Conta a piada que um certo vendedor, desesperado pela grande maré de azar que atravessava, há meses não preenchia uma folha no seu talão de pedidos, resolveu não trabalhar naquele dia e vagava pela praia procurando espairecer. De repente, uma dor lancinante. Descalço que estava, topara com toda força num objeto metálico e quente por causa do sol em brasa. Depois de proferir palavrões inenarráveis, abaixou-se para acariciar o dedão na vã tentativa de aplacar a dor. Neste momento observou que o tal objeto, nada mais era que a lâmpada perdida por Aladim. Sem titubear, alisou o objeto mágico libertando o Gênio de séculos de prisão.
-O senhor é meu amo, pois me libertou. Com isso terá direito a três pedidos.
-Um minutinho só, enquanto vou correndo no carro buscar o talão.
Não sei se por coincidência ou por capricho do destino, veio parar na minha mão por empréstimo, o livro O Vendedor de Sonhos de Augusto Cury, justamente no momento que acabo de me tornar um vendedor, não de sonhos, não tenho tal pretensão, mas de remédios e produtos de farmácia. Ainda não descobri o que esse maravilhoso livro, pude perceber isso pelo pouco que li até agora, terá relação com minha nova atividade. Mas uma história destas, contada de maneira tão deliciosa, com ensinamentos profundos, com certeza terá sua contribuição no meu engrandecimento nesta nova jornada.
Ainda não tinha contado isto a vocês, mas depois de um ano desempregado, acumulando dívidas e à beira do desespero, me apareceu esta oportunidade que agarrei com mãos, pés, boca e tudo mais que sirva para agarrar alguma coisa. Vale lembrar que isto foi uma mudança radical na minha vida. Primeiro porque tive que me mudar. Agora fixei residência em Serrinha, a 170 km de Salvador, para poder atender a região que darei cobertura, o sertão baiano, na área da produção de sisal. São muitas cidades que visito semanalmente: a partir de Serrinha, que também faz parte do meu setor, vem: Teofilândia, Araci, Jorrinho, Caldas do Jorro, Tucano, Quijingue, Euclides da Cunha, Uauá, Canudos, Monte Santo, Cansanção, Nordestina, Queimadas, Santa Luz, Valente, Retirolândia, Conceição do Coité, até chegar novamente a Serrinha, perfazendo uma ferradura de mais de 600 km de extensão.
Depois, tem o fato de nunca eu ter tido experiência com vendas e não entender praticamente nada de medicamentos e suas substâncias com nomes estrambólicos, parecidos, muitas vezes, e de difícil assimilação. Com isso, venho dando muitas cabeçadas, mas, depois de quase três semanas de atividade, acho que estou me saindo até bem, numa otimista auto-avaliação. Este é um dos motivos, sem querer aqui dar nenhuma desculpa esfarrapada pelo meu desaparecimento do mundo maravilhoso dos blogs. A verdade é que pouco estou podendo acessar a net. Trabalhando quase 13 horas por dia, perambulando por cidades que, na sua maioria, não tem internet nos hotéis, como é o caso de agora que escrevo sozinho, num aconchegante, limpo e agradável quarto de hotel em Santa Luz, ficou mais difícil de escrever coisas novas, ler meus autores blogueiros prediletos e, principalmente, comentar nas suas maravilhosas postagens.
Bem, voltando ao vendedor, não consigo descrever a sensação sentida quando por fim, gastei a primeira folha do meu talão de pedidos. Foi deslumbrante, mesmo tendo sido um pedido pouco acima do pedido mínimo e longe de ser um bom pedido. Quase tremia ao preencher aquelas poucas linhas com quantidades, nomes confusos e pouca compreensão. Como um bom sinal, foi no meu primeiro dia de trabalho. Segundo os experientes da área, isto não é fácil. Ponto pra mim. É claro que venho dando minhas cabeçadas, mas aos poucos estou encontrando meu estilo, minha forma de vender. Não sonhos, estes vou tendo enquanto dirijo sob o sol escaldante do sertão baiano, suado nas roupas quentes e apresentáveis que agora sou obrigado a usar, mas os Diclofenacos, Losartanas, Fluoxetinas, Cloridratos e tantos outros acos, anas e inas da vida, pagando propinas a guardas rodoviários para não me multarem por causa das duas linhas de vidro trincado no pára-brisa do meu carro, que a precária situação financeira não me deixou trocar.
