domingo, 31 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

Introdução

XI

Salvador, 28 de maio de 1969

Os dias que se seguiram à consulta com Dr. Ciszem foram conturbados para Mário e Sandra. Ela desesperada e inconformada, ele exausto, com os nervos à flor da pele, cansado de tentar convence-la que adotar uma criança poderia resolver o problema conforme a orientação do próprio Ciszem. Resolveu pedir ajuda a sogra.
Foi uma decepção muito grande para Sandra que passara a vida inteira sonhando em ser mãe. Na verdade fora criada para isto, ser dona de casa, esposa e mãe. Mas Deus às vezes tem planos diferentes e contra isto não se pode lutar. Sua mãe, D. Carolina, a pedido de Mário, fora passar aqueles dias com ela em sua casa. Consolava Sandra como podia e conversava muito com ela.
-Sandra, acho que Mário tem razão. Não existe outra solução que não seja a adoção de uma criança.
-Mas mãe, um filho que não é nosso, que não sabemos de onde veio, quem são os seus pais, que sangue carrega nas veias. Isto não me parece algo para gente da nossa classe social. A maioria dessas crianças adotadas é de família miserável, às vezes até filhas de marginais. Que tipo de gente podemos botar em nossa casa?
-Filha, ninguém nasce ruim. O mundo e a criação é que se encarregam de formar o caráter de uma pessoa. Se você der amor a um filho adotivo como se fosse seu, educá-lo conforme seus valores, dar-lhe todo o seu amor, sua amizade, seu carinho, é isto que ele vai assimilar na vida. É de um boa índole então que ele vai se formar. E, além do mais, a criança nem precisa saber que não é filha legítima.
-A senhora acha mesmo isto mainha?
-Claro que sim. Veja a minha prima Analu, ela não é filha legítima de tia Olga. Embora saiba disto, é uma pessoa exemplar, uma excelente filha, uma mãe maravilhosa. Foi uma criança largada, sabe Deus por quem, na frente da casa de titia. Quando tia Olga a encontrou, ficou com ela pra criar e hoje são como mãe e filhas sem nenhuma diferença. Mas também foi criada com muito amor e com toda condição. Por que não pode ser assim com você querida?
-Ah mãe, não sei não. Tenho muito medo. Só de pensar que nunca vou poder ter o meu verdadeiro filho...
Neste momento Mário chega em casa todo feliz, cumprimenta a sogra e a esposa e fala:
-Tenho uma notícia maravilhosa para vocês!
-O que é amor? Fala logo.
-Calma Sandra. D. Carolina preciso da sua ajuda para convencer esta teimosa. Louca pra ser mãe e não quer adotar uma criança. Mas acho que ela pode mudar de idéia com o que tenho para contar.
-Fala Mário, estou ficando curiosa. Pára com esse suspense bem.
-Já ouviram falar de crianças brasileiras que são mandadas para a Europa?
-Esta ficando maluco meu genro? Está falando de contrabando de crianças?
-Calma minha sogra, não é nada disto. Falo justamente do contrário, de evitarmos que isto aconteça mais uma vez impunemente. Tem uma menina gaúcha, linda, olhos azuis, branquinha como algodão, linda mesmo, não tem sequer um mês de nascida. Pois esta menina está prestes a ser mandada para a Itália. Se Sandra quiser podemos evitar isto e ficar com ela.
-Você já viu a menina amor?
-Vi sim, fui lá hoje. É linda como uma rosa. – Mentiu Mário. – Tenho um colega que já defendeu umas causas para um dos intermediários do tráfico de crianças. Foi por intermédio dele que tomei conhecimento da menina. Ela pode ser nossa já, basta ligar para que eles mandem traze-la aqui. Depois, ninguém precisa ficar sabendo de nada. Não precisamos contar a ela que não é nossa filha. Temos pessoas de olhos claros na família. Tudo se encaixa perfeitamente. Sandra, só depende de você.
-Quanto vai pagar por ela Mário?
-Isto não vem ao caso. Nada que faça diferença.
-O que a senhora acha mainha?
-Por que não vai ver a menina?
-A gente podia ir ver ela meu amor?
-Não seria bom vocês irem lá. Podemos pedir que eles a mandem aqui. No máximo amanhã ou depois. Tenho certeza que vai adorá-la meu amor. Ela é uma princesa.
-Tudo bem, mande trazer a menina aqui então, mas não prometo nada.

Quando Luzia, empregada da casa desde os primeiros dias de casamento, hoje uma espécie de governanta do casal, vinha com a bandeja trazendo suco e biscoitos para Sandra e a mãe, não pode deixar de ouvir Mário chegar com a notícia. Ficou no corredor que dava acesso à sala íntima onde conversavam e ouviu tudo. Sentiu um arrepio na espinha e um pressentimento nada agradável.

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