quarta-feira, 24 de outubro de 2007

EU DETESTO CIGARRO DE MENTA

Em 1983, com menos de catorze anos de idade, vim do interior para estudar na capital. Cheguei a Salvador complexado, me sentindo inferior. Fui estudar numa escola de classe média graças ao imenso sacrifício dos meus pais. Eu achava, naquela época, que todo mundo ali estava em melhor situação do que eu, mas depois fui descobrindo que a coisa não era bem assim.

Eu era magro, quase um esqueleto andante, pobre, do interior e tímido. Prato cheio pra quem quer se sentir menor, e eu me sentia assim. Na nova escola, observava bem os colegas sem, no entanto, me aproximar de nenhum deles. Foi aí que reparei numa menina que para mim era o que se podia chamar de bonita e gostosa, aliás, muito gostosa. Logo fiquei apaixonado, uma paixão platônica que durou uns três anos mais ou menos. Como todo otário, deixei que nascesse entre nós uma forte amizade, achando que assim, posteriormente, poderia conquistar o seu amor. Ledo engano. Nunca passou da amizade, mas hoje, muitos anos depois, sei que foi melhor assim. Afinal, não há nada na vida que supere o infinito valor de uma amizade sincera. Os verdadeiros amigos passam anos sem se ver e, quando se reencontram, parece que se viram na véspera. Nada mudou. Foi assim sábado passado, com a minha amiga Estér.

Fazia mais de três anos que não nos víamos nem nos falávamos. Como sempre aconteceu nas nossas vidas, sempre passamos longos períodos assim. Mesmo durante os muitos anos em que éramos quase vizinhos, ficamos deveras afastados. Aí ela me achou pelo orkut e combinamos de nos encontrar. Foi uma noite muito legal. Relembramos muitas histórias e agora vou contar algumas delas.

Ainda no início do ano letivo, quando ainda não havíamos nos aproximado muito, houve um fato que fez com que conversássemos pela primeira vez. Não foi nada bom. Também, raciocinando melhor, não foi uma conversa e sim um monólogo onde só ela falou. Na verdade, uma puta bronca onde ela descascou todas em cima de mim. Só faltou me chamar de ladrão. E bem que ela estaria no direito e coberta de razão já que o ato em que fui flagrado era literalmente um roubo. Naquela época eu estava começando a fumar e Estér era uma dos muitos fumantes que tinham na escola. Na hora do intervalo, por causa da minha timidez e falta de entrosamento, às vezes eu ficava na sala sozinho, estudando. Aí bateu uma vontade danada de fumar e, como eu não tinha cigarros, decidi pegar um dentro da sua bolsa que sabia eu, lá não faltaria. Abri a distinta e retirei o cigarro. Foi aí que Estér entrou na sala e me pegou com a boca na botija. Que vergonha!

Estér era uma aluna excelente. Passava direto em tudo. Uma fera em matemática e sabia tudo de inglês. Eu nunca fui um aluno ruim, mas em inglês era e sou até hoje uma negação. Foi aí que essa menina me deu uma prova absurda de sua amizade o do quanto gostava de mim, mesmo que não fosse da forma que eu esperava. Na reta final do ano letivo, meu desempenho em inglês estava fraquíssimo e a prova final era inevitável. Ela já vinha me dando aulas de reforço há um bom tempo, mas, nem eu nem ela acreditávamos que eu fosse conseguir passar de ano. Ela já estava quase passada, mas fez a loucura de quase tirar zero na última prova do ano pra ir pra final e poder me ajudar. Acreditem, ela não passou direto propositalmente para me dar pesca, ou cola, como preferirem na prova final. No dia da bendita sentamos em fila, ela na frente e eu atrás. Tremíamos de nervosismo pois tínhamos combinado que ela marcaria as questões antes de assinar e aí trocaríamos as provas. Não sei como conseguimos, mas deu tudo certo. O fiscal não viu e os colegas que presenciaram usaram a lei do silêncio que impera entre aqueles que sempre se utilizam de tal artifício. Ninguém dedurou a gente. Pra aumentar a minha vergonha, antes de dar o resultado, a professora me chamou para uma conversa reservada. Não consigo lembrar o nome dela. Aí ela falou:

- Adriano, sei que você é um menino correto, um aluno exemplar e que isto não é do seu feitio, mas estou desconfiada que você pescou na final.
Eu, muito surpreso, perguntei:
- Porque a senhora acha isto professora?
- É que sua nota foi muito alta e todo mundo sabe que inglês não é o seu forte.
- Foi por causa de Estér professora.
- Como assim?
- Ela tem me dado aulas de reforço durante toda última unidade. Me ajudou muito e estudei pra caramba.

Falava enquanto cruzava os dedos e mentalmente pedia perdão a Deus por este ato leviano e repulsivo. Até hoje carrego comigo este remorso, mas esta história valeu muitas gargalhadas na noite de sábado.

Teve uma que eu não lembrava, foi Estér quem falou pra aumentar o meu vexame. Um dia, sem coragem de me declarar, deixei uma carta apaixonada no meio das suas coisas. Não lembro do conteúdo, mas se bem me conheço, no auge da minha adolescência, deve ter sido extremamente romântica. A filha da puta achou a carta e ficou calada. Nunca comentou nada. Me deixou na maior dúvida, se ela não tinha achado ou se não queria nada comigo. Óbvio que era a segunda opção a correta.

A conversa rolou solta até quase meia-noite quando ela foi buscar sua filha numa festa. Bebemos um bocado de cerveja e, só pra variar, fumamos muito. A menina agora inventou uma moda de fumar cigarro de menta. Eu detesto, mas acabei fumando alguns só pra castigar o corpo. Essa menina me faz fazer cada coisa!

Bons tempos aqueles. Eu e Estér, envelhecemos, casamos, tivemos filhos, separamos, mas continuamos unidos por uma laço muito forte que, sem dúvida, veio de outras vidas. Eu gosto demais dessa loura, e não é de farmácia não, que contrariando todas as expectativas, de burra não tem nada. Valeu Estér! Até a próxima!

Um comentário:

Soffie * disse...

EULI, vc podia escrever um livro ._.