domingo, 19 de abril de 2009

O CAMINHO DE VOLTA

Continuação. Para ler o capítulo anterior clique aqui.

INTRODUÇÃO


V


Porto Alegre-Rs, 24 de maio de 1969

O ônibus, depois de uma longa e cansativa viagem que durara dias, mais de dois mil kilômetros entre Salvador e Porto Alegre, e começara de trem, chegava a capital gaúcha numa tarde de muito frio. Entre seus passageiros estava Joca. Ele estava um misto de nervoso, amedrontado e ansioso. Nervoso e com medo pela missão que lhe levava àquele lugar. Ansioso por, no curso dos seus quase trinta anos de vida, nunca pusera os pés fora da Bahia. Tudo era novidade. O frio em pleno mês de maio, o verde da estrada tinha um tom diferente do nordestino, daquela paisagem sertaneja, seca e árida a qual estava acostumado.
Ao parar na rodoviária um forte frio na barriga o tomou de assalto. Joca temia que algo desse errado. Não gostaria de ver sua vida no lixo. Afinal tinha mulher e seis filhos para dar de comer. Era exatamente por isso que havia entrado no contrabando de crianças com o Pe. Ducas. Era ele quem encontrava os bebês, na maioria das vezes na zona rural de Serra Grande, e dava o jeito de tirá-los dos pais. Quase sempre pessoas sem nenhuma instrução, vivendo na mais absoluta miséria.
Joca na verdade não ganhava muito com os negócios do padre. Ele nem sequer imaginava o montante de dinheiro que circulava. Porém o que lhe chegava era suficiente para as necessidades da sua família. Filho de pobres lavradores passou toda a vida privado das mais básicas necessidades chegando inclusive a passar fome na infância. Foi quando entrou para sacristão na Igreja de Serra Grande que as coisas para ele começaram a melhorar. Padre Ducas se mostrou generoso. Dava-lhe roupas, mantimentos e o tratava muito bem além de ter lhe proporcionado a oportunidade de estudar. Quando aos dezesseis anos engravidou Filomena de Seu Zé, foi Ducas quem o ajudou a conseguir do hospital ao enxoval. Nos cinco filhos que se seguiram teve também o apoio geral do amigo. Tinha por ele uma gratidão infinita sendo capaz de arriscar a própria vida pelo sacerdote. Era isto que estava fazendo naquele momento. Foi assim que Ducas conquistou sua confiança e o envolveu nos seus negócios. Sabia que Joca jamais abriria a boca para incriminá-lo, sabia também que ele seria capaz até de assumir a culpa caso acontecesse um imprevisto indesejado. Era bom ter um bode expiatório na manga. Contudo sempre escondeu do rapaz os verdadeiros perigos que corriam, bem como os valores reais que movimentava com tais transações. Joca, no entanto, sentia que havia ali algo além do que o padre falava, mas achava melhor não fazer comentários ou perguntas. Ele com certeza sabia o que estava fazendo e não seria capaz de desejar-lhe o mal.
A cabeça de Joca estava a mil. O frio na barriga era maior que o frio que fazia lá fora. O tempo estava realmente ruim. O vento frio e úmido já rachava os seus lábios. Pra completar, olhara para todos os lados assim que descera do ônibus e nem sinal de Pe. Hermínio. O que fazer agora? Pegou sua bagagem e saiu à procura de um lugar para sentar enquanto esperava seu anfitrião. Foram duas horas angustiantes. Mais pareceram dois anos. Tremia de frio até que ouviu a inconfundível voz rouca de Hermínio:
-José Carlos meu amigo! Seja bem vindo ao sul. Tome este agasalho que a coisa aqui é preta. Se não se precaver direitinho vira picolé.
Padre Hermínio recebeu Joca como se realmente fossem amigos íntimos. Em parte pela simpatia e educação que lhe eram peculiares, e, na verdade, por ter um grande interesse naquela visita. Joca era o instrumento para o maior negócio da sua vida.
Os dois saíram andando da rodoviária até um hotelzinho barato na Av. Júlio de Castilhos perto da estação. Lá, Hermínio acomodou Joca no quarto que previamente reservara.
-E então Joca o que achas?
-Bom senhor. Muito bom.
-Não é nada de muito luxo mais é tudo limpinho e o café da manhã é uma delícia. Agora quero que descanse. Esta viagem é de matar. Tome um banho, relaxe bem. À noite voltarei para jantarmos juntos e acertarmos todos os detalhes. Vou telefonar para Ducas avisando da sua chegada e quando voltar estará tudo combinado com ele. Aí te passo as orientações.
Pe. Hermínio foi para o hotel onde estava hospedado, perto dali, mas de outro nível. Um hotel quatro estrelas defronte à rodoviária. No quarto, ligou o aquecedor, serviu-se de um 12 anos, acendeu um charuto cubano e pensou: - agora é só o miserável do Joca fazer tudo certinho e esperar os lucros. Telefonou para Ducas e depois dormiu um sono profundo, o sono dos Deuses. Acordou com o telefone às 19hs conforme pedira na recepção.

0 Comenta ou desminta, mas fale!: