domingo, 16 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 03

Eram três horas da tarde quando Carolina despertou. Não estava mais na sala e sim na minha cama. Ao olhar para o lado não me viu e se assustou. Uma estranha sensação de felicidade a tomava. Estranha, pois há muito não sabia o que era se sentir feliz. Estava leve como uma pluma e sorridente. Um sentimento diferente, o qual nunca havia experimentado, a tomava. Ela não sabia, mas aquilo se chamava amor. Neste momento eu estava tomando banho. Também fazia pouco tempo que acordara. O sol entrava pela janela da sala adentro muito forte e me despertou. Carolina dormia como um anjo. Para protegê-la, carreguei-a até o meu quarto e a pus na minha cama. Fechei bem as cortinas para evitar a entrada do sol e ela pudesse dormir melhor. Seu sono era tão pesado que ela não acordou. Olhava para a mulher ao meu lado e não acreditava no que estava vivendo. Tudo tinha sido tão maravilhoso e intenso que não imaginava aquilo como apenas uma transa a mais. Mas, no fundo, algo me dizia que estava entrando num problema muito sério. Aquela mulher era de um outro mundo, extremamente diferente do meu. Filha de milionários e com todos os problemas que carregava consigo, decididamente não era mulher para mim. No entanto a vontade de levar tudo adiante parecia mais forte que a minha consciência e razão. Após observá-la longamente e cada vez mais admirar sua beleza e seu sono tranqüilo, fui tomar meu banho envolto nesses pensamentos e pouco depois ela acordou. Chamou meu nome, mas não a ouvi. A ducha estava forte e fazia muita zoada. Embora se visse sozinha não sentira medo. Não saberia explicar, mas se sentia segura ali. Estava feliz, muito feliz. Quando voltei para o quarto enrolado na toalha ela me chamou e disse:
-Vem fazer amor comigo novamente. Me faz sentir tudo de novo.
Mais uma vez nos amamos, desta feita com mais intensidade e carinho. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo, tamanha era nossa intimidade. Depois do amor, nos abraçamos na cama e após um longo silêncio perguntei:
-Carol, você já pensou que a gente não tem chances, que não podemos ficar juntos?
-Posso ficar com que eu quiser. Sou rejeitada, mas sou dona do meu nariz. Não tenho pais, não tenho ninguém. Logo posso fazer o que quiser e ficar com quem quero e, acredite, quero você. A não ser que você não me queira.
-Não é isto que estou falando, você nem me conhece, como pode saber que é realmente a mim que quer? Como pode saber que sou a pessoa certa para você.
-Intuição. Não preciso te conhecer mais do que conheço. Já vi quem você é e pronto. Sou uma pessoa determinada, sei o que quero pra mim. Brigo com o mundo se preciso for.
-Eu espero que não lhe traga mais problemas do que já tem. As coisas não vão ser como você está pensando. Por mais que não seja filha biológica, que seus pais a rejeitem, você é registrada como tal. Acha mesmo que eles vão admitir que se relacione com alguém como eu? Pobre e sem status?
-Meus pais não ligam para mim. Nunca ligaram. Não se importam com que eu ando ou com o que faço. Você verá que é assim. Não me deixe agora Caco, por favor! Preciso de você. Quero que me ajude.
-Como assim?
-Preciso encontrar meus verdadeiros pais. Não sei bem o que aconteceu para que eles me entregassem aos traficantes. Nem sei se fui realmente entregue ou se fui roubada. Talvez eles me procurem até hoje. Todos os dias vemos nos jornais pais que procuram seus filhos desaparecidos, às vezes por décadas. Tudo que Paula me disse não me dá muitas pistas. Só sei que vim do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Minuano. Mas já é um bom ponto de partida. É por lá que temos que começar.
-Temos que começar? Está ficando louca? Que acha que vou fazer? Abandonar minha vida, meu trabalho para sair com você procurando seus verdadeiros pais? Não, isto não faz sentido, nem vai dar o meu sustento.
-Não pedi para você largar a sua vida, só pedi a sua ajuda. Mas te digo uma coisa Caco: com ou sem você vou descobrir a minha origem, custe o que custar, farei qualquer coisa para isto.
-Você é realmente muito determinada. Preciso pensar em tudo isto. Parece que de ontem pra hoje minha vida virou 180 graus.
-Se a sua virou assim, imagine a minha. Até ontem eu pensava ter pais e uma irmã. Verdade que eles me tratavam de uma forma estranha. Sem carinho, com desprezo até. Sempre achei que havia algo estranho até aquela cobra me dar de presente de aniversário toda a verdade.
-O que pretende fazer agora?
-Não sei. Ainda não decidi. Preciso pensar o que fazer com muita calma. Talvez procurar a polícia. Se é verdade que eles me compraram na mão de traficantes, então cometeram um crime, não foi?
