gosta de sacanear os outros, desonesto(o que não é o caso do Gauchinho), e etc.
Uma banda: De "dar uma banda". Sair passeando pela cidade.
Tomar uns tragos: Beber(com álcool, é claro).
Gambás: Bêbados
Baia: Pequeno compartimento em que se recolhem os animais. Alguns gaúchos usam no sentido de casa, moradia.
Pé na jaca: Bebeu demais, abusou dos tragos.
Fla-flu pra banguelo: Churrasco com a carne bem macia. Maiores explicações, clique na foto do churrasco.

terça-feira, 10 de abril de 2007

A NECESSIDADE FAZ O LADRÃO


Desde que me entendo por gente, ouço minha mãe reclamar da cozinha. Fala que não gosta de cozinhar, muito menos do trabalho que dá esta detestável parte da casa. Inveja tem ela de uma amiga minha que diz: de cozinhar, só sei perguntar quanto custa a conta. Embora Mame não reconheça, tá ali uma das maiores na arte dos sabores. E, sem dúvida, foi a minha maior mestra. Filha de Das Dores, avó que não conheci, cuja fama de boa cozinheira continua atravessando as gerações, herdou o talento no sangue. Com isso, é natural que as lembranças da minha infância estejam marcadas por primorosos sabores, com pratos deliciosos, feitos nos mais alto padrões de qualidade e higiêne. Este foi o maior complicador para mim, na hora de sair da barra da sua saia.

Quando entrei para o segundo grau, com 13 anos de idade, ainda morando em Santo Amaro-Ba, meus pais matricularam-me num colégio em Salvador, visando melhorar a qualidade da minha educação. Os recursos eram excassos, e foi um sacrifício danado, contas e contas, para adequar a equação que permitisse a minha vinda. Eu não era o único, aqui já estava Luciano, irmão um pouco mais velho, um ano escolar a minha frente. De início, lastreado por especial autorização emitido por meu pai no juizado de menores, ía e voltava todo dia. Com 70km de distância entre as duas cidades isto logo ficou cansativo. Acoradava as quatro da manhã, pegava o ônibus das cinco para estar na sala as sete. Retornava às treze para almoçar pelas quinze. É claro que não deu certo.

Tão pressionado que foi, meu pai acabou concordando em nos colocar num pensionato na capital. Ficava um pouco mais caro e o velho além de não ter, não era muito chegado a gastar o pouco que tinha. Cobre a cabeça, descobre os pés. Resolvido um problema criado outro. Descanço para o corpo, inferno para a barriga.

Foi um tal de pular de pensão em pensão, percorrendo quase todo o perímetro soteropolitano e nada. Cada uma pior que a outra. No início ainda dava pra encarar mas com poucos dias até o cheiro da comida já embrulhava o estômago, tornando a hora das refeições uma verdadeira tortura.

Luciano, já fazendo faculdade, teve a idéia de dividir um apartamento comigo mais um colega seu. Esbarramos novamente nos empecilhos paternos. Mais uma vez vencemos pelo cansaço. A condição era que, ele passava pra gente os custos do pensionato e nós administraríamos o orçamento do ap com tal verba. Eu e Luciano, resolvemos a nosso modo, cada um tomar conta do seu dinheiro. O problema persistia. Não havia a menor condição de comer fora e cozinhar ninguém sabia. Foi aí que eu descobri os miojos da vida. Meu primeiro supermercado trouxe o carrinho recheado de macarrões instatãneos, hambúrgueres, molhos prontos, ovos e esperanças de dias mais saborosos. Saudáveis? Nem tanto assim. Quinze dias depois eu já sentia saudade das pensões, por mais incrível que possa parecer.

Todo final de semana íamos pra Santo Amaro. Levávamos a roupa pra lavar e buscávamos consolos culinários na mesa de Mame Blue. Foi o início do meu amor pelo fogão.

Em cada viagem dessas, Mame me passava uma nova dica. O arroz é assim, a carne é assado, o macarrrão é cozido e por aí vai…Sem contar que sempre levava na bagagem, umas vasilinhas com bifes já cortados e temperados, umas almôndegas semi-prontas e outras iguarias do vasto cardápio materno. Com todo este estímulo, comecei a me aventurar na cozinha, plantar as sementes e colher os seus frutos. Estava nascendo em mim o amor pela culinária cuja intensidade só aumentou com o passar dos anos. É claro que existiram os fiascos inevitáveis de quem começa a aprender um ofício. Arroz empapado, peixe boiando num rio de água, lasanhas de cabeça pra baixo e outros micos que guardarei para futuras histórias. O prazer de acertar completamente o primeiro prato, guardo na lembrança como a do primeiro beijo.

Os anos passaram, muitos de lá para cá, mas até hoje a cozinha faz parte da minha vida e é uma das minhas maiores paixões. A escola de Mame Blue, o Senac, as trocas de experiências e receitas com diversos amigos, foram me dando mais segurança e aperfeiçoando esse dom que, hoje sei, nasceu comigo. Não sou impafioso para dizer que sou bom, nem modesto demais para dizer que sou ruim. Tenho consciência das minhas virtudes e minhas limitações. Posso falar, sou cozinheiro. Com que qualidade? Só as pessoas que provaram meus pratos podem dizer, e isto é melhor que perguntem a elas.

Na foto com Cristiano. Um dos instrutores do meu curso no Senac.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

PREGUIÇA DE BAIANO - A REDE

"As vezes, sinto uma vontade imensa de trabalhar, aí vou prum canto quietinho, fico lá deitadinho, esperando a vontade passar"





Doca era uma baiano da gema, desses que ficam retados quando são chamados de preguiçoso. Tudo bem que ele gostava de uma maré mansa de vez em quando mas dava um duro danado, não achava justo tal rótulo. Tudo culpa de Dorival Caymmi, baiano dos mais ilustres, que com seus versos descansados deixou a gente com essa fama terrível em todo o brasil. Fama sem proveito, porque de preguiçoso o baiano não tem nada. É claro que o clima quente dos trópicos, os abençoados quilômetros de praias lindas e paradisíacas que temos, fazem do baiano um povo malemolente, nunca preguiçoso. Acreditem ou não o baiano trabalha e trabalha muito. Mas isto é uma outra história. Viemos aqui falar de Doca e da rede. É que ela virou o símbolo da “preguiça” baiana. Quem não gosta de dar uma relaxada numa delas. Quem não gosta de tirar aquela sesta após o almoço. Baiano, paulistas, cariocas, gaúchos, pernambucanos, cearenses, enfim, todo mundo gosta da rede.

O que Doca nunca imaginou ser possível, é fazer amor na rede. Já tinha ouvido várias histórias de pessoas que diziam ter feito mas nunca acreditou. Achava conversa mole de gente que gosta de contar vantagem. Ele mesmo nunca tinha provado. Um dia, apaixonado que tava por uma gatinha, dessas que viram furacão na hora do bem bom, se viu numa situação que era a rede ou nada. É claro que ele escolheu a primeira. Achou incômodo, esquesito, mas amou. Não pela rede em si, mas pela companhia. A rede se tornou um mero detalhe ofuscado pela pessoa que estava ao seu lado. Contudo jamais poderá esquecer das duas. Da rede e da gata. Por mais que te doessem as costas, por mais que te marquessemm os joelhos, por mais que se sentisse estranho e desconfortável, Doca nunca havia chegado aos lugares que aquela experiência na rede o levou. Até pra dizer que é ruim é preciso provar. Foi o que Doca fez. Não se arrependeu. Se alguém disser que é ruim, vai comprar briga com o cara. -O problema não tá na rede, tá na pessoa que deitou com você nela. Isto eu posso garantir. Quero ver achar ruim um tcheco-tcheco com uma gata daquela?

Ele nunca vai esquecer da rede, muito menos da mulher que lhe proporcionou aqueles momentos mágicos, extasiantes. Cara de sorte este Doca.

Os versinhos acima, ao lado da foto, são de autoria desconhecida. Muito populares na Bahia.

domingo, 8 de abril de 2007

BUDAPESTE – De Chico Buarque à Sandra

Chico Buarque deve ter a maior legião de fãs do Brasil. Podem ter certeza que eu sou um dos que encabeçam esta lista. O interessante é que descobri Chico ainda muito novo, quando não tava nem preparado para receber a gama de informações que seu trabalho continha e, até hoje, contém. Lá pelos meus 12 anos talvez. Tudo isso porque, meu irmão mais velho, Edmundo, na época um verdadeiro nômade, só usava a nossa casa parta filar umas bóias, de vez em quando, e para guardar os seus discos (ainda em tempos de LP). Ele fazia a gente, eu e Luciano, os mais novos da família, jurar jamais mexer em tais bolachões. Nunca vi discos tão bem cuidados. Chegavam a brilhar. Era uma festa quando Edmundo chegava. O irmão aventureiro, músico, artista, nosso ídolo. Era uma festa também quando ele ia embora. Ficávamos à vontade para quebrar a promessa, tantas vezes ratificada, mesmo que falsamente. Foi aí que descobrimos, prematuramente, uma série de artistas que até hoje povoam a nossa vida. Os mineiros do Clube da Esquina, Raul Seixas, Caetano, Gil, muitos outros e, pelo menos pra mim, o mais importante deles, Chico Buarque. Talvez não entendesse muito do que ouvia, mais sentia no fundo da alma. O primeiro disco de Chico que me extasiou, foi Meus Caros Amigos. A Noiva da Cidade era o clímax, O Que Será?, com Milton, tinha o poder de me transcender. Não vou ficar aqui citando músicas e discos. É totalmente desnecessário. Chico Buarque por si só, é o próprio Chico Buarque. Nada mais a declarar.

Movido por esse encanto, passei a achar que tudo que Chico fizesse, seria perfeito pra mim. Ledo engano. Hoje, um tanto menos imaturo, aprendi a separar a obra do autor, o joio do trigo. Descobri que os artistas, por mais que nos pareçam perfeitos, podem um dia nos decepcionar.

Foi duro pra mim naquela época, descobrir isto lendo Fazenda Modelo. Acho que este foi o primeiro romance de Chico. Com passagens interessantes sem dúvida, "... o que quiser que tenha, tinha. Tinha arrebol? Tinha. Rouxinol, tinha. Luar do sertão, palmeira imperial, girassol tinha. Também tinha temporal, barranco, às vezes lamaçal, o diabo. Depois bananeira, até cachoeira, mutuca, boto, urubu, horizonte, pedra, pau, trigo, joio, cactus, raios, estrela cadente, incandescências. Enfim." mas não disse nada pra mim(vocês acreditam nisso? Nem eu.). Pra falar a verdade foi um saco ler aquele livro. E, como era de Chico Buarque, li pela segunda vez, pra não restar dúvida de que não tava gostando. Gostei menos ainda. Realmente, o problema tava no texto de Chico, não em mim.

Anos e anos depois, ele lançou Estorvo. Continuava, como sou até hoje, seu fã incondicional. Desta vez larguei o livro antes da vigésima página. Nem tentei de novo. Passei a achar, e a falar, o que é pior, que o texto de Chico não conseguia me prender. Já falei em outro momento neste blog, e volto a falar agora, um dia o homem tem que rever seus conceitos. Quando isto não se dá de forma espontânea, algo acontece para forçá-lo a tal.

Dias atrás, Luciano meu irmão, outro fã de Chico, me trouxe emprestado Budapeste, o último livro dele. Falou tão bem do romance, que disse ter voltado para a primeira página, imediatamente após ler a última. Que degustou a história, com um prazer voraz, cujo tempo não sentiu passar. Eu, com o preconceito enraizado na alma, não consegui fluir no texto. Continuava achando o cara um grande compositor, escritor nem tanto assim. Retiro tudo que disse.

Já tava pela página trinta, mais ou menos, quando conversando com Sandra pelo MSN, uma querida amiga paulista, falei sobre o livro, ainda movido por aquelas impressões. Ela, que conhece a cidade de perto, no meio do papo até me mandou a foto que ilustra este texto. Começou a me perguntar sobre o que ele falava da cidade. Principalmente do Danúbio Azul, cenário de tal foto. Acontece que, naquele ponto da história em que eu estava, Copacabana era muito mais presente no livro do que a própria Budapeste. Foi ela quem, em primeira mão, contou-me que a cidade é dividida em dois lados: o Buda e o Peste. Não sabia naquele instante, que Chico, genial como é, escreveu a estória sem nunca ter ido à Hungria. Por isso Sandra foi tão importante na minha descoberta. Achei a foto tão linda, que esqueci tudo que tinha lido e voltei pra primeira página. É impressionante o que se deu daí pra frente. Encontrei um texto saboroso, um deleite, uma história daquelas que prende o leitor desde a primeira palavra. Até hoje, não consigo acreditar que Chico não conhecia a cidade. Que escreveu tudo aquilo, com base em cartões postais e pesquisas. Que, só depois que o livro foi traduzido e lançado por lá, ele foi convidado a ir à Hungria. Hoje, relendo as linhas da história, dá pra perceber tal fato. É claro que o problema não tava em Chico, e sim, em mim. Mas, disso, só eu não sabia.

A verdade é que, agora vou voltar a seus livros mais antigos. Não dá pra persistir neste erro. Errar é humano, insistir no erro é burrice.

Agora, percebendo meu grande erro, vou transcrever o trecho que está na capa do livro. Só ele é suficiente para querer lê-lo por inteiro.

"...Fui dar em Budapeste graças a um pouso imprevisto, quando voava de Istambul a Frankfurt, com conexão para o Rio. A companhia ofereceu pernoite num hotel do aeroporto, e só de manhã nos informariam que o problema técnico, responsável por aquela escala, fora na verdade uma denúncia anônima de bomba a bordo. No entanto, espiando por alto o telejornal da meia-noite, eu já me intrigara ao reconhecer o avião da companhia alemã parado na pista do aeroporto local. Aumentei o volume, mas a locução era em húngaro, única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita. Apaguei a tevê, no Rio eram sete da noite, boa hora para telefonar para casa; atendeu a secretária eletrônica, não deixei recado, nem faria sentido dizer: oi querida, sou eu, estou em Budapeste, deu um bode no avião, um beijo."

sábado, 7 de abril de 2007

SANTO AMARO DA PURIFICAÇÃO(Gratas lembranças)

Minha experiência em Santo Amaro, deixou lembranças maravilhosas na minha cabeça. Uma cidade ímpar. Tem coisas que só acontecem por lá. Inclusive nascer na mesma família duas figuras como Caetano Veloso e Maria Bethânia. No entanto, é de Márcio Valverde que mais lembro. Meu amigo irmão que, ingrato, se tornou amigo de meu outro irmão Luciano, hoje compadres. Tirando a ponta de inveja, sinto muito orgulho da amizade dos dois e de ter sido o catalisador de tal encontro. Dois grandes músicos, grandes compositores. Lembro quando eu e Márcio ficávamos tocando violão, pensando nas nossas musas inspiradoras daquela época. Falo dos nossos 12 ou 13 anos. Outro orgulho que tenho, é de ter sido importante na sua aprendizagem do instrumento. Ele não tinha violão, eu, filho de músico, forçando a natureza para ser também, não me faltava o pinho para dedilhar. Com isso, emprestava meu instrumento para que ele treinasse. Canhoto que é, tocando no instrumento dos outros, teve que aprender como destro. Cheguei inclusive a ensinar-lhe algumas canções. A realidade foi cruel. Seu talento nato, logo se sobressaiu. Mesmo antes de sofrer o acidente que tirou os movimentos do meu indicador esquerdo, o que obrigou-me a fazer algo que deveria ter feito a tempo, parar de tocar, já não tinha coragem de dedilhar uns acordes na frente dele.
Talvez por gratidão, como já falei aqui, ele foi um dos poucos que se resignaram a ser meus parceiros. Fizemos juntos várias canções. Esquecidas no tempo, não na memória dele que é um absurdo de boa, mas na minha. Hoje ele toca e canta, palavra por palavra, todas as músicas que fizemos juntos naquela época. Teve uma que nunca esqueci. Talvez por ser a única da qual realmente gostei. Um dia ele chegou lá em casa e me disse: -Comecei a fazer uma música com Chico(Chico Porto, um dos grandes poetas que Santo Amaro produz) mas não saímos da primeira frase: "Era menino a conhecer o mundo, calça surrada violão na mão...". Peguei papel e caneta, pedi que ele começasse a tocar e aí nasceu esta música que, se tiver título, não consigo lembrar, afinal tínhamos 14 anos de idade.

Era menino a conhecer o mundo
Calça surrada, violão na mão
Fazendo versos, tocando e cantando
Suando muito pra ganhar o pão

Sua coragem é que valia tudo
Foi aprendendo e seguiu na cançõa
Era menino a conhecer o mundo
A desvendar segredos deste chão

Começou suas loucuras
Era coisa da idade
Rasgando e cerzindo a cabeça
Alcançou a liberdade

O homem hoje volta ao seu recanto
Lembra o menino que um dia foi
Ainda se ouve seus versos, seu canto
Com a experiência que ninguém destrói

Sua vivência é que vale tudo
Tudo que viu e hoje vem mostrar
Para os meninos desse novo mundo
Que hoje vão sair a procurar

Começar suas loucuras
Pois é coisa da idade
rasgar e cerzir a cabeça
E alcançar a liberdade

NOITE E DIA(Cabelos Brancos)

Quando nasceu Edmundo, meu irmão mais velho, primeiro neto de Zé Ribeiro, meu finado avô poeta, ele entendeu que aquilo era sinal da chegada de sua velhice. Escreveu então os seguintes versos.

Noite e Dia

Eu tive cabedais extraordinários de sonhos
Num dilúvio de abastanças
Fui dentre sonhadores milionários
Um arquimilionário de esperanças

Esperanças que em mim tiveram vida
E viveram repletas de saúde
Tâo somente na noite denegrida
Dos cabelos da minha juventude

Depois da bancarrota meus amigos
Mendigo, mais mendigo que os mendigos
Pois estes ainda vivem de rogar
Com muito Deus lhe pague para dar

Esta casta portanto, se consola
E eu, por impossível que pareça,
Não acho quem me possa dar esmolas
Nem mesmo um simples Deus o favoreça

De cabeleira negra, os desenganos
Vivem de remoçar, não ficam calvos
Da decadência não padecem danos
Nem seu cabelos pretos ficam alvos

Os desenganos, vivo a maldizê-los
Para ver se de mim desaparecem
Enfadado de vê-los e revê-los
No sol posto dos sonhos que anoitecem

Sonhei dentro da noite dos cabelos
E hoje, os meus cabelos amanhecem

ÔNIBUS ERRADO – PARTE II (Ônibus Errado, Linha Certa)

Na foto ao lado, Eu o Gauchinho e Leandro em 16/12/88

Cheguei em Porto Alegre, sábado, 10 de dezembro de 1988. No dia seguinte, tava eu com cara de tacho, morrendo de vergonha, sendo buscado por Seu Arcy e Suzana, no saudoso Voyage verde, na porta da rodoviária. Não tive outra opção. D. Celmira nos esperava em casa com uma lasanha maravilhosa. Vale lembrar que, as prendas culinárias, não eram o forte dela, mas sua lasanha era fantástica. O mais interessante de tudo é a forma como me senti quando entrei naquela casa. Cercado por tanto carinho, por tanta atenção, parecia estar na minha própria casa, com a minha própria família. Naquele momento, eu ainda não me dava conta, mas começava a brotar no meu coração, um amor tão grande, mas tão grande, que quilômetros e quilômetros não podem separar, muito menos acabar. Mais uma vez volto a usar uma frase do Richard Bach, "Podem os quilômetros separar-nos dos amigos?" Definitivamente não. De imediato lembrei de Edmundo, disse que o gaúcho era frio, só que, até aquele dia, nunca tinha recebido tanto calor humano.


Logo de cara Seu Arcy me conquistou. Uma pessoa equilibrada, coerente, marido exemplar, pai do mesmo modo, cozinheiro de mão cheia. A quantidade de qualidades que teria de descrever deste senhor, tornaria este texto deveras longo, por isso, para resumir, basta falar que hoje, adotei-o como segundo pai. Meu Paiúcho como digo. D. Celmira, alegre, simpática, com sua voz rouca e terna, também me conquistou no primeiro momento. Suky também foi de uma receptividade fantástica. Todos eles, sentindo o meu total embaraço, procuraram fazer com que me sentisse em casa. E conseguiram. Ali tava uma família que mais tarde também seria minha, com quem eu viveria as mais diversas experiências, dos momentos mais alegres aos mais tristes, que nesta, e em outras vidas, sempre farão parte da minha existência. Liane chegou domingo à noite. Fui buscá-la com seu pai na escola que ela trabalhava, estava viajando com os alunos. Acontece porém, que além daquela grande amiga, motivadora da minha viagem, eu já tava perdidamente fisgado pela amizade da sua família.


Foi só o começo. Tipo efeito dominó, comecei a conhecer um monte de gente entre parentes e amigos deles. Na semana seguinte, dia 15 de dezembro pra ser mais preciso, foi aniversário de Seu Arcy. Houve uma festa simples, contudo muito alegre. Aí eu conheci boa parte da família, em especial um cara que hoje é meu irmão. Coincidência ou não, homônino de um irmão verdadeiro, Luciano. Eu insisto em chamá-lo de Gauchinho, já que ele, pelo menos que me lembre, nunca pronunciou o meu nome. Sempre fui o Baianinho. Como o chamam seus familiares, Lucky. Nos gostamos de cara. Com todas as diferenças que nos separam, não vale a pena falar sobre elas, encontramos elementos em comum que nos uniram de uma forma muito especial. No dia seguinte, sob o pretexto que as gurias não me levariam à programas interessantes, ele me pegou, com seu primo Leandro, que por sinal foi a única vez que o vi, para darmos uma volta na cidade. Foi meu primeiro porre em terras gaúchas. Nasceu então uma amizade sincera, forte e verdadeira. Gosto muito da sua maneira de ser. Sem meias palavras, sem subterfúgios, sincero em suas convicções. Respeito e admiro muito a sua pessoa. É fácil entender tanta nobreza de caráter, conhecendo os seus pais, Celso e Cleusa(irmã do Sr Arcy), e seu irmão Marcelo.


Eu e o Gauchinho viajando de Porto Alegre para Florianópolis em Janeiro de 94

De lá para cá, muitas vezes voltei ao sul. Muitos deles vieram me visitar na Bahia. Nossa amizade se solidifica a cada dia. Aquela turma macanuda*, plantou em meu coração uma semente sólida e duradoura. Não vejo a hora de poder voltar lá, ou de tê-los aqui perto de mim. Não é a toa que saudade, é uma palavra sem tradução. Eu amo todos vocês. Eu amo o Rio Grande do Sul, eu amo Porto Alegre. Um baiano célebre, Caetano Veloso, já disse em sua música "Menino Deus", que fala do bairro onde seu Arcy morava naquela época, “...um Porto Alegre é bem mais que um Seguro".


Para finalizar, transcreverei as palavras que Liane me escreveu na dedicatória do livro “Longe é um lugar que não existe”, de Richard Bach, de onde tirei a frase transcrita acima, com o qual me presenteou em 10/11/90.

“Eu poderia escrever muitas coisas e provavelmente acabaria esquecendo algo. Por isso vou deixar que o livro fale por si. Tenho certeza que vais entender tudo que quero dizer te enviando este presentinho. Ah! Sei que não é teu aniversário, mas estive relendo o livro e me lembrei de ti. Achei ser um bom motivo para comemorar nossa amizade. Um super beijo, com carinho, Lika”
*Macanudo: adj. Bom, superior, poderoso, forte, prestigioso,
inteligente, belo, rico, admirável, excelente, respeitável.
Extraído do Minidicionário Guasca(Gaúchês) de Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes. Editora
Martins Livreiro, 1986.

PAPAGAIO


Outro poema do velho Zé Ribeiro

Quando o sujeito que agente
Para salvá-lo de horrores
Desinteressadamente faz inúmeros favores

Depois de salvo, contente
E que chega à gente bem
Diz esquecido da gente
Não devo nada a ninguém

Com o pilantra me distraio
Pois já sei que o ingratalhão
Não passa de um papagaio
Reparem bem se não é

Não fora assim o vilão
Não nos daria seu pé
Quando lhe damos a mão

Se a vida nos desencanta
Porque dela se conclui
Que a ingratidão é a santa
Que mais devotos possui
Prefiro do desalmado
Receber antecipado

Por isso não lhe prorrogo o prazo
Para o chulé
Se dou-lhe a mão
Peço logo
Meu louro dê cá o pé

Foto roubada do álbum do orkut da minha amiga Bel. Espero que ela não se zangue. Beijos Bel!!

ÔNIBUS ERRADO (Mas Que Barbaridade Tchê!)




Sr Arcy e D. Celmira, com minha irmã Sílvia ao centro. Foto de 1991


Uma amizade verdadeira pode surgir da mais variada maneira. Na minha vida, um encontro casual dentro de um ônibus, que peguei errado por sinal, trouxe na carona, um bocado delas. Era Julho de 85, final de tarde, estava indo com Antonio Carlos, um colega de escola, para casa dele, a fim de estudarmos para prova de física do dia seguinte. Quando entramos no ônibus logo estranhamos o fato de não aceitarem nossos passes escolares. O cobrador esclareceu, que aquela era um linha especial para congressistas, vindo do centro de convenções para o Campo Grande, via orla marítima. Por sinal que congressistas! Um bando de gurias gaúchas, lindas por sinal. O congresso era sobre Pedagogia Especial e, em sua maioria, os congressistas eram do sexo feminino. Antonio Carlos, galante de plantão, logo ficou assanhado. Contudo, como cavalheiros decentes que somos, sentamos em nossos lugares sem procurar graça com nenhuma das beldades sulistas que ali estavam.

Aí entra o destino. Quando ele quer nada podemos fazer. Estava escrito pra mim, aquele ônibus errado, mudaria pra sempre a minha vida. Um engarrafamento gigantesco, provocado por um show no Farol da Barra do extinto grupo Dominó, que na época estava vivendo um sucesso explosivo, forçou o motorista a desviar a rota do ônibus. Tal desvio deixou apreensiva uma das garotas que achou terem elas, tomado errado o coletivo. Aí perguntou pra gente o que estava acontecendo e começamos a explicar que o motor, como chamamos motorista de ônibus em Salvador, só estava pegando um desvio para sair do trânsito, mais que o ponto final não teria alteração. Só então descobrimos que o hotel onde elas estavam hospedadas ficava um bocado além do ponto final do buzu. E que, por sinal, não era recomendado que as donzelas seguissem a pé e sozinhas. Já havia anoitecido e o centro da cidade não é dos lugares mais seguros. Já estávamos mesmo no ônibus errado, e tendo no sangue a verdadeira hospitalidade baiana, fomos até o fim da linha e deixamos as prendas sãs e salvas na porta do hotel.
Antonio Carlos, com segundas intenções, convidou as gurias para um passeio noturno, com o pretexto de mostrar a cidade. Agradecidas pela nossa boa ação, as meninas aceitaram. Lembrem bem, íamos estudar para a prova de física. Terminamos no Porto da Barra, acompanhado de um bando de gaúchas, bonitas, simpáticas e duronas. Não adiantaram os galanteios baianos, ficou só na amizade. Tudo que restou foi o meu quatro e o zero de Toni na prova. Nada normal, bons alunos que éramos.

Uma dessas meninas me chamou muito a atenção. Seu nome era Liane. Um doce, uma simpatia. Com uma conversa interessante, fui me envolvendo com seu papo e, com ela, me identifiquei bastante.

Raiava o sol, quando levamo-nas para o hotel. Trocamos endereços, telefones e beijinhos de despedidas que, graças a Deus, no Rio Grande do Sul são três em vez de dois como na Bahia.

Realmente não lembro quem escreveu primeiro, se eu ou Lika. Só sei que foram cartas e mais cartas durante muito tempo, e nossa amizade foi ficando cada vez mais estreita. Falávamos da gente como se convivêssemos na mesma cidade. Éramos confidentes, um aconselhava o outro, falávamos das nossas famílias, dos nossos amigos, dos nossos amores e por aí vai. Em tempos onde a internet ainda não havia se popularizado, que não existiam os tais e-mails, deixamos muitos trocados no cofre da nossa estatal, os Correios.

Naquela época já conversávamos também por telefone, eu já falava com os pais dela que, sempre me trataram com muito carinho, e naturalmente veio o convite para visitá-los. Relutei bastante, não me sentia a vontade de ir me hospedar em casa de desconhecidos. Por mais que as cartas tivessem nos aproximado, eu fiquei receoso.

Aconteceu que, um ano depois, fiz uma excursão com meus pais, saindo de Santo Amaro da Purificação para o sul do Brasil. De São Paulo abaixo, visitamos várias cidades. Um defeito no ônibus nos fez perder quase um dia em Erechin, interior do Rio Grande do Sul. Isto mudou os planos de D. Amélia, a organizadora da viagem. O dia que passaríamos em Porto Alegre, foi substituído pela ida a Gramado. Fiquei P. da vida. Estava morrendo de vontade de rever Lika. Ela nem tava na cidade, veraneava na casa de praia da família, mas viria para passar o dia comigo. Não deu outra, abdiquei de conhecer Gramado, um velho sonho de infância, para passar o dia com minha amiga. Isto foi motivo de muita briga. Tava namorando com uma menina na excursão, convidei-a para ficar com a gente mas ela não aceitou. Não acreditava que entre eu e Liane, só havia amizade. Por causa disto, a viagem de volta foi um inferno.

O dia em POA foi uma delícia. Passeamos pela cidade, ela me levou para conhecer a sua casa e lugares turísticos. Pegamos um ônibus errado, que sina hein?, mas no final nos encontramos. No fim da tarde ela me deixou no hotel que era defronte da rodoviária e pegou o ônibus de volta pra praia. Era janeiro, mês das férias, verão intenso.

No Dezembro seguinte. Deixei de lado as cerimônias, depois de passar um ano economizando os trocados que ganhava dando aulas particulares de matemática, embarquei na Itapemirim com destino a Porto Alegre para passar uns dias na casa de Lika. Como a viagem duraria 56hs, com baldeação no Rio de Janeiro, viajar de ônibus tem dessas coisas, avião faz conexão, ônibus baldeação. Combinamos que ligaria na véspera avisando o dia e horário da minha chegada. Liguei exaustivamente e ninguém atendeu. Fiquei apreensivo mas, de passagem na mão, malas arrumadas, não tive outra alternativa senão embarcar. Ignorando os conselhos do meu irmão Edmundo. Ele achava uma loucura eu perder as minhas férias e ir para o sul. Na época, ele tinha um preconceito idiota contra o povo gaúcho. Dizia que eram frios e temia pela forma como seria tratado. Não tinha idéia do quanto estava enganado.

Para piorar a situação, quando cheguei ao Rio, tinha duas horas de espera para pegar o outro buzu. Passei quase todo o tempo no posto telefônico ligando pra casa de Lika e, mais uma vez, ninguém atendia. Já quase na hora do embarque, resolvi fazer a última tentativa. Desta vez atendeu Suzana, sua irmã. A notícia não foi das melhores. Eu chegaria em Porto no dia seguinte, sábado. Liane estava em Rio Grande, viajando a trabalho e, só chegaria domingo. Foram insistentes os argumentos de Suky para que eu falasse a hora da minha chegada, eles me esperariam. Não tive coragem, a vergonha foi maior. O pior, é que os trocados das aulas particulares, não me subsidiariam num hotel em Porto Alegre, mesmo que fosse uma espelunca, por mais de dois ou três dias.

Sábado, 14hs, desembarca um bóia fria baiano em POA. Numa cidade desconhecida, pouquíssimo dinheiro no bolso e nenhuma referência. Lembrei que o hotel que fiquei na excursão era na frente da rodoviária. Foi o primeiro que procurei. Nem cheguei a falar com o recepcionista. O valor da diária, exposto na placa atrás do balcão, me fez logo dar meia volta. Rodei pelo centro até encontrar um hotelzinho barato, o Nova Guaporense, na Av. Júlio de Castilho. Me instalei, tomei um merecido banho e pensei: o que fazer agora? Dentro daquele cubículo é que não ía ficar. Mesmo que minha viagem, inicialmente programada para um mês, durasse dois dias, eu ía aproveitar.

Como bom caipira, fui para um shopping. De lá mais uma vez liguei. Desta vez me atendeu D. Celmira, mãe de Liane que, infelizmente, a vida já levou da gente. Não sabia naquele momento, que viria a ter por aquela senhora, um amor de filho. Ela ficou indignada ao saber que estando em POA não avisei, nem fui pra lá. Lembro até hoje as palavras dela: -Meu filho, estamos todos te esperando, Lika viajou a trabalho mas chega amanhã. Venha pra cá. Diga onde está e a gente te pega. Não consegui aceitar. Disse que no domingo quando Liane chegasse voltaria a ligar. Cometi o erro de, no meio do telefonema, falar o nome do hotel que estava. Do shopping, boêmio que sou, fui para um bar. Não consigo lembrar o nome. Tinha música ao vivo, de excelente qualidade. Fiquei por lá até altas horas. Tanto que, no dia seguinte, acordei tão tarde que perdi o horário do café do hotel. Desci para comer alguma coisa por perto e, a danada da velha, já tinha me localizado e deixado recado para que eu ligasse. Aí não tive escolha, liguei. Sem outra alternativa falei onde estava e Seu Arcy, pai de Liane, foi com Suzana me buscar. Daí em diante não dá pra falar da minha vida sem falar do Rio Grande do Sul. É a minha segunda terra, onde tenho amigos verdadeiros sobre os quais ainda falarei muito por aqui. Agradeço a Deus todos os dias por, numa tarde de julho de 85, entrar num ônibus errado.


Minha grande amiga Lika

sexta-feira, 6 de abril de 2007

SER PAI É A COISA MAIS LINDA....



De tudo que tive na vida, nada foi mais importante do que a experiência de ser pai. Tive muita sorte. Uma filha adorável, inteligente, muito ligada a mim. Procuro fazer minha parte. Separado da sua mãe, embora sejamos sinceramente amigos, vivo intensamente cada momento que posso estar com ela. Assim como agora, que ela está aqui do meu lado, enquanto escrevo esse texto.

É uma benção poder participar de sua vida. Da tarefinha da escola, das incertezas da idade, dos questionamentos intermináveis, de tudo enfim. "Não basta ser pai, tem que participar".

A cada dia ela me surpreende, é sempre uma nova descoberta, um novo horizonte. Meu grande amor, minha verdadeira paixão, minha luz, meu caminho. Ela é tudo na minha vida.

Com opinião própria, personalidade marcante, é impossível manipulá-la. Nem eu tentaria isto, embora às vezes, a comodidade nos deixa passivo ao caminho mais fácil. É impressionante como a cada dia aprendo mais com esta menina. Como ela me ensina a ser melhor, a ser mais eu.