Já foram várias as garfes que cometi. Como perguntar ao cliente o fabricante de determinado remédio mais conhecido que o Papa e ouvi dele: -Já vi que você é marinheiro de primeira viagem. –Sim. Respondi. –Porém, não conheço nenhum marinheiro experiente que não tenha dado a primeira viagem ou alguém que aprendeu a nadar sem se jogar pela primeira vez na água. Semana passada, eu cometi uma outra que me deixou muito envergonhado. Depois de conhecer, num pequeno intervalo de tempo, mais de cem pessoas, cometi a imprudência de confiar na memória. Entrei num estabelecimento, sem consultar minhas anotações, que já tinha visitado na semana anterior e chamei sua dona pelo nome.
-Como vai Dona Maria Luiza?
-Bem, mas me chamo Rita de Cássia.
Desconsertado falei a primeira bobagem que me veio na cabeça:
-Maria Luiza e Rita de Cássia? É quase a mesma coisa, chega até a rimar.
Era a cidade de Queimadas, onde até hoje eu não tinha tirado nenhum pedido. É claro que a senhora não comprou nada em minha mão, por mais que eu tentasse me redimir. No lugar dela eu também não compraria.
- Não se zangue comigo D. Rita. Conheci muitas pessoas nos últimos dias e fica difícil gravar o nome de todas. Tire um pedidozinho com seu amigo, para batizá-lo na cidade. Ainda não vendi nada aqui em Queimadas. Preciso mandar o leite da menina.
-Não foi nada Adriano. Não tem nada a ver com isso. Estou sem faltas, já pedi o que precisava com outros representantes. Quem sabe na próxima semana.
Não botei muita fé. Aquelas palavras foi o que eu mais tinha ouvido nos últimos dias. Fui embora desolado sem vender um comprimido na cidade. Hoje, estava retornando à Queimadas e, entrando na cidade, alguns versos surgiram de repente na minha cabeça quase a porta da farmácia da simpática senhora. Então não titubeei. Desci do carro e entrei no estabelecimento falando:
O que D. Rita de Cássia precisa
É tirar um pedido com Adriano
Para que este não cometa o engano
De chamar-lhe Maria Luiza
E aí D. Rita de Cássia?
Flor das acácias de terras amadas
Minha caneta está pronta
Pra marcar na sua ponta
Meu batismo em Queimadas.
Ela riu, olhou meu catálogo e fez um gordo pedido. Mais um ponto para mim. Quem sabe um dia eu chego lá? Eu acredito e continuo sonhando.
O susto é o prenúncio do medo
O medo que está por vir
Ou aquele que já veio?
Do veio porvir
Porventura
A cura do medo
Segredo sem farol
Labareda no teu seio
Alimento na ponta do anzol
Assombração entre o arvoredo
Medo, medo, medo
Segredo, segredo, segredo
Arvoredo, arvoredo, arvoredo
Ventura, ventura, ventura
A cura, a cura, a cura
Pura, pura, pura
Assombração entre o arvoredo
Alimento na ponta do anzol
Labareda no teu seio
Segredo sem farol
A cura do medo
Porventura
Do veio porvir
Ou aquele que já veio?
O medo que está por vir
O susto é o prenúncio do medo
-Diga aí freguês? -Baiana, vê um com e um sem pra viage. -Bota pimenta? -Tá muito retada? -Tá boa. -Então bota como se o cu fosse seu. Tem guaraná? -Sim. Tem coca, fanta, fanta uva e soda. -Bota uma coca pra viage também. Sabe dizer onde eu pego o buzu pra Muriçoca? -Faz o arrodeio a direita. Ele passa na pista de lá. -Costuma demorar? -Demora pra caralho. Só passa de caju em caju. -Ôto dia peguei esse buzu e o motô botou pra fudê. Corria virado na nisgraça, acho que tava comeno água. -Esses corno num respeita a gente. Leva o buzu como se fosse fusca. Ôto dia o motô fez uma curva virado na porra e derramou meu balaio todo. -Filho da puta! Porque você num mandou ele pra casa da porra? -É que tava na pendura, num podia reclamar. Cê sabe né, as vez a gente pega carona. -Cê tava indo pronde? -Da Curva Grande pro Pau Miúdo. -Ah! Longe pra porra. -O pior né isso. O buzu tava intupido e tinha um viado fazeno terra em mim. Mandei o sujeito tomar no lugar que galo gosta. Que falta de respeito! -Pois é baiana. O povo num respeita mais nada. É foda! Cê já viu que tem um carioca trabalhano na padaria de seu Nonô? -Vi, acho que ele é meio tiziu do peito seco. -Pois é. O sacana ficou rino da minha cara porque pedi uma vara e dois cassetinho, pode? -Pode não batera, quem essa bicha pensa que é? -Sei lá. Aquela coca é fanta mesmo. -Tô indo baiana. Vou levá o acarajé da nêga antes que isfrie. Ah! Bota uma punheta também. Quanto é? -Seis real. -Bota no prego baiana. De hoje a oito eu te pago.
P.S. Este texto é quase uma transcrição literal de um diálogo que ouvi ontem entre a baiana e um cliente quando fui comprar um acarajé.
Glossário de Regionalismos
Diga aí freguês: Saudação de comerciante, principalmente feirante, camelôs e baianas de acrajé, aos seus clientes. Baiana: Vendedora de acarajé. Um com, um sem: Acarajé com e sem camarão. Muito retada: Muito forte, ardendo demais. Como se o cu fosse seu: pouca pimenta. Guaraná: Para o baiano guaraná é sinônimo de refrigerante. Viage: Viagem. Buzu: Ônibus coletivo. Muriçoca: Pernilongo. Neste caso alusão ao Vale da Muriçoca que liga o bairro da Federação a Av. Vasco da Gama em Salvador. Arrodeio: Retorno. Pra caralho: Muito. De caju em caju: De quando em vez, espaçadamente. Ôto: Outro. Nisgraça: Desgraça. Comeno água: Fazendo uso de bebida alcoólica. Motô: Motorista. Virado na Porra: Forte, nervoso, com muita intensidade. Balaio: Cesto grande trançado de vime ou cipó. Na Pendura: Fiado ou de graça. Num: Não Cê: Você. Pronde: Para onde. Curva Grande: Ladeira no bairro do Garcia em Salvador. Pau Miúdo: Bairro de Salvador. Intupido: Muito cheio, entupido. Fazeno terra: Roçar por trás nas pessoas. No lugar que galo gosta: No cu. Trabalhano: Trabalhando. Tizio do peito seco: Homossexual. Rino: Rindo. Vara: Pão francês 200g. Cassetinho: Pão francês 50g. Batera: Amigo, parceiro. Aquela coca é fanta: O rapaz é gay. Nêga: Esposa, namorada, amante. Isfriar: Esfriar. Punheta: Bolinho frito de tapioca coberto com açúcar e canela em pó. Também conhecido como bolinho de estudante. Botar no prego: Pendurar, fazer fiado. De hoje a oito: Daqui a uma semana.
Eu escrevi bilhetes de amor. Escrevi linhas que falavam da minha angústia e do meu desespero. Escrevi cartas com mentiras e verdades tentando aproximar o meu eu da minha razão. Eu fui fundo nas palavras dos bilhetes não lidos. Esquecidos na porta da geladeira. Como aquele que avisava para desligarem o fogo do feijão antes do incêndio consumado. Eu escrevi bilhetes conotativos com idéias desencontradas e palavras sem sentido, cujos significados desconotativavam o resumo da história. Escrevi bilhetes sem memórias ou lembranças. Sem esperanças, sem pudores. Falava dos meus amores como falo de futebol. Escrevi bilhetes não postados, esquecidos nas gavetas e escaninhos de um cérebro em colapso. Fui relapso, preguiçoso, fui fugaz.
Recebi bilhete azul me apontando a porta da saída. Na hora da despedida um bilhete de apoio e consolo. Li bilhetes de artistas nos versos das canções. Bilhetes de corações apaixonados. Cartas quilométricas desconsiderando a distância entre seus destinatários. Bilhetes com relicários e um passado no papel. Bilhetes de uma vida, uma encarnação não lembrada, nas sessões de regressão no divã de um analista. Um que veio do florista com as rosas vermelhas e amarelas. Este estava perfumado. Bilhetes deixados na mesa, nos correios, no caderno ou no bolso. Bilhetes, bilhetes, bilhetes, que teimo em ler ou escrever com a caneta já falhando. A tinta acabando no bilhete que deixo agora supurando a ferida. Não conto a minha história, só me despeço da vida.
"As vezes sinto uma vontade enorme de trabalhar. Aí, vou para um canto quietinho, fico lá deitadinho, esperando a vontade passar." Autor Desconhecido
Dizem que baiano é preguiçoso. Nunca vi uma mentira maior. O baiano é um povo trabalhador e disposto, mesmo sendo festeiro. Acho que o percursor desta bobagem foi o genial Dorival Caymmi. Preguiçoso de marcar maior, com sua música universal, propagou esta fama mundo afora. Só que a verdade é bem diferente. Mas não foi sobre isto que vim aqui falar.
Poderia dar um monte de desculpas, falar de falta de tempo, de compromissos inadiáveis, uma fictícia L.E.R. ou algo do tipo, para justificar o longo período de silêncio deste espaço sem qualquer satisfação. No entanto vou falar a pura verdade. Nos últimos tempos me baixou o caboclo Dorival e eu fiquei com uma preguiça danada. Uma preguiça baiana. Fiquei como o cidadão da ilustração acima, esperando a vontade passar. Fui também acometido de um banzo que tentou minar as minhas forças, mas renasço das cinzas para voltar a postar aqui e nos outros espaços que participo. Espero que os caros leitores perdoem-me a ausência e não abandonem este baiano que de preguiçoso não tem nada, mas às vezes tambem tem direito a uma rede. Obrigado.
P.S. A partir do próximo domingo, darei continuidade a história "O Caminho de Volta".
O discurso etílico de mesa de bar às vezes produz algumas pérolas. Ontem de madrugada fui com uns amigos ao aeroporto esperar meu compadre Zé Filho que veio do Pará passar alguns dias na boa terra. De lá fomos a um barzinho tomar umas geladas e comer uma bela feijoada. Depois de muitas cervejas, meu amigo Goiabão já não conseguia pronunciar corretamente uma palavra sequer chapado que estava. Mas, na hora de contar este "causo" articulou tudo direitinho para delírio dos bêbados a sua volta que deram muitas risadas, incluindo este que vos fala. A autoria é desconhecida, mas vale o registro.
"Um sujeito entra no restaurante, senta e chama a garçonete pelo nome: -Filomena faça favor! -Pois não senhor o que deseja? -Fineza fazer frango frito. -Algum acompanhamento? -Farofa e fritas. -Quer algo para beber? -Frisante. Depois de comer, a solícita garçonete pergunta: -Está satisfeito? Quer mais alguma coisa para comer? -Filé e fígado. -Para acompanhar? -Feijão e farinha. Quando acabou o segundo prato, Filomena perguntou ao senhor: -Aceita alguma sobremesa: -Frutas frescas. Ela trouxe a fruta junto com um copo de água e um cafezinho. Ao tomar o café o senhor fez uma cara horrível. -O que foi, não está bom o café? -Frio e fraco. -E como o senhor gosta? -Forte e fervendo. -Desculpe amigo, qual o seu nome? -Francisco Fernandes Fontoura Figueira Filho. -Qua a sua profissão? -Fui ferreiro. -E porque não é mais? -Faltou ferro. -E o que o senhor fazia? -Faca, faquinha, facão, fechadura, ferrolho, ferro fundido, funil... -E agora depois de aposentado como o senhor se sente? -Feio, fodido e falido. -Tudo bem seu Fernandes. Se o senhor falar mais seis palavras começadas com F não vai pagar a conta. -Formidável! Ficando fiado fico freguês. Ao falar isto, se levantou e saiu sem pagar a despesa. Filomena, percebendo o erro do moço gritou: -Seu Fernandes, o Sr. disse apenas cinco palavras. -Foda-se Filomena!"
Nós filhas muitas vezes brigamos Com nossas mães E, às vezes pensamos, Como seriam nossas vidas sem elas? Eu achei a resposta. Nada seriam porque as amamos, Todas elas E, às vezes pensamos As amamos tanto Que mesmo quando elas brigam Ainda assim a gente gosta.
