segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 04

Do alto dos seus trinta e oito anos, dezessete deles dedicados à polícia, o investigador Peçanha nunca vira esquema de crime organizado tão ousado e bem armado. Já completara dez anos que trabalhava na investigação do tráfico internacional de crianças e, há dois, assumira a chefia da operação Mamadeira que investigava o hediondo crime. Embora jovem, sempre se destacou na polícia. Prestara concurso aos dezenove anos, quando já cursava a faculdade de direito. Passou em terceiro lugar. Foi emposssado quase dois anos depois. Após se formar, prestou concurso para delegado passando em primeiro lugar. No entanto, sua paixão sempre foi o trabalho investigativo e desde que entrou na corporação tinha como meta de vida desarticular esta famigerada quadrilha. Agora, após ouvir inúmeras vezes as mais de trinta fitas gravadas com conversas telefônicas, autorizadas pela justiça, sentia que estava mais perto do que nunca de desvendar todo o mistério. O padre miserável, que parecia ser o cabeça de todo esquema, já havia sido expulso da igreja. Não pelos crimes que vinha cometendo, mas pelo fato de manter na cidade da sua paróquia, aos olhos de todos, mulher e filhos. Havia também uma desconfiança dos seus superiores, ele sabia disso, pelo fato do padre ter diversas propriedades como fazendas, apartamentos, casas, andar com carros de luxo e ostentar uma vida de riquezas. A igreja no entanto, preferiu não investigar a fundo a questão e por uma cortina encobrindo os podres do Sr. Ducas. Ele não, estava cada vez mais perto do padre e aguardava a resposta sobre o mandado de prisão que solicitara. Pensara em viajar para Serra Grande, mas aguardava o apoio da justiça. Queria voltar de lá com o padre algemado e para isso não podia se precipitar. Tudo indicava que o vigário não desconfiava estar sendo investigado, a operação transcorria há dois anos no mais absoluto sigilo. Agora, tão perto que estava de por a mão no meliante, não podia correr o risco de espantar a presa e deixá-la fugir.
O delegado, mesmo com a pouca idade, sentia necessidade de parar um pouco. Tirar uma licença, dedicar-se mais a vida pessoal. Lembrou que há tempos não saía com uma mulher, e há muito vinha pensando em casar, ter filhos, enfim, constituir uma família. Por isso, estava muito ansioso para encerrar a operação com sucesso e dar um pouco de si a si mesmo. Sua cabeça era um turbilhão e os pensamentos o tomavam.
-Maia, alguma notícia do mandado?-Falou com o assistente ao interfone.
-Não senhor. Até agora não obtivemos resposta.
-Não estou me sentindo bem. Vou para casa. Preciso me recolher um pouco. Se tiver alguma notícia, seja que hora for, você me encontra no bip, no celular ou no fixo, ok?
-Certo chefe.
Peçanha desceu o elevador distraído. Pegou o carro e saiu pensativo. Era um longo caminho da sede da Polícia Federal na Cidade Baixa até seu apartamento no bairro da Pituba. Repassou na mente todo o plano da operação. Nada podia falhar. Colocou no toca fitas a última das gravações que ainda não havia ouvido inteira.
De repente o inesperado. Através dos códigos que ele já conhecia muito bem, o padre marcava com um casal de italianos a entrega de outra criança. Era bom demais para ser verdade. Um encontro marcado para a próxima semana, num grande shopping da cidade. O Dr. Peçanha voltou o trecho da fita várias vezes. Não teve dúvidas. Era a marcação de um encontro para a entrega de uma criança. O que faltava para o flagrante.
Ouvia a fita à exaustão. O cansaço lhe tomava após três noites quase sem dormir, até que adormeceu na direção, saiu da pista e bateu de frente em um poste de iluminação.

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