domingo, 9 de agosto de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

CAPÍTULO 02

A vida de Carolina foi um verdadeiro conto de fadas até seus três anos de idade. Como única filha, era paparicada por todos. Pai, mãe e avós. Tinha tudo do bom e do melhor vivendo rodeada de presentes e carinho. Chegava a ser demasiado o dengo com o qual era tratada por todos. Tinha tudo para ter uma vida de rainha até que, sem que ela pudesse imaginar, um fato novo viria mudar toda a sua vida e o seu destino daquele dia em diante.
Quando Mário e Sandra resolveram criar Carolina, se conformaram plenamente com aquele desvio do destino. Já que não podiam ter filhos, era esta a vontade de Deus, o jeito seria adotar uma criança. Numa circunstância um tanto estranha conheceram Carolina. A paixão foi imediata. A menina era linda e ainda um bebê de dias. Pele alva e olhos claros o que muito contava para o preconceituoso casal. Dedicaram-se como verdadeiros pais à criação da menina. Registram-na como filha legítima e em tudo no que mais poderia influir na sua formação assim agiam. Sandra até já havia esquecido que jamais poderia ser mãe. Era como se já fosse e pronto. Até fizeram um pacto com os avós maternos e paternos para que jamais fosse revelada a Carolina a sua origem, bem como a qualquer outra pessoa. Sandra não comentara sobre o seu problema com ninguém e, logo que tomaram Carolina para criar, viajaram para a Europa onde passaram quase dois anos. Ao voltar, foi fácil apresentar a menina sem levantar suspeitas. Ela cresceria acreditando ser filha biológica do casal. Tudo isto estava perfeito até março de 1972. Naquela época, Dr. Ciszen retornara de uma viagem de três meses aos Estados Unidos onde fizera um curso de aperfeiçoamento. Ele que, além de médico, era amigo íntimo da família, assim que chegou a Salvador foi a casa dos Constantinos para uma visita, para matar as saudades de Carolina por quem se afeiçoara muito e para contar as boas novas que trazia de lá para o casal.
-Dr. Ciszen! Grande prazer ter o amigo de volta! Vamos fazer um brinde de boas vindas.
-Senti muitas saudades Mário. Esta terra é maravilhosa, realmente mágica. Posso ir pra qualquer lugar do mundo, o mais civilizado que seja, mas só me sinto em casa no Brasil e, principalmente, em Salvador. Aqui tenho meus amigos, minha família, minha casa de praia, enfim, tudo meu está aqui. E Sandra? Tudo bem. E a pequena Carol, estou com saudades da minha afilhada. Deve ter crescido um bocado nesses três meses hein? Deve estar linda. Estou louco para vê-la.
Mário pediu que Aurino chama-se a patroa e descesse com Carolina.
-Mas diga Ciszen, como vão as coisas na América. Lá já é primavera, daqui a pouco chega o verão. Irei a Nova York em breve. Preciso resolver uns negócios para um cliente.
-Aquilo nunca muda. Acho o povo frio, feio e chato. Não posso negar que estão a nossa frente, mas prefiro meu Brasil, por mais esculhambado que seja.
-Que nada Ciszen, aquilo sim é que é país. Não esta porcaria de Brasil.
-Amigo não cuspa no prato que come todos os dias.
Durante aquela conversa informal desce Sandra sem Carolina.
-Ciszen! Que prazer tê-lo de volta. Carolina está dormindo, por isso não a trouxe. Ela ficaria muito feliz em vê-lo.
-Deixa ela dormir Sandra, quando acordar a verei.
-Vai ficar para jantar conosco. Vou providenciar seu prato predileto.
-Já que a senhora tanto insiste, não tenho como recusar.
-Mas conte-nos como foi a viagem e o curso. – Falou Sandra.
-Foi tudo muito bom graças ao bom Deus. Pra vocês é que trago uma notícia que, creio eu, vai agradar-lhes muito.
-Não diga! Do que se trata? – Indagou Mário curioso.
-Nos estudos que fiz por lá tomei conhecimento de uma nova técnica no tratamento de alguns casos de infertilidade feminina que creio casar muito bem com o caso de Sandra. Através de um tratamento moderno, desenvolvido por um especialista americano, mulheres como você, têm conseguido em 90% dos casos, restabelecer a possibilidade de ter filhos. O método já foi testado em larga escala com muito sucesso. É um tratamento caro e, por enquanto só pode ser realizado lá. Mas isto não é problema para vocês.
Sandra ouvia atentamente as palavras do médico. Elas lhe davam uma esperança há muito morta no seu coração. Um novo sentido na vida.
-O Sr. acha que valeria a pena submeter-me a um tratamento desses Ciszen?
-Sandra, já diz o ditado que a esperança é a última que morre. Pode não dar certo, mas jamais saberá se não tentar. Deve sim estar preparada psicologicamente para um resultado negativo. Você já tem Carolina que uma princesinha. Caso não dê certo não amargará mais a dor de não ser mãe.
-Dr., Sandra já se conformou com a nossa situação. Temos Carolina que é tudo para nós. Tenho medo de, não dando certo, ela volte a ficar revoltada e caia naquela depressão. Não quero nem imaginar uma coisa assim.
-Calma Mário. Sou eu quem tenho que decidir. Afinal o problema está comigo.
-Eu sei amor, não é disto que falo. Pense bem, lhe darei todo o apoio seja qual for a sua decisão, mas confesso que temo algo de ruim.
-Mário, eu como médico ginecologista e obstetra, sei da importância que é para uma mulher gerar um filho no ventre. Sei também, e vocês mais do que eu, da frustração que é não poder gerá-lo. E, além disso, sou daquelas pessoas que só se dão como perdida quando se esgota a última das últimas das tentativas. Acho que vale a pena Sandra tentar o tratamento.
-Eu quero Dr., quero tentar. O Sr. me dá novas esperanças, este sempre foi o meu sonho. Preciso tentar novamente.
-Posso indicar vocês ao Dr. Clark Gate. Ele é uma das maiores sumidades do mundo no assunto. Foi ele quem desenvolveu este novo método revolucionário. Mário disse-me que está indo a Nova York em breve. Poderiam aproveitar a viagem e fazer uma consulta. Não custa nada. Só ele vai poder dizer se o tratamento se aplica ou não ao seu caso. Pelo que sei, já que fui eu quem acompanhou o seu problema desde o início, e, pelo que estudei por lá, acho que tem grandes chances de dar certo.
Sandra ficou entusiasmadíssima. Nada a impediria de fazer a consulta. Se Dr. Ciszen tinha esperança é porque ela tinha chances. Quem mais do que ele poderia saber disso? Mesmo que Mário não concordasse, ela iria se consultar. Porém, Mário jamais deixou de fazer as vontades de Sandra e não seria desta vez. Acabou por concordar em levá-la na viagem para que pudesse ir ao médico.
A intenção de Ciszen foi a melhor possível. Gostava muito de Sandra e de toda a família. Ela e a mãe eram, além de amigas, suas pacientes há anos. Mas, gostava muito mais de Carolina que além de sua afilhada era como a filha que sempre desejou e não teve. Não teve também coragem de adotar uma e a sua consciência lhe cobrava isto. Se imaginasse o mal que estava fazendo a menina ao sugerir o tratamento a Sandra, jamais teria dito nada.

2 Comenta ou desminta, mas fale!:

HSLO disse...

Opa...passei pra te desejar um bom domingo,

abraços


Hugo

Humana disse...

Olá Adriano, continuo seguindo atentamente.
Sabes que fico com tanta ansiedade que devia era ser um livro! Lol
Assim lia tudo, logo.
Beijinhosssssssss