E vocês mães sabem que amamos muito Mesmo sendo de um jeito esquisito Mesmo desobedientes, isto é o amor E, como uma flor, Ele é sempre bonito
Minha mãezinha querida Hoje acordei com vontade De falar que a amo tanto No teu dia especial e dedicado Mas para mim não existe dia melhor Para mostrar minha felicidade, Desfrutar do teu encanto, Que quando estou ao teu lado.
Quero fazer contigo o meu traçado E assim construir a minha trilha Ver seu amor a mim dedicado Para que eu não me fira ou me arranhe Sermos juntas um só bocado Ser pra sempre tua filha Ter-te sempre minha mãe.
Mãe, parabéns pelo seu dia!
Dedicado a Cynthia Lopes Pinto
P.S. Dedico também esse post a todas as mães do mundo em especial a minha, Lourdes, a D. Leonor, minha sogra, a D. Maria Helena, avó de Júlia, a minha irmã Sílvia, a Elisângela, a Sandra, a Socorro e a Lai, que ainda não é mãe, mas isto não será por muito tempo.
Domingo passado, eu entrei numa aventura sem igual. Não iria contar aqui, mas como meu irmão, se aproveitando da infinita vantagem que o fato lhe dá, está escancarando em seu blog, mentiras escabrosas, resolvi contar a verdade dos fatos para que vocês, queridos leitores, leiam as duas versões e tirem as próprias conclusões. Eu sou um grande admirador de contistas. Daquelas pessoas que têm o talento de pegar uma história real e transformar num conto de carochinhas. De prender o leitor como se aquilo fosse o maior romance do mundo. Edmundo é mestre nisto, mas nada lhe dá o direito de falar tamanhas inverdades ao meu respeito. Até porque, sou torcedor do Bahia desde que tinha sete anos de idade, e ele, bem mais velho que eu, achava que futebol era coisa de maluco. Cansei de o ver falar que ouvir um jogo no rádio, além de lhe dar uma profunda depressão, era coisa de quem tinha de se internar. Pois é, eu não me internei e muita crítica sofri por causa disto. Até que o tal, depois de entrar na fase dos enta, foi trabalhar no Vitória(leia vicetória,com letra minúscula e tudo). O cara virou, da noite para o dia, o maior rubro negro que já conheci. E o maior pirracento também. Coisa que sempre fui, independente o assunto, seja futebol ou mulher, física quântica ou poesia, por causa de tudo que aprendi com ele, que sempre foi um espelho e ídolo pra mim. Mas, resumindo a narração, vamos aos fatos reais.
Sábado, 02 de maio, era meu aniversário e eu, a contive de meu pai, fui para o interior comemorar. Edmundo, sabido de marca maior, que conhece minhas fraquezas como ninguém, me ligou e disse: -Velho Diu! Tenho dois ingressos para o Ba-Vi. Se você quiser me dar uma carona, já que meu carro está parado por causa da batida, te dou o outro pra gente ir junto. Eu falei: -Tedinho não sei, vou pra Serrinha na carona de Ruy e não sei que hora ele volta no domingo. Vai ter o churrasco do meu aniversário, boca livre que meu pai tá bancando e isso eu não quero perder. Se Ruy voltar cedo eu vou com você. Ele, sabendo como me influenciar desde que eu nasci, disse: -Eu não posso garantir nada, se você não vier, vou fazer um plano B. Acho outro amigo, talvez um Vitória, que queira ir comigo, ingresso de graça e tudo o mais e aí não posso garantir nada. Meu orgulho foi às alturas e me deu vontade de mandá-lo tomar banho para não dizer outra coisa. Mas, como até então eu precisava dele, preferi ficar calado.
E, com medo de perder a boca livre do estádio, ou por saber que ele não queria amigo nenhum, Vitória ou Bahia, e sim o irmão de quem estava morrendo de saudade, do interior o liguei e falei: -Não marca nada com ninguém. Se Ruy não for cedo, vou embora de ônibus e chego no horário do jogo. O filho da puta falou: - Venha almoçar aqui em casa. Vou fazer um rango, a gente come e vai pro estádio depois. Eu disse: -Ôpa, muito bom. Como seu rango depois vamos pro jogo, assim não preciso gastar a grana para comer na rua. Nos 170kms que me separavam de Salvador, ele me ligou três vezes, querendo saber onde eu estava e se ia mesmo cumprir o nosso combinado. Eu sempre falando que estava chegando.
Parei na porta de casa ao meio dia na carona gratuita de Ruy. Nem me despedi direito, subi, botei a camisa do Bahia, como chovia muito e fazia frio, pus o gorro também. Peguei meu carro e fui filar o feijão na casa do carcamano. Chegando lá ele falou: -Meu coração tá apertado, algo me diz pra não irmos pro estádio. -Que nada, vim de viagem tão cedo, agora vai amarelar? No fundo eu estava com o mesmo sentimento. Algo me dizia para não ir. Comemos o feijão, maravilhoso por sinal, e saímos pro campo. Eu ainda o chamei para tomar uma, mas ele, cheio de mania que é, disse que só beberia do meio do segundo tempo pra frente. Eu achei pertinente.
Eu precisava comprar pilhas para o meu rádio e Edmundo queria que eu comprasse no mercadinho do condomínio dele. Lá só tinha pilha da bala, alcalina de R$ 4,25. Eu que comprei meu radinho por R$ 5,00 no camelô da Fonte Nova, não aceitei pagar. Disse: - Vou comprar no camelô a paraguaia por R$1,00. Ele falou: - Vendedor de rádio e pilha é que não vai faltar nas redondezas do estádio.
No caminho para o estádio, ele o tempo todo falava: -Vamos voltar, ouvimos o jogo pelo rádio tomando uma lá em Gil(um bar em seu condomínio), não tomamos chuva e, independente do resultado, estou preocupado com você. Todo fantasiado de Bahia. Até nos encontrarmos na volta do jogo, você voltará na contra-mão da torcida do Vitória, que estará alegre ou feliz, mas com certeza a fim de brigar. Vi que o cara tinha total razão, ainda quero escrever sobre isso. As torcidas estão transformando um lazer numa guerra. Uma diversão numa tortura. Paramos no estacionamento, pagamos R$ 5,00, comprei uma capa de chuva por mais R$ 5,00, e fomos em direção ao estádio. Não havia um vendedor de pilhas sequer. Fomos até depios do campo e voltamos e nada. No caminho, eu fantasiado de Bahia, ele de Vitória, cruzamos com um grupo de torcedores rubro-negros. Uns quinze mais ou menos. Quando me viram com a camisa do Bahia cantaram: "Camisa feia, cheia de cor, todo viado que conheço é tricolor!" Eu tremi na base. Imaginei a cena que Edmundo havia descrito. Eu voltando na contra-mão da torcida. Não importava o resultado. Estava ali para tomar no cu, além de porrada é claro. Comecei a temer pela minha sorte. Aí resolvi aceitar a sua proposta. Voltar para casa. Mas aí ele começou a tirar onda. Já tá aqui, voltar pra que? Foi aí que Deus intercedeu.
Naquele momento, caiu um toró torrencial. Foi o motivo que achei para convencer o cara. Vale lembrar que, no meio do engarrafamento monstro que pegamos, tinha uma campanha de vacinação contra gripe. Os agentes nos convenceram a tomar a vacina. Ele desceu primeiro enquanto eu tentava encostar o carro. Ouvi a agente falando pra ele: -O Sr. Vai tomando a vacina enquanto seu filho estaciona. Toma filho da puta! Mesmo assim voltou ele cartando que eu era torcedor W.O. Pôs até esse título no seu post. Ou seja, que eu tinha corrido do pau. Mas ele topou. Naquele momento, nem imaginávamos ainda que o jogo iria passar na tv, ao vivo para todo mundo. Fomos pra Gil e assistimos ao jogo na televisão devidamente protegidos do torrencial dilúvio que caiu sobre o Barradão, mais conhecido como Barralixo.
O Bahia precisava ganhar por uma diferença de dois gols para ser campeão. Edmundo já havia falado que não gostaria que nossa rivalidade esportiva transformasse aqule encontro fraternal numa briga de família. Fizemos este pacto então. O jogo começou e logo aos 14min o Baêa meteu 1x0. Edmundo ficou logo emburrado. Mais tarde começou a reclamar de uma falta que o juiz não marcou. Eu falei: - Quem não sabe brincar não desce pro play. Infeliz idéia esta minha. Ele, que não conhecia o ditado, tomou aquilo como pirraça. Nos descontos do primeiro tempo, aos 46min, o Baêa broca de novo: 2x0. Placar do primeiro tempo. Eu, já me sentindo o campeão, entoei uns versos de uma paródia que fiz com o hino do Vitória, fazendo alusão ao fato do time nunca ter sido campeão brasileiro. Eu já fui duas.
