domingo, 24 de maio de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


X

Minuano, 27 de maio de 1969

Marcolino entrou no Bigodão com sorriso de orelha a orelha e ar de superior.
-Juca, passa a régua na minha conta. Quero pagar o que devo.
-O que aconteceu tchê! Tirou na loteria?
-Dívida é dívida, tem que ser paga guri. Bota logo uma branquinha para comemorar o pagamento Bigode.
-Onde arranjou dinheiro Marquinho? Andou fazendo alguma besteira?
-Marcolino filho da puta! Cadê Carolina seu bagual(1) duma figa? – Era Gerusa aos berros entrando desesperada no bar. – Foi assim que deixou de beber seu canalha? O que foi que você fez com a menina? Cadê minha Carol? – Ela não conseguia nem falar direito tamanho o desespero.
-Êpa! Sua Carol? Se enxerga mulher, sua filha se chama Salomé. Carolina é minha filha e não sua entendeu? Ela está bem, pode ficar tranqüila.
-Pelo amor de Deus Marquinho, onde está Carolina? O que você fez com ela?
-Eu dei para um grande amigo meu criar. Ele é rico, vai dar um futuro melhor pra menina. Escola, casa bonita, viagens, enfim, tudo que a gente não pode dar.
-Quem é esse amigo Marcolino? Nunca soube que tinhas amigo rico, tchê! De onde você conhece ele?
-Ele não é daqui não, é de Sergipe. Terra de gente boa, gente de bons sentimentos.
-O que não é o seu caso desgraçado. Filho da puta! Como pode existir um verme como você? Tu é um monstro! Não liga nem para quem ajudou a botar no mundo, não se importa com o destino da menina. Só pensa em você mesmo. Eu não estou engolindo esta história miserável!
-Claro que me importo com o destino de Carolina. Justamente por me importar que tomei esta atitude. Com o Antonio ela vai ter um futuro digno de uma rainha. Vai ter carinho, amor, educação e tudo que você mesmo diz que uma criança precisa. Será que você não entende Géu, é melhor para ela.
Gerusa olhava para Marcolino com olhos de serpente. A raiva lhe tomava por dentro e antes que fizesse uma bobagem saiu em prantos a correr desesperada pelas ruas sem saber o que fazer. Isto não ficaria assim. Ia por aquele verme na cadeia. Não podia fazer mais nada. Entregaria o mau caráter à polícia. Chegando ao posto policial, o delegado e o único guarda do município não se encontravam. O posto estava vazio. Resolveu esperar. Desde aquele dia, nunca mais dirigiu uma palavra a ele.

-Marcolino, esta estória está muito mal contada. – Era Juca que observara a discussão dos dois. – Você vendeu a menina para o sergipano de ontem né Marquinho?
-Relaxa Juca. Antonio é homem decente, rico. Logo se vê que é gente fina. Não pode ter filhos o coitado. Sua esposa sonha com isso. Eles vão dar um futuro melhor para a minha filinha.
-Para com isso Marquinho. Quando foi que te importaste com a menina? Além do mais sei que o sergipano te soltou uma nota preta. Onde tu arranjou dinheiro para pagar a conta?
-Eu não vendi a menina não Bigode. Ele só me deu uma gratificaçãozinha, entende? Nada de muito valor. Então estou aproveitando para honrar meu compromisso. Mas se não queres a grana não precisa que eu pague não é mesmo Juca?
-Não é isto que tô falando tchê. Sabes que não é. Já ouviu falar de contrabando de crianças amigo? Contrabandistas que roubam ou compram crianças no Brasil e mandam para o exterior? E se esse Antonio, se é que ele se chama assim, for um deles?
-Onde já se viu Juca! Um moço tão fino como aquele contrabandista? Tu ta é maluco que nem a desmiolada da Gerusa, isso sim.
-Quem vê cara não vê coração rapaz. Tu não sabe nada da vida mesmo tchê.
-Vamos largar de conversa fiada ô Bigode. Bota mais uma branquinha aí. Preciso de inspiração e abrir o apetite. Tenho que me alimentar bem. Mais tarde vou na Donana. Chegou uma chinoca(2) da fronteira que é uma beleza. Macanuda(3) a guria tchê, precisas ver. Deve ter uns quinze anos. Ta todo mundo querendo abater a guria.
-É já me disseram. Mas não to indo na Donana estes dias não. Da última vez deu o maior rolo com a patroa. Você sabe.
-Eu sou um homem viúvo, desimpedido. Só não comi a franga ontem porque ainda tava naqueles dia. Já botei preço e Donana garantiu que hoje guarda ela só pra mim. Vou dar um agradinho a mais pra velha.
-Quando foi que ser casado foi empecilho para você freqüentar Donana ou qualquer bordel da cidade Marquinho? Tu é muito cara de pau guri!
Marcolino passou o dia na boemia. Pagou bebida para os amigos, comeu tudo que podia, depois foi comemorar na Pensão da Donana. Foram exatamente oito dias de comemorações, orgias e farras, tempo suficiente até ele gastar o último centavo do dinheiro que recebeu por Carolina. Depois disso, caiu numa sarjeta de dar dó. Vivia feito mendigo pelas ruas implorando alguns trocados que invariavelmente gastava em cachaça. Comia com a caridade dos outros. Os que se diziam amigos desapareceram, mas o povo de Minuano tinha um bom coração e sempre davam a ele comida e agasalhos. Dormia pelas ruas e raramente tomava banho. O único amigo de farra que não o abandonou foi Juca. Nunca mais ele vendeu ou deu cachaça a Marcolino, mas sempre aparecia com um prato de comida ou cobertores e, era o único que sentava na calçada para conversar com ele. Marcolino passou dez anos perambulando pelas ruas da cidade nesta vida de pedinte. Ficou só pele e osso e quase morreu de cirrose até o dia que teve a visão que mudou a sua vida para sempre.


N.A. _____________________________________________________
1. Bagual: Equino selvagem, não domado.
2. Chinoca: Caboclinha, pessoa do sexo feminino de pouca idade que apresenta traços étnicos indígenas.
3. Macanudo: Bom, superior, belo, admirável, etc.

1 Comenta ou desminta, mas fale!:

Humana disse...

Continuo a seguir uma história muito bem contada sobre uma realidade que me assusta.
O que a miséria faz...É triste!
Beijos Adriano