domingo, 27 de setembro de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 09


Quando o ônibus começou a se aproximar de Minuano o coração de Marcolino foi ficando apertado disparando no peito. Era difícil voltar a sua cidade natal após treze anos de ausência. Muitas eram as recordações negativas que aquele retorno lhe trazia. Sua culpa o corroía a cada dia, mas depois de muitos anos de trabalho interior, finalmente se sentia pronto para pisar novamente onde um dia, jogou sua vida no ralo e cometeu seu maior desatino. Tinha o claro objetivo de, naquele caminho de volta, resgatar sua dignidade e buscar pistas que o fizessem ter um ponto de partida para encontrar sua filha. Não conseguiria mais viver em paz caso não encontrasse a menina. Imaginava que ela não a perdoasse, sequer sabia que rumo sua vida teria tomado ou mesmo se estava viva, se morava no Brasil ou no exterior, se realmente caíra nas mãos de traficantes ou de um desesperado homem querendo realizar o sonho da paternidade ao lado da esposa infértil. Na verdade nada sabia além da certeza que ele precisava tentar. No meio a estes pensamentos as lágrimas lhe molharam o rosto jorrando dos seus olhos baços e azuis. A passageira sentada ao seu lado, observando o estado do homem, perguntou o que o acometia, se ela podia ajudar, mas ele apenas sussurrou poucas palavras:

-É só um homem velho, recomeçando a sua vida.

Quando final mente desceu do ônibus, observou atentamente as profundas mudanças que aconteceram no lugar. Agora já não era mais a agência de passagens na praça do coreto, a parada final do veículo. Uma pequena estação rodoviária fora construída no meio da Av. Érico Veríssimo, principal entrada da cidade que agora ganhara asfalto e um belo canteiro central com oitis amarelos a cada vinte metros. Imediatamente fora cercado por diversos motoristas de carros de praça oferecendo transporte. Ele no entanto, preferiu seguir a pé. Dois quarteirões a frente, dobrou a direita entrando na rua Getúlio Vargas com destino ao Bairro dos Italianos. As casas estavam mudadas, a maioria foram postas abaixo cedendo lugar a lojas de diversos segmentos, bancos e repartições. A rua havia se transformado numa espécie de centro comercial da cidade. Onde antes funcionava o Bar do Guri, lugar aonde tomara muitos e muitos goles da famosa Caninha Catarinense, hoje se via uma casa lotérica bem equipada, na esquina com Rua do Vaneirão, a antiga casa da família Menotti, era hoje um grande banco. O progresso finalmente havia chegado a Minuano. Começou a se perguntar se o eu primeiro destino ainda encontrava-se de pé. O Bar do Bigodão.

Ao fim da Getúlio se chegava à Praça Anita Garibaldi, mas conhecida como Praça do Coreto. Esta ainda conservava em sua maioria, o encanto singelo de treze anos atrás. O belo jardim, impecavelmente cuidado com seu relógio de flores, era a principal atração do lugar. Na esquina da secular farmácia Menotti, esta parecia não ter mudado nada nos últimos cem anos, se tinha acesso a rua do Meio onde finalmente Marcolino avistou a tão conhecida placa: Bar do Bigodão.

-Bigodão, bota um guaraná aí que agora não tomo mais a branquinha tchê!

Juca olhava abismado para o amigo de longas datas com seu farto bigode agora branco amarelado pelo fumo.

-És tu Marquinho? Ou será que bebi demais hoje?

-Não amigo, não bebeste não. Sou eu em carne e osso. Quem é vivo sempre aparece.

-Barbaridade guri. Onde andaste? Desde que sumiu a gente chegou a pensar que o amigo tinha passado destas para melhor.

-Ainda não chegou o meu dia Juca. Tenho muito a fazer nesta vida antes de desencarnar. É uma longa estória. Vamos sentar para eu lhe contar tudo.

Juca pedia a Moreno, seu principal funcionário, que tomasse conta de tudo, e entrou para os fundos do estabelecimento, onde mantinha uma espécie de escritório e depósito num pequeno quarto.

Marcolino contou tudo nos mínimos detalhes. Como vendeu Carolina, como gastou até o último centavo daquele maldito dinheiro, sua visão com a filha, a ida para Porto Alegre, tudo que sofreu e passou até ser acolhido pelo pessoal do centro. Contou que deixara de beber, que estudara e como se tornara o principal palestrante da casa. Como descobriu sua mediunidade e o quanto já tinha ajudado outros errantes que, assim como ele outrora, andavam perdidos na vida. Explicou para o amigo que estava empenhado em encontrar a filha e que para isso gastaria todos os dias da sua vida, era o seu plano de redenção.

-Então acho que tenho uma boa notícia para o amigo aqui.

-Que notícia Bigode?

-O sergipano Antonio, o que comprou a guria e na verdade se chama Joca, ou melhor José Carlos, e é baiano, está morando a doze quilômetros daqui, no povoado de Passaredo.

Marcolino entendeu que Deus havia lhe dado mais uma chance.

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