Eu sou, um time sem glória Não tenho história, nem tradição Eu sou, sou o vicetória E nunca fui um campeão
No segundo tempo tudo mudou de figura. O vitória, que jogava pior que o Bahia, fez 2X1 e em seguida empatou o jogo. A cada lance Edmundo falava: - Quem não sabe brincar não desce pro play. Quando o jogo acabou ele ligou para o filho e contou a mesma cantilena: - Quem não sabe brincar, não desce pro play. Mesmo assim tomamos amigavelmente mais um lote de cerveja até que fui para casa.
Segunda, quando acordei na maior ressaca, recebi um recado do meu sobrinho Pablo, filho de Edmundo, que havia ligado e dizia: - Quem não sabe brincar, não desce pro play.
Lã "Poema de Nelson Elias sobre melodia de Márcio Valverde"
Deixei-a naquela esquina Como se bem não amara mais Requinte das vaidades Dos olhos pingam saudades E as mãos num sem-que-fazer Passam horas a tecer A falta que ela me faz É ofício de rendeira Um bilro, um fio, um ponto, um laço Desmancho tudo que faço E nem desfaço, refaço Pra dar o que fazer as mãos Tecendo seu agasalho Em fios de lã de saudade Capote, manta, ilusão.
Sabe quando você perde a ponta do durex? Parece uma bobagem, mas às vezes isso nos consome por um longo tempo. Já se pegou gastando horas em busca da ponta de um novelo? Como começar o bordado se não sabe onde está ponta da linha? E se você não conhece o início imagine o seu fim? O fim da linha? Seu próprio fim? Ou será que você é o novelo emaranhado cuja ponta insiste em se ocultar e portanto não sabe que figura irá bordar? Como colar os pedaços da alma se a ponta da fita adesiva sumiu? É sempre possível fazer uma nova ponta com um estilete, é bem verdade. Mas não irá acabar a fita ao completar o seu arco até o corte? O mesmo não se dá com o novelo? Faça uma nova ponta com a tesoura e verá sua linha acabar antes mesmo da renda tomar forma. Aposentar as agulhas e bilros? Continuar despedaçado? Como tecer uma nova vida sem encontrar a ponta da lã?
São inúmeras as perguntas, infinitos os novelos e metros e metros de lã. São infinitas as formas de rendas, inacabáveis pedaços para colar. Onde estão as minhas pontas?
Aonde é o fundo do poço em que caí? Porque ele não chega logo? Me parece o fim da linha, Ou melhor, o início da água? Mas cadê ela? Porque será que não sinto meu corpo molhar? Parece uma queda sem fim Um abismo abissal Uma forma de morte Um espelho em frente a outro Nunca acaba esta visão Nunca acaba esta queda Este poço não tem fim. Mas eu caio firme Caio com a certeza de que fiz a minha parte Que deixei a minha arte Deixei o meu legado. Me sinto uma pena Que não pode contra o vento Não sabe onde vai parar. O que me espera lá no fundo? O que me reserva o mundo? Onde está o meu caminho? As vezes me sinto sozinho Mas sei que não estou Tenho amigos, tenho amor O que será que me falta? Madrugada já vai alta O sono não se aproxima Perdi a minha rima Perdi a inspiração Que venha a água do fundo Me lave que estou imundo Mas não me mate. Eu sei nadar!
Tem gente que é poeta e não sabe. Ainda por cima faz graça com isso. Quando meu amigo Luciano na adolescência, apaixonado que estava pela namorada, sua hoje esposa Cássia, escreveu estes versos, para ela, nem imaginava que estava fazendo um poema romântico e de muito valor. Hoje ele o recita para fazer piada, para os amigos darem risada. Sábado passado, quando estávamos reunidos na casa de Ruy, tomando um vinho e fazendo um jantar maravilhoso(só por curiosidade Bacalhau a Gomes de Sá e Camarão ao Pomodoro), ele o recitou. Todos riram. Eu fiquei emocionado. Parabéns Luciano.
O Crepúsculo da Bananeira Luciano Lubala
O luar clareia o pé de bananeira Mas, como eu não gosto de goiaba Roubaram minha bicicleta.