A "Burra Preta", como a chamo, que ela não me ouça, já que destesta este apelido criado na maternidade com um dia de vida, é a razão da minha existência. Por ela vou a lua, por ela encontro o cruzamento das paralelas, por ela, a cada dia, encontro uma razão para viver! EU TE AMO JÚLIA!!!!

Poema Enjoadinho
(Vinícius de Moraes)

Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

CASA DO COMÉRCIO - “O Aprendiz de Cozinheiro”

De janeiro a julho de 2006, fiz um curso intensivo de cozinheiro no SENAC, Casa do Comércio, Salvador-Ba. Esta experiência foi muito produtiva e fascinante. Logo de cara, melhorei muito no manuseio dos equipamentos e utensílios de cozinha. Ainda não tinha falado sobre isto por aqui, mas sou um sujeito desastrado, com pouquíssima, para não dizer nenhuma, habilidade manual. Vivia me cortando, principalmente o indicador esquerdo, aleijadinho que é, em virtude de um acidente automotivo, tava sempre na alça de mira das facas. Na primeira semana de aulas práticas, podem acreditar, cinco cortes nas mãos. Como não podíamos trabalhar com nenhum tipo de ferimento exposto, tive que enfaixá-las. Gozação na certa. Um dos professores logo perguntou se eu tava fazendo curso para cozinheiro ou para múmia. Lá se vão nove meses que concluí o curso e nenhum corte além daqueles cinco. Mas isto, foi só um ponto pequeno na imensa reta de benefícios que o curso me trouxe. Começo pelas amizades, vitais para qualquer um. Fiz algumas boas por lá. Adolfo (a Monosa da receita do Bacalhau, lembram?), o mais velho da turma, nem por isso o mais ajuízado. Bruno, o carioca milico apaixonado por cozinha. Ana, a cozinheira mais bonita do Brasil, como eu a chamo. Miguel, outro corôa boa praça (será que não era mais velho que Adolfo? Não sei) que nas aulas de inglês da super simpática professora Cláudia, o apelidei de My Girl. Manoel, meu colega de praça, pau para toda obra. André, que de tão comprometido com o curso, terminou por ser contratado como instrutor da casa. Ricardo, mais conhecido como Flower, companheiro de fumódromo assim como Adolfo. Não fiquem magoados comigo, aqueles que não citei aqui, sempre fica alguém fora da lista, a memória é traiçoeira. Na verdade, adorei a turma toda.
Por falar em instrutor, os professores da prática, deixaram saudades. Cada um a seu estilo, foi deixando uma contribuição para meu desempenho culinário e meu crescimento pessoal. Ainda bem que, com boa parte deles, ainda tenho contato, por e-mail ou telefone. Sei que brevemente vai rolar um novo reencontro. O curso consiste no seguinte. Na Casa do Comércio, um dos prédios do Senac de Salvador, na Avenida Tancredo Neves, bairro da Pituba, tem um restaurante internacional homônimo, que funciona como uma escola. Seus funcionários, além dos instrutores, são os alunos. Cozinheiro, garçon, bar-man, enfim, alunos da área. Primeiro você passa um mês com aulas teóricas extremamente importantes para quem quer se profissionalizar. É aí que se estuda normas de segurança, higiene, administração, ética profissional, nutrição e tudo que diga respeito ao universo de um restaurante. Vencida esta etapa, começa a parte pela qual todos ficam ansiosos, a prática. Aí você vira um funcionário da casa, só que, sob a batuta dos instrutores e sendo avaliado a cada instante, sobre todos os aspectos. A cozinha é uma Babilônia, uma utopia. Imensa e super equipada, é dividida pelo que lá, eles denominam praças. Cada uma com a sua finalidade específica. A turma se divide em duplas que passam quinze dias em cada uma delas. Açougue, onde se trata e tempera as carnes, aves e peixes. Garde-Manger, onde se confeccionam as saladas e os frios. Lá se aprende muito também sobre decoração de pratos, esculturas em frutas e etc. Nesta parte, diga-se de passagem, fui, e sou, uma negação total. Patissaria, responsável pelas massas, pães e sobremesas. Rotisseria, onde se preparam os grelhados, e o Saucier, boneca dos olhos de todos os alunos, responsável pelos molhos e a montagem final dos pratos. Vale salientar, que tudo que se faz ali, vai ser servido aos clientes de um restaurante internacional, aberto ao público, com uma grande reputação na cidade, ou seja, uma responsabilidade e tanto.
Correndo por fora, a última praça, a Família. Lá se prepara a refeição de todos os alunos e funcionários da Casa do Comércio, que é servida das 18:30hs às 20:00hs. Aí você aprende a diferença entre fazer um almoço pra família ou amigos e cozinhar para trezentas pessoas. É lá que uma pitada de sal pode significar uma mão cheia, que uma ajudazinha ao instrutor pode significar: - Adriano, vá na câmara, pegue 10kg de batada, lave, descasque e corte em pedaços. Haja coluna, haja calo nas mãos, haja quilômetros andando da praça para a câmara, da câmara para a praça, da praça para o refeitório e por aí vai... Como já falei antes, o lugar é imenso. Valeu. É o que posso falar. É a praça mais detestada pelos alunos, pra mim no entanto, foi uma das mais importantes. Primeiro porque me deu muito mais segurança em enfrentar grandes eventos. Segundo porque nela, tive a oportunidade de conhecer Jaime, seu instrutor. Uma figura maravilhosa que, além de muito me ensinar, me deu as maiores oportunidades de ser eu mesmo, dentro daquela cozinha. É até injustiça falar assim de Jaime e deixar os outros de lado. Como disse, todos ao seu estilo, tiveram importância fundamental na minha experiência. Adriano, que descobri durante o curso, ter sido meu aluno de matemática no 2º grau. Edvaldo, o mais engraçado. Vieira o mais casquinha. Uelsimar, o mais sério. Todos estes, junto com Adolfo, viraram companheiros de madrugada. Após uma noite exaustiva de trabalho, nada como uma geladinha no Mercado do Rio Vermelho para relaxar e trocar mais experiências. E ainda, Cristiano, instrutor da cozinha didática. Uma sala-de-aula-cozinha, onde a gente aprende elementos que não fazem parte do cardápio do restaurante. Comida italiana, baiana, saladas e etc. Foi ele quem fez o um dos acarajés mais gostosos que já comi. O interessante é que participamos do preparo, desde o trato do feijão, passando pelo bater da massa, à modelagem do bolinho, até a sua fritura. E, por fim, Mestre Bispo. O chefe de todos, por isso mesmo, o mais exigente. No fundo, aquela cara fechada, esconde um coração enorme, uma pessoa doce e adorável.
Foram meses maravilhosos que guardo na lembrança com muito carinho. Muito me valeram as experiências que vivi ali. Não posso dizer que aprendi a cozinhar no SENAC, lá já cheguei com uma base fundamental, que foi tudo pra mim: a escola de Mame Blue. Mas, sem dúvida, me fez melhorar muito. Por isso, não podia deixar de registrar aqui, a minha história na Casa do Comércio.

O VELHO MOLONGU DE SANTA INÊS

Poema do meu avô paterno, José Ribeiro de Almeida.

O vento iconoclasta desta vez
Abate numa estupidez bravia
O velho molongu de Santa Inês

Osculada por sóis e por luares
À fronde majestosa se devia
O respeito das coisas seculares

Confidente do povo, enorme amigo
Coisas boas e más, ele assistiu
Nunca as disse, guardou, levou consigo
Confidências inúmeras que ouviu

Dava sombra a felizes e infelizes
E agora, expondo ao sol velhas raízes
Um vendaval tremendo o derrubou

Aqui, neste recanto da república
Mais outra testemunha em praça pública
De coisas que o passado carregou

Deixa saudades esta árvore imponente
Que passou por aqui fazendo o bem
A guardar os segredos desta gente
Que não guarda segredos de ninguém

Agora, após consultar o Aurélio, depois de trinta e oito anos, descobri que o nome da árvore é Molongó e não Molongu. Só que, cresci com esse som, e não vou mudá-lo assim, por mais que os letrados me provem o contrário. Esta árvore, extremamente frondosa, era ponto de encontro dos habitantes de Santa Inês, cidade do interior baiano que, em outros tempos, era a sede do distrito Olhos D´Água, hoje a cidade Cravolândia, terra natal do meu avô Zé Ribeiro e do meu pai. Um dia, um tremendo vendaval botou-a no chão. Este fato, inspirou os versos deste poema.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

VONTADE DE SER POETA

Nunca escrevi um poema. Por mais que goste do estilo, não consigo. Embora nascido numa família onde a poesia sempre esteve presente, me falta talento para tal.

A maioria dos poemas que li, não entendi o sentido. Porém, a sonoridade me fascina. É como música, bateu no ouvido já foi. Embora Márcio Borges diga em seu magnífico livro, “Os Sonhos Não Envelhecem”, procurar sentido em poesia é coisa de louco, de despreparado. O pior é que eu sou um deles. Procuro, não acho, e, mesmo assim, me fascino.

Neto de um grande poeta, José Ribeiro, anônimo, mas nem por isso deixa de ser grande, irmão mais novo de outro de grande quilate, Edmundo Carôso, que por sinal, muito tentou estimular minha veia literária para tal caminho, não houve jeito. Não nasci com esse dom.

Me aventurei em algumas letras de músicas, aproveitando a chance que corajosos parceiros me deram, dentre eles Márcio Valverde e, outro irmão, Luciano Carôso, foram os que tiveram mais resignação comigo, meu futuro com as palavras não foi muito promissor. Ou melhor, não foi nada. Só que eu sou um sujeito ousado e teimoso, ainda vou publicar aqui algumas das minhas aventuras letristas e, um dia quem sabe, um poema meu. Enquanto isso...mando poemas de outras pessoas, desde que me toquem e sensibilizem, sempre, é claro, dando o crédito ao autor de tais versos.

MEU BLOG

Muito resisti ao orkut e aos blogs da vida. Achava que isto não passava de coisas de desocupados, a fim de revirar a vida alheia. Algum dia, a gente tem que rever nossos conceitos. Alertado por Luciano e Edmundo, meus irmãos, e mais uma gama de amigos sérios, percebi que, como todo lugar, nestes ambientes se encontra de tudo. Gente fútil, buscando fofocas, sexo, ou outras baixarias inúteis, a pessoas idôneas que utilizam estes espaços como forma de socialização, entretenimento, cultura e lazer. Tive que me render. O blog é um instrumento fantástico, uma grande diversão, uma fonte de amizades. Assim sendo, após o convite de Luciano para colaborar no seu blog, o cozinhar faz bem, resolvi fazer o meu próprio. Não sei que rumo isto vai tomar. Aonde ele vai parar. Minha intenção inicial é apenas diversão. Uma diversão séria, onde possa expressar minhas idéias, publicar os textos que às vezes escrevo como passa-tempo, fotos e experiências de vida e outras cositas más.
Escrevendo para o cozinhar faz bem, descobri o prazer de interagir com o mundo virtual. Depois que uma receita postada por mim foi posta em prática por um argentino que nunca vi na vida, que me pediu conselhos e dicas sobre tal prato, que outra foi comentada por uma italiana que nem fala nossa língua, percebi o imenso poder desta rede que, se bem usada, pode ser de grande utilidade e magnitude.
Agora me aventuro neste blog. De forma descontraída e relaxada. Quem gostar vai ler, quem não gostar vai ignorar, pra mim tanto faz. Ele é muito mais pra mim mesmo do que para outros. Se tiver o poder de arregimentar admiradores legal, se não, vou me deliciar assim mesmo, deixando de ser anônimo, mesmo que, só a minha pessoa*, visite esta página.

*Expressão roubada da minha querida amiga Glauce. Um exemplo de quem sabe usar este espaço de forma decente.