domingo, 4 de outubro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 10


Foram horas e horas de muito papo até os velhos amigos botarem as estórias em dia. Marcolino quis saber todos os detalhes da vinda de Antonio, ou melhor Joca, para Minuano. Não teve muito sucesso. Segundo Juca, o homem vivia praticamente em retiro, tinha pouco convívio social, e raramente vinha a cidade. O que se sabia ao certo é que mantinha estreita amizade com Padre Hermínio o amado pároco do lugar, que há anos comandava a paróquia da cidade. Foi justamente como sacristão da igreja, que José Carlos começara sua vida em Minuano. Atualmente tomava conta da fazenda do padre localizada há dois quilômetros da sede do distrito Passaredo e era ajudado por um dos seus cinco filhos, o mais velho, Zequinha. Quando chegou à cidade, a princípio sozinho, nos últimos meses do ano de 1972, tinha um aspecto muito diferente do homem que três anos antes tivera lá comprando a garota. Usava uma farta barba e cabelos compridos. Quando o vira pela primeira vez na igreja, Juca logo desconfiou que o conhecia de algum lugar, mas não conseguia lembrar exatamente de onde. Muito tempo se passou e nada de Bigodão lembrar de onde já vira aquele semblante. Mais ou menos um ano depois da chegada de Joca ao local, depois da missa matinal de domingo, Juca se aproximou do rapaz e o interpelou:
-Joca, há muito que quero te perguntar uma coisa. Tenho a clara impressão de já ter lhe visto antes, mas não consigo lembrar de onde.
-Com certeza o senhor nunca me viu. Sempre morei na Bahia na cidade onde Pe Hermínio morava e era sacristão da igreja dele por lá. Depois de muitos convites resolvi tentar a vida por estas bandas. Agora trouxe minha família.
-Mulher e filhos?
-Sim, seis filhos, mas dois estão com os avós na Bahia.
-Sabe Joca, tenho quase certeza que o conheço ou você parece muito com alguém que já vi antes, mas não consigo lembrar.
-Não senhor, deve estar havendo algum engano.
-Com certeza sim. Tenha um bom dia.
Juca não se conformou com as explicações do sacristão. Sentia um certo desconforto em suas palavras e isto o fez alimentar uma desconfiança gratuita por ele. Foram muitas as tentativas de reanimar a memória até que um dia desistiu.
Marcolino ouvia atentamente cada sílaba proferida pelo amigo.
-Continue Bigodão.
-Uma coisa me deixou mais intrigado ainda. Depois que interroguei o sujeito, ele passou a me evitar nas missas. Procurava não cruzar comigo e sempre virava o rosto para evitar meu olhar. Uns dois meses depois ele saiu da igreja, entrou um outro sacristão novinho e tive notícias que ele tinha ido tomar conta da fazenda que o padre acabara de comprar e por isso se mudara para Passaredo. Até que, pouco depois que o amigo tomou o chá de sumiço, ou seja uns oito anos depois que ele chegara aqui, o Pe Hermínio começou a organizar um jogo de futebol beneficente para os velhinhos e crianças da zona rural lá no campo da fazenda dele. Este evento acontece até hoje uma vez por ano. Os comerciantes e empresários da cidade patrocinam tudo. Tem um grande churrasco e um bingo de um grande prêmio. Às vezes motos, novilhas, já teve até carro. As cartelas são vendidas aos montes. É uma festa que movimenta toda a cidade. Mas eu tenho minhas dúvidas quanto a aplicação do dinheiro arrecadado.
-Você não tem jeito Juca, desconfia de todo mundo mesmo né Tchê?
-Bah Tchê! O homem tem um nível de vida muito alto. Carro novo, casa bonita, fazenda... Se bem que ele já tinha tudo isto antes de começar a organizar este evento. Dizem que ele é de uma família de muitas posses lá na Bahia. Aqui o sujeito é muito adorado.
-Então pare de difamar o pároco, amigo. O homem tá fazendo um trabalho social bonito e você levantando suspeitas.
-Bem, no primeiro ano desta festa, eu fui lá na fazenda ver o jogo e tentar a sorte no bingo. Lá pelas tantas eu vi o Joca tomando umas pinga num bar. Aí sentei pra conversar com ele. O cara já tava meio gambá e aquelas alturas já embolava a língua. Aproveitei sua situação e tentei mais uma vez perguntar de onde eu o conhecia. Não houve jeito dele falar nada, mas naquele dia percebi que sua barba estava mais baixa e seu rosto aparecia mais. Então me concentrei bastante no seu jeito de falar, nas suas feições e me lembrei. Foi aí que perguntei:
-Você conheceu Marcolino? – Ele ficou extremamente nervoso, gaguejou muito, falou um bocado de bobagem até responder que não. Não posso confirmar esta suspeita, não tenho como provar, mas dou minha cara a tapa se ele e Antonio não forem a mesma pessoa. E tem mais. Outra coisa que me intriga é a amizade dele com o padre. Veja se isto não é de se estranhar. Como ele soube da existência de uma criança na cidade cuja mãe morrera e o pai era um bêbado inveterado capaz de vender a própria filha? Alguém daqui o informou.
Neste momento as lágrimas rolaram mais uma vez no rosto de Marcolino. Juca percebeu a mancada que havia dado.
-Desculpe Marquinho, não quis ofender o amigo.
-Não se preocupe Juca. Você falou a pura verdade. Eu fui um crápula mesmo. É por isso que estou aqui, para tentar me redimir um pouco de tudo isto. Você acha então que o padre pode ter participado de tudo?
-Você não acha estranho, um ilustre desconhecido chega a cidade, compra uma menina e some. Três anos depois volta, vai trabalhar com o padre e é seu protegido. Todo mundo sabe disto, não é segredo para ninguém. Há quem fale até que eles têm mais que amizade.
-O povo também é fogo.
-Mas falam isso sim. Há quem diga que os dois são florzinha. Esta estória fica meio abafada porque Padre Hermínio é muito querido por aqui. Ajuda muita gente, faz muita caridade, mas se fala a boca pequena que enche Joca de presentes. Agora eu lhe pergunto, como ele soube da existência da menina? Não teria sido alguém da cidade que lhe deu o serviço?
-Mas se me lembro bem, Padre Hermínio tinha viajado para visitar familiares naquela época. Não estava na cidade.
-Isto só me deixa mais desconfiado. Acho que foi de propósito, para não levantar suspeitas.
-E porque o amigo deixou este assunto de lado? Não informou a polícia, por exemplo?
-Primeiro porque não tenho provas e segundo porque Gerusa deu queixa do amigo. Você lembra bem disto. Na época nada se pode provar e você só passou umas duas noites no xadrez. Mas com algo tão concreto poderia ter sido diferente e o amigo ficar numa situação complicada.
-Começo a achar que suas suspeitas têm fundamento Bigode. Preciso visitar este José Carlos. Como faço para encontrá-lo?
Juca ensinou a Marcolino como chegar a Joca. Os amigos conversaram muito, levantaram diversas hipóteses e Juca se comprometeu a ajudar o amigo.
Marcolino saiu do Bigodão com destino ao Hotel dos Pampas, recentemente inaugurado na cidade e foi muito bem recomendado por Juca. Seus pensamentos eram confusos, não conseguia articular as idéias, mas achava que o amigo tinha muita lógica nas suas suspeitas. Enquanto caminhava envolto nos seus pensamentos, ouviu uma voz conhecida no outro lado da rua.
-Marcolino, é você?
Olhou para o lado e viu Antonieta, prima de Gerusa. Atravessou a rua e se dirigiu a ela.
-Sou eu sim Antonieta. Foi bom encontrá-la aqui. Preciso muito falar com Gerusa. Ela ainda mora no mesmo lugar?
-Mora sim. A gente pensou que você tinha morrido. Por onde andou?
-É uma longa história. Vamos comigo a Gerusa que vou lhe contando.

2 comentários:

Hapi disse...

hello... hapi blogging... have a nice day! just visiting here....

Humana disse...

Olá Adriano,
continuo a ler cada episódio com o interesse de sempre. Escreves maravilhosamente e a história prende o interesse.
Aproveito para te desejar um Feliz Ano de 2010 cheio de Paz, Saúde e Amor junto de familiares e amigos.
Beijos, Ana.