-É, acho que sim.
-Por outro lado isto já tem mais de vinte anos. Já deve ter prescrito. Dr. Mário Constantino é uma raposa velha. Advogado sem escrúpulos, sabe como ninguém se precaver de algum problema. Mas acho que posso contar com meu padrinho. Este sim foi um grande pai pra mim. Só não consigo entender porque nunca me contou a verdade. Poderia estar magoada com ele, mas sei que deve ter tido um motivo muito forte. Tenho que procurá-lo. Meus pensamentos estão muito confusos. Preciso por a cabeça no lugar. Posso ficar aqui hoje?
-Claro que sim! Eu vou adorar.
-Vou pensar em todas as possibilidades que tenho, qual o trunfo que disponho. Tem que haver uma forma. Preciso saber de tudo, caso contrário não terei paz o resto dos meus dias.
-Cuidado para você não se machucar mais ainda. Tem coisas na vida que é melhor a gente nem ficar sabendo.
-Caco, quando uma coisa martela nossa mente, por pior que seja, é melhor ficarmos a par. Nunca vou saber se é ruim caso não a conheça, entende? E, além do mais, se não tentar morrerei na dúvida. Isto aprendi com meu pai, aliás, com Dr. Mário. Nem sei se tenho pai.
-Claro que você tem pai Carolina. Eles te criaram, não esqueça disto. Te deram tudo que tem hoje?
-E o que tenho hoje? Diga-me. Eles só me aturaram por não ter outro jeito. Por serem culpados e não poderem se livrar de mim. Tudo sempre foi para Paula. O mais importante principalmente: o carinho, o amor. Eu nunca tive nada nesta vida Caco. Só ilusões, sonhos e decepções.
-Carol, tome muito cuidado com os seus sentimentos. Não deixe que o ódio a domine, ele pode lhe destruir. Lembre-se sempre que a capacidade de perdoar é muito mais nobre e gratificante que a vingança. Aliás, a melhor vingança é o perdão.
-Não quero me vingar de ninguém, quero apenas me descobrir. Não que ache isto a solução dos meus problemas, mas se estivesse no meu lugar iria me entender. Eu devo ter um pai e uma mãe Caco. Os que me geraram. O que aconteceu com eles? Será que estão vivos? Porque me deram para outros criarem? Será que me deram mesmo ou fui roubada por alguém? E esta história de tráfico de crianças? Você acha que isto deve ficar impune? Não Caco, preciso muito saber de tudo e, acredite, saberei. Quando boto uma coisa na cabeça nada me faz recuar e não vai ser dessa vez. Talvez, depois de saber tudo até entenda melhor os meus pais, tanto biológicos como de criação. A verdade é que isto me dá um novo sentido na vida, algo que não existia. Viver para mim era apenas passar e agora é o caminho para chegar a um lugar específico. Um objetivo, algo porque lutar. Preciso fazer meu caminho de volta para entender como e porque estou aqui. Entende?
-Acho que sim minha princesa, espero só que você não se machuque mais. Vou ver como poderei ajudá-la ta?
-Oh meu amor! Eu sabia que poderia contar contigo. Soube disto desde o momento que me olhou no banco daquela praça.
-Eu tenho medo de me envolver com isto, tenho que ser sincero. Não sei o que pensar.
-Mas eu sei. Sei o que me fez sentir, sei que me tornou mulher. Nunca me senti tão amada e valorizada. Você deu a minha vida um significado. Algo que ela nunca teve.
-Vá tomar um banho meu amor. Vou preparar algo pra gente tomar o café da manhã às cinco da tarde.-Falei rindo.
Enquanto eu cortava umas frutas para um suco e fazia uns sanduíches Carolina tomou banho e veio ao meu encontro. Falava como uma desesperada, não parava um minuto sequer. Eu, atordoado, tentava assimilar suas palavras, mas era difícil para mim. Tudo porque segui aquela mulher. Mas que mulher? Linda, meiga, decidida, fascinante. Sem querer estava me envolvendo num problema muito sério e era preciso tomar uma decisão logo, antes que fosse tarde demais. Eu sentia que minha vida nunca mais seria a mesma. Só não sabia o que estava por vir. Se seria melhor ou pior de tudo que já tinha vivido. O que me esperava naquele caminho de volta?
-Carolina. Espero que não me leve a mal. Preciso ficar sozinho por um tempo. Acho que você também. Fique a vontade. Se quiser ligue o som ou a televisão, ou pegue um livro na estante. Vou sair para caminhar, não demoro.
-Vai Caco. Estarei aqui esperando você. Ela me beijou. Eu estremeci, senti um arrepio frio na espinha. Saí sozinho e caminhei até a orla. Vaguei sem rumo olhando o mar. O que estava do outro lado dele?

0 Comenta ou desminta, mas fale!: